10/07/2026

a gaveta

 




I.

o mar traz. o mar leva – abri a gaveta onde vou adiando todas as decisões. aquele lugar onde descartamos a mente de precisão: um dia vou deitar atenção ao que está aqui dentro – um talão de compra de um bisegre. uma chave sem porta. uma pilha sem carga. e a esperança de que um dia tudo volte a fazer sentido – a gaveta é um pouco como um aterro sanitário. um papel cobre outro até que o tempo o decomponha pela inutilidade – hoje resolvi abrir a gaveta. remexi os papéis. cada um deles menos importante do que outro. e foi então que a gaveta me fez uma pergunta: o que me fez guardar estes bisegres? procuro a resposta. dentro de mim a gaveta está tão desarrumada como a memória: já não há espaço para tudo nem para todos – abro caminho por dentro de mim. retiro o pó. arrumo as pedras para as abas do mundo. sopro as teias de aranhas. e entre pernas o caminho é feito de fé – tudo em mim é movido a fé – já não quero guardar o que não presta – ao princípio cada coisa encontrava o seu lugar. uma caixa de rapé. um bilhete sem viagem de regresso. e a passadeira sem pegadas – agora. estou parado comigo. a olhar o que a vida teceu – envelheci. e aprendi que as nossas escolhas se tornam mais leves quando nos olhamos sem medo do passado – nada no tempo que gastei me pesa – a minha natureza não é feita de medo. aprendi a perdoar-me. sou o melhor de mim. afinal o que posso fazer se tudo no mundo é novo e aprendizagem – a inteligência nunca está pronta. cresce onde existe humildade para continuar a aprender – cada dia é uma oferta do universo – não tenho arrependimento do que parte. só parte o que chegou. tal como as marés. e nem por isso a lua se zanga – amanhã será sempre um dia novo para mim. e se me conheço. encontrarei outro atalho para chegar mais depressa ao que sou – o tempo não levou tudo. deixou-me o suficiente para continuar a lembrar-me – sou a consequência de tudo o que vivi. irrepetível – nem sempre virtude. quase nunca defeito. a verdade já pesa o suficiente – sou antes vontade de viver. voltar atrás não é solução. a razão da vida é o desafio. perna que não caminha não vê o mundo – ocupo-me e desocupo-me. entre o que guardo e o que deixo para trás. descubro sempre que a gaveta é mais pequena do que a vida – envelheci. passei anos a acreditar que tinha de provar quem era. hoje fecho a gaveta. a soberba continua a confundir altura com grandeza – viver sem medo aproximou-me de quem sou. mas uma gaveta desarrumada é mais bonita fechada – a esperança cria o melhor e o pior de mim. leva-me ao futuro. liberta-me do passado – o que perco está sempre no dia que já passou – desenterro-me da gaveta e procuro viver. pois também existo nas escolhas. mesmo quando tomadas de erros ingénuos – sou o primeiro habitante do mundo que planto. e anfitrião da paz que nele habita – mas não desisto. há em mim verdade suficiente para continuar a existir como sou – não mudo por ninguém. mesmo que o punhal seja do tamanho do inferno – sorrio e interrogo-me novamente: sou tudo o que há dentro desta gaveta. ou sou muito mais fora dela? o que importa isso se sempre me sinto acompanhado. se as fotos nas paredes servem para me dizer que já vivi outras realidades – interrogo-me novamente: o que leva as fotos a atirarem-se ao nada? talvez o cansaço de viverem. ou de verem os outros viverem. ou por apenas conhecerem a rua onde o que pensam existe – há quem viva fechado dentro das próprias certezas. convencido de que o mundo termina onde acaba o seu olhar. há quem entregue a própria vida às mãos dos outros. até deixar de reconhecer a voz que traz por dentro. entre a soberba de quem julga saber tudo. e o silêncio de quem já não sabe quem é. procuro apenas continuar inteiro – e no mundo onde escolho viver. o que me magoa não me merece – o que não soma. subtraio – o mar continua a trazer. o mar continua a levar. e eu continuo à beira dele. pronto para acolher apenas o que me fizer crescer

 

II.

todas as perdas começam muito antes da despedida. este texto nunca terá um fim. haverá sempre uma palavra à procura do último ponto. por isso fica assim. incompleto. como eu



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