.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

31/12/2014

bom dia 2015




max ferguson
 



na maior parte das vezes os homens íntegros desvendam-se apenas num gesto. numa palavra. num momento que de tão especial. marca todos os anos da nossa existência por mais longínquos que se tornem - é para esses que vai o meu último pensamento deste ano de 2014 - abraço a todos – feliz 2015 – obrigado

 



29/12/2014

há-de vir um natal




foto: sampaio rego



 
 
Ladainha dos Póstumos Natais
 


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
 


David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de



30/11/2014

em contramão




                                                                     alex andreyev


bem que gostaria de ter certezas de umas quantas incertezas – não sou homem de certezas. nunca as tive e creio que nunca as terei – não sou talhado para certezas. ponto final – quando estou perto de uma certeza fico nervoso. fico com pele de galinha. os olhos turvam. os músculos começam a dar de si deixando cair a cabeça para o lado da fuga. as mãos  armam-se de suor e num ápice. como se o cérebro se enchesse de pensamentos inflamáveis dá-se a rotura. a combustão é inevitável – tudo agora é fogueira. em dança de guerra. um menino pula à sua volta – tudo arde menos a incerteza – ali fico a olhar para tudo que jamais será certo – nem sei se triste ou perdido. sei que os olhos aflitos procuram o escuro – procuro conforto. imagino eu sem certeza nenhuma – escondo-me atrás de feições que fingem rir enquanto os lábio falam baixinho: um dia isto vai ter que terminar – não basta puxar o cabelo para o lado. não basta tirar fotos ao correr do sol enquanto os pássaros voam vida certa num vento tão incerto como eu – sou assim. não podia ser diferente. nasci avesso às certezas – não tenho certeza de nada. às vezes é dia e dentro de mim há noite mais escura que breu – interrogo-me: será noite ou dia? não respondo por não ter a certeza – já não falo nas palavras que não digo por não ter a certeza de que sejam capazes de dizer o que quero dizer – estou sempre a dizer o que não quero dizer – falo demais e quem fala assim nunca tem a certeza do que diz – se tivesse a certeza de que este texto vos diria como lido mal com as certezas seria outra pessoa – não gosto de certezas porque não gosto que ninguém me diga: vês como tinha razão. tens a mania que sabes tudo – que raio de injustiça. logo eu que nada sei – sei o que vos digo por convicção. por honestidade. por vos querer dar o que melhor há em mim: a minha verdade – raios de mundo. ninguém me quer compreender – antes que possa dizer o que quer que seja da minha certeza já tenho como certo uma pedrada no ego – arrependido retiro-me para dentro de todas as incertezas – finalmente feliz. as incertezas nunca são injustas. impróprias. inconvenientes. agarram-te com um abraço. confortam-te e sem que lhes peças uma palavra dizem-te: estou aqui para alimentar todas as tuas dúvidas. até que nenhuma certeza do mundo exista – as incertezas forram-me o estômago contra o mau estar do que está sempre tudo absolutamente certo – como de um soldo se tratasse a subsistência está garantida para mais uns dias – sou feliz assim – será que sou. talvez não seja – mas que posso eu fazer. nada – tenho a certeza absoluta que nada posso fazer contra as minhas incertezas certas



28/10/2014

a meio da noite





 

fábio magalhães




momentos em que um homem tem que saber parar - às vezes parar de ver pessoas. de fazer corridas. de procurar lutas contra os moinhos do d. quixote. de escrever o que não serve para nada. de fazer projetos ilustrados de boa fé. de ver os filhos chegar à minha idade e por último temos que saber agarrar a honra e fazer parar a vida - esta é um rosário que nos vai passando pela mão até que um dia não temos mais a quem orar - envelhecemos por dentro e a escuridão é o único silêncio que já não provoca dor - a mão pára - não tarda nada e tudo volta ao normal

 



16/10/2014

décimo primeiro mandamento






robin eley
 
 



sou feito de tempo
espero
espero feito relógio
às vezes
espero um abraço
ou um beijo
outras vezes
faço da espera
um poema
que desespera
pela espera
num cigarro que não fumo
espero
espero atento
ao balão de brandy
aquecido ao calor da espera
espero pelos pés
cada vez mais parados
pela veia que corre
para um mar
que espera
como adão esperou
pelo pecado
da eva
bendita maçã
esperou a fecundidade da terra
e na luxúria
de uma letra enrolada
numa espera
infernal
espero
espero que os beijos
tombem
a tempo de matar
a espera



24/09/2014

ponto vernal




03 - holanda - keukenhof





atapetam-se jardins
de flores
colhem-se novas cores

 
- é o ponto vernal

 
adossado
chalaceia o caminheiro
do inverno


- o solstício ainda vem longe


solfejam alegria
andorinhas
em pomares de fartura


abrem-se:
janelas de esperança

 

 
foto - sampaio rego

 



22/09/2014

estado totémico




eliana bonini
 



nunca sei de onde me chega esta coragem de vos dizer como sou – louquice – retalho-me pelo que sinto – se soubesse não era louco. não me retalhava. não me temia – louco pode ser um qualquer. ou não – por uma coisa pessoal. ou não – com coisa do demónio. ou não – ou simplesmente um raio de uma porta emperrada. ou não – ou então. talvez o mais certo. é esta loucura acontecer numa luta contra o destino – uma questão de sobrevivência. coisa da alma – mas o cérebro sabe que a morte é inevitável – é necessário ser louco quanto antes – a morte só é silêncio para quem parte – quando partimos levamos tudo – este tudo para mim que gosto de me dar são as palavras que ficam por dizer – a morte só não cala a escrita




14/09/2014

procuro uma palavra que queira falar...





vânia lopez



olhe para seu relógio
os campos mudaram de cor
uma peça de mobília
preenche o quebrar da sala
o tempo que nunca esteve aqui
parece estar voltando...
 

chove tudo agora,
chove o dia que some na colina
chove noite no céu azul.
chove o voo na face das asas,
que só as gaivotas compreendem.
 
 
em tua memória, quando estiver chegando
traga uma palavra doce,
com uma pitada de sal
para engordarmos juntos.
e perder tudo que não significa nada.
afogo o céu de esperas
como se sua alma inteira se libertasse
na ponta do pincel.
 
 
(para - sampaio rego)




12/09/2014

ressacado




fábio magalhães




quase louco


estou muitas vezes assim – o hoje amarrado a um dente do siso que sempre conheci a abanar – [agora] raivoso coloquei-lhe uma guita em volta. a outra extremidade amarrada a uma porta que aparta o presente do futuro – um dia. um dia atiro a porta contra o destino

ou

fecho-a de vez



05/09/2014

não corre peta de vento




harrison gomez



estou semimorto – não tenho papel. nem esferográfica. nem palavras. nem leitores – estou um caco – desprovido completamente de tudo. quer dizer. sinto-me um perfeito mentecapto dentro de um corpo que não serve para coisa nenhuma – nada nesta cabeça que se quer maior que um abecedário – nem uma mísera palavra. um antónimo de oco – mendigo-me – só quero uma palavra para anunciar a bem-aventurança de quem se escreve – expectativa – não corre peta de vento – estou fodido



01/09/2014

[também] somos o que fazemos com as palavras




fernando botero
 
 



vânia!
 



o celular - na minha terra telemóvel - é uma modernice do novo homem tecnológico – este homem. ligado a um futuro que não pára de surpreender. faz-me existir com o número 00 351 XXXXXXXXX – esta é a minha conexão ao satélite que liga o continente europeu com aquele que suporta o brasil. américa. onde reside a minha amiga vânia lopez – escreve a vânia:
-- um dia. não distante. prometo-te surpreender
diz que vai usar o seu celular marcando o número que me faz existir para o mundo – acredito. mas pelo sim e pelo não espero sentado para não cansar as pernas – quando concluíres a “call” cara colega. um sujeito antigo. subjugado agora ao valor das memórias vai responder a “você” assim:
- - sim. boa tarde. quem fala?
e vossemecê do outro lado responde em bicos de pés que não param de elevar o sorriso ao patamar das deusas mitológicas
- - oi meu qu(i)rido. qu(i) legal falar com você. qu(i) surpresa boa. valeu.  estou tão feliz – nem acredito que fui capaz de ligar. qu(i) legal
dois mundos ligados por fios invisíveis giram amarrados a um fuso desgovernado pela emoção – tudo agora é enviesado. o eixo do mundo. as palavras permutadas. os corpos que cruzam palavras com sentimento. os braços descaídos para bolsos com medo de não saberem o que dizer e os olhos em órbitas desconhecidas percorrem uma nova trajetória emocional sob influência de uma nova lei do universo: escrever cria afetos – ligam as palavras o que o mar teima em separar – para o mundo literário chegou uma nova descoberta. um novo enviesamento tecnológico emocional – tudo sorri dentro de uns fios imaginados que ainda ninguém conseguiu ver – neste mundo os olhos são cegos. descansam para outros encantos que as palavras juram existir de verdade –  as cabeças não param de imaginar o que vem da voz. doidas pela descoberta. ajardinadas pelo aroma. enfeitadas pela alegria. tombam para a emoção cruel da distância aprisionada a um fio-algema – seguram o céu ao imaginário de duas crianças escondidas em corpos feitos à palavra-papel. tantas vezes incompreendida. tantas vezes ignorada. tantas vezes manipulada. tantas vezes a teimar a verdade. escrevem-se numa vida censurada em solidão – comoção. agitação. perturbação. emoção e tudo oblíquo desde o dia em que o criador engendrou um homem de pó e uma mulher da sua costela. enviesámos para sempre em palavras – só ele sabe o porquê de nos colocar a rodar de lado para o universo – bem que podíamos estar verticais. olhos nos olhos. a tocar com as mãos numa perpendicular ao corpo. a dizer: estou aqui porque neste momento não poderia estar em mais lado nenhum. estou aqui porque descobrimos muito mais do que palavras escritas. descobrimos afeição – não é assim. mas a culpa também não é nossa. nós fazemos a nossa parte. gostamo-nos  – quem manda pode – palavra a palavra vamos eletrizando o espaço com um perfume alfabético guardado em boiões de uma prosa universal – bem nos queremos escrevendo ou falando   ninguém arquitetava um mundo assim.  cada vez mais global. cada vez mais informal. nunca bell imaginaria que a sua descoberta um dia habitaria tão perto das estrelas   se ele pudesse afigurar que um simples par de números estivesse ligado a um país. a uma operadora e a um nome que por sua vez. com a voz. faz com que a ida e a vinda de todas as palavras acabem por informar em grandes parangonas:
-- a lua está cada vez mais perto do mar
estamos os dois na lua – longe vai o tempo daqueles telefones enormes operados por senhoras de blusa branca. esguias. sempre a sorrir. cabelo apanhado. lábios pintados de um vermelho a trazer alquimia à voz: alô! quem fala?... tem uma chamada em linha da senhora vânia lopez aceita atender? o que era longe fez-se perto. o que era solidão fez-se saudade. o que era tempo fez-se presente. falamo-nos com abraços feitos de voz – mas o mundo não parou num telefone de manivela e agora as palavras acontecem velozmente –  inesperadamente chega uma nova vaga de afetos tecnológicos:
--qu(i) saudade tinha de ouvir você. legal mesmo
verdade. verdade mesmo digo eu que já o sentia sem celular – este legal que pode ser também bestial. brutal ou boçal se as palavras não afagassem – ainda agora vi um golfinho a saltar para dentro de uma cratera lunar e um homem verde a ficar cor-de-rosa. talvez azul. cor do mar que separa a idealidade da nossa escrita – estou certo que um dia este mar será o nosso “mare nostrum” – mergulham as palavras que escrevo no avental de quem me quer bem. procuram conforto. proteção. talvez um comentário carinhoso escrito em verso livre ou um like de polegar virado para o céu – são rosas senhora. são rosas. e no regaço a mágoa de quem não sabe escrever a raiva dos continentes cercados de água por todos os lados menos pela escrita – são rosas com espinhos ou são espinhos com rosas – a lua presa a um mar que teima em dividir o que as palavras querem unir numa nova estrada metafórica – as mãos pedem cada vez mais acerto. ritmo e harmonia na escolha das palavras que atapetam oceanos em cores de amizade – há flores que teimam em nascer nesta encruzilhada de mãos amarradas aos pés – é afinal esta coisa de escrever que me faz pintar um quadro para ti: traço acanhado. suave. harmonioso. silencioso. pacato e a decair para o tom verde-esperança. o mar sem ondas. parado entre marés onde o futuro é ilegível e se pode ver um golfinho sentado na orla crescente da nossa lua sorrindo à beleza de um pensamento cristalino – a lua que canta fado no beiral da minha janela é a mesma que dança samba na avenida do marquês de sapucaí – é a tela que tenho para te oferecer minha amiga. uma tela feita do meu mundo. do meu sentir. do meu eu por inteiro onde a água engole as palavras de um mar ainda insuperável – sobrevive esta pequena luz de palavras em confronto com uma triste nostalgia de quem espera pelo tocar das vozes – só as sombras sabem o que existe do outro lado escuro da lua – um dia derrubarei com palavras que ainda não escrevi todas as sombras do mundo e a água será para sempre engolida pela terra – escreveremos então um novo poema a duas mãos – [também] somos o que fazemos com as palavras
 
 
 
-- //-- 
 
 
 
 
 
correspondência com a vânia em junho de 2011 que deu origem a uma nova crónica - [também] somos o que fazemos com as palavras
 
 
o meu celular. aqui na minha terra telemóvel. coisa da era dos homens do futuro e com o número 00 351 XXXXXXXXX - esta é a minha ligação ao satélite que liga o continente europeu com aquele que suporta o brasil - deste lado um homem vai responder - - sim. quem fala? e do outro lado do celular a voz. a voz caçadora de emoções. vânia. ui meu qu(i)rido. qu(i) bom falar com você - e o mundo sempre a girar. e o eixo que suporta os nossos pés a dizer: a lua está cada vez mais perto do mar. ainda agora vi um golfinho a saltar para dentro de uma cratera e um homem verde a ficar cor-de-rosa. talvez vermelho. talvez azul. cor do mar que separa a terra que mergulha nas palavras que escrevo - são rosas senhora. são rosas. e no regaço a dor de nunca escrever a ira do coração. são rosas com espinhos. são espinhos com rosas - e a lua à distancia de uma mão e o a.e.i.o.u. a pedir outras letras um v. um n e as flores a nascer nesta encruzilhada de mãos amarradas aos pés - é afinal esta coisa de escrever que me faz pintar um quadro para ti. traço pequeno. irrequieto. em tons verdes e o mar sem ondas. parado entre marés e o golfinho sentado ao tempo de um pensamento - é tela senhora. é uma tela senhora dos mundos pincelados de brilho. contrastes de luz que só as sombras compreendem
 
 
 
06 – 11 -2011 - [revisto em 18.06.2014]
 
 



30/08/2014

agustina bessa-luís




agustina bessa-luís



 
"o país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo"



27/08/2014

encerebração [meu]




michael borremans
 



as interrogações não são celibatárias.

bígamas.

colhem no seu leito a reflexão e o desespero.



25/08/2014

quadras ao despiciendo




rafael pintos





porque me falais senhor
com esse vocábulo hostil  
olvidaste do sublime honor
nesse frugal cérebro erétil


por quem me tomais senhor
nesse enxergar de belo terror
cuidai desse olhar querubim
pois não fareis de mim pasquim 


estou farto meu rico senhor
dessa fidalguia de penhor
e nesse ouvido abusador
não tereis em mim trovador


creia meu estimado senhor
não sois amo da minha afeição
prefiro camelo em boca estupor
do que parceiro [cama]-leão


por isso vos digo caro senhor
enquanto enobrecer a amizade
não farás da noite cobertor
nem da omissão estéril verdade


desta me vou notável senhor
sem saudades e sem favor
o que era serviço merquei
o que era tempo desperdicei

 

 

 



12/08/2014

macho man poético




tamara de lempicka
 
 
 
 

abomino
homem prostituto
não o da rua
esse lá terá as suas razões
ou nenhumas
mas o outro
o poeta sedutor
rima beijos
com  gargarejos
dor
com amor
caçador com
impostor

 




11/08/2014

28 – aceito. até que o caminho se gaste




frans hals
 



o caminho nem parecia ser longo – fui caminhando tantas vezes sem saber que caminhar era somente falar e de cada vez que falava mais caminho ficava caminhado – falava muito. de princípio sozinho. imaginava que ninguém me queria ouvir – depois descobri que é muito melhor falar para quem gosta de saber o que digo – dei então a mão e falei – falei. por cada dia de caminho o dobro gasto em palavras e de tanto falar deixei de olhar para o caminho – descobri que falar era a solução para caminhar em afeição. o tempo foi passando sem nunca dar conta do caminho feito – quando se começa a falar é muito difícil voltar ao silêncio. as palavras guardadas na privacidade do corpo emergem à boca em aflição. como se necessitassem de respirar. ou de luz. ou companhia. ou somente para dizer que existem – falo. falo porque as mãos não me obrigam a tapar a boca. os lábios enchem-se de um vermelho alegria-esperança enquanto os olhos alargam o sorriso ao corpo por inteiro – fico mais jovem. quase gaiato. adolescente. namoradeiro – falar é bom. falar é companheirismo. é cumplicidade. é amizade – falo. falo sem parar. falo com o corpo. com as mãos. com o toque. com os olhos e no intervalo das pernas o tempo a escapar com verdade. com lealdade. com saudade. com estima – no caminho que fizemos falei. sempre muito. sem parar. falei o que era só meu. sacrifiquei o silêncio. nunca imaginei sacrificar o meu silêncio íntimo. mas sacrifiquei – nunca mais te perdi a mão – sou assim. quase nada a teu lado e quase tudo por te ter ao meu lado – acredito que estas palavras não serão as últimas que te escrevo. bem que poderiam ser. sempre quis partir a sorrir. mas ainda não é o tempo-adeus – sinto. sinto que tenho ainda tantas coisas para te dizer. coisas que só tu és capaz de compreender. sei – falo-te. desta vez falo-te com estas palavras que escrevo. escrevo-as por ti. a vida só faz sentido em ti – no timbre da voz o fervor lê-se em desejo: quero-te agora e para sempre – estamos a falar há tantos anos – são tantos os relógios a marcar tempo. tantas palavras-momentos. palavras-datas. palavras-mel. algodão. algodão-doce a derreter no recanto dos teus lábios e eu sempre a falar-te mais. sempre mais. falar do destino que escolhi  – não merecias tão pouco do destino – para trás ficou tanta coisa nossa. tanta luta. tanta renúncia. tanta coragem. tanta apreensão. tanta ilusão e tu a dizer que tudo irá dar certo e eu sempre a prometer um mundo azul só para ti – nem sempre temos o mundo da cor que idealizamos – acredito que aquela nuvem além. um dia. silenciosamente. chegará ao pé do que somos hoje – somos agora tão diferentes – talvez comece então a chover e as palavras comecem a cair dos olhos e nós sem saber o que fazer para as parar – os corpos estão mais embranquecidos e já não entendem o desencanto das palavras. teimam em cair quando as árvores continuam a florir pássaros-em-primavera – não sei companheira. não sei nada de pássaros. juro-te que não sei. juro-te que não tenho culpa de não saber –  gostava de saber tudo de pássaros e primaveras. gostava muito. por mim e por ti. principalmente por ti. mas não fui competente para saber – talvez tenham medo desta minha forma de falar ou viram alguma coisa que eu nunca vi – os pássaro não tem estradas vão para onde os olhos querem estar – mas companheira. eu também estou onde quero estar. quero estar ao pé de ti. – tu és a árvore onde sossego. onde conto alvoradas. gaivotas talvez. tu sabes que amo gaivotas. gaivota é liberdade. gaivota é mar. gaivota é paz. gaivota é esperança. gaivota é verdade. gaivota é vento. gaivota é o teu nome. e tu és tudo o que preciso para continuar a teimar a vida – vivo para te falar. vivo para nunca te largar as mãos – falo-te. falo-te sem parar. muito. não sei dizer amo-te numa única palavra – gosto dos teus abraços. dos teus beijos. dos teus gestos. do teu cheiro. gosto dos teus olhos quando encontram os meus. gosto do teu cabelo quando o enrodilho nos dedos. gosto de me deitar no teu colo e ouvir o mar a chamar o vento norte enquanto as gaivotas gritam o teu nome a sul – é por lá que o sol se esconde de todas as injustiças do amor – já não falta muito para que a noite se abeire com tudo que é arrependimento. pesarosa. negra. sombria. escura. só não a quero muito negra. não suportaria deixar de te ver. preciso – enquanto viveres nos meus olhos sou imortal – o tempo passa e não me canso de te falar. falo-te como se fosse a primeira vez – nunca esquecerei a nossa primeira vez. nunca. nunca. nunca – tudo agora faz sentido – para trás não olho. não quero. ainda ouço as palavras que nos trouxeram até aqui: aceito. sim aceito. até que o caminho se gaste – parece que ainda foi ontem. passaram vinte e oito anos – guardo-te no coração

 

sampaio rego – 21 de julho de 2012




10/08/2014

antónio lobo antunes




antónio lobo antunes



 
livro de crónicas


o campeão


"...o merceeiro ao somar-lhe as compras em voz alta com um resto de lápis anunciava respeitosamente
    - Quatro e cinco nove e três doze e vai um, mas com é para Vossa Excelência vão dois, dois e sete nove e nove dezoito e sete vinte e cinco e vão dois, mas como é para  Vossa Excelência vão três
      e a avó Gui pagava com orgulhosa pompa o peso da sua importância. ... "





07/08/2014

parce sepultis




caravaggio





também se faz luto em vida – mergulhado em chuva e papéis projeto o futuro – peso-me – é fundamental escrever o que não sei explicar.  a  margem de erro é uma glosa de compreensão – quem lê procura conhecimento ou prazer – não sou conhecimento e muito menos prazer. sou amargura. desgosto. maçada. tristeza. erro. nada mais de que erro – transcrevo para o papel uma adição antes de o ser. premonição – só assim poderei dar-me ao respeito. adivinhando-me – somo-me então a um resultado imprevisível numa balança aferida a olhos visionários. magoados também – ninguém pode garantir o incerto. sempre ouvi dizer que o futuro a deus pertence – se eu tivesse um deus a alma não temia. não gemia. não sofria – o contrapeso é a alma perdoada de todo o erro venial – onde há balança há peso – todos temos um peso não almejado. mortal – o descanso eterno acontece após a missa de sétimo dia – o peso é agora memória atravancada entre duas datas: aqui descansa [finamente] o pecaminoso sicrano. nascido a tantos do tanto de mil novecentos e tantos e faleceu a tantos do tanto de dois mil e tantos – que a sua alma descanse em paz




* parce sepultis – enterrado. perdoado



05/08/2014

vinicius de moraes




vinícius de moraes



 
 
soneto de aniversário
 
 

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.





01/08/2014

retalhos – número de série 01082014s(r)ego21




rafael mussel




noites de verão são também: a recolha do sossego embrulhado naquele movimento quase não-movimento da praia-mar



30/07/2014

ponto vernal




militão dos santos
 
 



atapetam-se jardins
de flores
colhem-se novas cores
 
 - é o ponto vernal
 
adossado
chalaceia o caminheiro
do inverno
 
- o solstício ainda vem longe
 
solfejam alegria
andorinhas
em pomares de fartura
 
abrem-se:
janelas de esperança



26/07/2014

mamading versus mamareading




imagem google
 
 


os “camones” da europa poderosa andam por aí a dizer que inventaram o “mamading” – o jogo no qual se troca sexo oral por bebidas alcoólicas – mentirosos. os gajos passaram foi pelo tasco da minha rua – há muito tempo que se faz “mamareading” no meu café. isto é. mamas um café. e lês o jornal de borla – a mania destes “camones” até mete nojo – mas a culpa é nossa. se tivéssemos registado este tipo de “mamada” no instituto nacional de propriedade intelectual os bifas não se andavam agora por aí armados em cientistas-criadores – arre. que raiva tenho destes gajos – não há televisão que não passe o mamading dos “camones”. quem os ouve parece que inventaram a pólvora seca – se o nosso povinho tivesse outra visão intelectual quem estaria a passar nas televisões seria eu. empinocado. a ler o meu jornal de notícias em paz no botequim da minha rua – mas tristezas não pagam dívidas – os descobrimentos não aconteceram por acaso. nascemos para as grandes descobertas civilizacionais – onde há fumo. há sempre um tuga com um fósforinho a fazer fogo 



25/07/2014

desilusão






victor rodriguez

 




implosão -
a luz liquefez-se
no momento

dissolvida
a imagem:
deixou de ser

vivem agora:
em mim
lembranças





friedrich nietzsche




friedrich nietzsche
 
 
 
 
"nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo"
 



24/07/2014

texto




alex andreyev
 
 
 
 
 
 
eutexto - tutextas - eletexta - elatexta - cãotexta - nóstextamos - vóstextais - elestextam - elastextam – matilhatexta
 



 

23/07/2014

narrativa na primeira pessoa







horace pippin
 
 
 
 
 
escrever é um desafio perigoso. digo eu que quase não escrevo    as palavras mergulham para um vazio quase imenso. quase branco. quase com linhas especialmente concebidas para se tornarem numa espécie de céu – infelizmente o quase acaba num genuíno e real caminho para o inferno – tudo agora é ardor que arde sem se ver – enlaça a palavra nunca lida e aconchega-a num leito peregrino como se soubesse que está para breve o fim da ilusão – a almofada deslumbra-se. finalmente novos sonhos. acomoda-se aos lençóis entregando-se por inteiro à luxúria do caminhante. é agora penetrada pela loucura dos sinónimos – nem sempre as palavras dizem o que querem dizer. a ambiguidade arrasta-se de parágrafo em parágrafo em busca do arco-celeste – não tarda nada e tudo é papel – o momento é do peregrino e da almofada. reflexão – gosto de palavras. são graciosas. harmoniosas. aprimoradas. as palavras são um eu com representação em três d. – fazem abraços. alguns apertados. para toda a vida ou até mesmo só por um dia. um dia grande e intenso a valer uma vida inteira – há palavras que nascem com o corpo. não as aprendemos. são nossas como são a carne que se amarra aos ossos. como são os olhos que as sentem e as mãos que as escrevem. depois. depois basta uma almofada revigoradora. atravancada de penas do arcanjo gabriel. e tudo se converte em esperança – todas as palavras querem dizer coisas mesmo que não digam – há palavras que são portas abertas. avejões que não morrem. vomitam profecias de guerra para palavras que dizem o que dizem mesmo que insistam em dizer que não tinham intenção de o dizer – existem quatro coisas na vida que não se recuperam: a pedra depois de atirada; a palavra depois de proferida; a ocasião depois de perdida e o tempo depois de passado – o que está dito está dito. nenhuma almofada tem o poder supremo de mudar o rumo das palavras lançadas ao papel – o dono das palavras é o peregrino e o caminho são os seus pés. o papel é o fiel depositário – nada do que está escrito é fruto da árvore que deu papel – o papel guarda a vida que acontece no interior do peregrino – se estás com um livro na mão. o papel guarda. se estás com uma folha. o papel guarda. se estás com um lenço de papel. o papel guarda. se estás com um post-it. o papel guarda. o papel não é eterno mas as palavras quando lidas passam milagrosamente à narrativa em primeira pessoa – eu li – sempre que lês dás a eternidade ao peregrino – perfilam-se. armam-se. e como estratégia militar marcham sobre os mais incautos leitores. e a narrativa em primeira pessoa cada vez mais enorme – de palavras algemadas à carne prisão passam a palavras gaivota. livres. destemidas. audazes. palavras com alma – nunca me canso de falar de palavras. também não tenho mais nada para vos oferecer. são estas que realizam o meu destino – estas palavras não temem a luz. não temem a clarividência de outros saberes. não temem o julgamento da imperfeição. e eu. mais gaivota sou. cada vez mais narrativa em primeira pessoa