o que vos
posso dizer de mim nesta madrugada – a folha. exausta de estar em branco –
arranco com as teclas – interrogo-me se haverá um momento certo para desistir
de um sonho – passei a noite inteira a batalhar nesta equação sem solução –
então comecei a escrever e. a cada palavra escrita. um livro emergia da memória
– “morgadinha dos canaviais”. “uma família inglesa”. “as pupilas do senhor
reitor”. foram os primeiros clássicos a emergir na memória – tinha doze anos –
apaixonei-me por júlio dinis e devorei todos os seus livros – eram histórias
incrivelmente bem escritas – cresci amarrado a elas – nos seus livros. mais do
que a nobreza das palavras. havia a nobreza das ações – não havia leitura que
não me trouxesse lágrimas aos olhos. e os lenços encharcados de um sentimento
que já não me habita: a esperança – o triunfo do bem sobre o mal. da lealdade
sobre a falsidade. da nobreza sobre as trevas – meu deus – como foi possível
ser tão feliz dentro de um livro – era uma criança adulta. os sonhos ocupavam
todo o meu corpo – olhava o futuro. com a certeza de que não iria deixar um
único sonho para trás – o tempo passou e cá estou eu. perdido em mais uma
noite. empacotando sonhos que deixei apodrecer – escrevo nestas noites que já
pertencem mais aos meus leitores do que a mim. já não tenho nada além de
memórias – muito do que sou devo a júlio dinis. mas enganou-me numa coisa
apenas: nem sempre o certo triunfa sobre o errado – que se lixe. continuo a
gostar dele na mesma
19/04/2017
pela noite dentro
pintura - r. g. nascimento
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