07/09/2026

a casa da fotografia

 



dias em que saio comigo.  e vou por esse mundo fora. a olhar o que insiste em existir. o que ocupa espaço – podia fechar os olhos. mas corria o risco de tropeçar. magoar-me com a indiferença – caminho de olhos abertos – às vezes um aceno de um transeunte. fico sem saber se me conhece. ou é alguém educado no século passado – um carro acelerado. com gente dentro acelerada. de onde saem crianças ainda mais aceleradas – hoje há pressa para tudo – uma velhinha corre contra o tempo no seu vagar. a bengala a marcar o passo. um passo que segura a mão à vida – para ela já só importa chegar – a morte comanda a vida. não adianta correr. ela apanha-nos – na outra mão um saco de compras enrugado. cheio de nada. o mais importante leva à cabeça: chegar – os cães chegam à rua com pessoas presas a uma trela – fico com a sensação de que o mundo está de pernas para o ar – é tudo tão complicado – tenho dois cães em casa. não os levo à rua por não ter trela. nunca tive trela para nada – viver comigo sempre ficou por opção – às vezes falo com os meus cães. sempre ao ouvido. não gosto de conversas extraviadas. quem ouve mal acrescenta sempre um ponto – é quando lhes pergunto se quando chego da rua sentem que sou diferente – nunca me responderam. mas um dia deixei a porta de casa aberta e um deles aproveitou para fugir – valeu-me uma vizinha. bateu à porta aflita e disse-me: o seu cão estava a tentar chegar à campainha – o seu cão… sorri. nunca soube ser dono de ninguém. tenho apenas a minha cabeça. e a casa onde aprendi a regressar – o meu cão não fugiu. regressou. tal como eu. quando chego à rua. também acabo sempre por procurar o caminho de casa – lá fora quase tudo me parece em contramão. mudo de passeio na esperança de encontrar gente que caminhe no mesmo sentido. mas não. ainda me perguntam se estou perdido. digo que não. quero apenas chegar mais à frente – às vezes nem sei quem sou. meto a mão ao bolso e retiro uma foto com uma casa. rodeada de girassóis. mas não são os girassóis que procuram o sol. é a casa – é assim que sei que moro lá – pode não ser sempre. porque de noite não há sol. e sem sol a casa não gira. e quem está dentro dela também não – mas que importa isso. o que gira tem vida própria. não importa para onde gira. o importante é girar. girar em liberdade. e que a coragem se faça de olhos – é por isso que caminho sozinho. acompanhado nunca saberia o que é importante. e enquanto caminhamos tudo pode acontecer – houve alturas em que tinha medo de sair. o mundo era aborrecido. muita gente a falar. a dizer coisas que eu não percebia. às vezes acreditava que estavam a falar para mim. para me levar para um repente onde o caminho era sempre distante – o que me valeu foi a foto da casa com os girassóis. era ali que acreditava morar. era ali que regressava – e se um girassol morria. enterrava-o. dava-lhe um nome. uma lápide. e uma oração de paz à sua alma – quando o sol voltava. já tinha outro girassol no seu lugar – um homem pode andar só para se conhecer melhor. mas é o lugar onde descansa que mostra com verdade o que é – às vezes vou a pensar quantos seres vivos serão precisos para fazer um mundo completo – começo a fazer as contas – algumas oliveiras. é preciso clorofila – um jardim com uma rosa. três tulipas. e quatro cravos vermelhos. é preciso dar cor ao mundo. fazê-lo crescer. andar para a frente com o nosso nome – dois cães. dois porque juntos parecem uma multidão de gente racional. quando me apetecer falar vai ser uma barulheira – um cavalo para chegar mais longe. gosto do galope. e da sua elegância. truc truc. uma pata de cada vez. parece um britânico da realeza. elegante e convencido da sua chiqueza – um canguru. gosto de animais que andam aos saltos. quando alguma coisa não lhes agrada. saltam por cima. eu gostava de fazer o mesmo. mas nem sempre consigo – e um galo para me despertar das noites em que me perco dentro de mim – de seres vivos estamos conversados – depois só precisava de um mar onde uma onda me levasse à lua. e as estrelas tocassem na água – uma rosa dos ventos para saber sempre voltar à casa da fotografia – caminho como se dentro de mim cantasse um fado. e por mais que queira ir. o que me sustenta é sempre a viagem de regresso – sou um embarcadiço da vida. trago os olhos que me deram esta forma. e por mais que queira ser o que não sou. há uma força que vem do útero e me diz: podes ir. mas nunca sais do sítio de onde partiste