30/04/2026

incubadora de eus - 1. o nascimento do múltiplo

 





nota de autor

escrevo para perceber quantos sou quando penso ser apenas um – incubadora de eus nasce dessa inquietação – um lugar onde cada parte de mim ganha forma e voz – o nascimento do múltiplo – se alguém me ouvir – gaivotas – e sem guerra. são passos da mesma procura: existir dividido sem deixar de ser inteiro – se alguém se reconhecer neles. então não escrevi sozinho

 

1.   o nascimento do múltiplo

tenho medo – não tardarei a deixar de me reconhecer nas minhas palavras. e talvez seja por isso que este pensamento vibra num abrigo de eus: o meu corpo – agora sei. não sou um – a dor. a alegria. a tristeza. a saudade. a esperança. a dúvida. a loucura. a paixão. vivem em mim como se cada uma tivesse o seu nome – há em mim quem ame uma única mulher. inteiro. para sempre – há outro que se espalha pelo mundo. fala. ri. procura tudo – pergunto à minha amada: amas-me?

-- sim. amo-te

qual deles? fico em silêncio – há um sorriso que lhe cai dos olhos e me prende nos lábios – calor – e há ainda outro sem nome – estranho não saber nomear o que é meu – todas as manhãs acorda diferente. ontem podia ser antónio. hoje parece-me manuel. talvez silva. gosto de silva. cresce em solos pobres – e eu rastejo como se andasse em bicos de pés. os picos não se veem. floriram para dentro da pele – há também aquele que mede o tempo. e que me diz: o tempo não são anos. é a luz que encontraste – descansa – diz o silva – mereces o repouso. procura nos teus eus a força de recomeçar – e às vezes não me basto. levanto-me para escrever. como se. na dispersão de tudo. ainda houvesse uma palavra à procura de ser escutada

 

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