16/04/2026

escuridão vista de dentro: um inventário aos anos







1.

aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda existem dentro de mim. e também nas coisas. que não estando dentro de mim. me iluminam como iluminam as auroras do norte – faz anos hoje que nasci. e da viagem nada. nem mapa de mim – sempre que este dia regressa penso nas coisas boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram como se fossem primavera. e no voo doce que me levou para onde já não caio – e agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê? recordo os afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a alma como um corpo fora do seu lugar – vivo sem vagar – o mundo moldou-me na forma que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem do tamanho que sou – e dou por mim a contar os anos. mais um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. sei que se faz tarde para o que há de vir – só resguardado estou sereno. só resguardado sou eu numa verdade boa – e já não sei onde começa o tempo em mim – há dias em que sorrio por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo. fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim –- resisto -- conto as rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não posso evitar. desespero. insulto-me com palavras e juro que estou ainda mais vivo do que ontem – corro ao redor de cadeiras que nunca se ocupam. enquanto a chuva entra-me pelos olhos e ficaesbracejo e grito com o que me resta para a vida: aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr numa casa saqueada que é tudo em mim – tudo o que tenho é nada. e mesmo assim. campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo até me doer os olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem. as lembranças a sangrar. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam… não chama. conta – o silêncio pesa – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido o inventário de tudo o que o tempo me trouxe – aqui me encontro ainda eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro. apagava toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. ainda tempo. ainda tudo o que sempre procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo que me gasta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso. outras. amargos de boca – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas valiosas cada vez mais afastadas – não por fugirem. mas por eu já não chegar – só tenho uma vida – o desespero é a minha pele desde o dia em que me obriguei a crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu para um silêncio onde não entro – e nunca mais ninguém soube onde guardar a casa – as coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem rebobinar os dias – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que imagino é um negro que me fere por dentro – nenhuma palavra será gaivota. nem me levará onde eu sou – nada acontece às velas que não ardem – e eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo. e que sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer – o mundo só me tem servido para envelhecer – aqui estou. e é neste corpo que tudo termina em mim

 

2.

e agora falo para vocês – é por isso que às vezes creio que sou sábio. é quando olho em redor. e percebo que tudo é muito mais do que eu consigo carregar – e o que é um homem arrastado no tempo? é vida – sou mais do que quando nasci. e menos do que imaginei ser – sou dois parêntesis abertos à espera de sentido. existo por não estar só. construí-me com o que sobrou do mundo – nunca me perdi de mim. encontrei-me no que vinha antes. recebi um nome. dei-o – e o que sou ficou – e depois vieram vocês. não como futuro. mas como começo – os meus filhos são a origem do mundo. antes deles eu não existia. só depois apareceram as estrelas. os oceanos encheram-se de peixes. as gaivotas fizeram liberdade. e do sol cresceram os bem-me-queres – eles sempre existiram em mim – não me lembro de um único dia sem eles. só com eles me tornei inteiro – nenhum filho me deve nada. tudo o que me deram foi mais do que uma fotografia guardada – sou pai. não poderia ter sido mais nada – mesmo que tivesse direito a um sonho – o que vos deixo começa antes de vocês – já tu eras começo – ao meu lado. o belo tem o teu rosto. como se o sim nunca tivesse acabado – a nossa vida tem sido isto: anos a falar. e o dia seguinte a chegar doce – amar-te foi a coisa mais simples que o coração aprendeu – tem sido tão bom envelhecer a teu lado. estamos tão crescidos que até os sonhos vieram de nós – todos os dias começam nos teus olhos – há dias em quero recordar os vossos avós. mas já passou tanto tempo. que nem sempre os consigo ver – lembro-me do último beijo. e isso basta – quando envelhecemos. a memória falha. mas o amor não – guardem o que se perde. antes que se apague – a vida tenta sempre tomar-nos o espírito. é quando chamamos a liberdade. mudamos de rosto para permanecer – sair. caminhar. viajar. saber o bastante para continuar. fazer amigos. perdê-los. aprender a amar no intervalo – entregar-se ao mundo. procurar-se nele – há sempre um lugar que recolhe – falar com os animais. eles escutam melhor do que muitos humanos – tocar a natureza. pousar o ouvido. é lá que o melhor fica – juntar a família não há dia certo. qualquer um serve – oferecer ao universo o que somos – isso basta – enquanto o destino deles dependia de mim. nunca pude ser o que queria ser – agora. sou o que sou – e deles só espero amizade. companheirismo. que caminhem ao meu lado. mesmo quando não entendem – isso é o amor impossível – os pais não são apenas um corpo. ficam – quando a idade nos mostra o fim do caminho. o mais importante é perceber o que nos trouxe até aqui – aceitar o que trazemos. mesmo que seja pouco – o que nos leva é a certeza. de que nada mais poderíamos ser. senão este abismo da despedida – uma família precisa de saudade. é assim que se mantém – por isso nos tornamos no que nos identifica. e quando partimos. o corpo desaparece para que a saudade aprenda a viver sem nós – um dia o caminho da saudade-silêncio chegará. sem aviso. sem despedida – não distingue – ficamos perdidos. partimo-nos em bocados que não sabemos juntar – faltou-nos palavra – é para isso que nascemos. para dizer. que um dia. nos tornamos ausentes antes da partida – nascemos. deixamos a semente. e vamos sem destino – do outro lado está a luz que me deu forma – não fiquem tristes. não vistam gravata escura. não me tragam flores. nem prantos. tragam os netos. juntem-se em círculo ao que sobra de mim – deem as mãos – nada mais restará para além do que fomos 


 

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