21/07/2026

mor

 




 

habituei-me a chamar-te amor

mor para ser fácil

e dou comigo a pensar

se não foi um erro…

gastei a palavra

os ouvidos deixaram de ouvir

e até eu

esqueci o seu valor

 

quando te chamo mor

sou um catraio

joelhos rotos

pião no fio

e os berlindes da tua cor

 

e agora… sinto-me

não sei… talvez desesperado

sem palavra que te sirva

 

mas preciso de chamar mor

preciso de me sentir…

não catraio

mas perto de ti

assim…

meio perdido de mim

 

enrodilho as mãos

a boca foge

e o silêncio aproxima-se

devagarinho

 

que tolo

gastei a palavra

e nem os que passam em sentido contrário

a escutam

talvez por serem de outras casas

talvez por

nada saberem de nós

não viverem dentro de nós

 

ocupaste-me

e existo

somos os dois tão pequeninos

abrigados numa palavra

que ninguém sabe dizer

 

mor

que coisa ridícula

como se fosse segredo

ou um papelinho

dobrado em vergonha

um ventinho

para soprar a palavra até ti

 

o incerto é quase sempre

o caminho

para te encontrar nos olhos

atar-te a um cordelinho

e trazer-te para o que sinto

 

mor

todos os dias nascem dentro de ti

e isso basta-me

para aceitar o fim

 

 

fazes-me feliz


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