30/07/2026

já não negoceio a minha paz

 




o meu ego nunca precisou de ser maior do que os outros. sempre lhe bastou não desperdiçar aquilo que acredito ter recebido da vida – confio nas minhas intuições. sobretudo quando falo da família. da educação. dos amigos. ou da escrita. mas essa confiança nunca me livrou da dúvida. pelo contrário. obriga-me a regressar vezes sem conta às mesmas ideias. às mesmas pessoas. às mesmas memórias. às mesmas escolhas. revejo o que escrevo. o que digo. o que penso. e até quem fui. não porque desconfie da vida. mas porque acredito que a verdade raramente se entrega à primeira tentativa – escolho criteriosamente os amigos. não preciso de muitos. preciso apenas de poder confiar neles. quando me engano. afasto-me. dificilmente volto atrás. não por orgulho. mas porque deixo de reconhecer a verdade da amizade quando a gratidão desaparece – há uma idade em que perder pessoas já não me assusta. pior do que perder é aceitar a ingratidão como preço da companhia. esse preço já não estou disposto a pagar – o meu ego não procura aplauso. procura apenas justificar a vida que vivi. deixar aos que vierem depois um caminho um pouco mais limpo do que aquele que encontrei – quando acredito numa ideia dificilmente recuo. não porque me julgue dono da verdade. mas porque a experimentei antes de a defender. e quando erro. o julgamento mais duro nunca vem dos outros. vem sempre de mim. talvez seja essa a verdadeira medida do meu ego: não querer ser maior do que ninguém. apenas não ficar aquém de mim próprio – por isso estou certo de que com a idade chegou a melhor versão de mim. mas mais importante. passei a gostar de mim sem pedir licença a ninguémjá não negoceio a minha paz – não quer ser maior do que os outros. quero apenas ter a certeza de que não desperdiço a vida que me coube viver



21/07/2026

mor

 




 

habituei-me a chamar-te amor

mor para ser fácil

e dou comigo a pensar

se não foi um erro…

gastei a palavra

os ouvidos deixaram de ouvir

e até eu

esqueci o seu valor

 

quando te chamo mor

sou um catraio

joelhos rotos

pião no fio

e os berlindes da tua cor

 

e agora… sinto-me

não sei… talvez desesperado

sem palavra que te sirva

 

mas preciso de chamar mor

preciso de me sentir…

não catraio

mas perto de ti

assim…

meio perdido de mim

 

enrodilho as mãos

a boca foge

e o silêncio aproxima-se

devagarinho

 

que tolo

gastei a palavra

e nem os que passam em sentido contrário

a escutam

talvez por serem de outras casas

talvez por

nada saberem de nós

não viverem dentro de nós

 

ocupaste-me

e existo

somos os dois tão pequeninos

abrigados numa palavra

que ninguém sabe dizer

 

mor

que coisa ridícula

como se fosse segredo

ou um papelinho

dobrado em vergonha

um ventinho

para soprar a palavra até ti

 

o incerto é quase sempre

o caminho

para te encontrar nos olhos

atar-te a um cordelinho

e trazer-te para o que sinto

 

mor

todos os dias nascem dentro de ti

e isso basta-me

para aceitar o fim

 

 

fazes-me feliz


10/07/2026

a gaveta

 




I.

o mar traz. o mar leva – abri a gaveta onde vou adiando todas as decisões. aquele lugar onde descartamos a mente de precisão: um dia vou deitar atenção ao que está aqui dentro – um talão de compra de um bisegre. uma chave sem porta. uma pilha sem carga. e a esperança de que um dia tudo volte a fazer sentido – a gaveta é um pouco como um aterro sanitário. um papel cobre outro até que o tempo o decomponha pela inutilidade – hoje resolvi abrir a gaveta. remexi os papéis. cada um deles menos importante do que outro. e foi então que a gaveta me fez uma pergunta: o que me fez guardar estes bisegres? procuro a resposta. dentro de mim a gaveta está tão desarrumada como a memória: já não há espaço para tudo nem para todos – abro caminho por dentro de mim. retiro o pó. arrumo as pedras para as abas do mundo. sopro as teias de aranhas. e entre pernas o caminho é feito de fé – tudo em mim é movido a fé – já não quero guardar o que não presta – ao princípio cada coisa encontrava o seu lugar. uma caixa de rapé. um bilhete sem viagem de regresso. e a passadeira sem pegadas – agora. estou parado comigo. a olhar o que a vida teceu – envelheci. e aprendi que as nossas escolhas se tornam mais leves quando nos olhamos sem medo do passado – nada no tempo que gastei me pesa – a minha natureza não é feita de medo. aprendi a perdoar-me. sou o melhor de mim. afinal o que posso fazer se tudo no mundo é novo e aprendizagem – a inteligência nunca está pronta. cresce onde existe humildade para continuar a aprender – cada dia é uma oferta do universo – não tenho arrependimento do que parte. só parte o que chegou. tal como as marés. e nem por isso a lua se zanga – amanhã será sempre um dia novo para mim. e se me conheço. encontrarei outro atalho para chegar mais depressa ao que sou – o tempo não levou tudo. deixou-me o suficiente para continuar a lembrar-me – sou a consequência de tudo o que vivi. irrepetível – nem sempre virtude. quase nunca defeito. a verdade já pesa o suficiente – sou antes vontade de viver. voltar atrás não é solução. a razão da vida é o desafio. perna que não caminha não vê o mundo – ocupo-me e desocupo-me. entre o que guardo e o que deixo para trás. descubro sempre que a gaveta é mais pequena do que a vida – envelheci. passei anos a acreditar que tinha de provar quem era. hoje fecho a gaveta. a soberba continua a confundir altura com grandeza – viver sem medo aproximou-me de quem sou. mas uma gaveta desarrumada é mais bonita fechada – a esperança cria o melhor e o pior de mim. leva-me ao futuro. liberta-me do passado – o que perco está sempre no dia que já passou – desenterro-me da gaveta e procuro viver. pois também existo nas escolhas. mesmo quando tomadas de erros ingénuos – sou o primeiro habitante do mundo que planto. e anfitrião da paz que nele habita – mas não desisto. há em mim verdade suficiente para continuar a existir como sou – não mudo por ninguém. mesmo que o punhal seja do tamanho do inferno – sorrio e interrogo-me novamente: sou tudo o que há dentro desta gaveta. ou sou muito mais fora dela? o que importa isso se sempre me sinto acompanhado. se as fotos nas paredes servem para me dizer que já vivi outras realidades – interrogo-me novamente: o que leva as fotos a atirarem-se ao nada? talvez o cansaço de viverem. ou de verem os outros viverem. ou por apenas conhecerem a rua onde o que pensam existe – há quem viva fechado dentro das próprias certezas. convencido de que o mundo termina onde acaba o seu olhar. há quem entregue a própria vida às mãos dos outros. até deixar de reconhecer a voz que traz por dentro. entre a soberba de quem julga saber tudo. e o silêncio de quem já não sabe quem é. procuro apenas continuar inteiro – e no mundo onde escolho viver. o que me magoa não me merece – o que não soma. subtraio – o mar continua a trazer. o mar continua a levar. e eu continuo à beira dele. pronto para acolher apenas o que me fizer crescer

 

II.

todas as perdas começam muito antes da despedida. este texto nunca terá um fim. haverá sempre uma palavra à procura do último ponto. por isso fica assim. incompleto. como eu



06/07/2026

lavar o equipamento

 




claro que sou escritor – escrevo porque não sei calar o que me cresce dentro – escrevo-me no papel. conto histórias do meu passado. umas doem. outras abrem o fundo onde ainda me procuro – talvez isto bastasse. mas um homem quer sempre saber em que divisão joga – foi então que pensei nos homens da bola. nos que fazem do jogo um ofício – comecei a perguntar-me que espécie de escritor sou eu afinal – um homem raramente sabe o tamanho exato de si. conhecendo-me. sei que escreveria metade do que sou. e esconderia a outra metade por medo de a exagerar – um homem procura sempre uma imagem que lhe não minta – olho para aqueles homens. e vejo-os entrar em campo como homens que nunca tiveram outra língua. ganham milhões a pontapé. e repetem até à exaustão o que fazem. o que gostam – nenhum escritor. por mais excecional que seja. toca o dinheiro que corre nos pés desses homens – a única semelhança. é que no fim. todos regressam ao campo no dia seguinte – andamos todo o dia aos pontapés à língua e às suas regras. e pagamos cada erro com silêncio – falhar uma concordância é para um escritor. o que falhar um penalty é para um avançado – um erro ortográfico é entrar fora das leis do jogo. e às vezes custa-nos um jogo inteiro – depois há os jogadores das ligas menores. onde a exigência baixa. mas o dinheiro também fica difícil – e. no entanto. dizem o mesmo que os que ganham milhões. fazem o que gostam – já os escritores bons. a dois dedos dos mestres. mas fora do foco da luz. dizem também que fazem o que gostam. a diferença é que muitos acabam a contar moedas ao fim do mês. vivem encavalitados no cartão de crédito – eis a conclusão. sou um escritor que joga nos campeonatos distritais. sai do trabalho. arruma a cabeça numa pasta de arquivo. coloca a placa na porta: volto já – levanta a cabeça e diz para si: agora sou real – tomo o equipamento. chuteira e caneleiras sem esquecer. e começo o aquecimento. primeiro uma vogal. conto os toques que dou sem a deixar cair – depois. uma palavra pequenina. e aí já domino com a cabeça. às vezes ombro. e quando dou por mim. chuto sem parar para o écran. e fico ao pontapé às palavras até que a luz me consuma de cansaço – a alvorada desperta-me. e quando volto ao que escrevi encontro sempre uma palavra que falhou o remate – mas não importa. sou eu que marco as balizas no tempo. mas também sou eu que lavo o equipamento – há seres estranhos. vivem no meio das palavras e confundem silêncio com salário – mas não me importa. os jogadores da bola reformam-se ao trinta e poucos anos. ficam à procura da bola e já não rola – eu. não tenho idade para deixar de chutar vogais. e quando me canso. encontro sempre um verbo que me motive. atiro uma palavra ao ar e sem a deixar cair remato-a para o papel – quando acordo para o trabalho. a única certeza que levo é que mesmo sendo pior escritor. no regresso. nenhuma letra me abandonou. às vezes até as confundo com o meu cão. vêm ao meu encontro. abanam a cauda. e perdoam-me todos os erros – e assim sigo. a lavar o equipamento para o jogo seguinte – neste jogo de palavras não há apito final