já não há forma de me reencontrar na noite – perdi-me
por completo. de um lado eu. do outro também eu - e os dois eus cada vez mais cúmplices
- se um diz mata. o outro não ousa dizer não mates. se um diz basta. o outro responde
que o basta tarda. se um diz coragem. o outro grita muita. se um não diz nada.
o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos
meus eus. há apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegoria que
desconheço. sobrevivo nos intervalos do que me resta da janela - talvez o sol
nasça apenas para quem o canta em esperança - eu continuo preso às minhas
lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda. incapaz de emitir qualquer som que
desperte a manhã com um sorriso – falta-me um abraço e um segredo ao ouvido que
convença a noite a não ser eterna
24/05/2017
a antecâmara da noite
18/05/2017
deambulações noturnas XVI
15/05/2017
vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais
com coragem
aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te
dizer o quanto foram e são importantes as tuas palavras-estímulo ao longo desta
minha aventura prosista – ser prosista nunca é fácil –– retribuo então esse teu
carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será muito. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que. de tão
desajustadas do corpo. caem dos bolsos –
dobrei uma em forma de triângulo.
um triângulo perfeito. com os
ângulos todos iguais. e coloquei-a
no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se
arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas.
podem fazer de nós pessoas fantásticas.
às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para
sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto.
matar as saudades. escrever cartas
de amizade. escrever poemas de amor
ou de raiva. e outras que por serem
tão complexas só os poetas as entendem.
posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus
olhos. como quando me chegas em
silêncio. ou como te escuto no
interior da tua poesia. e também
gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para
o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo
o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não compreender
verdadeiramente o valor de cada palavra.
quando erramos ao escrever. é para sempre.
as palavras não se trocam. nem as
podemos pedir de volta. depois de
escritas pertencem para sempre à vida – como também são para a vida todas
aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu envias um olá. eu
respondo com um bonequinho a sorrir.
tu envias uma palavra. eu devolvo a
tua com mais duas minhas. e assim. começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se
tivessem uma força desconhecida.
como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a
noite. calmamente. se despe para dar lugar à realidade – gosto de
saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me
saem da boca. saem-me sempre muito
depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder
no mundo-solidão – pouco sei desse mundo-solidão. gosto mais do nosso. o
das palavras escritas que partilhamos com gosto. numa arte que nos abraça e que poucos entendem – quem escreve
cresce todos os dias dentro de si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para
que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra
nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que
te traga em braços por esse distante mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para
um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera.
corre por nós um perfume dourado-sol.
suave. suave-inocência – seguro as águas dos rios. detenho as nuvens. silencio
todos os pássaros no ar. e arrumo o
vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio
celestial à espera de escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. ajeitas o corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. dás uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se esgote e
os poemas se transformem em ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos
de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”
para
a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferença – obrigado por cada dia em que me ajudaste a escrever
e a enfrentar os meus medos
10/05/2017
águas de papel
09/05/2017
o corpo não morre todo à mesma hora
1. o
homem
um dia percebemos
que o corpo já não é portador de uma consciência una. íntegra e lúcida – divina
ou não. esta consciência. ao longo do tempo. foi obrigada a reordenar-se em
fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e fraturada
– consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de
vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer.
e da capacidade de criar novos estímulos para se reconstruir do erro – por último. e com base no que escreverei mais adiante. a
consciência permite pensar a morte – decido vê-la como a última fatalidade ou “libertação
total”. como escreve mário quintana – esta
verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que
era importante. já não é – o que era para amar. fica para esquecer – o que era
coragem. transfigurou-se em covardia – e o que era para eterno. é agora para um
dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar
equilibrar o que se desequilibrou – na sua intimidade – inviolável
por tão profunda –
constrói-se o homem. aquele que levamos ao mundo das sensações. em doses controladas.
prescritas por um ego que se alimenta do próprio saber. numa realidade
partilhada que se fragmenta entre o que se sente. e o que se autoriza a mostrar
– entre a dor. e o lugar exato onde consentimos que ela seja vista – entre a fé
corrompida. e a versão tolerável da nossa queda – assim chegamos a
um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o
cérebro. sempre a trabalhar. para lhe dar uma razão para a sua existência – a
vida é uma partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre leva a
vitória – neste baralho da vida ninguém fica de fora – e aqui estou eu. com as
cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. sem bluff.
numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me convença de que ainda devo
continuar a procurar a sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem
outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos
acreditam guardar em si todo o conhecimento do universo. juram saber exatamente
o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem porque não querem sentir
– e há ainda os que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo.
tudo errado. e tudo viciado em consciências interpessoais incompletas – o que é
para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como
escreve mia couto: “cada homem é uma raça” – dentro do corpo. num
emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos
castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos
cortantes. em aflição que desespera. e a inteligência emocional a reparar os
excessos com ética para que a consciência moral resista por mais um dia
2. a
morte
o corpo morre
aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento
selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos
um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. até
que se perde o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo
caminha lentamente para um estado terminal consentido. num silêncio tão
profundo que. paradoxalmente. assassina o ruído da consciência afetiva –
aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela. mas já não há
brisa. apenas uma acalmia necrófaga. os abutres normalizados transmitem uma
dimensão reduzida ao tempo – a morte paira no ar – aprendemos a escapar ao medo.
e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à
inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem
tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a
lucidez. o discernimento deixa de resistir à nostalgia – o sol também se apaga
quando o corpo desiste – chega um cansaço de estátua. e ali ficamos parados.
hirtos. gelados. como se a morte quisesse provar que estar morto é imobilidade.
é silêncio. é uma espiral de renúncia assombrada pelo fim de um ciclo – e.
segundo a segundo. esvai-se mais um trago da vida em aflição – no meio de
quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena –
deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. tudo acontece sem voz.
tudo se desenrola em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito
desesperado. raivoso. impiedoso. assassino. e tudo o que resta de mim pelo
chão. a rastejar. a contar os cantos das paredes. enquanto os pulmões ardem em
dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que
se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de
emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair
de dentro para fora. ninguém pode saber que se está a desistir – e morre uma
perna. e o corpo afunda-se na cadeira que já não é acessório. mas urgência. uma
necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encolho-me. embrulho-me numa posição
fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o
corpo estendeu ao mundo. e que eu não sei devolver em palavras – aperto-me.
cerro os olhos. rasgo-me por dentro e nem uma gota de sangue. estou seco.
mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – penso: que isto
acabe de uma vez – e os que apareciam passam a aparecer menos. e aos poucos
acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que
me resta. sentado. sou enorme. sentado ninguém percebe que me estou a desfazer.
sentado não toco no chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este
o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do
chão – e o corpo vai-se perdendo numa aceitação cristã – perde a vista porque
não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos
abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para
que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia
reconhecida. torna-se agora um fardo para enganar aqueles que nos querem ver no
passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer aquilo que não quer que
seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo
desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado
soletra em agonia: tens que aguentar – a consciência ainda luta – e uma lágrima
pendurada no canto do olho brilha. carregada de saudade. de um dia de natal. de
um aniversário. de um abraço. de um amigo. da família. meu deus. sempre a
família – deus. se realmente existires perdoa-me – e sufoco as recordações. as
molduras. incendeio todas as fotos coloridas. apago a cor. e o rasto também –
sobrevive apenas o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e
depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a
maior parte do mundo sem entender nada sobre falecimentos – ninguém morre de
uma só vez – e o punhal em cima da mesa rasga em cortes limpos as cartas de
recomendação. uma a uma. e a vida resumida a uma única miséria: já acreditei.
já existi – enquanto o corpo não morre todo à mesma hora. o passado insiste em
assombrar o presente – o que resta do futuro arrasta-se entre abutres




