03/06/2026

UA. o meu nome preso a uma mão

 




a tristeza não se consegue escrever – sentado na escrivaninha. as mãos a tocar as teclas. as paredes frias. e as lágrimas a escorrer sem tocarem a pele – há qualquer coisa que as esconde do mundo – o que é meu não pode ser de mais ninguém – nunca quis ser forte. nunca precisei de ser maior do que sou. tudo o que fiz a correr foi para chegar mais longe – a boca sempre foi o meu maior pesadelo. nunca soube dizer o que não sentia. e por isso. tornei-me escravo da minha verdade – a balança já com tara. a pesar cada verbo no futuro. e eu a dizer que cresci. mudei. a pedir perdão por cada palavra nova que inventava – talvez viver fosse só isto – mas depois. há as pessoas. elas crescem connosco. não ao lado. nem há frente. dentro de nós. como se fossem terra. semente. como móveis antigos dentro da casa – queremos muito acreditar que tudo é para sempre – nascemos. e no peito o coração bate amor. não sabemos o que é. sabemos que nos aquece. ficámos maleáveis. e tomamos a forma dos braços que nos embala – choramos sem conhecer a dor. apenas para crescer. para aprendermos a doçura – um dia rimos. um dia passamos sem comer. mas nunca sabemos a verdade que o ventinho norte nos vai trazer – foram tantas as noites que passei a imaginar o futuro. e em nenhuma me vi a partir sem levar a saudade de quem me ensinou a voar – hoje saiu de minha casa a minha segunda mãe. e ainda não sei o que fazer com o corpo. estou assim – faz frio. quero voltar ao passado. aos braços que me ergueram. e trazer tudo de volta. ouvir o coração antes das palavras. voltar ao colo. ao primeiro UA – agora estamos os dois a lutar. a UA à sua maneira. amarrada ao seu deus – mas eu não sei rezar. e interrogo-me porque a vida nos faz isto – o corpo fraco a agarrar-se à vida. e o meu nome preso a uma mão a tremer. como se toda a nossa vida fosse apenas aquele momento. os olhos com sede de vida perdidos numa casa sem nada nosso – só queria fugir dali. levar-te comigo para uma varanda antiga onde ainda coubéssemos os dois – tantos anos. e nunca me falhaste. estiveste sempre ali. como se ali fosse o princípio de todos os dias. e eu sempre a correr. como se esse dia nunca fosse acabar. como se amar fosse distância – agora tenho a tua voz a sussurrar baixinho dentro de mim. o teu nome é a minha vida. e se houver um deus maior. no dia em que a porta se fechar. eu estrarei na barca para te dizer: leva-me num lencinho de mão. recorda-me… e protege-me do frio que aí vem




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