às vezes. estou só. imóvel.
como a noite – dentro de mim. o desejo de trazer sonhos à realidade. matar a
solidão e o escuro por inteiro. de uma só vez – com a raiva de uma palavra gelo
– aos retalhos. já basto eu
16/01/2014
retalhos – número de série 07012014s(r)ego03
sou
sou
sou
sou
mesmo contra vossa vontade. sou
não sou este
o que desse palanque cogitais
sou aquele
aquele que daqui
deste meu reservatório
de ideias. sou
sou assim
duro como pedra
mole como os pensamentos
tramados pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido no que sou
sou até um qualquer
sempre que quero
e quando não quero
também sou
hoje. por acaso. sou um ruído com
olhos castanhos
vejo todos os sons com um sou
um sou único
talvez um sou com som
um que se ouve a si
para dizer:
assim serei
com o meu som. eu sou
sou
sou
sou
sou de um tamanho que já não
existe
presente para o mundo
dos que nada são
sou afinal. um sou só
só porque sou teimoso
para não ser um sou dos outros
sou meu
sou do meu sou
talvez louco. sim. talvez
mas sou
sou
14/01/2014
09/01/2014
goya
esta obra
de goya não é muito conhecida. o primeiro biógrafo de goya. matheron. no fim do
século XIX. ignora-a no catálogo das suas obras. o enfermo é o próprio goya –
um autorretrato. o médico é o doutor arrieta. que o tratou de uma doença no fim
da vida e. como presente. goya ofereceu-lhe esta pintura. atrás. veem-se os
fantasmas. figuras do seu delírio – é uma pintura fantástica
05/01/2014
23/11/2013
luto inacabado
acreditei que
o luto estava encerrado. disse: acreditei – esta coisa da morte é estranha.
quando menos se espera. ela volta a manifestar-se. como se nada tivesse partido
– se eu me compreendesse. talvez pudesse escrever algo com mais sentido. mas
não; não me compreendo – quiçá uma parte de mim está morta. e quem escreve este
rascunho. de coisa nenhuma. não é mais do que uma parte do
corpo que teima em escrever para viver
[quando saio à rua. vejo
tudo tão vivo. como se nada tivesse partido do mundo]
tu que me estás a ler. sim.
tu. tu mesmo. achas que estou louco? sabes o que é a morte? sabes? já sei o que
vais responder. vais dizer que sabes o que é a vida: e que a vida são pássaros
a voar em bando e roupa a secar num estendal de uma varanda num quarto andar
desabitado – mas quem me manda escrever? neste dia de merda. talvez o certo
fosse mudar a terra naquele vaso que ninguém vê – mas o bando de pássaros vê –
um dia vou mostrar-vos. talvez. depois de morto. os sonhos floresçam.
anunciando a ressurreição de quem sempre chegou atrasado às palavras. naquele
vaso que ninguém vê
21/11/2013
mário cesariny - é importante foder
07/11/2013
o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 4
IV.
no corpo. em local desconhecido. um minúsculo
grupo de átomos ligados por palavras funde-se: nasce o texto – as trompetes
rompem o silêncio e anunciam a nova obra do cavalheiro-artista. alegria – no
céu. as nuvens desistem de profetizar tempestade. e o céu dá agora lugar a um
novo astro-anunciador. este indica o caminho aos amantes da leitura para as novidades
do homem que escreve – a comprovação. em papel. é feita de vocábulos
organizados pelo talento dos olhos que ouvem no silêncio – no corpo. a gente
silenciosa parte para o descanso. recolhe-se à mudez das catacumbas do homem que
guarda o cavalheiro. harmonia – é a hora do leitor apaixonado. é a hora da
calmaria. é a hora da serenidade – tudo escrito à mão numa paixão abençoada
pelo ouvir dos olhos – “tenho apenas
duas mãos e o sentimento do mundo” [carlos drummond de andrade]. sinto – o
momento é de paz – o cavalheiro feliz. digo. quase feliz. se não houvesse aquela
dúvida persistente. talvez hoje fosse o dia certo para morrer acorrentado a uma
palavra de gratidão – mas há – a dúvida perdura. sufoca o mundo das pessoas que
guarda sem nome. das gaivotas. dos frutos. da sorte. dos animais. das árvores.
da chuva. da criança protegida no colo da sua mãe. da bicicleta que nunca
existiu. do vento norte. dos pesadelos das noites do nada. do corpo a pedir morte
por um distúrbio mental – paranoico. vive num delírio permanente na procura da
palavra que nunca existiu. mito – o cavalheiro que escreve vive doente na recapitulação
de um texto que nunca está pronto. louco – lê. volta a ler. a calma dói. e já se
vão em cem dias. e o coração a segredar pânico para um abismo de silêncio
sepulcral – não! acabou. não leio mais. a perfeição é a morada dos deuses. só
conheço a casa onde guardo o corpo. agonia – solidão. sofrimento. suicídio – chegou
o momento. coragem. um dia tinha que ser. o cavalheiro resistirá. o homem
resistirá. sobreviver é também escrever – o homem que escreve ali. relembro. os
olhos também. o sentimento. o mesmo de sempre. de dentro. medo – tantos corpos
parados a murmurar cada vez mais baixinho. e as noites que nunca foram noites
em memória-dor. teimavam em iluminar um caminho que nunca encontrei – louco.
acreditei no silêncio das noites. e o corpo cada vez mais doente por não saber
distinguir a loucura da ambição genuína. resignação – tudo parte. tudo na vida
é assim. tudo tem um princípio e um fim. eu também. o cavalheiro também – para
trás uma porta aberta indica desespero: perder para sempre as palavras ouvidas
com o olhar – mais medo – agora sou de quem não me conhece – sobra-me o corpo. tudo
o resto nu. despido pela leitura – contrataria a morte por um dia – mais medo.
muito medo. terror. as palavras no leitor podem dizer o que nunca senti. mais
terror – não há boa escrita sem consciência. sem angústia. sem gemido. sem
arrependimento – amanhã sei que escreveria tudo de forma diferente – morte e
ressurreição – para o leitor. a descoberta de novas vidas. talvez sim. talvez
não. não importa. nunca haverá certezas para olhos que não ouvem – no
cavalheiro. finalmente um momento silencioso anuncia descanso. acredita na
mensagem das palavras. paz – o belo não tem pressa. aparece a cada leitura e
descansa num marcador de livro: é ali que a vida parou. mais tarde será noutra
página – tudo é agora texto. fundido em verdade. ganhou existência terrena.
como o verde das montanhas. como o mar batido a vento. como um instrumento que
trabalha a terra. como árvore de fruto. como flor a nascer e o fruto a aparecer
– as palavras dão pão às bocas e saciam a alma de quem as lê. tudo é real na
escrita de quem escreve para falar. o cavalheiro mais não é do que um homem a
lutar pela sobrevivência do homem que lhe oferece o corpo para se revelar – para
o homem que lê a leitura é apenas a junção das letras de dois homens que se
toleram para sobreviver – a boa leitura é invisível. sente-se – no corpo o
sentimento da leitura encurta o tempo e tudo é
como se hoje fosse o primeiro dia do universo – lá está adão. e eva. nus.
desta vez sem parra. e o cavalheiro ali a ouvir tudo com os olhos. com as árvores vergadas ao fruto – assim está o
homem que escreve. vergado pelo peso das palavras – há um novo mundo sempre que
há um novo texto e também um novo cavalheiro – o homem que escreve prolonga-se
na procura da perfeição – a morte não sobrevive à imperfeição – escrever pouco
e dizer tudo é delírio – para o cavalheiro o texto nunca mais voltará a
pertencer-lhe. a alma do homem-escritor perdida para sempre – e o humano que lê
gosta e ama. não gosta e não ama – recorda e ama. não gosta e esquece – acredita
e sonha. não acredita e o pesadelo acontece – sente verdade e acalenta.
experimenta mentira e o gelo aparece – exigente. egoísta. quer sentir as
palavras como se fossem suas. uma boca para compensar outra – sou também tu
–“ser poeta é ser mais alto. é ser maior” – uma vida à procura do belo-supremo
e o tudo é quase sempre nada ao dia seguinte – as palavras de ontem estão
mortas. o belo é agora arrependimento. a história repete-se. tudo que é palavra
está amaldiçoado – tudo se resume a dar vida ao ouvir dos olhos – o escrevedor
vive com o nascer das palavras e morre com o sono
[4
de 4] – fim
29/10/2013
o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 3
III.
a
morte do cavalheiro é
também a morte das palavras que não soube escrever. o suicídio é adiado pela honra.
resistência – escrevo erro. ninguém me reconhece pelo que escrevo. sou assim. retorcido
para dentro do que penso. procuro – cavo o que é meu. e mais um buraco. e
outro. e mais outro e todos os buracos ocupados com nada – como o vedor procura
a água eu procuro as palavras. e tudo seco. e a vara aponta para todos os
livros que guardo no tampo da secretária – cavalheiro. sonhador por dentro. louco
por fora. e o homem no seu tino perfeito – e as celebridades ali. mesmo ao pé
de um texto destruído por mãos de quem escreve por necessidade. nada – dostoiévski
tem uma frase que ilustra bem esta loucura doentia de fazer do nada aconchego:
“não podendo encontrar o seu lugar no mundo, o homem deixa de ser homem,
tornando-se um sonhador” – tal como zero mais zero é igual a zero. também o
nada mais nada é igual a nada. utopista – tudo isto é nada – quem sabe se a loucura
de escrever nada não é mais que um sintoma de deficiência narrativa no enredo
do que quero escrever – um dia queixei-me a um médico de dores intensas nas
articulações das falanges – disse-me que talvez fosse défice de cálcio. não há nada
a fazer. ainda não há cura nem prevenção para esse mal – aconselhou-me a fazer
muitos exercícios com os dedos. assim faço. agora todos os dias. as dores não
param de aumentar. não sinto melhoras – tenho dias em que as dores aliviam um
pouco. nas mudanças de textos. sempre que começo algo novo sinto-me mais
confiante e as dores ficam adormecidas enquanto o cavalheiro sonha. expectativa
– é assim desde o dia em que comecei a tentar escrever. dores. mais dores e
mais dores – desespero com o silêncio das mãos pregadas no papel que não para
de florir estrelícias. esperança – esta flor não necessita de sol direto para
abrir em flor. ambição – os cavalheiros que escrevem precisam – o tempo de quem
escreve é feito de escravidão. sentado. ali fico à espera do milagre dos olhos.
do ver dentro. do ver fora. do sentir dentro. do sentir fora e rabisco o que
vejo. o que sinto. e a palavra embala a sofrer. vai para o papel? não. e mais
outra e outra e os dias passam para um homem que não gosta da idade que tem – escrevo
para não envelhecer – corpo curvado. um sorriso para dentro. um ai. um acenar
de cabeça leve. a testa a franzir no sentido do queixo. e o corpo a cair para o
lado do nada – só ele é que ainda acredita que existe vida nos buracos do corpo.
demência – e depois o sentir do puxar das mãos para trás das costas enquanto os
olhos gritam raiva por não alcançarem tudo. papel – tudo se torna maior que o
cavalheiro. e o nada é gigantesco – no papel nada. no cavalheiro nada. dentro
do homem tudo o que pode matar – o tudo é agora imenso para quem não sabe
escrever – atiro o corpo ao chão. as mãos à guilhotina. e a cabeça ao fundo da
terra onde os bichos nunca escolhem os cadáveres – dentro da terra não há
cavalheiros. só homens. todos iguais. sem nada que os traga à vida. só à
superfície as lápides falam da eternidade do tempo. livros – o lápis partido
dois dedos acima do meu tamanho descansa perpetuamente no rascunho de um
cavalheiro sem nome. lápide vazia – sobra a música. johann sebastian bach a
esmagar com suavidade a esperança de uma clave de sol desenhada em papel de
música. piedade – escrevo como se hoje fosse o meu último dia de cavalheiro –
escrevo com a mesma bondade com que as gaivotas vivem na perpetuidade do mar. e
tomam cada pedacinho do oceano como se fosse a sua casa. tranquilidade
[3
de 4] – contínua
25/10/2013
o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 2
II.
a
vida sem quase nada é
gasta a anotar a presença de quem me demora no olhar – e são tantos os que por
aqui ficam em silêncio. a ocupar o tempo. sem pressa. a falar baixinho. e
sempre com tanta coisa pendurada no corpo – chegam em pezinhos de lã. sem olhos.
sem sorriso. sem fé. e com os braços a suspirar em todas as direções. olham para
sul. esperança. e eu ali a ouvir com os olhos – gosto de ouvir assim. a sentir
os corpos a invadir o que é só meu. e o cavalheiro ali. aflito. a guardar tudo
que consegue agarrar. às vezes tanto. dorido. pesado. colorido. também a preto
e branco. e o que era meu deixou de ser: sou feito de gente. sou nós – quem entende
este nós? alguém? não sei. não sei mesmo. sei que os sinto. sinto toda esta
gente amarrada ao corpo. nosso. e o espaço dentro do cavalheiro cada vez mais
apertado para o homem que já não consegue viver sem ele – a culpa é do homem
que escreve. deixo entrar sempre tanta gente pelo corpo. mas como faria a
escolha. pela roupa? pelo corte do cabelo? pelas mãos? não sei. sou um ingénuo?
não. preciso deles para falar. quer dizer. para escrever o que sou com eles – são
eles que me fazem escrever. é com eles que sinto – só não sei por que aceitam
viver num corpo em agitação. não sei mesmo. imagino que seja esperança. talvez
acreditem que a eternidade é feita da palavra escrita – loucos. alguém pode
acreditar que posso dar a eternidade ao que quer que seja com o que escrevo –
pobre gente. enganados por todos. até pelos cavalheiros – já não há cavalheiros
como antigamente. esses sim. tudo o que escreviam era para sempre. basta olhar
para a minha estante e vê-los vivos. com as capas duras. gravadas a ouro imponente.
e os nomes. como se fossem família. orgulho – escrevo. não tenho outra forma de
dizer o que sinto senão escrever. mesmo que nunca chegue a ter a certeza de que
o que escrevo é verdadeiramente sentido. loucura – a dúvida das palavras é
grande. a do homem que escreve é o dobro – se houvesse uma palavra para cada
coisa que sinto. mas são tantas a dizer sempre tanto e o corpo encurralado em
ilusão. serei capaz de escrever a minha
vida sentida na primeira pessoa? o que sinto é verdade? tenho a certeza que
não. se fosse verdade escrever seria fácil e as palavras surgiriam a qualquer instante
do dia. baixavam da boca às gargalhadas – o papel branco. raivoso. em agonia. nem
uma pinga de tinta. nem uma palavra escrita. solidão – e os olhos cada vez mais
cansados de procurar as palavras desta gente que me entra pelo corpo. pesam – tem
de existir uma área de bem-estar neste corpo enorme. tem de haver um local de
sossego onde o olhar descanse do que sente. tem de haver – acredito e procuro –
talvez esse local esteja escondido nas pernas. não escrevo com as pernas. nem
penso. nem corro. as pernas servem para me manter de pé. e quando quero parecer
maior também servem para me colocar em bicos de pés. não fico muito maior. mas
há quem pense que sim – mas a vida dobrou-me e passo a maior parte do tempo de
joelhos à procura de palavras perdidas – dentro do corpo que escreve. um nada
gigantesco. sinto-me tomado por ele sem explicação. tenho mais de meio dia
gasto no corpo. e nada de palavras – sinto que a solução é trazer os corpos até
às mãos. povoá-las. dar-lhes vida. escrever – nenhum relógio de sol marca o
tempo sem sombra – a chegada da noite é a qualquer hora. acontece com a escrita.
recolha – um papel. e logo aparece gente sem nome. e ali ficam dias e dias a
fazer de conta que o tempo não pesa para os homens que gostam de escrever. para
os cavalheiros – talvez saibam ler o futuro de quem trabalha constantemente com
orações subordinadas. sabem que o erro e o belo estão na mão que escreve. na
linha da escrita. no apuro da dúvida. mestria – somos tantos dentro deste corpo
– mas ali ficam. às voltas no papel. à espera da palavra mais-que-certa para perdurarem
na eternidade de uma folha – escrevo. escrevo cada vez o que é menos meu e mais
desta gente que não se cansa de me acompanhar. tudo é deles. tudo. não tenho
nada meu. nem o cavalheiro. nada – quem sou eu para lhes retirar o que só a
eles pertence? o homem que escreve não é dono de nada. escreve porque escreve. escreve
para ter voz. escreve para dar sentido ao que sente. ao que lhe entra pelos
olhos dentro. escreve para não adoecer – não conheço mais nenhuma razão para
escrever – escreve porque o coração não se cansa de bater sentimentos – quem
sabe um dia a ciência faz “mea culpa” de tudo o que disse sobre o coração – afinal o músculo não bate por bater. o músculo
bate paixão. bate pessoas. bate abraços. bate vida. bate sentir – há um fundamento
sério dentro do homem que não escreve para aceitar esta gente sem nome dentro
de si. sente-os – o cavalheiro sem eles
não existiria – e o homem que escreve permanece em alerta. vigilante. tenso. a
doer. a devastar minuciosamente cada corpo. em espera. estáticos. clementes. transparentes.
humanos. e eu a sentir. a ver como sentem. tudo. tudo de um lado ao outro –
sinto. paulatinamente sinto. escrevo. e esqueço
o mundo dos que me amam tal e qual como sou. nada – o coração a trabalhar calmamente.
sereno. doce. sem ruído. e o silêncio perfeito silencia a dor das palavras que
nascem a ferros – a cada batimento um golpe no músculo que sustenta o
cavalheiro. e o homem vai sofrer – pela boca. chega um sopro frio de melancolia
existencial. mais silêncio – e os corpos que me ocupam vagueiam de um lado para
o outro sem saberem que os sinto como se fossem meus. nascidos de mim. cobertos
de palavras. alimentam-me a esperança de um dia saber falar sem ser através da
escrita – e o cavalheiro em duelo de morte promete ao homem o sossego – um dia
cravo o lápis no coração – a beleza perfeita está sempre nas palavras que ficam
por escrever. sofrimento
[2
de 4] – contínua
18/10/2013
o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 1
I.
sou um
escrevente de histórias do peito – só
falo com o que escrevo. sou assim: grandioso na idealidade. pálido com a boca. trémulo
nas mãos – mas escrevo. sem palavras. seria quase nada – sempre que me expresso.
os dias tornam-se ínfimos. e as narrativas crescem em embaraços. o corpo
estremece. e a janela que me protege do mundo já não é solução para os medos –
escrevo. digo. tento. a procura da palavra autêntica é incessantemente trabalhosa.
esgotante. e o belo oculta-se na minha falta de arte – quando escrevo.
transformo-me num cavalheiro – fato preto. camisa branca adornada com laço de
cetim preto-cinza. colete de veludo escuro justo ao tronco. botões de madrepérola
e dois bolsos pequeníssimos debruados com duas costuras fortes. elegância – apesar
de diminutos. estes bolsos são marcantes; é no seu interior que repousam os
dedos doridos de agarrar o lápis com que me narro – são como os abrigos dos
pastores nas montanhas: feitos de pedra granítica. entrada rente ao chão. sem
janelas. terra batida. cama de urze e fetos. em tão pouco. o corpo descansa da
imensidão do mundo. ali. vivem no sossego de tudo que marca tempo. com as
estrelas acamam. com o sol despertam – despojados de qualquer conforto. ali
resistem à demora do tempo de uma nova pastorícia. acolher. proteger e
agasalhar o pastor e o seu rebanho é a sua missão. palavras – os meus bolsos
também são assim: abrigos graníticos. que me acolhem sempre que o corpo é
açoitado pelo desalento de não saber trazer às mãos o sentir em palavras – um
deles. o da direita. a sul do coração. guarda o tempo numa engrenagem fantástica:
rodinhas minúsculas. parafusinhos insignificantes. chapinhas retorcidas e outras
coisas que o meu saber não sabe descrever. tudo isto faz andar o tempo com uma
precisão inacreditável – é neste tempo que sofro pela falta das palavras – o
homem faz coisas incríveis – quantas mãos abençoou deus para purificar estas criaturas
com o dom de fazerem coisas genuinamente incríveis? quantas? e todos estes
homens divinos encurralados num bolso minúsculo a tomar conta do meu tempo.
relógio – no silêncio. feroz. posso ouvir um tic-tac. delicioso. suave. compassado.
intercalado com o ritmo intenso do coração ansioso – tic. relógio. tac.
coração. tic. relógio. tac. coração e tudo isto numa cadência perfeita.
melodiosa. a grandeza do tempo no corpo a gastar vida tantas vezes em vão – e as mãos a pedir papel. muito papel.
e um lápis com o dobro do meu tamanho. enorme. e dentro de mim tudo agora é
perfeito. tudo mesmo. tudo que pode ser feito com palavras escritas – sou feito
de gaivotas. de liberdade. de braços abertos ao vento. ao tempo. e o meu melhor
amigo. de braço dado. caminha comigo a passo. em palavras nossas diz-me: sabes!
há uma razão para o vento existir. belo – talvez haja – lembro-me de no passado
ler num qualquer livro que não recordo o nome que o belo é aquilo que desespera
– acredito. sinto-me desesperado – na mão. a bengala de punho de marfim. feita à mão por mais um
par de mãos abençoadas. talvez haja um grupo de deuses divididos por áreas de
interesse. a criar homens com dons para tornar o mundo mais belo. e todos
aqueles que gosto desiludidos com tanta falta de palavras – na cabeça uma cartola
imponente. pomposa. importada do país de sua majestade – sempre ouvi dizer que
o primeiro cavalheiro nasceu nas ilhas britânicas. não sei se é verdade. mas
para o caso também não é importante – para perturbar este cavalheiro da escrita
[desconhecido do homem que escreve] na sua infindável busca da palavra mais-que-certa.
a dúvida e a sua mais-que-perfeita omnipresença em toda a criação. sou aflição
– uma maldade autofágica para uma criatura muda que tem como o mais belo dos
prazeres a escrita. ingratidão
[1
de 4] – contínua
14/09/2013
pecado proibido: o caminho que não escolhemos
sinal vermelho. proibido virar à esquerda –
sentido proibido. proibido seguir em frente – sentido obrigatório. proibido virar
à direita – em sinal azul. a mensagem é de auxílio. informação: na rotunda seguir
em frente – gosto dos sinais que aconselham – quadrados. fundo azul e pelo meio
um branco-relevo a dar movimento à informação. e tudo isto sem destoar na sua
circunscrição geométrica – são sinais engraçados. sustentam a organização
rodoviária com ilustrações atraentes: letras maiúsculas gigantes. casinhas.
escolinhas. chávenazinhas. talherinhos. figurinhas simpáticas e determinadas em
movimento – há naquele movimento-parado-decidido
uma convicção segura do caminho. as pernas firmes. uma para a frente. outra
para trás. tudo exprime ação. direção.
determinação. afirmação de uma vontade própria – é para ali que quero ir –
confesso que tenho um fraquinho por estas silhuetas –
[lembram-me a banda desenhada dos
meus tempos de criança]
estes
sinais a que raramente damos atenção. são bons sinais. amigos do homem aberto
ao mundo – orientam sem reprimir. sem obrigar. permitindo o livre arbítrio. o
direito da escolha – escolher caminho é liberdade – no meu tempo não se ensinavam
estas coisas nas escolas. não havia liberdade. nem preferências. os sinais eram
todos de sentido obrigatório – no exame de admissão ao liceu as perguntas eram as
de sempre: quantos castelhanos matou a padeira de aljubarrota? por quem perdeu
o olho camões? como se apresentou egas moniz com sua família ao rei de leão? quem
salvou os portugueses de entrar na segunda guerra mundial? o conhecimento. administrado
com censura. ligado a sinais obrigatórios – sem conhecimento não há liberdade –
a liberdade é tão antiga como o homem – já santo agostinho no século V se
preocupava com as questões da liberdade humana e a origem do mal – um dia o
pecador acordou e disse: o caminho é por aqui – para trás ficou definitivamente
a vida de boémia. vadiagem desinquieta e voluptuosa – possídio. seu amigo
pessoal. descreveu santo agostinho como um homem que trabalhava afincadamente. rejeitando
para sempre o desejo da carne. o luxo e mordomias – não houve nenhum sinal
obrigatório para esta opção de vida – nunca lhe passou pela cabeça que um dia
os homens não seriam guiados pelos seus ideais. mas por sinais de
obrigatoriedade presos a postes de ferro pintados de servidão: o caminho é por
ali. quer queiram ou não – não vou por este caminho porque alguém entende que
devo seguir outro rumo – como deixamos que isto aconteça quando todos sabemos
que o caminho está errado – e o povo sem raiva para novas revoluções – está na
hora de derrubar os sinais de sentido obrigatório – o povo das revoluções
envelheceu e os jovens não conhecem a linguagem de maio de sessenta e oito.
cresceram no conforto. e a resistência é coisa dos livros – estamos todos sem
forças para enfrentar estes sinais de desgraça – temos que reagir. afinal.
estão espalhados em todo o mundo e falam todos a mesma linguagem – um sinal de
proibição é igual aqui ou na coreia do norte – bem. na coreia. atrás do sinal
há uma bala para quem não respeitar os sinais – nestes países os sinais são
sagrados. como na índia o são as vacas – mas nós não estamos na coreia. nem na
índia. nem na austrália. nem na alemanha. estamos em portugal. estamos todos naquele
país que no século XV se atirou ao desconhecido e fez história na história do
mundo – vamos continuar a permitir que o nosso país levante mais sinais de
terror – não sou anarquista. pelo contrário. gosto de regras. gosto de boas
regras quando estas derivam da vontade do homem sábio e justo – mas há homens
sábios e justos a segurar os sinais do meu país? não. não há – então…. voltemos
a fazer história
09/09/2013
rotundus
não gosto de
rotundas – rotunda. proveniente do termo em latim: rotundus. em linguagem de mestre-de-obras
significa toda a construção em forma de círculo – as rotundas da minha terra nasceram
para dar vitórias rotundas aos mestres-da-política – todas as rotundas são
filhas de atos eleitorais e oriundas de várias famílias políticas – miscigenação – sem a promiscuidade
das várias linhagens políticas as rotundas nunca encontrariam habitat favorável
à sua reprodução – ostentando formas de mistura pouco condizentes com os costumes
do povo nativo. impõem a sua cultura correligionária com o seu “modus operandi”
e depressa esquecem a ligação de um povo a uma terra que os guarda há séculos –
esta gente. simples. honrada e determinada. sempre teve por hábito caminhar em
linha reta superando as adversidades da construção infindável de um
estado-nação – a nossa história tem raiz. alma. paixão. sacrifício. língua e
muita coragem. não somos um povo qualquer. e. por isso. não conseguimos
compreender esta nova obrigação de tornear rotundas ocas. rotundas de eleição –
rotundas estas que não servem para coisa nenhuma a não ser a permuta do voto – estes
comportamentos indignos. indecentes. indecorosos quebraram todas as normas da respeitabilidade
do homem-político trazendo o descrédito para toda a classe – para aristóteles.
o homem é um animal político atingindo a sua plenitude no espaço da pólis –
para este filósofo a “cidade ou a sociedade política” é o “bem mais elevado” e
por isso os homens se agrupam em comunidades. da família à pequena aldeia –
esta aliança do bem-comum dá origem às cidades e aos estados – onde está este
homem-político? talvez só tenha existido mesmo na antiguidade – o que seria de
nós sem os filósofos? onde encontraríamos o saber. esperança. lisura. escrita
do bem. o pensamento puro. não digo o pensamento sem erro. digo puro. decantado
do pecado. da ambição desmedida – não sei. não sei mesmo. sei que fazem falta.
quero acreditar no conhecimento como remédio de todos os males – os homens das
rotundas. profetas do prazer. discípulos de epicuro. na parte que lhes serve os
intentos da ganância. esquecem o princípio fundamental da sua doutrina de vida:
a amizade – ele não acreditava na vida para além da morte mas acreditava na
generosidade de dar prazer em vida. acreditava que era fundamental dar prazer
para o poder receber – dito por outras palavras. “o melhor meio de ser egoísta
é não ser egoísta - sereis vosso melhor amigo. sendo um bom amigo para os
outros” – as rotundas do meu tempo não fazem amizades; são redondas mas não
simbolizam a aliança do povo com os seus representantes políticos – não há
honra nas minhas rotundas. victor hugo diz: "há pessoas que observam as
regras de honra como se veem as estrelas: de longe” – o meu país está doente.
muito doente e esta nossa gente não merece esta dor de um mal que não é
hereditário – na origem destas novas doenças estão os políticos de um regime
que se diz democrático – mentira. o poder não é do povo – transmissível ao
homem pelo homem. independentemente da sua cor política. o corpo desumaniza-se numa
crueldade animal em nome de uma militância interesseira – o que estava morto já
não está mais – o pecado voltou a despontar e as enfermidades que pensávamos ultrapassadas
voltam a emergir – as revoluções dos povos contra a tirania dos valores da
dignidade humana ainda não terminaram – várias são as teorias formuladas pelos
sociólogos para o aparecimento destas novas estirpes – no entanto. apesar dos
estudos ainda não serem conclusivos. um grupo de estudiosos aponta como principal
causa destas maleitas a mutação do vírus – as principais características desta
nova praga são a flexibilidade. adaptabilidade e mutabilidade – embora este
vírus necessite de uma célula hospedeira para se reproduzir. este manifesta uma
facilidade rara para a reprodução de cópias. dando origem não à morte do
hospedeiro. mas à infeção crónica – os mais afetados com este vírus-parasitário
são os idosos. crianças. desempregados. jovens licenciados. contratados a prazo.
entre outros – infelizmente não se vislumbra nenhuma vacina a curto prazo para
exterminar esta estirpe parasitária – só com uma nova filosofia política
seremos capazes de erradicar para sempre esta desumanidade – as rotundas são
filhas de muitas mães e raramente se sabe quem é o pai biológico – mas afinal
para que servem as rotundas? as rotundas foram construídas principalmente para
os atos eleitorais – depois do escrutínio dos votos. os vencedores. isto é. os
que tiveram mais votos. são impelidos a circular
na rotunda das rotundas – a mãe de todas as rotundas – festejam aos pulos e de
punho no ar gritam vitória – vitória. vitória. vitória. até que o dono da
vitória lhes diz que está na hora de saírem da sua rotunda – o DNA está
contaminado e os santos já não são agostinhos – o pecado veio para ficar. não
há remição da desvirtude. nem retiros espirituais capazes de salvar as almas de
gentalha que vive à custa do sofrimento do seu semelhante – já ninguém fala. gritar
é felicidade e nas rotundas grita-se – o povo da rotunda está satisfeito – quem
não está na rotunda não é “da boa gente” e. quem não salta é estúpido – brevemente.
teremos mais um círculo eleitoral e mais uma rotunda para quatro anos
03/09/2013
tabacaria - álvaro de campos
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
23/08/2013
quase escrevia a frase mais bonita de sempre
escrevo num
quase definido. um quase texto – percebi que o tempo
apesar de malévolo levou-me ao refinamento do supérfluo – escrevo – avalio o
tempo ao segundo de um quase – tenho quase a certeza de que vou acabar este
texto um dia – este quase não tem definição. talvez previsão. talvez adivinhação.
talvez ilusão. talvez desilusão. talvez alucinação. talvez um jogo de xadrez
onde o xeque à vida é diário e o mate é uma certeza absoluta – xeque-mate. e o
que há para fazer fica para sempre parado no quase – quase realizei aquele
sonho. quase – não sei explicar o quase – passei a vida encavalitado em muitos quase[s]
e agora resta-me quase nada
– sartre trata o nada em oposição
ao ser –
aceitamos a vida com uma palmada
no rabo. um biberão. o primeiro passo. o primeiro dia de escola e depois. de
repente. é como se tudo acontecesse em vinte e quatro horas – existo cunhado por
um nome. um número de existência e tudo se resume a uma impressão digital.
única. dizem os entendidos – pelo batismo. sou de um outro mundo. crente.
piedoso. justo. vigiado por um deus que está em todo o lado – a vida eterna é prometida
para lá da minha compreensão – um choro. uma concha. e água na cabeça iluminada
por uma luz que nunca iluminou coisa nenhuma – quase cheguei a acreditar que os
santos um dia me ouviriam – nunca me deram
importância. nem mesmo quando lhes prometi levar ao seu dono o meu peso em cera
pura – bastava que me tirassem este quase das mãos. bastava. para o mundo
sensível sou um pedaço de papel. existo em livros enormes de letras douradas. capa
rija. guardado por funcionários públicos indiferentes ao serviço de um estado também
indiferente – vivo ali até que o bicho da traça se alimente do meu número –
esqueço o nome. somos todos números e resido na página cento e cinquenta do ano
da santíssima trindade – sou filho de um ano – quase era um ano bom se não
fosse aquela tromba-d'água – ceifou a flor da árvore e o fruto apodreceu voltado
para um raio de luz vagaroso – quase lhe acontecia vida – não aconteceu. chegou
tarde. quase chegava a tempo. mas o céu escuro anunciava dúvidas e depois. sem
aviso. apareceram aquelas pedras enormes
de granizo –
– uma fotocópia por favor. frente
e verso –
no tempo uma reta sem fim. agarro-me
a uma equação de resultado infinito: quase era imortal aos vinte. quase era
imortal aos trinta e aos quarenta o corpo deixa de fazer somatórios e afinal
tudo se resume a resto zero – a fumarola acesa e a missa de corpo presente
agendada. falta apenas acertar a hora com os convidados – quem disse que as
retas não têm princípio nem fim? a força gravitacional não admite corpos
suspensos no ar por muito tempo – o centro da terra é humano. e o eixo
imaginário afinal existe. quase perpendicular a uma quase tangente. roda numa
espiral de morte anunciada e tudo se resume a tempo
– galileu afirmou que o movimento
só tem sentido quando comparado com outro ponto de referência –
não tenho ponto de referência. tudo
roda com o desinteresse do tempo pelo que acontece. o tempo consome-se em
voltas a um eixo que roda unicamente sobre si – quase não sou – quase saía a cor
branca. saiu vermelho vivo. e o meu quase preso aos caprichos de um jogo de
sorte ou azar – sorte. azar. sorte. azar. sorte e a roda a rodar – azar. quase fui
escritor – os polos iguais repelem-se. não deixam juntar as letras com perícia para
uma quase lucidez da arte de bem escrever –
– tudo é uma roleta de casino.
vermelho ou preto. par ou ímpar –
e a demência ganha tempo para
tomar de vez o corpo e tudo amarrotado dentro do pensamento – páginas de mim
agoniam numa quase morte no caixote do lixo – tudo morre. até a minha quase vida
feita em papel – morte gritam as palavras. morte gritam os verbos no gerúndio.
e o passado a rir distrai o futuro com um quase ser feliz – quem sabe. um dia.
tens o tempo dos homens justos numa árvore plantada na página dos fidalgos da
casa mourisca. e verás que os negrões de vilar dos corvos nunca foram assolados
por tragédias. quase eram. mas não foram – há um tempo para os homens que sabem
escrever. e um quase tempo para os outros – nasci e morri dentro de um quase.
quase fui afortunado. quase sabia ler. quase escrevia a frase mais bonita de
sempre. quase guardei as pessoas de que gosto para sempre. quase a vida foi
justa comigo. quase já não tenho medo. quase tudo aconteceu como imaginei.
quase não me arrependo de nada – quase –
– "Em todos os homens a consciência tem
só uma maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa."
[júlio dinis] –
aprendi a contar o tempo de uma
forma estranha. não reconheço os dias. sei que aparecem pelo nascer do sol –
todos os dias ouço a chegada das manhãs – trazem penduradas ao pescoço umas quantas
estrelas famosas – todas mortas. digo que estão mortas. quer dizer. quase
mortas. soletram com dificuldade o seu nome – fico com a ideia de que o
sussurram para não serem enterradas em valas comuns –
– no fim da vida. as estrelas
guardam dentro si matéria degenerada –
todas as estrelas querem
pertencer a uma constelação e assim adquirir por direito próprio um nome na
lápide: ursa maior. nasceu e morreu para dar quase dimensão à arte –
cassiopeia. nasceu e morreu musa do quase surrealismo – ursa menor. nasceu e
morreu para dar norte a todos os quase homens errantes – pegasus nasceu e
morreu para dar asas à quase imaginação – hércules. nasceu e morreu para dar
quase força aos imperfeitos – cruz. nasceu e morreu para fazer quase perto o
longe –
– cinquenta –
ano a ano risco no calendário um
traço de trezentos e sessenta e cinco dias – já só o faço uma vez por ano.
tenho medo de ouvir dizer: quase chegava ao novo ano – não sei o que há do
outro lado deste quase
21/08/2013
agosto
acampado na apúlia [praia].
adormecia o coração ao som de "adriano celentano - don't play that
song" – passaram-se 35 anos. mas a paixão ainda vive – era um puto fixe.
20/08/2013
what a wonderful world
está cada vez mais difícil acreditar. mas os humanos ainda estão em maioria neste mundo animal - um dia. o azul vai reaparecer ainda mais translúcido e a equidade será a bandeira dos povos para sempre – acredito
18/08/2013
15/08/2013
retalhos – número de série 14082013s(r)ego04
12/08/2013
sorefame – importante construtor de material circulante ferroviário
| foto google |
I.
1943. as estradas
do mundo estavam cobertas de explosivos – em portugal o metal de cor branca
tornava-se a abastança dos que viviam da terra – os candongueiros. a soldo dos
alemães. pagavam pelo volfrâmio valores
impensáveis a gente afeita à escravidão do trabalho nos campos – finalmente uma
oportunidade trazia alguma dignidade à vida miserável das gentes do interior – abandonaram
os campos para se tornarem mercadores do século XX – substituíram os camelos
pelos burros. as areias pelos montes. os oásis pelas aldeias e criaram a rota
do ocidente: o destino não era veneza. mas berlim. capital do império nazi – winston
churchill bem protestava. mas antónio salazar. astuto. acalmava os ingleses com
a promessa de uma neutralidade temporária – a prioridade para o nosso ditador
era impedir que portugal entrasse para o conflito que mais vítimas causou [60
milhões] em toda a história da humanidade – por tudo isto. a terra era abria-se
sem resistência. e o volfrâmio seguia em marcha acelerada para as fábricas da
guerra – na capital do império. as notícias do conflito chegavam pela voz de
fernando pessa que. via BBC [rádio] de londres. dava conta do avanço das forças
hitlerianas pelo mundo – todas as noites. os ouvidos dos portugueses colavam-se
à rádio. a voz da verdade do mundo livre tinha hora certa para chegar – o medo
agigantava-se na casa das famílias. ninguém queria ver os seus filhos partir
para uma guerra desta dimensão – as consequências trágicas da nossa
participação na I guerra mundial ainda sangravam na memória dos portugueses –
as baixas humanas quase chegaram aos dez mil mortos. milhares de feridos. para
não falar nos custos económicos. um desastre com consequências sociais muito
graves – os telégrafos não paravam de picar fita. decifrar a notícia rapidamente
era crucial para que o jornal da manhã informasse a população da coragem com
que os soldados da aliança tentavam impedir o avanço do inimigo – as páginas
dos jornais encolhiam perante o peso das atrocidades nazis – chegavam as
primeiras notícias da perseguição aos judeus pela polícia secreta do estado
[gestapo] – recomeçava a carnificina de um povo originário das tribos de israel
– o talmud era a palavra da fé numa aliança secular entre deus e os filhos de Israel
– no entanto. desta vez. depressa perceberam que as leis e mandamentos de deus
reveladas a moisés. no monte sinai. não lhes serviriam de proteção – a
sobrevivência era a fuga – começaram a chegar ao nosso país os primeiros refugiados
judeus – poucos foram os que se fixaram definitivamente em portugal. a maior
parte apanhou o oceano e rumou para o brasil e estados unidos da américa – de
país em país. a cruz suástica ascendia ao topo das bandeiras nacionais.
enquanto a europa se tingia de sangue – resistia estoicamente leningrado e
londres – o mundo voltava a ter um inferno aceso pela mão do homem – o papel da
imprensa tornava-se importantíssimo. os jornais eram a fonte de notícias e
informação mais credível da época – apesar do pouco espaço editorial para
informações não relacionadas com a guerra. fazia-se notícia da intenção do
governo português de criar uma nova indústria – pequenas fábricas da porcalhota
uniram-se para erguer plano estratégico de interesse nacional – o projeto surgia.
os fornos aqueciam. o minério derretia. e o milagre acontecia – novos
operários. ainda sem nome. trabalhavam o ferro com mãos fundidas numa liga
resistente com mais de nove séculos – o ferro. símbolo Fe. misturava-se à fé cega
num regime fascista que moldava o país – novos homens de fato macaco. de gancho
em punho. atiravam-se com coragem ao fogo de um inferno nunca antes trabalhado –
a confiança destes novos operários fundia-se a ferro. solidificada em coquilhas-molde
– existia um novo saber. passá-lo de geração em geração tornava-se obrigatório –
todas as grandes nações do mundo assentavam nesta herança de sangue. e dentro
deste povo correria para sempre a cultura. a tradição. a língua. a bandeira – a
alma de um povo como o nosso nunca morria. renova-se com o melhor dos seus
antepassados – tudo agora era aço. temperado pela força do acreditar de gente
com esperança – neste complexo industrial trabalhava gente de todos os cantos
do país. vinham à procura de uma vida digna para os seus filhos – deixaram tudo
para trás: a família. a fome dos campos cobertos de invernos rigorosos. o ceifar
da erva tenra para os animais. as desfolhadas do pão que o diabo amassou. a
meninice descalça com os pés gretados do gelo. a malga de sopa de couves e
feijão. a sardinha para quatro. e as casas acesas com candeeiros de petróleo de
luz vacilante e sombria – partiram vazios de tudo. dentro de si as memórias e a
certeza de que as campas rasas dos antepassados nunca mais seriam aparelhadas –
desta vez a morte dos seus avós chegava para sempre. a saudade não vencia [ainda]
as distâncias – deixaram a noite e acreditaram nos rumores de uma nova luz cristalina
para os lados da capital – tudo valia a pena naquele tempo. a vida brotava em
quartos escuros. e a infância esvaía-se no secar das tetas – aprender era
trabalho. e a escola um mistério que só os ricos sabiam desvendar – para a
gente que vivia do que a terra fazia o favor de dar. escrever era revolver o solo
de enxada na mão. ao ritmo das estações do ano – semear. regar. colher e
sobreviver – finalmente a vida dava-lhes razão. o ferro não se batia com letras.
mas com braços firmes e calos nas mãos – e a nação respirava vaidade com esta
gente de trabalho e silêncio – o fontismo morrera. mas o seu povo à beira-mar
plantado. não – nasceu a sorefame
II.
pouca
terra. pouca terra. o comboio apita caminho – pouca terra. pouca terra. passo a
passo. assinala a conquista de novas terras a gente nova – e a gente esquecida
no tempo de uma nação ingrata a levar os seus afazeres à cabeça para dentro de
braços lusitanos – o norte e o sul estavam ligados desde os primeiros anos do século
XX. mas agora tudo é diferente. nos carris a fadiga dos materiais é nacional. e
as rodas de ferro estão cunhadas com a mesma cruz de valentia com que partiram
as naus do tejo à descoberta do novo mundo – descobrir outro portugal com a
mesma esperança dos nossos navegadores – há uma audácia neste povo que ninguém
entende. somos corajosos. destemidos. arrojados. atrevidos. e o medo-admastor é
sempre para conquistar – somos nós. somos lusitanos. e agora a fazer rolar as
rodas das locomotivas como viriato o fez com as pedras – as pedras eram
enormes. os homens também – tudo começa com viriato. a defesa da soberania
lusitana é feita contra os invasores romanos – verdadeiramente ninguém ainda
hoje sabe dizer quem era este homem que empurrava pedras nos montes – dizem que
era pastor e que os romanos lhe chamavam dux – dux fez-se guerreiro e das
debilidades fez a robustez – tudo estava na força dos braços – mas os traidores
também fazem parte da nossa história: o melhor amigo entregou-o à morte do
inimigo – vendeu a soberania a troco de um par de mordomias – foi um de nós que
o traiu – talvez seja sina da nação parir traidores
mas…
falamos da sorefame.
importante construtor de material circulante ferroviário – nós somos como
somos. e dentro de nós há povos de tantas partes do mundo que não é possível
saber porque somos assim – somos assim porque somos. e nunca seremos capazes de
valorizar o que construímos no tempo desta pátria que não se cansa de ser nossa
– este país é único. apesar de todas as imbecilidades dos seus governantes o
povo continua a envelhecer como afigurou o nosso primeiro afonso – e de branco
e azul tomamos o verde da esperança e o vermelho do sangue – sina. penoso o sofrimento e o povo obrigado a cantar
o fado para caminhar – uma nação feita com a penitência de gente enganada de
século em século – vendemos tudo. tudo. e a nossa identidade é agora um estrangeirismo
que não sabemos entender – dois caracteres em chinês. um verbo em alemão. e por
fim. a vénia inglesa. cor-de-rosa como manda a tradição – e o mundo mais uma
vez cortado à faca dos interesses que não são os nossos. e o talento de um povo
em fuga há séculos – já ninguém se lembra do tratado de tordesilhas – construímos.
e logo de seguida. destruímos – não somos solidários. não há fraternidade.
camaradagem. solidariedade. crescemos em demasia. envelhecemos depressa – na
juventude somos amigos apenas porque somos. falamos a mesma língua. o mesmo
calão. jogamos na mesma equipa. somos do mesmo bairro. vivemos na mesma rua. vamos
à mesma igreja. subimos a mesma árvore. e o pai do meu amigo é amigo do meu pai
– somos – quando nos zangamos resolvemos o problema de punhos ao léu. e no
final tudo que é importante continua dentro de nós: continuamos a falar a mesma
língua. o mesmo calão. jogamos na mesma equipa. somos do mesmo bairro. vivemos
na mesma rua. vamos à mesma igreja. subimos a mesma árvore. e o pai do meu
amigo continua amigo do meu pai – somos – “somos” deveria ser suficiente para
uma nação abraçar e proteger o seu povo – mas a história repete-se e quem diz
que a água só passa uma vez debaixo da mesma ponte engana-se – mais uma vez o
impensável acontece. as nossas cabeças de ferro contaminadas ditam a sentença: sorefame
condenada à morte por injeção letal no conhecimento adquirido – nunca mais
haverá saber a passar de uma geração-respeitada pelo saber guardado pelo tempo
– quem lhes prometeu um país equitativo? portugal já não corre em carris para lá e para
cá – povo deixa de entender o apito da boa nova. a língua já não é de camões. e
o comboio já não diz: pouca terra. pouca terra – ninguém entende o barulho
desta coisa que anda para lá e para cá – do “somos” já não resta nada. nem
fado. nem futebol. nem fátima. nem traidores. estes ficaram na praça do
comércio a olhar para d. josé I de portugal. nome completo: josé francisco
antónio inácio norberto agostinho de bragança. cognominado o reformador devido
às reformas que empreendeu durante o seu reinado – que cognome daremos aos
nossos governantes? defunteiros? – josé sócrates I. o defunteiro – passos
coelho I. o defunteiro – e os séculos vão passar e de nós nada haverá. nem dor.
nem agonia. nem perda. nem ossos. nem remorsos. nada de nada. só história em
papel enganado e vendida em escolas aos filhos da geração do pecado – estamos
em pecado mortal. não matamos. mas deixamos matar – o último traidor tinha
vendido o país a espanha – raios parta esta gente parida na revolução de abril
– abril não foi feito para isto. este “somos” não é liberdade. igualdade.
fraternidade. não é cravo – gentalha de malfeitores. fizeram-se políticos. homens
do saber. e sem saberem como nos fizemos ao longo dos tempos – gente falsa.
esta que diz e desdiz. não entendem o somos – somos: um povo de camaradagem nas
guerras contra castelã. de camaradagem nas naus dos descobrimentos. de
camaradagem nas camaratas da guerra ultramarina. de camaradagem na história da
nação – já não há nevoeiro que traga um d. sebastião – ó gente que decide! o
que fizeste à nossa nação? que fizeste ao nosso “somos”? agora as rodas de
ferro não conhecem as nossas gentes. vem de terras distantes. feitas por mãos
que não nos entendem. não são. não querem saber do “somos” – uma bomba(rdier)
acabou com a sorefame – não foi uma bomba atómica. não. foi uma injeção. aniquilou
a empresa. aniquilou o saber de gente que nunca soube escrever para se defender
– foi um envenenamento controlado à distância: primeiro a falência de um rim.
um pulmão de seguida. uma válvula do coração. e quando tudo fazia acreditar que
a culpa seria atribuída ao colapso dos principais órgãos. primeiro corta-se uma
perna e de seguida outra – o corpo cai desamparado e o que era ferro trabalhado
é agora sucata – lágrimas. ainda não. mais tarde o povo chorará – ninguém
acredita que dentro do ferro retorcido houve um dia ali gente de martelo em
punho a fazer bater o coração de centenas de vidas – e o povo culto grita: é
lixo. é lixo. vai para reciclar – o que é nacional nem sempre é bom diz o
político feito às três pancadas numa revolução de cravos que dizia: o futuro
somos nós – já não somos – já não falamos a mesma língua. não temos o mesmo
calão. não jogamos na mesma equipa. não somos do mesmo bairro. não vivemos na
mesma rua. não vamos à mesma igreja. não subimos a mesma árvore e o pai do meu
amigo já não é amigo do meu pai – já não temos ninguém capaz de voltar a
ensinar um modo de vida que já ninguém sabe como nasceu – eles sabem que há
coisas que nunca mais podem voltar a fazer história – assim se destrói o tecido
empresarial de uma nação – primeiro um milhão para as pessoas. depois um milhão
para o abate. e depois um milhão para calar os que mandaram abater – o trabalho
está concluído – agora pagamos a mercadoria que nos faz falta – ficamos para
sempre sem um saber que não vem nos livros. e já não há mais gente sem saber
ler e escrever para nos ensinar – no passado o ferro era batido ao som da
lembrança das pedras a rolar monte abaixo – já não somos como dantes – somos
desempregados. somos despojos. somos descartáveis – uma gente sem esperança















