02/03/2026

dentro do que ficou

 




1.

se me perguntarem o que quero da vida. quero só isto: mais um dia – parece pouco. não é – digo isto e ouço o cliché na minha voz – quando cortamos o tempo. o erro expõe-se; abrimos a ética e a moral com bisturi – há em nós algo que não é lei universal – é erro. às vezes só nosso. por vezes ilusão. outras o erro atravessa quem mais gostamos – só o erro pesa quando o levamos – o que está certo não pesa. assumimos que todos fariam o mesmo. aí nasce a lei universal – não somos salvos pelo que está certo – o que está certo não tem louvor. nem medalha no peito – já para o que está errado. não funciona assim – o erro não é só nosso. não fica no corpo. nem na cabeça – o erro não é fechado. propaga-se. não tem fim – o erro muda de nome quando é dentro de casa. o devia aperta mais do que o fiz – o devia penaliza. o não fizemos confirma – os anos são soma. ainda assim a juventude perdoa – olhamos o que não tem fim. sem mapa. é quando digo. corrige. faz a soma certa – a meia idade chega sem aviso. perde a emenda – aceitar é tudo o que lhe sobra – o erro consolidou-se. solidificou-se. tornou-se uma bolha dentro do sapato – ao princípio controlas a dor. depois mancas – dor é o ponto de encontro do que somos com a consciência – há um dia em que querer mais um dia já é uma vitória – peço mais um dia. acrescento um ano ao que dói – já não se trata de viver. trata-se de aguentar – amanhã quero continuar a escrever. não importa se bem. quero ser melhor do que ontem – amanhã não quero ser lido. as únicas letras que escrevi foram para mim. quando falo em mim falo da minha família – eu sou família – amanhã quero ser compreendido. não pelo que fiz bem. mas pelo que fiz mal – em mim procuro ordem. sempre me definiu – nunca acreditei na desordem. na falta de regras. de ética. de justiça – não procuro perdão. nem consolo. nem clemência. sempre fui uma alma livre e selvagem – de mim saiu o bem e o mal. de mim se fez a distância e a certeza. de mim se fez o amor e a loucura – procuro retidão na justiça. ética no erro – ninguém é só o que falhou

 

 

2.

agora a pergunta é onde quero ir – aqui a resposta é mais fácil – quero ir para o mesmo sitio de onde parti – é o único sitio onde a escrita não tem obrigação de explicar – eu sou erro. ainda assim. nunca abdiquei do bem – procurei-me no certo. aí encontrei a origem do que sou – não celebro o erro. aceito-o por destino – é assim que a dor nasce com o primeiro choro – nunca foi teatro – o bem nasce connosco. depois. o selo rompe-se com o tempo – o meu destino nunca foi contar uma história. foi criar uma estrada com mapa. para que quem chegue não se perca – o meu ofício na terra foi sobreviver: consertar o tempo com o que chegou. porque tudo o que chegou é meu – escrevi a bússola. mapeei o corpo – não há nenhum livro que me possa salvar. dentro dele guardo os restos do que não fui. para que existam

 

3.

para a terceira parte a pergunta mais difícil. o que te impede de agir para lá chegar – o que me impede de agir não é o medo de errar. é o medo de ser injusto – errar é humano. a injustiça é falha moral – dizem que o homem evolui. não é verdade. o homem muda. primeiro por dentro. depois. se tiver coragem. deixa que isso se veja – evoluir é uma régua viciada. medem-nos sempre a partir de fora – eu não preciso de provar nada a mim. nenhuma dor me mutilará. o corpo aguenta o mundo – o problema está na moral dos outros. em quem acha que mudei para pior. e só pensa isso quem me conhece mal por excesso – fragmentar o conhecimento é violência. reduzir alguém a um antes é injustiça. o erro perdoa-se. a injustiça ainda não tem lei que a absolva – quero ser correto com o que sou. e com o que escrevo. quero que vejam o bem no erro. e no erro a graça do humano – não podemos ser de todos

 

4.

por fim. a pergunta de encerramento: o que me faz feliz – a felicidade não existe. somos o agora. e dentro deste agora cabe tudo – se me obrigarem a responder. é simples: sou feliz a escrever. a escrita traz consigo a verdade – entre palavras encontro a cadeira que sustenta o homem. um braço ligado ao ser. um olho na imperfeição. uma perna pronta a fugir – repete-se o que está justo. no papel encontra-se a ordem do que somos – o papel não mente. mas nenhum homem é feito de papel – junto a ele chega a família que o construiu. somos feitos de todos os que vieram antes de nós. mesmo dos que não sabemos o nome – de que serviria a morte se com ela não chegasse a redenção – a minha redenção é a minha família. a minha única obra digna de registo – na minha imperfeição concebi a perfeição. sou mais inteiro ao pé dos meus filhos. e a minha companheira: fez do meu imperfeito um lugar possível. a liga que me deu nome e futuro – não serei o mesmo depois de a terra me chamar – fui inteiro enquanto estive


06/02/2026

cicatriz

 



imagina um homem com uma cicatriz na testa. funda. impossível de ignorar. vive com ela a vida inteira. carregou-a. e entregou-a a todos que com ele partilharam a sua existência – um dia imagina-se sem ela. os que não o conheciam antes não diriam nada. seria apenas mais um a circular pelo mundo. não seria mais bonito porque nunca o viram feio – quando levo a cicatriz comigo. percebo que me olham mais tempo do que deviam. não perguntam. nunca perguntam. há qualquer coisa em mim que parece já ser dos que me olham. como se tivessem chegado antes de mim à conversa – o espanto não dói. fica. acompanha – e eu deixo-os ficar. sempre vivi assim. oferecendo ao outro aquilo que não posso retirar – há quem nada queira saber do que lhe antecede. a cicatriz chega. e só depois há antes – se perdesse a cicatriz. não saberia o que restava. não por falta. mas por excesso de silêncio – haveria gestos que já ninguém reconheceria. histórias que deixariam de encontrar lugar. alguns afastar-se-iam sem saber porquê. outros ficariam à espera de algo que não voltaria. eu seguiria inteiro por fora. mas sem chão no ponto exato onde tudo começou – há coisas que não se retiram sem que o mundo se desorganize um pouco – às vezes. no meio de um silêncio partilhado aparece o amor. não como gesto bonito. mas como urgência – e ali fica. há alguém a quem devo mais do que palavras. não o digo. deixo-o ficar. o que não desaparece fica para sempre – escrevo para devolver o que me foi dado. não como agradecimento. mas como forma de permanência. só assim me completo: quando aquilo que vivi encontra lugar nas palavras – quero um espaço onde caiba inteiro. e se um dia alguém me encontrar ali. ficará. se não. seguirá. ambas as coisas são justas – escrevo mostrando o que me acontece quando o mundo falha. quando um objeto se parte. quando algo não corresponde. é nesse desvio que me reconheço. não procuro tranquilidade. procuro não mentir – no fim. resta apenas isto: continuar a escrever como quem aceita a própria finitude. sabendo que certas marcas não pedem explicação. e que a linguagem. quando é verdadeira. basta

 

19/01/2026

o corpo aceso em água

 


se me perguntarem o que busco na escrita respondo sem rodeios -- procuro-me -- a escrita leva-me para um estado de transe que me traz o que eu não sabia ter – surpreendo-me com as palavras. a escrivaninha fica mais funda. o corpo acende-se em água. e deixo que me leve para depois do que sou – descalço entro por corredores sem saber onde eles desaguam – pergunto-me o que vem dos verbos – fico sem saber se saí do que sou. ou se fui costurado pelo que entrou – a sombra colou-se ao teto. e não raras vezes quem vejo na cadeira não sou eu – a memória descomplica-se e os ferros que me agrilhoavam derretem ao calor do pensamento – um perfume na ferrugem dos dedos – quando a palavra não faz sentido. escuto-me – repouso nas luzes que me dão forma – e pergunto que porta abri para escrever o que não sei – é então que sai de mim uma gaivota a domar o vento. leva as palavras até ao limiar da pós-vida – tudo o que escrevo é deste mundo – ou de outro que já vivi – e isso faz-me compreender esta realidade de forma menos brutal – é o que se impõe – por isso. compreender-me é prolongar a vida em palavras – parto pelas mãos. não pela ideia de partir. sigo a água – não o infinito – e já não sei se a sombra que me atravessa pertence a este mundo. ou de outro que inventei para o suportar – a razão do que sou chega pelo entendimento do que escrevo – bem como pela gravidade do universo – tal como partículas que colidem – só a liberdade tem a força de me roubar os olhos e colocá-los nas letras – transformo-me em água – procuro o desacerto – o erro ortográfico. e interrogo-me nos corredores que inventei para sair de mim – nem uma janela para descansar. nem uma porta para me salvar. nem um banco para assentar – ao fim de cada texto um túmulo com o meu nome – a tecla “a” gasta e o “h” em falta – morto – escrever é um suicídio. uma bala lenta que rasga cada memória ao som do bater nas teclas – não posso deixar que a mão escreva o que é só meu. mesmo louco. sei que o destino está sempre preso ao que fui capaz de construir dentro de mim – o que me resta de tempo não fará de mim história. talvez apenas um conto com uma mensagem: faz o que está certo no momento certo – não depois – nem que um comboio te trepe a alma. nem que um vagão venha cheio de adjetivos – ser livre é planar no vento que sacode cada palavra. cada imagem – abrir as asas é a vida a fazer-te sonho – e a sombra é o ponto final da tua história. de fazeres o certo no momento certo – não depois