28/10/2014

o momento de parar



fábio magalhães


momentos em que um homem precisa saber parar – parar de ver pessoas. parar de correr. parar de lutar contra coisas que não pediram combate. parar de escrever o que não deixa rasto. de fazer projetos fundados apenas em boa-fé. de esperar que os filhos cheguem à nossa idade para nos compreenderem – há um ponto exato em que já não se avança – recolhe-se. agarra-se a honra que sobra. não para a exibir. mas para não a perder – esta vida feita de corridas é um rosário que passa de mão em mão. até que um dia percebemos: já não há a quem orar. e não é revolta. é lucidez – envelhecemos por dentro. e a escuridão deixa de ser ameaça — torna-se repouso. um silêncio que já não dói. a mão para. amanhece. e em breve tudo tenta regressar ao que era ontem. mas quem soube parar. já não volta inteiro ao movimento – agora. trata-se apenas de ficar com o que resta. sem pressa. sem ruído – isso também é sobreviver


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