.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

27/09/2012

última oportunidade




salvador dali




um dia. antes de partir. voltarei à minha igreja. aquela que me baptizou para o mundo dos justos – pela última vez. suplicarei ao “meu” deus que aceite no seu reino homens que não tiveram coragem de morrer pregados a uma cruz – estou quase certo de que não obterei qualquer tipo de resposta – o silêncio na sua casa é sepulcral – concluirei que deus é surdo. mudo. e não conhece a linguagem gestual – desconfortável com o próprio corpo. castigarei a fé cega com que animei os sonhos – partirei. invocarei todos os demónios que acolho em mim. cerrarei definitivamente os olhos em frente ao santo que jurou proteger-me contra todos os males. passados. presentes e futuros. tanto da alma como do corpo – não há justiça nos homens que criaste à tua imagem e semelhança – parto. deixo a tua casa com o sabor de uma partida amarga – sossega. não acredito na ressurreição. como diz mia couto “ o que está queimado não volta a arder”






18/09/2012

carne. lembra-te que és mortal - II




sámal joensen-mikines




2.
gosto da palavra partida. não gosto da palavra morte – quando partimos deixamos sempre qualquer coisa para trás que um dia voltamos para encontrar. um livro. uma cadeira. uma história. uma foto com um sorriso enganoso. um sinal que nos descreve por dentro. um gesto calmo marcado por contornos subtis. leves. delicados. feitos de carvão abandonado dum fogo que “arde[u] sem se ver”. e tudo isto guardado num jeito de andar que não é de mais ninguém. de mais nada no mundo. é só meu – gosto da palavra partir porque é vaga. verbo. verbo de ação. onde o sujeito se desloca para algum lugar. ninguém sabe para onde. nem em que direção. mas vai – partir. partiu. partirás. partirei. não importa a forma verbal. gosto da palavra. deixa a ideia de que quando partimos alguém fica à nossa espera num ideal sebastianista – um dia. numa manhã de nevoeiro. estamos de volta. chegamos e tudo estará igual. ninguém envelheceu. e todas as coisas no mesmo lugar inacessíveis às mãos – há gente que parte tão devagarinho que verdadeiramente nunca chega a partir. e as imagens aqui paradas para sempre. os olhos em cima do jornal repousam os óculos castanhos nostálgicos e o corpo a cair para a frente contraria a fotografia na caderneta militar. capa preta. folhas amarelas. ombros em confronto com o quico caído ligeiramente para a frente da vida. a dizer ao bigode à errol flynn que a boca anda agitada pela procura de beijos – tudo são imagens – as pernas a fazer andar o corpo. de uma lado para o outro. um braço para a frente e outro em espera. balança num porta-chaves alfa romeu – calça creme. casaco azul marinho apertado por uns botões de metal dourado forte. e no cimo do corpo. um estupor de um lenço ao pescoço. cheio de cores fortes a dizer que a vida é consumida num carro desportivo de alta cilindrada – à cabeceira da mesa a sombra assenta nos cotovelos. os lábios batucam desespero que ninguém ouve. o silêncio é agora feito num caminho de memórias que já não são o presente e o peito sente os gestos presos às cadeiras. com nomes. estamos todos ali. todos em carne. e o ar dos pulmões cai lentamente para um prato sopeiro vazio e a bucha de pão partida em bocados certos como o número de lugares na mesa – a roupa do dia seguinte à espera na cadeira. camisa engomada. calças dobradas pelas vincas com o cinto a roçar a alcatifa. sapatos bem engraxados e alinhados pela biqueira. cordões abertos em sorrisos à espera dos pés. e depois aquele quadro na parede diz que a vida é quase sempre feita no outono. as folhas mortas no chão esperam por um vento que nunca acontece. e a casa de pedra anuncia vida. a chaminé não para de bocejar fumo que não corre – naturezas mortas de pintores que partiram. sem saber que deixaram a vida parada para sempre em quadros de tabopan – quando partir não quero que a minha vida fique assim parada. não me quero em pinturas com pessoas que não vão para lado nenhum. paradas como o fumo na casa de pedra – quando partir quero virar as costas à vida com a certeza de que para trás tudo fica igual. continuará o movimento. e toda a gente de um lado para o outro a gastar a vida como sabe. falam. protestam. trabalham. sorriem. fazem crescer famílias. amam-se. recordam os que partiram felizes – quero olhar para trás e ouvir os meus dizerem: lembras-te dos kilos de perfume com que aparecia pela manhã. como era teimoso. raio de feitio. gostava daquele casaco preto de bombazine com cotoveleiras de pele castanha. assentava-lhe bem. fazia-o mais magro. mais elegante. havia dias em que nem parecia ele. aparecia tão esticado. aquele cabelo sempre a cair para trás – mas o que eu mais gostava mesmo era aquela mania de que sabia escrever e o like no facebook era obrigatório. de que se esforçava não há dúvidas – quero partir com a saudade a ser a razão da conversa. e as memórias feitas de corpos sãos. corpos contentes. corpos ágeis. corpos sábios. onde o mundo roda porque as pessoas rodam de um lado para o outro com tranquilidade por saberem que quem parte parte feliz – esta gente que roda sem parar ainda não descobriu que um dia também terá de partir – gente que amo. gente nuvem. todos os dias guarda uma gota. e depois outra e mais outra. e o corpo cada vez mais feito de água-afecto. água-amor. água-companheirismo. água-amigo. água-vida e um dia. sem que no horizonte se vislumbre sinal de tempestade. o corpo vai tombar e toda água vai partir em torrente levando tudo o que é alegria. para sempre – não há forma das mãos segurarem esta água. nem a dor de um corpo seco. e tudo o que foi deixou de ser. e o que vem nunca será igual ao que partiu – só o tempo é capaz de amainar o corpo. e o que era enxurrada transforma-se numa linha de água límpida. cristalina. pura. como tudo o que chega ao mundo pela primeira vez caminhando pelos sulcos da pele. de um modo tão suave que mais parece uma bailarina em pontas. a rodar sobre si como se quisesse imitar o mundo quando gera vida e sem que se aperceba chega ao chão como toda a água dos rios chega aos oceanos. e os pés para sempre húmidos – entro na cama. ajeito o corpo ao travesseiro e ali permaneço quieto. o coração bate nos ouvidos. o cobertor tapa o frio do mundo. olhos serrados. silêncio em espera. e quando a voz atravessa o sonho tudo é como dantes. volto a ter tudo o que tinha antes de todas as partidas – como diz shakespeare “um homem que não se alimenta de seus sonhos, envelhece cedo” – o meu sonho é escolher o dia da partida. não quero morrer sem memória. não quero morrer em dor. não quero que ninguém me veja fechar os olhos. ou me abrace em lágrimas. quero partir. partir como parte o vento das janelas – “os covardes morrem mais vezes antes da morte; o valente experimenta o gosto da morte [partida] apenas uma vez" – gosto da palavra partir porque imita as andorinhas. o fim do verão. uma nuvem no céu. uma gota de chuva apanhada pelo oceano. um vento fresquinho. e o bando parte em fuga para uma vida melhor. para o sul quente – a esperança está de volta. novas casas. novos telhados. novos caleiros. novos fios elétricos. novas árvores. frutos sem nome. e um novo mundo. um novo recomeço prometido pela intuição de saber partir à hora certa – gosto das partidas de quem acredita que há um mundo novo à sua espera. diz-se que para encontrar este novo mundo é obrigatório partir pela vontade de deus – confesso que não sei muito bem se assim é. já muitas vezes escrevi que a minha relação com deus não é a mesma desde o dia em que o meu pai morreu. não partiu. morreu como morrem os cães abandonados. cercado de gente branca sem nome. sem memória. sem semelhanças. sem uma mão que o ajudasse a partir como o vento por aquela janela que dava para o mundo das andorinhas – morreu. gelado. sozinho. perdido no escuro. onde a luz não existe. podia ter partido. mas não. morreu. morreu ele e morri eu e tudo o que escrevo é agora pela revolta de saber que não quero morrer assim. nunca. quero partir – junto todas as minha coisas numa mala pequena. uma camisa branca. um casaquinho de lã que me aconchegue o corpo às memórias. uma gravata preta. uns sapatos de sola de borracha porque não gosto de sentir os pés frios. um par de lâminas. gosto de ter um ar asseado. sempre ouvi dizer que um homem de barba bem feita não necessita de roupa. um aftershave. umas quantas fotos. um livro. nem sei bem qual. talvez em branco. assim poderei escrever de novo todas as palavras que ninguém compreendeu. dar-lhes outro trilho. outro rumo. com a caneta mais inclinada para sul. mais sol. mais calor. mais mar. mais gaivotas. mais esperança. juntá-las a outras que ficaram esquecidas nas mãos. e por fim reescrever-me. de novo para dizer exactamente o mesmo. eu só sei escrever o que sou – a escrita não muda o homem. ensina-o a ver-se tal e qual como é – pensando bem talvez alterasse esta mania de escrever na primeira pessoa e passasse a escrever na terceira. diria então: eles pensam que são donos do tempo e depois partimos. partimos sem destino. para sempre – parto. para trás deixo o corpo. fica como sempre foi. grande. firme. hirto. com o cabelo empastado em gel superforte. e o cheiro ao perfume jean paul gaultier a dizer em voz grossa: sou vaidoso. até já. até já. não se esqueçam que não morri. um homem não morre. parte – como dizia lucan “os deuses escondem dos homens a beleza da morte [partida] para levá-los a aguentar a vida” – mas ainda não parti. ainda ando por aqui a desiludir – estou debilitado. desalentado. desanimado. desgostoso. estou exausto. tão cansado que as palavras já não se amarram ao papel. tudo o que penso ou escrevo parte em busca de descanso e o corpo ainda aqui. quase moribundo. e as palavras por dentro a sofrer num lugar que já não conheço. escuro. tão escuro que já não consigo ver com clareza o que dizem – estou desesperado nesta certeza de partir. gostava de ter dúvidas. gostava de estar cortado ao meio. não estou. estou inteiro. firme. pela primeira vez todo eu sou certeza. todo eu sou partida – tenho medo. ainda amo tanta gente – partirei então como uma andorinha. descubro esse outro lugar onde a vida é vivida sem interrogações. sem esta dor que me nasceu num canto qualquer do corpo. eu nunca soube onde e as mãos por dentro a revolver tudo o que sou e cada vez a encontrar menos de mim – estou cada dia mais sozinho. estou cada dia mais parecido com aqueles que já partiram. branco. gelado. lábios colados com cola. ossos partidos. velas. fumarolas. os anjos cantam a canção dos rejeitados: não aceitamos traidores. não aceitamos. não aceitamos – silêncio. e o corpo sem uma única lágrima. coberto por um tule que já não tapa coisa nenhuma. nem desespero. nem revolta. nem raiva. nem saudade. nada. em cima em forma de cruz só a honra brilha como o ouro a palavra foi cumprida. sempre cumpri com a minha palavra. é de família – finalmente o céu dos céus. o jardim dos jardins. o lugar onde aqueles que partiram esperam por aqueles que livremente decidiram partir. a colina dos reencontros – fernando pessoa dizia: “morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada” – eu digo: partir é apenas não ser visto – partir é a curva da estrada



continua




12/09/2012

gula II




nanduxa




depois de escrever o microtexto gula dois colegas que estimo escreveram as seguintes notas:


1.

“Oscar Wilde lá dizia que resistia a tudo menos à tentação.

Mas este assim ficou monástico, misterioso.”



2.

Como nos deixa curiosos assim?!!!
Vou-te deixar um poema de gula, então, para pecar de vez:



Delicioso Pecado


Satânico é o meu desejo
De despir seu corpo
Naquela manhã ensolarada
Tirar da minha boca a fome
Dos seus sabores
Olhando pra você
Enquanto lhe desejo
Desfaço da sua pele
Em suaves descidas
Até que se mostre
Eu lhe mordo a ponta
Até chegar o fim
Do meu prazer
Saciando o mel
Da forma em riste
Da banana que comi
Até o fim!!



não resisti e escrevi:



misterioso? não. nunca – não sou homem de mistérios – escrevo-me em papel para dizer o que não sei falar – escrevo-me em papel para dar mais horas de luz aos dias – escrevo-me em papel para me convencer que o coração tem razão para continuar a bater – escrevo-me em papel porque a escrita é como um analgésico para uma dor que nem sei se existe – escrevo-me em papel porque quando escrevo penso e logo existo – escrevo-me em papel porque as palavras obrigam-me a gostar de mim tal e qual como sou – escrevo-me em papel porque quando escrevo sou muito mais do que homem. sou todos os homens do mundo. sou gaivota. mar. planta. pinheiro manso. musgo. terra. pó insignificante. porque todo o pó é insignificante – escrevi a gula por ser covarde e não saber falar. por não saber contar o tempo. não saber contar as palavras nem perceber o seu valor quando o homem está possuído pelo pecado da gula – escrevi a gula para não arremessar nenhuma palavra de que me pudesse arrepender. e como diz o provérbio chinês: a palavra e a flecha lançada não podem voltar atrás – comi então todas as palavras do mundo. não falei. não pequei – tudo o que não disse. engoli. digeri. desgastei. assimilei e encontrei razões que o coração desconhecia – de homem cobarde fiz-me homem sensato – engoli todas as palavras do mundo e o mundo não deu falta de nenhuma – não existo para o mundo. existo para mim. e é para mim que escrevo [será que alguém entende o que escrevo? não acredito – ainda bem que não há inquisição]