17/03/2026

março. o tempo não conta

 




numa das crónicas do antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai. esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito. apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco – agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está vazia. está  a mais. sou eu que conto mal – isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce. torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho

 

17 de março de 1998

 

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