à minha esquerda. uma estante com dezenas de livros que ainda não li – sempre quis acreditar que a minha velhice seria feita de paz. silêncio. memória. afetos e leitura pacata. construída lentamente com o meu pé-de-meia de livros – livro a livro desocuparia a estante da memória. da paixão. do conhecimento. da gratidão. e o espasmo final consagrado a um dever consumado – finalmente o corpo mirrado de todas as sensações – no quarto ao lado. no vazio da mesinha cabeceira já pouco resta de mim. um perfume dior despojado de fragrâncias. restos de um lápis de grafite com os dentes cravados na sua extremidade. uns óculos com dioptrias ultrapassadas. um creme de corpo sephora de pouco mais de quatro euros. uma aliança preservada por um amor que dói. sem saber exatamente onde dói. e um envelope lacrado e escrito com os seguintes dizeres no exterior: para o dia seguinte – ao centro da mesinha. em diâmetro exato. uma lâmpada protegida por um abajur sombrio em completa harmonia com os deuses da escrita. faz a guarda de honra ao livro que encerrará em si o meu último sopro de vida – ali estou eu preso numa página interrompida. agarrado a um eufemismo idiota que nos tenta impingir a ideia de que os livros são eternos e perduram para além da morte – o livro só é eterno enquanto o leitor vive o – na página interrompida. eu morri – para a eternidade apenas um símbolo de que um dia existiu vida no interior daquelas resmas impressas: um marcador de livro a dizer “keep calm” – claro que estou calmo. estou morto e todos os mortos são calmos. por mais agitação que tenha tido a sua vida – o único que poderá estar nervoso. se estiver vivo. é o autor do livro que. sem o seu leitor. acabará também por desaparecer – nem todos os autores são imortais. mas todos os leitores o são – só o livro insiste em negar uma morte decretada oficialmente pelo silêncio no seu interior – os dedos não mais voltaram a acariciar o papel – hoje morremos todos. eu. o autor. e o leitor comum – nunca vivi sem livros. a minha primeira recordação com os livros chega-me dos almanaques da disney – aos dez anos apaixonei-me pelos cinco de enid mary blyton – os cinco na torre do farol foi a minha primeira leitura e aquela que me amarrou aos livros para sempre – aos doze anos fiz-me homem com os clássicos da literatura portuguesa: júlio dinis. eça de queiroz. e camilo castelo branco. tornaram-se os meus favoritos – mas foram com os romances do júlio dinis que descubri a bondade. a dignidade. a honra. a ética. a esperança. e o verdadeiro amor – morgadinha dos canaviais. uma família inglesa. e as pupilas do senhor reitor marcaram-me para a vida – júlio dinis moldou o meu crescimento e tornou-se no meu guia literário – o romantismo “ é a arte do sonho e fantasia” – eu cresci num sonho e perdi-me em fantasias – aos dezasseis acrescentei aos livros os amigos que ainda hoje guardo no coração – o bando da praça do comércio – éramos muitos. todos bonitos. todos diferentes. e de todos tenho saudades – em especial do joca. luís vieira. e mais recentemente o sérvio. acredito que partiram para um outro mundo mais perfeito e estão neste momento os três felizes – sempre amei os meus amigos. mesmo quando a vida nos tramou com o crescimento – crescemos todos tanto. e tanto ficou por dizer – nunca deveríamos ter crescido – éramos muito mais divertidos a jogar à bola e à carica – infelizmente não é assim a vida e para morrer em paz é obrigatório crescer – todos crescemos – os meus amigos cresceram mais do que as montanhas. ficaram enormes. gigantes de bondade. alguns com cabelos brancos. mais curvados. com o céu pelas costas. a fazer peso. com as nuvens por baixo dos joelhos. e os braços abertos como se pudessem voar a qualquer momento – sempre soube que os meus amigos um dia iriam voar. os anjos voam. os duendes também voam. e as gaivotas também – os meus amigos são seres sensíveis. delicados. frágeis como o cristal de murano. rodeados de água e marés. com histórias que fazem encantar a memória – tenho saudades dos meus amigos – tudo o que me resta são recordações e é nestas que resisto à inglória velhice – ninguém quer magoar ou perder o que ama – sei que. na vida. o que gostamos de verdade traz medo e insegurança – tenho medo de os perder apenas na saudade – os amigos são deuses que vivem na terra – honro este medo bom – mesmo com medo hoje apetece-me falar de dois amigos muito especiais – confesso-vos que estou aterrorizado. sinto-me gelado por dentro. uma parte de mim desmorona-se para as palavras. e a outra a serrar o que me resta das mãos – tenho medo – tenho medo que um dia não gostem de ver os seus nomes ligados a uma escrita meia tonta – bem sei que a minha escrita é também uma escrita de afetos. amiga. com paixão. com saudade. com um abraço que quase sufoca de tanto sentimento – mas confesso que estou com receio – que me perdoem se um dia não gostarem desta minha partilha. estarei pronto para receber um puxão de orelhas. estarei pronto para pagar a minha ousadia carinhosa – mas não resisto. tenho que vos falar deles. tenho que falar com eles. tenho que os trazer para o meu pé. olhá-los novamente. de mais perto. segredar-lhe como tudo foi especial. como é bom saber que existiram. existiram na esperança. na camaradagem. na fraternidade. na viagem e no silêncio do mundo – sempre os guardei dentro de mim – hoje quero-os comigo neste bocadinho de palavras que são só minhas. quero que me acompanhem como se fosse mais uma das nossas deambulações juvenis. quero-os outra vez inconscientes. malandros. gaiatos. quero-os bonitos como nunca – mas também quero trazê-los para o meu universo crescido e apresentá-los aos meus leitores como os melhores dos melhores. mostrá-los ao “desconhecido espaço global de redes de computadores”. com honra. com estima. com porfia. com admiração. e com gratidão – vou trazer até vós dois amigos muito especiais. amigos do peito que marcaram a minha vida de forma muito particular: *o tiago e o zé antunes – sem eles. envelhecer seria muito mais difícil – a terra existe para que os deuses possam descansar – zé e tiago. espero que um dia encontrem aqui o descanso merecido
*[um dia escreverei sobre um terceiro amigo também muito especial – encerrarei então em definitivo o meu trio de companheiros de uma vida]
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