II.
e aqui estou.
completamente desacompanhado neste lençol do qual me recuso a desprender-me.
entrevado em razões que não consigo explicar – enrodilho-me. eu e o lençol numa
cumplicidade platónica. amante. doce. num silêncio que não é mais do que o
mundo sem humanos. sem erro. sem punição. sem preconceito. e principalmente. sem
competição – eu destapo a alma. ele tapa-me o corpo. eu praguejo. ele dá-me
serenidade. eu desisto. ele insiste na vida. eu esqueço-me de mim. ele
lembra-me que a farsa só é contrariável quando permanecemos nos olhos do mundo
– felizmente ainda sei que só este meu corpo magoado dá existência ao lençol –
acabou o gigantismo. não mais crescerei. matei a hormona. estrangulei-a.
decapitei-a da ambição. fiz acontecer a morte a um corpo ainda a viver.
finalmente – agora estou em desesperança. num silêncio resignado. humilde.
submisso. pesaroso. em forma de perdão à expectativa – com o tempo dissipará
todas as lembranças. a fé toma a dimensão da realidade e a aceitação da desventura
será apenas um lamento baixinho: esperávamos mais – nesse dia restará apenas o
nome. somente um nome singelo. sem imagem. sem boca. sem gestos. sem confiança.
será só uma lápide – será no desconhecido que encontrarão a totalidade de mim –
revolvo-me mais uma vez e peço compaixão. suplico uma horinha rápida. estou
prenho de morte. prometo ao desconhecido que não volto a reencarnar. aceito o
inferno como última morada – contorço-me. eu e o lençol. agonizamo-nos.
amarguramo-nos. torturamo-nos. enquanto o lamento. em desespero. pede à boca
para gritar perdão em voz que se faça ouvir pelo mundo – as mãos furibundas
enrodilham o cérebro com o que resta de apego à vontade de viver. sufocando-lhe
o desvario para a eutanásia – viro-me para um lado. depois para outro. e mais
outro. e o amanhecer. sem acerto. e reviro-me outra vez e nada dá certo. o
lençol cada vez mais amarrotado – afinal tudo estava errado. a saliva a cair-me
pelo canto da boca encharca o travesseiro de um pegajoso arrependimento – tudo
tão real. tudo tão perfeito na imperfeição – era capaz de jurar que estou a
sonhar. mas não estou. sei que as mãos tremem. os pés destilam ira num lençol
gelado de morte. o branco já não é branco. nem cor. enquanto os buracos das
persianas projetam na parede as duas faces da vida: um quadriculado de luz e
sombra – eu preso atrás de uma parede inútil. que não serve nem para pendurar
um quadro do meu passado – raio de penumbra cruel – escondo-me de mim e ofereço
à miséria as mãos encaixotadas num nada que me asfixia o afeto – e a contagem
sem acerto possível. o deve e o haver paralisados de tragédia enquanto os olhos
se contorcem entre sorrisos e lágrimas – olho para o relógio e assisto a um
infindável movimento dos ponteiros. lento por não ter os segundos a correr –
relógio que não dá horas. nada anuncia do destino – espero um dia acordar e
dizer: não me enganas mais com promessas. não me enganas com nada. nem que me
ofereças um ramo de flores com o perfume de um poema de herberto – “eu sou
uma vida com furibunda melancolia, com furibunda conceção” – para a frente
já quase nada. tudo lento. para trás. tudo feito numa amálgama de coisas que
mais parece um abraço de apertos – e por aqui fico em partes do tempo que não
compreendo e não sei explicar – se pudesse explicar-me. seria apenas mais um de
vocês

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