I.
há um dia em
que despertamos e dizemos: já tive o bastante desta vida – e ali ficamos
enrodilhados. num estado letárgico. meio a dormir. meio desperto. acomodado num
lençol que já não é branco nem tem cor. nem longo. nem curto o suficiente. para
me dissolver nesta pré-existência para a vida – reviro-me no lençol e enrodilho-me comigo – recuso-me a abrir os
olhos – sinto aquele pano enorme por inteiro. não sei a origem do tecido nem
como foi feito. sei que me começa nos pés. depois sobe até me esconder do
insuportável. escorado numa moral categórica: o que está errado. errado está –
as leis científicas são universais. enquanto as leis da moral pertencem apenas
ao meu lençol. um lençol bipolar. extremado. inflexível. às vezes leve porque
me permite pairar sobre o que realmente sou – revolvo-me. o lençol também.
arrasta-se comigo de um lado para o outro. numa transparência que me permite
rever com crueldade o que teimosamente quero esconder de mim – há dores que
resistem ao tempo – gostava de me desprender deste mundo. juro. juro que
gostava – obrigava-me então a dormir sem roupa. sem nada que me cobrisse com
esta pele que não me pertence. uma pele diabólica. cruel. desumana porque se
está nas tintas para as teorias de kant – é um lençol. como direi? é um lençol
que me cobre do mundo e me despoja de mim – debaixo dele sou solidão dorida.
sou um eu fragilizado. agrilhoado a silêncio cruel – enrodilho-me então mais
uma vez e falo comigo mesmo. protesto. bato-me pela razão. enraiveço. juro
justiça. vingança. sou cru. mau. bárbaro e de dedo em riste ameaço. julgo e
condeno – é esta a forma de perdão que encontrei para dar repouso à moral
kantiana: agir de acordo com a minha vontade para que as minhas ações se tornem
válidas para todos – sei agora que a perfeição não existe. o ótimo é inimigo do
bom – nem sou ótimo. nem bom. sou apenas uma equação de infinitas soluções
aproximadas – corre-me então um suor estranho pelo corpo. que não se apega a
nada. esguio. desvairado. como se quisesse fugir da pele. assim como quem vai
dizendo em forma de alerta: cuidado. o pior ainda está por aí a chegar – talvez
este suor nojento saiba algum segredo do meu interior profundo. talvez – há
dias em que acordamos e dizemos: já tive o bastante desta vida – desperto. não
abro os olhos. estão inchados. enquanto o cabelo se arrepia em direção ao céu. os
fantasmas não o largam. cara amarrotada de insónias. mau hálito. boca empalhada
de fel. e aquele cheiro a putrefação dos sonhos mortos. milhares deles. degolados.
privados para sempre da ilusão – nenhum homem consegue sobreviver sem sonhos.
nenhum homem – por cada volta nos lençóis mais um fragmento da vida para
experienciar. em voltas que nada mudam. que magoam cada vez mais. numa tortura
que atormenta mais do que chicote – e o corpo a dobrar numa moral que me foi
vendida como elixir de sucesso – mas não. o mundo mudou e eu também. estou mais
antigo. mais sem forças. agora há mais um joelho a dobrar. depois dobro o corpo.
depois o corpo cede. as mãos tocam o peito. os olhos desistem. tristes.
apagados. agonizados. desocupados. a teimar com a luz. encovam-se numa omissão
de meter medo. dissimulam-se em morte. impingem-se ao escuro. numa graça de
quem sabe que a morte é feita apenas de ausência – na escuridão. provar que o
corpo quer viver é um desafio –
enrodilho-me noutra volta. uma perna no passado enquanto a outra pede caminho.
pede angústia. dor. mutilação. só caminhando se faz passado – todo o meu futuro
se resume a um presente que não controlo – revolvo-me. por cada volta chega a
certeza de que já nada existe dentro de mim que valha a pena acreditar. a fé
morreu primeiro do que o corpo – resta-me um desejo carrasco de me desapegar da
vida

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