29/05/2026

incubadora de eus - 5. freios e contrapesos

 




em mim um sistema de freios e contrapesos – cada eu vigia o excesso do outro – não sei como os criei. cresceram como os frutos nas árvores – acredito que cada um dos meus eus ditou uma norma – e assim comecei a organizar o caos dentro de mim – diz um: quando chegares ali volta para trás – e logo outro acrescentou. não te esqueças que tu és a casa – e outro. o mais falador. que nunca está calado diz: fala. não tenhas medo. a verdade é aquela que couber dentro de ti – por fim. o mais perdido de todos acrescenta: escreve. prosa ou poesia. e se não tiveres palavras escreve um haiku. mas não te esqueças das concordâncias em modo tribal – a minha dúvida. sem solução. é saber se nasci assim. ou se o mundo me talhou à sua forma – por isso escrevo. porque só na escrita me aproximo do homem que imagino ser – pego em mim. em estado bruto. e de goiva na mão. vou tirando lascas – ao princípio desconfio da mão. mas o tempo repõe tudo no seu lugar – há dias em que passo por mim no espelho e continuo a andar. como quem evita cumprimentar um desconhecido – mas chega sempre o dia em que o enfrento e pergunto: quem sou eu? não sei – os olhos são animais perigosos. impossíveis de domesticar – no espelho eu sou apenas o reflexo do que eles gostam de criar. mas o que sinto não depende do reflexo. aí… sou verdade – as gaivotas atravessam o céu. as palavras atravessam pessoas – às vezes paro a meio da cozinha sem saber ao certo o que fui buscar – fico imóvel. a olhar a janela. como se houvesse qualquer coisa em mim atrasada da vida – já não posso mais mentir ao mundo. quero que saibam que em cada amanhecer eu sou o silêncio da noite – visto-me do que sonhei e entro no que me espera. não por destino. mas por tudo o que me leva. e se todos soubessem quantas coisas eu preciso de levar ao vento. talvez os olhos se cruzassem num devaneio louco. e eu deixasse de caber no nome que me deram – não sou o que veem. porque vivo no que sou. os sapatos que me servem nasceram nos demónios que domei. e por mais que goste de mim. nunca é suficiente – o fogo ocupa o espaço entre a bravura. e aquilo que amanhã me cala – sou mais meu quando abraço os eus. por isso aceito-os: não como chão frio. mas como caminho. e se no caminho me faltar o mundo. não importa. em mim haverá sempre qualquer coisa por descobrir – bem sei que não é fácil viver assim. não é fácil viver comigo. tão depressa faço silêncio. como corro para onde não quero chegar – quem pode esperar por alguém assim? só a minha casa guarda a chave do que sou. porque só nela me sinto inteiro. protegido dos meus demónios. e mesmo quando um deles me rouba a serenidade. eu sei que o espelho às vezes me devolve ao princípio do caminho. e é aí que volto a ver-me nos braços da minha mãe. e o meu pai a dizer: é um menino. e vai para sempre menino – de manhã aperto os atacadores devagar. como se o corpo precisasse de tempo para aceitar outra vez o peso do mundo – e vou. porque tudo em mim continua a caminhar. talvez por isso abril continue aceso em mim – é então que faço uma fogueira dentro do que sou – à volta dela chegam os meus ancestrais. a família que construí. e todos os eus que me trouxeram até aqui – dançamos em silêncio. e por cada volta ao fogo. mais um dia deste caminho


21/05/2026

incubadora de eus - 4. sem guerra





e eu fico. não inteiro. não dividido. fico como sou – há em mim mais do que um. e nenhum vai embora – aprendi que não se escolhe o que somos. apenas o que fazemos com isso – há dias em que me encontro. outros em que me atravesso. e talvez seja isso viver. não a certeza. mas o movimento – já não procuro ser um. nem deixei de ser muitos. aprendi a não fugir quando me contradigo – há um em mim que quer silêncio. outro que pede mundo – e agora deixo-os existir. não em paz. mas sem guerra – talvez nunca tenha sido sobre escolher. mas sobre suportar. e continuar. mesmo quando não sei quem sou – e eu só. só de mim. só com as palavras que me cresceram na ponta dos dedos. e em cada oração o sujeito mergulhado em formol. pergunta ao tempo quanto tempo vou precisar para que volte a ser apenas um – a cabeça de um lado para o outro. tenta reconhecer cada sentimento sem nome. e cada palavra um mar em revolta. e a água um cardume de razões para desistir – é como se dentro de mim habitassem ninfas dos tolos. e os ouvidos tapados por um eu que desconheço. como se soubesse que um dia sou engolido por mim mesmo – escrevo por que ouço as gaivotas a viver. e mesmo que a porta dos eus se feche. e a estrada se desfaça. eu vou a correr por mim para ser um pouco dessa magia – e se me faltar um eu. nem que seja inventado. eu crio-o – quero lá saber dos verbos e dos complementos diretos. eu sou o sujeito de todas as orações – tenho medo. mas também sei que a noite não fica para sempre – envelheci. e hoje deixo que os meus eus falem sem lhes pedir explicação – o que fica deles escreve-se sozinho – durante anos carreguei o que fui às costas – agora começo finalmente a sentir o peso a afastar-se – se ficarmos colados ao passado não sentimos a mudança – somos também aquilo que construímos para nos suportar – só o tempo cria distância suficiente para vermos o erro – e talvez seja por isso que continuo a afastar-me de mim – e eu sigo – é preciso quebrar a ampulheta. e partir pelo que ainda não foi – se continuo a escrever é porque nem tudo em mim nasceu da ruína – às palavras devo o que consegui salvar – foram as palavras que impediram os meus eus de desaparecer completamente. continuaram a respirar dentro de mim quando eu já não sabia como voltar – hoje já não me importa o valor do que deixo. apenas que exista – foi com as palavras que consegui continuar quando tudo em mim já queria parar – talvez chegue um dia em que o silêncio já não me doa – não sei quanto tempo vou escrever. sei que sobrevivi o suficiente para me tornar outra coisa. e mesmo que não voe serei para sempre gaivota

 


15/05/2026

incubadora de eus - 3. gaivotas

 



gaivotas – atravessam – há nelas qualquer coisa que não é minha – voam contra o vento como se o vento não mandasse – e depois deixam-se levar como se nunca tivessem escolhido – não sei se são livres. ou apenas melhores a obedecer – são as únicas amigas de éolo – acredito que ao contrário de guardar o vento numa caixa. o guardam debaixo das asas – às vezes rasgam o ar. outras voam para o céu como anjos – e eu sem saber se o fazem por vontade. ou apenas por destino – há momentos em que parecem decidir. outros em que parecem cair – e eu aqui em baixo. sem saber qual dos dois sou. ou qual deles sou em cada rajada – também tenho um vento. empurra-me. puxa-me. muda de direção sem me pedir –  todos temos um destino. todos temos um vento. todos temos um vento que sopra a favor – nem que seja por um dia. por um momento de silêncio – o meu vento é a minha força. mesmo quando me empurra para um destino que não quero – às vezes avanço. outras cedo. e nunca sei se fui eu. ou se fui levado – olho para elas e penso: como se aprende isto? voar sem pedir. sem explicar. sem hesitar – talvez não aprendam. talvez apenas sejam. e eu ainda não – se ao menos soubesse escrever a força do vento. e dizer quantas poeiras minúsculas são minhas – não sei – o que sei é que todas juntas fariam uma ilha só para mim. com uma casa em cima de uma onda. e uma cama feita de sono profundo. sono descanso. sonho quieto – onde os meus eus acordam sem saber qual de mim abriu os olhos


12/05/2026

incubadora de eus - 2. se alguém me ouvir

 




ao leitor não importa qual dos eus fala. importa que fale – as palavras são gaivotas para mim. liberdade – e para quem me lê? não sei. talvez nada. talvez apenas o deslumbramento de um eu que precisa de ser compreendido – se eu soubesse falar não escrevia. juro – as palavras dizem o que podem. para mim quase tudo. para o leitor… quase nada – e ainda assim salvam-me – pergunto sempre ao eu que escreve: o que seria de ti sem isto? poeira? estrada sem fim? talvez um homem sentado na falésia a olhar para os próprios pés – dentro de mim nada sai que não me pertença – o que de mim chega ao papel pouco importa. importa o que me sustém – e ainda assim escrevo. como quem procura alguém que diga: quando escreves és eu – procuro-me nos outros. nos seus silêncios. nas suas falhas – talvez escreva para não desaparecer. ou para deixar rasto. ou mapa – acredito que as palavras podem ser mais do que isso. que podem tocar alguém. mesmo que por um instante – um gesto. um reconhecimento. um sim dito em silêncio – e então escrevo mais – não para explicar. não para convencer. mas para existir fora de mim – há dias em que sinto que tudo o que escrevo me ultrapassa. e outros em que nada do que escrevo chega – e nesse intervalo continuo. escrever é o único lugar onde não me perco completamente – e mesmo que ninguém leia. mesmo que ninguém compreenda. há sempre um eu que fica – isso basta – mas confesso: se um dia crescer. se os dedos exigirem razão. mesmo que seja apenas com um dedo. escreverei tudo o que penso – serei olhos abertos sobre o mundo. serei ninguém por ser de todos. e ninguém por caber em todos – e no fundo do que sou. um murmúrio de gente como eu. a acenar em silêncio – escrevo na procura de quem me reconheça: quando escreves és eu – sou a procura dos meus eus nos outros. na palavra certa no lugar incerto de quem lê – todas as incertezas pedem um gesto que as atravesse – e a desilusão ensina-me a resistir aos que não me alcançam – envelheci. e agora tanto faz falar como calar. o que me sobra são palavras – às vezes é preciso sair do que fomos para tocar o que somos – sem distancia do passado não há mudança – somos também o que construímos para nos suportar – o tempo não mede. afasta – não me diz onde estou. mas empurra-me – por isso avanço pelo que falta – fui feito no amor. e é com isso que escrevo – às palavras devo o que consegui manter aceso – foram elas que alimentaram os meus eus. que atravessaram a escuridão – que me devolveram de onde eu já não voltava – hoje já não me importa o valor do que deixo. apenas que fique – porque foi com elas que atravessei esta extensão sem fim – e um dia. quando se calarem. saberei que cheguei – não sei quanto tempo ainda escrevo – sei apenas que me inventei nos destroços. e mesmo que não voe. há em mim qualquer coisa que já aprendeu a ser gaivota