“desapareci” por
uns tempos do ciberespaço para escrever este ensaio pessoal de dimensão contida
sobre o [meu] ato de comunicação. a escrita que produzo como emissor. como eu-artista
ou [também] como eu-lírico. confesso que. com menos frequência – do outro lado.
em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou
menos próximo. mais ou menos silencioso. crítico. ponderado. com capacidade de
reflexão e principalmente. com sensibilidade para me ler as pausas. a pontuação
e as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta
de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me
lê – quase toda a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “o
autor morre quando põe o ponto final. o leitor nasce a seguir” – nem sempre é
fácil escrever o que trazemos no miolo da alma. a dificuldade torna-se
desespero e o apelo interior para fugir ensurdece – escrever dá trabalho para
caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornarão palavra. coisas que
só o coração sente e que por mais esforço e entrega nunca chegarão ao leitor – não
sou mestre o suficiente – em boa contramão. há a bondade do leitor-amigo e
também do leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem
que. na maior parte das vezes. não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros
o meu mais profundo agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que
de certa maneira resume em muito a minha motivação para escrever - “no fundo.
todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a
necessidade de deixar algo feito. porque esta vida não é eterna e deixar coisas
feitas pode ser uma forma de eternidade”
introdução:
“não vale a pena ter vaidades no processo. porque o que existe de facto é o leitor” – josé ilídio torres
não
vale a pena ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor.
escrevo a partir desta verdade como quem aceita uma condição sem defesa. tudo o
resto vem depois. o estilo. a biografia. a ambição – quando escrevo. escrevo
para alguém que não vejo. alguém que não controlo. alguém que termina o texto
por mim – o leitor não é o fim da viagem. é o ponto de partida – foi o tempo
que me ensinou a desconfiar da vaidade. envelhecer não dói apenas no corpo. dói
na memória. na comparação entre o que fomos e o que já não somos – a escrita
ficou. é o único lugar onde a idade não manda. aqui começa outra coisa. não
nasci com facilidade para as palavras. tudo o que escrevo é trabalho.
insistência. erro. releitura – escrever nunca foi talento natural. foi
teimosia. talvez por isso nunca tenha escrito sem pensar no leitor – é por ele
que volto atrás. corto. recomeço. tremo antes de publicar – aprendi cedo que um
texto não pertence a quem o escreve. pertence a quem o lê. e que basta uma
palavra escrita para justificar uma folha inteira – não escrevo para me
imortalizar. escrevo para falar com alguém – se houver um leitor. basta
1. o
leitor como origem
e aqui estou eu novamente – escrevo. escrevo o que
sei e o que posso. escrevo também o que me dá na real gana – confesso que estou
aterrorizado com as palavras. ou com a sua ausência. desapareceram de mim.
abandonaram-me. nem uma ficou para me iludir – estou completamente só. até de
mim também. não é fácil escolher escrever quando tudo em mim pede fuga. leio.
comparo. tenho tantos livros no meu pé-de-meia. tanta gente que dedicou a vida
à escrita. ao estudo. à procura do mais certo para dizer o incerto. e eu aqui.
como se o meu computador fosse uma arma de destruição maciça. a tentar vender
gato por lebre – releio um texto e surge sempre a mesma frase. podias fazer
melhor. releio outro e a frase regressa. não grita. insiste. a questão é só
uma. poderia ou não fazer melhor – caio em frustração e desapareço do word.
escondo-me no silêncio e interrogo-me em mil e uma coisas que não sei
responder. se tinha dúvidas antes de me esconder agora tenho o dobro. escondido
não sou de ninguém a não ser de mim. sozinho falo apenas para mim. e cada
palavra pesa como uma multidão – dito de forma direta. estou ausente de tudo.
do mundo. dos amigos. da memória. das mãos. da realidade. estou ausente
sobretudo do critério para distinguir a palavra viva. da palavra tosca que chega
ao papel aos repelões. raivosa. inútil. um desabafo hostil – bem sei que há
coisas que não controlo. quando partimos do corpo deixamos tudo para trás. até
o critério. e um homem sem critério não escreve. gatafunha – para se escrever é
preciso um propósito sério. uma mensagem coerente. ponderada. mas também
intensa. questionável. controversa. com pensamento maduro. mas sem perder a
irreverência – depois. é preciso escrever como quem conversa entre amigos. com
calor. com paixão. com envolvimento. capaz de puxar o leitor para dentro de si.
sentá-lo no seu interior com vista para tudo o que é seu. convidá-lo a sair do
seu mundo e dizer-lhe que. apesar do seu silêncio. é ele quem termina todas as
histórias – nenhum escritor sobrevive sem pelo menos um leitor. o leitor é o
centro do universo. todas as histórias gravitam à sua volta. não vale a pena
ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor. cabe-lhe
depurar a leitura. separar a palavra que abraça da palavra que diz basta. daqui
para a frente somos diferentes. acabou a tua história. só a leitura une o autor
ao leitor para sempre – um escritor precisa sentir-se possuído por um leitor
exigente. provocador. irreverente. só assim evolui – um escritor não é um ser
especial. é um carregador de palavras. um carrejão que transporta no corpo o
compromisso imperfeito do homem com o progresso. a imperfeição é o primeiro
passo da evolução. e o escritor-artista sabe isso melhor do que ninguém. ele
sabe que escrever é uma arte de sacrifício. e de superação. por isso não se
cansa de questionar o que escreve – quando não escreve é infeliz. quando
escreve também. a felicidade e a escrita não se misturam – o homem que escreve
é um sofredor na procura constante da perfeição. aceitar o erro é o seu grande
desafio. cada palavra escrita leva um pedaço da sua vida. assimilar. amassar.
dar forma. levar para o papel a sua realidade – um escritor é um interposto de
vários ADN. quando cuidadosamente compilados com arte. sacrifício e devoção.
transformam-se numa mensagem com força suficiente para mover a matéria do mundo
– por mais empírica. por mais precisa e verdadeira. só se manterá
inquestionável enquanto permanecer silenciada e oculta no interior do seu
criador. depois da criação artística. depois de entregue à leitura. será o que
cada leitor quiser que seja. essa é a missão – a minha verdade não existe fora
do meu corpo. cada leitor constrói a sua. e eu sou apenas isto neste momento.
um corpo em avaria total. entrei em combustão. o odor a palavra carbonizada é
insuportável – a escrita ficou – estou amarrado à palavra por um fio. no limite
da esperança. escrever exige vontade. tempo. solidão. silêncio. e eu estou
vazio. sem vontade. sem silêncio – resta a magia. procuro-a. quando não há
magia não se escreve. apenas se sobrevive no passado – com a escrita
reescrevo-me. aguento-me de pé. invento um ombro amigo que me diz tem calma.
isto passa. um dia estás com dez páginas escritas. sinto-me às portas do
inferno – só a escrita me protege da loucura. mesmo quando não escrevo continuo
exposto ao escrutínio dos leitores – o passado de quem escreve nunca morre.
enquanto houver um leitor. as palavras permanecem – escrevo para sobreviver.
sempre que escrevo crio uma vida. tantas quantas folhas de papel. não é fácil
escolher escrever quando tudo em mim pede fuga – é quando me escondo no
silêncio. interrogo-me. vale a pena continuar. será perseverança ou teimosia?
leio. comparo. sinto-me pequeno. sinto-me medíocre. e ainda assim escrevo.
porque escrever é existir. é não me repetir – quando não escrevo. repito-me
2. o corpo
em desordem
quando não escrevo. repito-me. torno-me
insuportável. maltrato-me. fujo dos espelhos como um vampiro. escondo-me atrás
de uma folha de papel e juro que a culpa não é minha. é do divino. de toda a
gente. da casa. da janela meio fechada que deveria estar entreaberta. do tempo.
da porta escancarada. das alterações climáticas e do el-niño que me sacode as
folhas e me atira ao desespero – quando não escrevo. os olhos desalinham-se. as
mãos engalfinham-se e o corpo grita socorro para dentro porque por fora o mundo
é surdo – ninguém quer saber de quem escreve – estou triste. em desordem
emocional. com a língua descolorida. e os lábios secos escondem uma boca a
saber a papel. o nariz ranhoso. os canais lacrimais em conflito. chora. não
chora. e o corpo. numa pilha de nervos. desafia tudo o que se atravessa – a
escrivaninha desfeita segura no tampo o zumbido-assobio de um computador podre.
geme de manhã à noite. está no fim. dizem que se formatar fica para mais um
tempinho – para quê se não tenho palavras. está tudo um caco. tudo preso por
arames. eu também. e não me posso formatar. a idade já não permite. há um
limite no tempo para recomeçar tudo de novo. passei esse limite há muito –
agora tudo me amedronta. não sei o que é feito das palavras. não sei se foram
de vez ou se voltam com mais exigências – estou como o burro no meio da ponte.
sem saber se espero ou desapareça para dentro de um livro – estremeço. a cabeça
imagina a morte. os pulmões rasgam-se. os braços deitam-se ao passado e remexem
no que está escrito – reler alivia a pressão – e o desassossego instala-se em
tudo o que sou – caio. não caio. desisto. não desisto. estou aflito. perdido.
sozinho. até de mim – o desespero trabalha com engenho. atiça o desalento.
devora coragem. corrompe a confiança – enlouqueço e tudo o que é louco está
fora da racionalidade. do equilíbrio. da tolerância. da esperança – a escrita é
a minha alegria – bem sei que posso sempre falar. mas a fala é volátil.
passageira. imprecisa. engasgo-me. a cabeça acelera. as palavras enrodilham-se
no céu da boca. fico vermelho. desatinado. morro de vergonha – será tudo obra
do divino para me obrigar a escrever? confesso que não sei. e não sei o que
fazer para inverter este apagão – apesar da agitação esperar é a única solução
– quem espera sempre encontra o que procura – estou nos limites da tolerância –
não posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir
de mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também. é agora ou
nunca. pelo menos um tem de chegar ao papel. um. não é preciso mais. basta um
para me despertar desta nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras
desçam pela coluna vertebral e ejacule. basta um e fecundo o papel de tudo o
que sou – basta um – o meu estado de alma está baralhado. confuso. sem rumo.
nada em mim é firmeza. coragem. liderança. quem diz se sento ou não sento. se
deito ou não deito. se parto a jarra ou não parto. se desisto ou não desisto…
quem? sinto o cérebro dividido por um muro de betão. de um lado o que sou. do
outro o que quero ser – e os neurónios esfrangalhados por um texto diabólico da
clarice. um texto destes pode matar qualquer leitor – um leitor morto perde a
lucidez. desfaz-se – e o muro a dividir o que estava unido. uma criança amuada
de um lado. malabarista do outro. os livros em branco no ar. e a mão de atena
sem chegar – os dias repetem-se nas folhas. os livros permanecem no vazio – não
posso esquecer que nasci em abril. nasci em revolução. de cravo ao peito. em
palavras de ordem – a escrita a quem a trabalha – serei abril até ao último
suspiro – olho para o que sobra de mim e vomito. estou um esterco. mas estou
aliviado. pronto para recomeçar o que verdadeiramente nunca acabei – quero o
mesmo cheiro a papel. às letras. às concordâncias. o mesmo barulho do mundo a
correr – estou desabitado de tudo – não sei o que dizer. juro que não sei –
digo que os rios correm para o infinito do mar. quantos poemas dizem o mesmo.
quantos falam de porra nenhuma – e eu com a mania das grandezas nunca estou bem
com nada do que escrevo – não sou humilde – um dia vou pagar por esta altivez –
não é justo viver assim. não é fácil. eu só quero escrever uma história –
quando escrevo sou criança. uma criança de júlio dinis – só quero ser criança e
escrever. mais nada – nunca quis ser grande coisa – o mundo fabrica coisas que
não são para mim – mas não importa. tenho o essencial. uma mulher que amo.
filhos que me adoram. dois cães que me idolatram – tenho um cão que é quase
labrador. quase porque aqui em casa não há raças puras. eu também sou quase
escritor. quase parvo. quase um cavalheiro. sou quase tudo o que gostaria de
ser. mas não sou – o quase que se lixe – o max deita-se ao meu pé enquanto
escrevo. enrola-se sabendo que a noite será longa. nada interfere entre o
teclar e a melodia de bach – sempre que teclo com mais força abre um olho. mede
o meu estado de alma. três segundos. está tudo bem. volta a fechar – creio que
a sua missão secreta é não deixar fugir nenhuma personagem – leio em voz alta.
ele escuta. não julga – fico com a ideia de que para ele tudo o que faço
ultrapassa a excelência – escrever é isto mesmo. enroscarmo-nos em nós.
imaginar um final feliz para um texto quase todo infeliz – não quero ser nada
especial. quero escrever – mas faltam-me palavras para explicar o vazio que as
palavras deixam – quando não escrevo. repito-me
3. a
quase-morte da palavra
quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim.
torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso
que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me
sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do
essencial. e a escuridão toma posse do desejo – primeiro ataca as mãos. depois
o corpo começa a resfriar. a temperatura cai. e os órgãos desorganizam-se –
fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele enrubesce. as unhas
param de crescer. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha o coração. e
interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – fico exausto.
cansado. com a tensão completamente descontrolada – não há de ser nada – o que
me inquieta é sentir o odor da morte. a sua vontade de ceifeira – sei
reconhecer quando a morte sai à rua. também sei quando passa perto de mim – só
não sei se vem por mim. ou pelas poucas palavras que ainda tenho – quando estou
neste estado de quase-morto tudo o que identifico é a tristeza – ninguém
entende esta mágoa. nem eu a sei escrever. ou desenhar. ou transformá-la em
poema – não sei de onde veio. nem como se instalou no corpo. só sei que magoa
–tocam os sinos da igreja da minha paróquia. o badalo anuncia defunto. em
terras pequenas os sinos são mensageiros das más notícias – dizem que quando o
sino deixa um ronco longo. um rasto que não quer parar. alguém morreu ou está
para morrer – não sei se roncou. acho que sim. confesso que estou com medo. não
da morte. mas de não concluir três ou quatro manuscritos que julgo importantes
para quem é próximo – vou ficar atento. um ouvido no adro. outro de vigia ao
sineiro – mas ainda estou vivo. sei-o porque respiro. e ainda não há ceifeira
por perto – nunca pisaria o meu espólio literário para desaparecer do mundo.
nunca pisaria o conde de monte cristo. o dom quixote. o tolstói. o pessoa. o
gabriel garcía márquez. o camões. o meu querido júlio dinis – por eles seria
imortal – resistirei até que a palavra me chegue às mãos – toda a palavra que
me chega às mãos respira. e faz-me respirar – sem palavras não sou nada – mas
também não quero ser nada para além de falar com o que escrevo – nasci para
escrever. quero escrever. sei o que quero ser. mas também sei o que não posso
ser – hoje só quero que nada me aborreça – no futuro. noutro dia. talvez queira
ser um saca-rolhas para arrancar de mim este desassossego. ou um garfo para
levar alimento à alma. ou uma toalha para enxugar a amargura. ou uma caixa de
fósforos para incinerar maus momentos – por agora só quero continuar – não
posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir de
mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também – é agora ou
nunca. basta um. um tem de chegar ao papel. basta um para me despertar desta
nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras me subam pela coluna
vertebral. basta um e fecundo o papel de tudo o que sou – basta um – o resto é
ruído – o passado pesa. o futuro ainda não chegou – só o presente respira –
cada palavra que chega às mãos devolve-me o corpo – quando respiro o corpo
acredita na vida eterna – escrevo para falar com alguém – não peço mais nada –
sem palavras não sou nada – quando não escrevo. repito-me
4. a
tentação da fuga
quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim.
torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso
que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me
sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do
essencial e a escuridão toma posse do desejo. primeiro ataca as mãos. depois o
corpo começa a arrefecer. a temperatura cai. os órgãos desorganizam-se. dão
sinais de colapso – fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele
enrubesce. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha-me o coração e
interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – não tenho medo de
morrer. tenho medo de ficar parado – tenho medo da imobilidade – escrever é o
que me mantém preso à vida. mas quando a escrita falha. tudo falha – e o corpo
começa a pedir outra coisa. velocidade. fuga. deslocação – preciso de sair de
mim – é quando me imagino num automóvel de velocidade. descapotável. a galgar
quilómetros de indiferença. sem medo do tempo. a deixar para trás o que fui – o
futuro é o pé no acelerador. o vento a rasgar o rosto. o corpo centrifugado das
impurezas a pedir mais estrada – não penso. não escrevo. avanço – e a boca fala
sem cuidado. sem ética. sem contenção. a mandar embora tudo o que pesa – quero
distância. quero ruído. quero que o passado desapareça no retrovisor – mas o
retrovisor insiste – olho. vejo-me a chegar do futuro – tudo o que vejo já não
existe à frente de mim. existe apenas atrás – basta uma milésima de segundo
para que tudo se torne passado irreversível – tiro os olhos da estrada e o
futuro já passou – o automóvel corre. mas eu continuo dentro de mim – paro.
arranco. paro. acelero – vou com velocidade. sem pressa – ligo o rádio. desligo
– não quero vozes. não quero notícias. não quero histórias que não são minhas –
a velocidade promete libertação. mas não entrega sentido – não se pode fugir de
si sem levar o corpo atrás – percebo então que a fuga também cansa – que a
estrada não escreve – que nenhum motor substitui uma palavra – posso correr o
mundo inteiro. mas continuo sem escrever – e sem escrever volto ao mesmo lugar
– parado. repetido – quando não escrevo. repito-me
5. onde a
linguagem perde um corpo
quando não escrevo. repito-me. mas há um dia em que
a repetição ganha peso real. um peso que não se imagina – é o dia em que a
morte deixa de ser metáfora – o meu pai morreu e com ele morreu uma parte da
linguagem – não a fala. a linguagem – porque há mortes que não retiram
palavras. retiram o lugar onde elas assentavam – lembro-me do dia como se o
tempo tivesse decidido parar só para nos observar – março. luz limpa. uma brisa
mansa. tudo indecentemente normal – o mundo não se perturbou com a morte do meu
pai – continuou a girar como se nada tivesse acontecido – essa é talvez a
primeira violência da morte – o silêncio misturava a família. os amigos. os
curiosos – todos juntos. todos separados – o padre falava em fé. em vida
eterna. em casa de deus – eu pensava em casas vazias – o meu pai sempre gostou
de ter pessoas à sua volta – naquele dia tinha todas. mas já não estava –
quando caiu a primeira pá de terra algo se fechou definitivamente – não foi o
caixão – foi a linguagem – percebi nesse instante que há coisas que nunca mais
se dizem da mesma forma – a palavra pai perdeu corpo – ficou ideia – e uma
ideia não abraça – o funeral é o reconhecimento da morte – é o cais de embarque
para uma viagem sem retorno – até ali ainda se nega – depois. aceita-se – a morte
exige assinatura – perdi-me nesse dia – passaram anos – ainda estou ali a ver a
terra a cair – há memórias que não avançam no tempo – ficam suspensas. não
envelhecem. apodrecem devagar – desde então escrevo com essa falta. não para a
preencher. isso seria impossível. mas para a contornar – escrever tornou-se uma
forma de conversar com o que já não responde – um monólogo consentido pela
ausência – não escrevo para ressuscitar o meu pai. isso seria blasfémia.
escrevo porque ele me ensinou a estar sentado à mesa. a ouvir. a esperar. a dar
tempo às coisas – e escrever é isso. é dar tempo ao que dói – há dias em que
escrevo e sinto que ele está ali. não como fantasma. como silêncio bom. aquele
silêncio que não julga. que não apressa. que não exige explicação – quando
escrevo respiro. quando respiro acredito. e quando acredito aceito que a morte
não é o fim da palavra – é o lugar onde ela começa a pesar – não tenho medo da
minha morte. tenho medo de morrer antes de dizer o essencial – talvez por isso
escreva. talvez por isso continue – o meu pai morreu. eu fiquei. e fiquei com
palavras a mais e tempo a menos – escrever é a forma que encontrei de não
desaparecer com ele – quando não escrevo. repito-me
6. existir
no meio do ruído
quando escrevo. não é vaidade. nem arte no sentido
elevado da palavra – escrever é sobrevivência – uma espécie de hemodiálise –
limpo o sangue. purifico-me. e volto ao mundo mais justo. mais tolerante. mais
inteiro – gosto de me sentir bem. de andar bonito no mundo – gosto de sorrir e
de sentir sorrisos em contramão – o mundo é feito de sorrisos. uns sinceros.
outros contrafeitos. alguns bordados à mão – mas sempre com afeição – gosto de
quem sorri – da mulher que amamenta. da que trabalha. da que ensina. da que
lava o chão – gosto do homem que prefere sorrir a endurecer – gosto dos que
fazem. dos que cuidam. dos que resistem – nem que fosse apenas pela minha mãe.
nem que fosse apenas pelo meu pai – gosto do sorriso da natureza – da chuva.
dos rios. das árvores. das aves – gosto do sorriso dos animais – dos que voam.
dos que rastejam. dos que sobrevivem – gosto do sorriso do mundo quando ainda
acredita em si – mas confesso que ultimamente tenho perdido a fé – não no
mundo. mas na forma como o mundo escuta – ainda assim não perdi a fé na escrita
– escrevo para não me repetir – escrevo para renovar a confiança – escrevo para
encontrar outra forma de entregar o meu sorriso – quando escrevo trago o leitor
para dentro de mim – acomodo-o – dou-lhe permanência – entrego-lhe tudo o que
sou – sem defesas – o texto é frágil – caminha-se nele com cuidado – cada
palavra pode partir – o leitor sabe isso – caminha atento – compreende – avalia
– e nessa atenção cria-se um lugar onde a morte recua – enquanto lemos ninguém morre
– existe apenas o perigo de morrer – os que escrevem vivem em clausura – não
por desprezo do mundo – mas por excesso de amor – tudo nos importa – mesmo o
que nos rejeita – mesmo o que nos ignora –vivemos num tempo de ruído –
mensagens curtas. frases leves. tudo para durar um dia – ler tornou-se difícil
– escrever tornou-se quase inútil – o leitor é uma espécie em extinção – e no
entanto escrevemos – não para agradar – mas para existir – escrevemos porque
sem palavras desaparecemos – escrevemos para que alguém. algures. nos encontre
– não queremos mansões. nem poder. nem heranças – queremos apenas isto – que a
palavra seja justa – que a língua seja honrada – que a escrita seja digna do
que carregou antes de nós – escrever é confiar no invisível – acreditar que
alguém surgirá de trás de um parágrafo – que lerá – que não nos deixará morrer
sozinhos – escrevemos com medo – cada frase é um risco – cada leitura uma bala
– nunca saberemos se morremos de alegria ou de desgosto – só o leitor saberá –
escrevemos amor. mas dói o erro – escrevemos fé. mas pesa a rotina – escrevemos
vida. mas o que dói é morrer sem chegar –escrevo para enganar a dor – escrevo
para não me tornar vulgar – escrevo porque ainda acredito que uma palavra pode
fazer falta – nem que seja por um instante – existir é isso – fazer falta – nem
que seja uma vez – quando não escrevo. repito-me
7. existir
no meio do ruído
quando não escrevo repito-me – escrevo então. imito
os escritores. e não sou sequer remotamente semelhante aos que sabem escrever –
mas escrevo. bracejo ideias para um teclado negro enquanto os olhos expulsam
uma luzinha hesitante. quase intermitente. como faróis rasgados pela tempestade
– escrevo protegido por uma persiana que do dia faz noite. luz acesa. quatro
lâmpadas iluminam um silêncio absoluto. um quadrado triste e aflitivo – atrás
da escrivaninha uma cadeira segura duas mãos penduradas. inertes. enquanto o
corpo oscila à procura das palavras – não é fácil escrever – escrevo.
procuro-me para fazer uma história – esfrego a manhã nos olhos. estou cansado.
os verbos parados numa indecisão rebelde. continuo ou não continuo – movo-me na
cadeira. os verbos também. querem fazer-se sentir – estremeço. o pensamento
estremece comigo – chegou a hora da luz. o quadrado entra em declínio. desaba –
a manhã explode pelas frinchas e uma ideia implode – o que era para ser
história é agora entulho – o delete pede um impulso suicida – que se dane.
nenhuma ideia é boa até ser história – escrever enlaça-me ao tempo. mesmo ao
que já passou – tudo passa. a vida passa. os amigos passam. a juventude passa –
os livros passam de mão em mão e as palavras tornam-se estranhas – escrevo para
me afastar de mim. para sair de mim – acredito que com a minha escrita acontece
o mesmo que nos retrovisores: há um ponto neutro que nos esconde a realidade. e
quando menos se acredita. ali está o leitor em atenção. a buzinar. a surgir de
trás de um parágrafo – encontro quem me lê como chega o vento norte. frio.
inconstante. descuidado – e eu perdido de mim. a morrer devagar por um
substantivo coletivo que nunca chega a ser comunidade – resisto – nem sempre
digo o que esperam de mim – escrevo. escrevo e não sou de ferro – escrevo e
choro – e a baba a escorrer pelo canto da boca. e mais outra. e mais baba. e
outra. e as manhãs começam numa carnificina – escrevo esta melancolia que me
ameaça dia após dia – como se a minha vida dependesse do que escrevo – em
tempos não dependeu. hoje escrever é o que me resta para continuar a sair de
mim – não há forma de me esconder da claridade. também não quero. acredito em
recomeços – acredito que cada raio de sol traga outra hipótese. talvez uma
palavra. talvez um silêncio. talvez apenas a coragem de continuar – escrever é
a negação do céu. é insatisfação dos órgãos – hoje dói um pulmão. amanhã o
coração – falta o ar. falta o humor. falta o sentido. e mesmo assim escolho a
palavra para louvar a vida quando já estou meio morto – escrever separa os
amigos – do lado de dentro ficam os que sabem ler. os que podem magoar – do
lado de fora os que vivem sem palavras – os que não leem não sabem magoar.
vivem do lado de fora do corpo. ausentes das palavras – não os condeno. mas não
posso viver ali – não sei porra de nada de mim. nada em mim é suficientemente
importante para decorar – quando me perguntam a matrícula de identificação
respondo: tenho que ver no bilhete. não sei de cor – escrevo porque não sei
viver de outra forma. porque escrever é a única linguagem inteligível que me
permite falar – é com as palavras que saio de mim. e quando me dou conta.
regressei – não sou escritor. imito os escritores – arremesso palavras contra o
papel com uma raiva boa – uma atrás de outra – e continuo – escrevo porque tudo
que escrevo é um bilhetinho que podes encostar ao coração. ou trazer no lenço
da mão. ou no bolso pequenino das calças. porque só quem escreve poderá um dia
ressuscitar – onde houver uma folha em branco eu escrevo. o que for preciso
para existir. e se ali tiver de morrer. que seja com todas as palavras
possíveis – quando não escrevo. repito-me
8. onde o
escritor se faz papel
não vale a pena ter vaidades no processo. porque o
que existe de facto é o leitor” – é verdade. o josé torres nunca teve tanta
razão – é por esta razão. gigantesca. que escrevi este conjunto de páginas e
decidi reconhecer [para sempre] que todo o leitor necessita de papel nas mãos –
assim farei. assim me farei papel – prometo – como será ainda não sei. mas
tenho umas luzes em que acredito – mas nunca jamais poderei [vocês também]
esquecer este meu amadorismo – tudo farei para não vos embustear. nem
desapontar


