1.
aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda
existem dentro de mim. e também nas coisas. que não estando dentro de mim. me
iluminam como iluminam as auroras do norte – faz anos hoje que nasci. e da
viagem nada. nem mapa de mim – sempre que este dia regressa penso nas coisas
boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram
como se fossem primavera. e no voo doce que me levou para onde já não caio –
e agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê?
recordo os afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e
me corrói a alma como um corpo fora do seu lugar – vivo sem vagar – o mundo
moldou-me na forma que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem
em mim que me fazem do tamanho que sou – e dou por mim a contar os anos. mais
um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. sei que se faz tarde para o que
há de vir – só resguardado estou sereno. só resguardado sou eu numa verdade boa
– e já não sei onde começa o tempo em mim – há dias em que sorrio por gratidão
e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo.
fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim –- resisto -- conto as
rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não posso evitar.
desespero. insulto-me com palavras e juro que estou ainda mais vivo do que
ontem – corro ao redor de cadeiras que nunca se ocupam. enquanto a chuva entra-me
pelos olhos e fica – esbracejo e grito com o que me resta para a vida:
aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta
é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr
numa casa saqueada que é tudo em mim – tudo o que tenho é nada. e mesmo assim.
campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e
eu aqui a ler o tempo até me doer os olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem. as
lembranças a sangrar. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam… não chama. conta – o
silêncio pesa – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o
vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou
neste corpo envelhecido o inventário de tudo o que o tempo me trouxe – aqui me
encontro ainda eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra –
se deus me desse uma vela e um sopro. apagava toda a tristeza que guardei para
sobreviver – procuro ainda esperança. ainda tempo. ainda tudo o que sempre
procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo que me gasta –
toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso.
outras. amargos de boca – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a
cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas
valiosas cada vez mais afastadas – não por fugirem. mas por eu já não chegar – só
tenho uma vida – o desespero é a minha pele desde o dia em que me obriguei a
crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu para um
silêncio onde não entro – e nunca mais ninguém soube onde guardar a casa – as
coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem
rebobinar os dias – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro
inferno. e o que imagino é um negro que me fere por dentro – nenhuma palavra será
gaivota. nem me levará onde eu sou – nada acontece às velas que não ardem – e
eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo. e que
sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer – o mundo só me
tem servido para envelhecer – aqui estou. e é neste corpo que tudo termina em
mim
2.
e agora falo para vocês – é por isso que às vezes
creio que sou sábio. é quando olho em redor. e percebo que tudo é muito mais do
que eu consigo carregar – e o que é um homem arrastado no tempo? é vida – sou
mais do que quando nasci. e menos do que imaginei ser – sou dois parêntesis
abertos à espera de sentido. existo por não estar só. construí-me com o que
sobrou do mundo – nunca me perdi de mim. encontrei-me no que vinha antes.
recebi um nome. dei-o – e o que sou ficou – e depois vieram vocês. não como futuro.
mas como começo – os meus filhos são a origem do mundo. antes deles eu não
existia. só depois apareceram as estrelas. os oceanos encheram-se de peixes. as
gaivotas fizeram liberdade. e do sol cresceram os bem-me-queres – eles sempre
existiram em mim – não me lembro de um único dia sem eles. só com eles me
tornei inteiro – nenhum filho me deve nada. tudo o que me deram foi mais do que
uma fotografia guardada – sou pai. não poderia ter sido mais nada – mesmo que tivesse
direito a um sonho – o que vos deixo começa antes de vocês – já tu eras começo
– ao meu lado. o belo tem o teu rosto. como se o sim nunca tivesse acabado – a
nossa vida tem sido isto: anos a falar. e o dia seguinte a chegar doce – amar-te
foi a coisa mais simples que o coração aprendeu – tem sido tão bom envelhecer a
teu lado. estamos tão crescidos que até os sonhos vieram de nós – todos os dias
começam nos teus olhos – há dias em quero recordar os vossos avós. mas já passou
tanto tempo. que nem sempre os consigo ver – lembro-me do último beijo. e isso
basta – quando envelhecemos. a memória falha. mas o amor não – guardem o que se
perde. antes que se apague – a vida tenta sempre tomar-nos o espírito. é quando
chamamos a liberdade. mudamos de rosto para permanecer – sair. caminhar. viajar.
saber o bastante para continuar. fazer amigos. perdê-los. aprender a amar no
intervalo – entregar-se ao mundo. procurar-se nele – há sempre um lugar que
recolhe – falar com os animais. eles escutam melhor do que muitos humanos –
tocar a natureza. pousar o ouvido. é lá que o melhor fica – juntar a família
não há dia certo. qualquer um serve – oferecer ao universo o que somos – isso
basta – enquanto o destino deles dependia de mim. nunca pude ser o que queria
ser – agora. sou o que sou – e deles só espero amizade. companheirismo. que
caminhem ao meu lado. mesmo quando não entendem – isso é o amor impossível – os
pais não são apenas um corpo. ficam – quando a idade nos mostra o fim do
caminho. o mais importante é perceber o que nos trouxe até aqui – aceitar o que
trazemos. mesmo que seja pouco – o que nos leva é a certeza. de que nada mais
poderíamos ser. senão este abismo da despedida – uma família precisa de
saudade. é assim que se mantém – por isso nos tornamos no que nos identifica. e
quando partimos. o corpo desaparece para que a saudade aprenda a viver sem nós
– um dia o caminho da saudade-silêncio chegará. sem aviso. sem despedida – não
distingue – ficamos perdidos. partimo-nos em bocados que não sabemos juntar – faltou-nos
palavra – é para isso que nascemos. para dizer. que um dia. nos tornamos
ausentes antes da partida – nascemos. deixamos a semente. e vamos sem destino –
do outro lado está a luz que me deu forma – não fiquem tristes. não vistam
gravata escura. não me tragam flores. nem prantos. tragam os netos. juntem-se
em círculo ao que sobra de mim – deem as mãos – nada mais restará para além do
que fomos
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