10/05/2014

ao mar tornará



edvard-munch-melancolia
 
 

gosto de ver o mar. gosto de me sentar de frente para o mar. às vezes também de lado – quando estou de lado. dedico um olho ao mar. outro à terra. e interrogo-me: como seria a terra sem mar? seria uma terra sem peixes. sem estrelas-do-mar. sem búzios. sem barcos. sem iodo. sem sal – de seguida. pergunto-me: o que seria do mar sem terra? seria um mar sem marés. sem dunas. sem gramíneas. sem varinas. sem gaivotas. sem crianças a erguer castelinhos de areia – não consigo imaginar o que seria de um sem o outro – onde esfriava o sol ao fim do dia sem mar? como crescia o sol aos pulinhos se não houvesse montanhas? há sol porque há mar e terra. e eu só existo porque a terra me aceita nesta posição. com o queixo nos joelhos. os braços apertados ao peito. a olhar o mar num silêncio feito de um vai e vem de água. que também é memória – ali fico. imóvel. a olhar o movimento da maré. e tudo o que é mundo vem para cá. para logo de seguida partir para lá. e as gaivotas voam por cima dos meus sonhos num ir e vir igual às marés – como gosto das gaivotas. não me canso de as ver. fico sempre com a ideia de que são elas que guardam o mar. sempre tão elegantes. tão livres. tão cheias de vento. tão donas de si. gostava de ser assim. nunca lhes vi um traço de medo nos olhos. nem mesmo quando o vento norte está furioso – no corpo. um silêncio total. e tudo o que é sonho luta com braços que já não chegam para tapar os olhos. desaparecem aos poucos os sonhos. e tudo se parece com o último suspiro dos afogados. tudo na cabeça. tudo tão real. tão certo. tão fácil de alcançar. e afinal ali vão eles. para lá. enrolados em espuma e sargaço morto – tudo o que era certo cada vez mais para lá da rebentação. mais longe. e os olhos deixam cair o silêncio na areia. talvez vergonha. talvez cansaço. talvez o corpo seja mais humano do que eu imaginava – e a confiança transforma-se em incerteza – talvez tenha chegado a hora certa para desistir e partir – não tenho medo da morte. nunca tive – a certeza do mundo foi minha no passado. agora. é o sol a nascer e a fugir – amargura salgada – aqui estou. a ver o fim de um horizonte que não vou alcançar. a dor a dizer-me que estou vivo. arranho-me. rasgo-me. lanço contra o corpo o que tenho para sobreviver. e tudo por dentro arde. os gritos abafados não saem para não estragar o silêncio do mar. que traz para terra tudo o que não presta – ali estou eu. em pedaços que não sei contar. nem juntar. nem compreender. espalhado pelo areal. a servir de alimento aos caranguejos que se nutrem de sonhos mortos – o que o mar leva vivo traz morto – nenhum sonho sobrevive a tanto mar – o mais certo é já estarem afogados. ou talvez quem sabe. agarrados a uma cavaca de madeira. a resistir às tempestades feitas a norte – é preciso evitar a morte de quem sonha – o que seria do mundo sem sonhadores? não sei. não sei mesmo. e também não sei imaginar – bem gostava de saber algumas coisas que me fazem falta para continuar a sonhar. mas não sei. cada vez sei menos – quem sabe foram engolidos por uma orca assassina. ou levados para o fundo do mar por um polvo gigante que. de tão enorme e pesado. só consegue vir à superfície uma vez na vida – se assim é. não vale a pena ter esperança – já estive à superfície uma vez. era criança. o meu pai segurava-me pelo queixo. dizia-me para mexer as mãos e os pés em ritmo acertado com a respiração. mas eu teimava em fazer à minha maneira – não adiantou. quando me tirou a mão. não me aguentei. afundei – nunca fui capaz de ficar de barriga para o ar em cima da água. boiar. fingir que era barco à vela. a bolinar a vento bom. a sentir o céu a correr atrás das nuvens. e o grito do marujo-vigia a sair com raiva dos pulmões: terra à vista. terra à vista – mas não. nunca avistei as terras quentes do sul. nunca me aguentei muito tempo a boiar. a água tapou-me os olhos. e logo de seguida a boca. talvez não quisesse que eu visse a sorte. nem que falasse. sempre tive o coração ao pé da boca – raio de feitio. nunca abdiquei de dizer o que pensava mesmo quando o silêncio era bom senso – e eu ali. sentado no areal. encutinhado. enroscado em mim. a parecer mais pequeno do que sou. e os olhos parados naquela imensidão de água – ali estou. só. delimitado por um pedaço de terra. ora seco. ora molhado – esta coisa das marés fascina-me – faz silêncio em tudo que é lado. na terra e no mar. dentro de mim também. tudo é feito de silêncio. o coração bate em silêncio. o sangue corre em silêncio. os ouvidos ouvem em silêncio. os cabelos ondulam em silêncio. até a brisa norte corre para sul num silêncio capaz de arrepiar o corpo – o movimento do meu mar faz um silêncio que me abraça com força – ali fico eu. a olhar o que resta do mundo – o que nasce no mar. ao mar tornará. lágrima


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