ao leitor não importa qual dos eus fala. importa que fale – as palavras são gaivotas para mim. liberdade – e para quem me lê? não sei. talvez nada. talvez apenas o deslumbramento de um eu que precisa de ser compreendido – se eu soubesse falar não escrevia. juro – as palavras dizem o que podem. para mim quase tudo. para o leitor… quase nada – e ainda assim salvam-me – pergunto sempre ao eu que escreve: o que seria de ti sem isto? poeira? estrada sem fim? talvez um homem sentado na falésia a olhar para os próprios pés – dentro de mim nada sai que não me pertença – o que de mim chega ao papel pouco importa. importa o que me sustém – e ainda assim escrevo. como quem procura alguém que diga: quando escreves és eu – procuro-me nos outros. nos seus silêncios. nas suas falhas – talvez escreva para não desaparecer. ou para deixar rasto. ou mapa – acredito que as palavras podem ser mais do que isso. que podem tocar alguém. mesmo que por um instante – um gesto. um reconhecimento. um sim dito em silêncio – e então escrevo mais – não para explicar. não para convencer. mas para existir fora de mim – há dias em que sinto que tudo o que escrevo me ultrapassa. e outros em que nada do que escrevo chega – e nesse intervalo continuo. escrever é o único lugar onde não me perco completamente – e mesmo que ninguém leia. mesmo que ninguém compreenda. há sempre um eu que fica – isso basta – mas confesso: se um dia crescer. se os dedos exigirem razão. mesmo que seja apenas com um dedo. escreverei tudo o que penso – serei olhos abertos sobre o mundo. serei ninguém por ser de todos. e ninguém por caber em todos – e no fundo do que sou. um murmúrio de gente como eu. a acenar em silêncio – escrevo na procura de quem me reconheça: quando escreves és eu – sou a procura dos meus eus nos outros. na palavra certa no lugar incerto de quem lê – todas as incertezas pedem um gesto que as atravesse – e a desilusão ensina-me a resistir aos que não me alcançam – envelheci. e agora tanto faz falar como calar. o que me sobra são palavras – às vezes é preciso sair do que fomos para tocar o que somos – sem distancia do passado não há mudança – somos também o que construímos para nos suportar – o tempo não mede. afasta – não me diz onde estou. mas empurra-me – por isso avanço pelo que falta – fui feito no amor. e é com isso que escrevo – às palavras devo o que consegui manter aceso – foram elas que alimentaram os meus eus. que atravessaram a escuridão – que me devolveram de onde eu já não voltava – hoje já não me importa o valor do que deixo. apenas que fique – porque foi com elas que atravessei esta extensão sem fim – e um dia. quando se calarem. saberei que cheguei – não sei quanto tempo ainda escrevo – sei apenas que me inventei nos destroços. e mesmo que não voe. há em mim qualquer coisa que já aprendeu a ser gaivota
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