estes dois
pequenos excertos literários do escritor húngaro sándor márai - as velas ardem
até ao fim. são uma oferenda aos meus amigos tiago e josé antunes. um género de final revisitado para as
duas crónicas anteriores – o livro. um
romance intenso. dedicado a uma
amizade entre dois homens. amigos de
infância inseparáveis. que se
encontram novamente passados quarenta anos – uma reflexão penetrante e pessoal
sobre a amizade que sándor márai disseca com amor. afabilidade. nostalgia. tristeza e perdão – o autor. na derradeira fase do envelhecimento. compreendeu que só relativizando os
sentimentos poderia encontrar o perdão em si – sándor márai ensina-nos a encarar
a verdade mesmo quando ela se apresenta difícil. complicada e desagradável.
sabendo que ainda assim será sempre menos arrasadora do que a mentira – recuperar
o passado para o questionar é uma missão penosa. sobretudo quando se trata de reencontrar
um amigo de infância – neste romance o autor trouxe a verdade às palavras. a tolerância aos diálogos. o amor à
compreensão e o perdão ao coração
“O que é que se pode perguntar das pessoas com
palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a
realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras
correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o
fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro
aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir
experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter.
Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com
inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É
a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem
mais protegidos...”
nunca
é tarde para trazer os amigos para emergência dos dias que ainda restam viver –
nunca é tarde para resgatar uma amizade da mágoa e do esquecimento – a solidão. o silêncio e o envelhecimento dissipam
de vez as multidões. o barulho e a escassez
de tempo – com a aproximação do fim do corpo aprendemos o valor das coisas
simples. o valor da ausência. da saudade. do perdão e da aceitação do desacerto – somos todos um pouco
responsáveis pelo pecado e pelo erro dos nossos desencontros
“ … Uma
pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas
pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das
coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice.
Quando já se sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado,
não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o
seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as
pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim por partes. A
seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e
decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de
recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de
prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se
envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os
olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com a exatidão:
a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não
pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o
invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo
calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a
velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objetivo
da vida indefinido, gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou
saber alguma coisa, e sabes que um dia chegará esse momento e então, de
repente, já não será tão fatalmente importante saber e responder à verdade,
como pensaste durante as décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo,
pouco a pouco, e depois morre. Compreende os fenómenos e a razão das ações
humanas. A linguagem simbólica do inconsciente… porque as pessoas comunicam os
seus pensamentos por símbolos, já reparaste?...”
o
carácter de um homem é inalterável.
não envelhece. não se perde –
tenho a certeza de que os meus amigos continuam jovens no seu carácter –
um dia chegará o meu momento para resgatar todos os meus amigos silenciosos –
escreveremos então [todos] um novo tratado de amizade – renovado. reconciliado
e definitivo
Gostei...
ResponderEliminarObrigado pela partilha... continua
Grande Abraço