para cada patranha esculpida. germinarei
cem verdades – não há beleza na mentira. nem dignidade na ingratidão – um dia.
acordarás com as portas a bater
“a
faca não corta fogo” – herberto helder
para cada patranha esculpida. germinarei
cem verdades – não há beleza na mentira. nem dignidade na ingratidão – um dia.
acordarás com as portas a bater
“a
faca não corta fogo” – herberto helder
não gosto do domingo – nunca entendi muito bem a metamorfose do corpo ao sétimo dia. no passado. em minha casa. este dia era dedicado ao senhor – hoje já não há senhores em minha casa. o último a bater a porta foi o meu pai
chegou o momento de devolver o silêncio ao corpo – branquear a memória. reconciliar-se e envelhecer – nada em mim tombou apodrecido
e do nada um beijo – tinha pedido um
cigarro aceso. chegou-me um beijo em chama – os beijos não fazem mal. os
incandescentes também – sempre gostei de beijos que nos abraçam – estou com os
olhos fora da latrina – estou sem braços. sem pernas. sem olhos. sem pulmão.
sem ar. sem paladar. estou sem o meu corpo – mas estou pronto para beijos.
ainda tenho face – nunca perco a face. deve ser de família. vamos perdendo tudo
menos a face – estou agasalhado para mais uma noite. estou com um beijo aceso.
que me abraça de bem
tenho ainda tanta coisa para escrever –
tudo que tenho corre para as mãos como os rios correm para o mar – tudo é confusão.
e os olhos dentro da latrina gritam para não mais voltar a ver – tudo é
desordem. caos – e as mãos não sabem dar ordens – desapegado do corpo – arranco
um braço e os jornais anunciam o fim da greve geral – arranco uma perna e a gasolina
sobe dez cêntimos a partir da meia-noite – arranco a outra perna e o vizinho
atira-se da varanda por não ter um empregador – estou de rastos. arrastado ao
nível dos vermes – arranco um pulmão. e os médicos anunciam uma vacina contra o
cancro do pulmão – arranco a língua. e ninguém quer saber do que escrevo –
arranco os miolos. e a casa amarela não aceita doentes sem ADSE – arranco o
outro braço e fico para sempre em silêncio – não escrevo. não ando. não penso.
respiro mal. e já nada corre para lado nenhum – ouço. ouço o tempo. ouço as
pernas. ouço as mãos. ouço o cérebro. ouço o que me ficou dentro – há coisas
que não conseguimos arrancar – ouço o meu silêncio como nunca fui capaz de
ouvir – alguém caridoso por perto me traz um cigarro aceso? preciso de escrever
//
significado
de lucidez:
mente
limpa, coerente, quando a pessoa tem discernimento, atento, alerta, acordado,
enfim sóbrio.
exemplo
do uso da palavra lucidez:
o
casal apesar de ter saído tarde da festa estava lúcido, no entanto colidiram
com o carro por inabilitação do outro motorista.
//
o
outro motorista sou eu
sempre que
abro o facebook dou de caras com esta coisa medonha –em que estás a pensar? será
que alguém consegue pensar neste país? não acredito – talvez haja por aí algum
iluminado que ainda pense – no que diz respeito à minha pessoa. e para vos
falar verdade. já nem penso. já só tenho tempo para me desviar dos obstáculos
que surgem em catadupa – cada vez mais rápido. e eu cada vez mais lento – creio
que estou no famoso jogo playstation-sonic – o problema é que neste jogo as
argolinhas douradas não trazem vidas extra. e eu já estou na última [parte da]
vida – confesso que estou com medo. ainda não encontrei nenhum botão start
se
eu quisesse falar com deus. tenho a certeza que o todo-poderoso me mandava à
merda – frio. desiludido. e com cara de quem já não procura amigos. também
digo: não quero falar contigo – prefiro lembrar-te como te vi no livro da
catequese – nesse tempo. fazias milagres
imensamente tranquilo – o tempo é realmente a
única cura contra a dor da desilusão – é o que faço neste momento. aguardo –
aguardo com a verdade de um coração que nunca se deixou manipular – aguardo com
tudo o que sempre tive. resiliência inquebrantável – nós aguardamos – aguardamos
todos neste lugar com janelas a que chamo lar – lá fora. do outro lado deste
lugar que nos cobre com dignidade. corre a mentira – não se engana o mundo
sábio. alguns tolos talvez – corre descalço o embuste. carrega fardo pesado de vida
de fraude – pobre e coitada. só como sempre. inverte o mundo para ficar de pé –
estamos aqui todos. unidos como se fôssemos um só tempo – como sempre. e para
sempre. aguardamos imensamente tranquilos – nós
estou finalmente
numa paz feita de algodão doce – a última vez que senti esta paz aconchegadora
foi no dia em que enterrei o meu pai – a doença foi cruel e o sofrimento
implacável. para todos – estar em paz é voltar a viver em harmonia com as leis
naturais da vida – doce. como sempre deveria ter sido – lar. doce lar
"Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais
conheci homem de valor que fosse ingrato."
johann goethe
dantes
escrevia poemas de amor. para viver com o amor
nos
poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a
gente
o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.
que
o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei
o
conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi
muitos
poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que
a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do
amor. e voltei a escrever o que nada havia a
dizer.
porque até o poema é sinónimo de amor.
jorge reis-sá – a definição do amor
-//-
também
eu escrevia
escrevo
pai:
fazes-me
tanta falta
tenho
saudades
desse
teu jeito
de
dar cor
ao
preto e branco
foram-se os chapéus e a nação assobiou – foi-se o ardina e
a nação assobiou – foi-se o alfaiate e a nação assobiou – foi-se o leiteiro e a
nação assobiou – foi-se o aduaneiro e a nação assobiou – fecharam-se os
guarda-chuvas e a nação assobiou mais forte – há um novo iluminismo na europa e
as nações gritam de braço no ar: o povo é quem mais ordena. a luz quando nasce
é para todos – e o povo em manifestação a dizer: assim se vê a força da ingenuidade
– quem não gosta de sol? quem não quer andorinhas nos beirais? e o povo sempre
a assobiar em postura de orquestra e o ritmo a sair como marcha militar – os
pés batem certos. comem caminho. e as mãos andam para trás e para a frente.
fazem desenhos geométricos com ângulos de 180 graus – tudo é reto. tudo está de
pernas para o ar na exploração do homem pelo homem – não tardou partiram os
merceeiros e os assobios a chegar escoltados pelo ruído dos carrinhos de metal
– agora tudo gira sem parar noite e dia – e a europa a uma só voz: somos mais
fortes juntos. e a livre circulação a trazer o supérfluo. e o povo a gritar:
somos euro e vamos para onde quisermos com o cartão de cidadão – a soberania a
ruir. e as vozes do além a dizer: também sodoma e gomorra foram destruídas [gênesis
19] – foi-se o escudo e o dinheiro circula à velocidade de um tgv pela mão de
gente que não sabe cantar o fado – tudo é embrulho. e o que é nosso é deles e o
que é deles nunca será nosso – é a lei do mais forte a escrever torto por linhas
tortas. e a nação lusitana saqueada das leis tomadas pelo nosso primeiro afonso
– foram-se as fronteiras. as doutrinas. a nação e a iniciativa de quem com
coragem dobrou o cabo da boa esperança – e os mastros com a cruz de cristo
regateiam ao vento força para lutar contra os adamastores. e todos remam para o
mesmo lado. e o contra–mestre a gritar: terra à vista – somos lusos. somos
gente do sul. somos gente de sol e as gaivotas pasmam por verem gente a falar a
língua de camões – e os mastros com quinas a dizer: somos nós sim. somos gente
destemida. gente de fé. de abraço. é sempre bem-vindo quem vier por bem – e a
dinastia de aviz. e o d. nuno. e a padeira de aljubarrota. e o d. joão. e o d.
henrique. e o vasco da gama . e o cabral. e o colombo. e o fontes pereira de
melo. e o pombal. e a amália. e tu. e
eu. e nós a pensar se tudo isto valeu a pena – e os abutres a chegar com
trabalho precário. e o camponês passa a capataz. trabalha o alcatrão – e a
varina passa a técnica de limpeza. limpa a bosta das multinacionais – e o
pastor passa a comercial. vende lã da china – e a profissão de futuro é um
balcão com gente a vender crédito até ao fim da vida – e os montes a arder de abandono.
e as marés sem o levar e trazer de barcos. e os campos vazios de tudo e tudo a
andar para trás. e os doutores a dizer: é para a frente que se faz caminho – e
tudo é afinal precipício – e o tempo a sorrir para muitos e os assobios a romper
barulho para o lado de poucos – e festa é festa. e o povo dividido por grupos
canta ao desafio: eu estou bem com o mal de alguém – e os dias amenos disfarçam
a tempestade nascida a oriente – e tu ris. e ele ri. nós rimos e o choro de
alguns abafado pela gargalhada coletiva de tantos e os ditados populares
esquecidos. “quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de
molho” – e o povo-nação sempre a assobiar. e as primaveras sempre a nascer mais
cedo. e o degelo aumentou 120 vezes e os rios galgaram as margens da sensatez e
tudo está louco e fácil – e as mãos esfregam-se de ganância e o frio sem
estação do ano certa e o povo-carnaval a dançar sobre o mal dos outros. e o
parlamento-pinóquio diz que é esta a casa do povo de quem mais ordena – o abril
murchou e o zeca volta a cantar a grândola na boca dos esfomeados de pão. de
emprego. de habitação. de dignidade. de honra. de gente que é a minha gente.
carne da minha carne. o meu povo – e o mal agora é de muitos e o bem de poucos.
e paga a saúde. e paga a escola. e paga a justiça. e paga a estrada. e paga o
imposto. e paga o que não tem e povo a ferver. e o passo já não é certo e o
ouvido a escutar o rufar dos canhões e grita: o povo já não está contigo – e a
confiança é choro. e as andorinhas são abutres. e o povo triste grita: contra
os canhões marchar. marchar – estamos fartos de tanta mentira. estamos fartos
de engenheiros. de doutores. de deputados. de políticos. de banqueiros. estamos
fartos de gente que fala por falar – o sol a torrar e a pele a tostar. e o
fator 6 passou a 66 e depois a 666 e o número da burra estampado na testa de
cada zé enganado – e o mal de poucos passou a cem e a razão já não é de ninguém
– e tudo o vento levou com polícias a
correr de um lado para o outro sem saber onde está o ladrão – e o povo ergue as
mãos no ar e grita: “só há liberdade a sério quando houver paz. pão. habitação.
saúde. educação”. e as mãos cada vez mais no ar. mãos que abanam como abanadores
– e a revolta é agora uma palavra de ordem: “assim se vê a força de um povo”
enganado – e a nação mais antiga da europa pronta a explodir com novecentos
anos de unidade e nós enganados. roubados. e os filhos enganados. roubados. e
os netos vão pagar. e os bisnetos vão pagar. e os trinetos vão pagar – o
culpado sou eu