toda a
noite de um lado para o outro. e o sono sempre dois passos à frente – já não há
quarto escuro que me guarde os olhos – filmes de serial killers
29/03/2014
retalhos – número de série 04022014s(r)ego09
22/02/2014
retalhos – número de série 27012014s(r)ego08
21/02/2014
para uma amiga com áfricas na língua
com
que então. a menina anda metida nas aftas. a vida da treta é dolorosa para quem.
como nós. gosta de dar à língua a qualquer custo – escutamos então o mundo em
silêncio – mas não desesperes. isso passa rápido e logo estarás de volta à
tagarelice – quando era pequeno. dizia que tinha “áfricas” na boca. talvez
venha daí o meu primeiro passo em direção ao continente africano – adoro áfrica
e o seu povo. o “selvagem”. o “virgem”. o “puro”. o das savanas. das florestas.
dos rios. onde pirogas esculpidas como lanças se deslizam como anzóis – gosto
das suas mulheres de seios nus. sentadas num almofariz de pedra gigante. catam as
cabeças da criançada. presas num tempo sem números – nesta terra. o dia acaba
com as árvores a engolir o céu. como se fossem feijoeiros mágicos. devorando um
sol que nunca viu o mar. e os peixes cobrem-se de rugidos ferozes.
aterrorizando o escuro. e o silêncio é quebrado pela fogueira. a dançar rezas
de um feiticeiro amamentado pelo leite de hiena – hoje. quero acreditar num
deus que fez o mundo em sete dias. só hoje – estou a falar de homens bons. sem
pecado. estou a falar de áfrica. do cheiro à terra queimada. da noite às cinco
da tarde. do calor a deslizar pelo corpo em gotas pegajosas onde os mosquitos
se amarram como se fossem aquelas fitas do antigamente que se penduravam nas
portas das casas. dos leões. das gazelas. dos rinocerontes e toda a bicharada
amiga do tarzan – gosto de áfrica. dos
homens que usam uma tanga para tapar o que ninguém quer ver. gosto das velhas.
com as mamas a cair no umbigo. e riem-se da cara de parvo do caixeiro viajante
que lhes quer vender um soutien – lá estou eu a divagar – queria apenas dizer-vos
que uma amiga tinha “áfricas” na língua – mas afinal o que são umas quantas “áfricas”
na ponta da língua. nada. uma mesquinhez. umas minúsculas borbulhas excitadas
com algum condimento mais apurado. afrodisíaco na construção excessiva de
ditongos orais numa necessidade quase orgásmica para poder atingir o prazer
supremo da comunicação – não basta falar com os olhos. não. não basta. e mesmo
que as mãos pulem dos bolsos e se amarrem em abraços aos corpos que nos pedem
socorro por um beijo que lhes diga: gostamo-nos – nenhum beijo substitui a
palavra atirada de uma língua mesmo com aftas – sou louco. dizem – grave mesmo
é se nos aparece um leão entre os dentes. a correr atrás de uma gazela. e uns
quantos canibais. de ossos enrolados no cabelo. com gritos de fome a dizer: os restos
da carne do almoço nos dentes são nossos– lá estou eu novamente a vaguear – a
fantasiar tipo peter pan – por falar nisso. hoje comi peixe ao almoço será
possível ter um canibal sentado no dente do siso. de cana de pesca na mão. a
lançar o anzol para a boca do estômago à procura de uma qualquer lombriga
pré-histórica – não sei. talvez o remédio para estes meus devaneios cerebrais
seja mesmo internar-me numa casa de saúde mental – descansar nas paredes
brancas. curar-me. penso eu – quartos brancos. janelas brancas protegidas por grades
verdes-esperança. paredes brancas. aparadeira branca. escondida numa mesinha de
cabeceira também branca. chinelos
brancos. pijama branco com o bolso bordado a letras douradas: casa de saúde dos
aflitos. fundada em 1790 e inaugurada por sua excelência o marquês de pombal.
columbófilo. dono de vários pombais e outras excentricidades com aves de rapina
– tudo branco. e um homem preso a um colete de forças negro feito por escravos
embarcados na nau catrineta – e lá vem a nau catrineta anónima a navegar nas
paredes do meu hospício. em ângulos de noventa graus. como se o mundo ainda
tivesse um bom fim num dos cantos da minha imaginação – mas não. para a cada
ângulo de visão uma reta com fim noutro ângulo – vejo tudo em ângulos a que não
sei dar nome. são ângulos meus. onde. nas dobras. faço acontecer sonhos
estúpidos em histórias de coragem duvidosa. protegidas por roupagem branca lavada
com omo – com omo. toda a roupa e imaginação fica mais branca do que o branco –
dentro destas casas brancas nenhum homem é culpado de nada. somos mesmo brancos
dentro de olhos pretos – não sei onde estou. perdi-me. sei que estou a escrever
uma resposta a umas quantas “áfricas” na ponta da língua – quem me dera ter na
ponta da língua agora umas respostas para todas as dúvidas brancas com que me
embrulharam à nascença –talvez seja doença. talvez os diabetes em formação de
ataque. excesso de doce. e as espadas empunhadas em gritos aflitos avisam o cérebro
que está para breve o fim da lucidez e finalmente o triunfo do eterno sobre
a vida terrena – no céu os anjos são
brancos. tão brancos que até se confundem com as nuvens e todos os homens são
transparentes. e os poemas a rimar com palavras que nunca foram usadas por
poetas de olhos encovados de dor na procura das palavras certas. é preciso
sobreviver para além do cabo da boa esperança. o fim do mundo – e as andorinhas
brancas fazem ninhos de algodão nas mãos dos que querem escrever e não sabem.
talvez um dia nasça uma capaz de voar para lá do que os homens sabem – não
quero mais ter a cabeça no inferno. quero ir para o céu. para as nuvens que não
vejo desde aquele dia em que me empurraram para o mundo cerebral – não quero
cérebro. um homem sem cérebro não tem maldade e quando não há maldade não há
lombrigas e sem lombrigas não há canibais a pescar e sem canibais não há leões.
nem gazelas e muito menos carne no meio dos dentes e sem dentes não há
mordeduras e as marcas não são nódoas. são beijos loucos nascidos para amar –
eu gosto de amar. amo tudo. até o candeeiro da minha rua que fundiu por viver
ao abandono de gente como eu – um dia. pego num escadote e mudo-lhe a lâmpada –
e depois. quem sabe. me enforque num filamento iluminado de esperança – e agora
vou fazer o jantar. cabrito assado no forno com batata a murro. não gosto de
cabrito. mas apetece-me dar uns murros – o mundo é cego. e eu vivo dentro dele
- // -
Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
alberto caeiro
03/02/2014
retalhos – número de série 20012014s(r)ego07
se
pudesse calar este silêncio da noite. talvez me visse à lupa de sherlock holmes
– quem sabe. descobrir-me-ia sentado na cauda da ursa maior
30/01/2014
ladainha para afugentar o mau olhado
não
posso mentir. estou proibido pelo meu passado – lido mal com injustiças. mas duvido
que seja diferente da maioria das pessoas. injustiça é injustiça. e não tem
tamanho para um homem de bem – se eu tivesse uma macieira no meu quintal. era
fácil. dois coices fortes. e as maçãs podres no chão pela força da razão – ali
ficariam. a entrar em decomposição na lama. no inferno do tempo. à boca dos
infiéis da terra – o pecado nunca apodrece. precisa de ser devorado – da minha
janela. retirado da arrelia. peço aos santos e demónios piedade – olhos no céu.
acrescento dedos ao rosário. em contas que nunca dão certo na prova dos nove – um
terço pelas vítimas do mau olhado. amém – um terço pelos desafortunados.
deficientes e desbocados. amém – um terço pelas vítimas da ejaculação precoce. amém
– um terço pelas doenças da próstata. amém
– um terço pelas mulheres da má vida. amém e. por fim. um terço por mim. que
não gosto de me sentir assim. amém – mão no bolso. boca em forma de assobio. e
o coração a dar o tic-tac. numa angústia de quem espera por um novo dia – o sol
vai nascer novamente – e vocês. acreditam no mau olhado?
- volto já -
29/01/2014
alberto pimenta
28/01/2014
27/01/2014
escrever reconcilia-me com a vida
obrigado. nuno [mário]. o abraço soube a pouco
escrever reconcilia-me com a minha própria vida – se
existir uma tabela de preferências para o que nos leva a escrever e a ler. é
óbvio que os motivos que apresentas estão. sem dúvida. no pódio dessa tabela –
no entanto. no que diz respeito a mim. melhor dizendo. ao escrivão que escreveu
o texto “não é escritor quem quer”. digo. com sinceridade. que as razões que me
levam a escrever não disputariam os primeiros lugares dessa tabela – escrevo
por necessidade – escrevo para fugir da solidão. quando o faço encontro-me –
escrevo porque é com as palavras no papel que a minha verdade se torna eterna.
ganha importância – escrevo para voltar ao passado e. com a lucidez do tempo
que já me consumiu. encontrar razões coerentes para entender o que sou hoje –
escrevo porque a escrita me obriga a ser autêntico – um ato nobre – escrevo
porque sou feliz a guardar-me em papel. eu tenho uma história – sou feliz a
escrever. a escrita recompensa; se assim não fosse. não o faria – dezenas de
vezes escrevi nas minhas crónicas: o meu maior embaraço é não saber falar – quem diria. eu que falo
pelos cotovelos – não sei explicar nada com a oralidade. defeito do DNA – falo
então a escrever. não é fácil. acredita que não. mas um dia. estou em crer. os
meus filhos. mais maduros. na segunda idade dos porquês. terão estes papéis para saberem um pouco mais
do pai que escreve e. quem sabe. sobre eles próprios – quanto não daria eu hoje
por uns papeizinhos escritos pelo meu pai. fiquei com tantas perguntas por lhe
fazer. tantas mesmo – tenho a certeza de que são mais de mil. muitas mais –
percebi tardiamente que o que nos distanciava na minha juventude é. agora. na
meia idade. o que me torna mais parecido – sou tanto dele e não sabia – se mais
nenhuma razão houvesse esta já seria suficiente para me fazer escrever – um dia
os meus filhos também poderão ficar ainda mais próximos de mim – a questão que
coloco muitas vezes é o motivo por que torno pública uma escrita quase sempre
autobiográfica. interrogo-me se o deveria fazer – confesso. estou muito
dividido nas certezas e nas dúvidas – por variadas razões entendi que o melhor
era escrever – uma das muitas razões é esta que me leva a responder ao teu
comentário: falar para ti. dizer o que penso – escrever o que sou. porque o
sou. é para mim uma necessidade tão forte que não basta ser dita da boca para
fora. tem que ser escrita – outra das razões é que só posso melhorar a minha
escrita se a tornar pública – se não vos entregasse os textos não poderia
aspirar a escrever sempre melhor. o esforço por encontrar as palavras certas
deixaria de fazer sentido. bastaria um caderno de notas. cheio de erros. sem
concordâncias. sem metáforas. sem hipérboles. sem sentimento. sem nada que
fosse verdadeiramente meu. genuíno. bom ou mau. não interessa. sendo o que sou
porque cada um é como é – se não me entregasse na escrita. para que serviria o
corretor do word. para que serviria a gramática que tenho em cima da
escrivaninha. os dicionários. para que serviria a voz de um filho a perguntar
se uma qualquer palavra se escreve com um H ou um A – não quero compreensão
para o que sou. nem para o que fui. quero apreço pelo esforço de encontrar as
palavras mais acertadas para o que me proponho a falar – escrevo para marcar o
tempo. como quem traça um trilho numa floresta com pedrinhas para saber o
caminho de volta – quando escrevo. saio da alma. quando leio. entro na alma.
mas. no final. seja na escrita ou na leitura. é para mim que quero voltar.
sempre – escrever para mim não é fácil. não nasci com essa arte. e para cada palavra
procurada a busca é quase sempre extenuante. fico sempre com a sensação de que
nunca deixo ficar na escrita o sentimento que me acontece na alma – e assim
digo: não sou escritor. mas gosto de escrever. gosto de fazer amigos com a
escrita. gosto de saber que quem me lê entende que o faço com prazer. que dou
tudo o que tenho e que sei para me compreenderem. como se lhes estivesse a
amarrar as mãos – quando alguém me diz que sou escritor. está a dizer-me que
gostou de tomar um café na minha companhia. que fomos ao cinema ver um filme
qualquer apenas para estarmos um tempo juntos. que vimos uma partida de futebol
e pulamos de alegria com um golo que não foi o da nossa equipa – quando alguém
me diz que escrevo. diz-me para não desistir. diz-me. vai em frente. diz-me que
já lhe chega ser o que sou. mesmo que nunca possa ser um verdadeiro escritor.
por essas pessoas. já é importante terem-me nessa meia dúzia de palavras –
escrevo para mim. gosto de mim quando escrevo. mas se pudesse mudar o passado
tenho a certeza de que hoje seria muito melhor escritor. no entanto. não estou
certo se seria melhor pessoa – o que não mudaria nunca era as pessoas que
passaram na minha vida. elas são tudo o que sou hoje. não guardo culpados
dentro de mim. sou o que sou porque em momentos da minha vida escolhi caminhar
sem colocar pedrinhas nos trilhos que escolhi – quando nos perdemos por
convicção. demoramos sempre mais tempo a encontrar o caminho certo para o que
somos na verdade – escrevo hoje para que a verdade de amanhã nunca mais me
atormente o passado – sei que o tempo muda o homem. amanhã poderei ser outro.
mas agora tenho estes papéis escritos – quando escrevo. sou o que sou no
momento. mas. em cada momento. nunca deixo de ser o que fui. e acredito nisso –
eugénio de andrade escreveu um dia esta coisa maravilhosa. "Eu nem sequer
gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no
papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha
angústia palavras de profunda reconciliação com a vida." – também eu me
reconcilio comigo a escrever
22/01/2014
não é escritor quem quer
escrevo prosa. não sei escrever poesia – prefiro
prosa. porque gosto de falar com pessoas. imagino-as a escutar o que escrevo.
acenando a cabeça para cima e para baixo. dizendo sim. sim. como quem entende o
que as palavras não conseguem dizer – as palavras nunca dizem tudo – quando
escrevo. falo muito. sempre mais do que
o necessário – sou assim. o corpo pede e as palavras aparecem. acontecem –
tenho muito medo de dizer pouco. escrevo. e o medo faz eco: estás a falar
muito. estás a falar muito. centenas de ouvidos encolhem-se nas palmas das mãos
em agonia – escrevo. escrevo mais. mais. resisto com palavras guardadas num pavor-silêncio.
meu – e se não me entenderem? escrevo. escrevo como se andorinhas poisassem em
mãos mascaradas de cabos de alta tensão. sacodem a penugem como eu sacudo
letras – para elas não há inverno. cantam primavera em dias de chuva molha-tolos.
esperança – sou tolo por gostar de escrever? não sei. palavra de honra. talvez
seja – talvez a minha tolice derive de um conflito existencial: um corpo
dividido em dois – de um lado o destino. do outro a fé de que todos os caminhos
vão dar a roma – não é verdade. há caminhos para o nada. para um fim do mundo
que nunca se alcança – haverá castigo pior do que saber que metade do corpo não
descobre a sua outra metade cuidada? – não há – punição que não merece nenhuma
das metades – talvez um dia alguém diga que a verdadeira obra de arte nasce da
comparação entre o belo e o monstro. talvez – aceitação. as metades olham-se em
compaixão. e as palavras lutam com a imobilidade do corpo. nada acontece às
mãos – ali fico. estático. de olhos parados no nada. a gozar a antecâmara da
morte num silêncio interior inimaginável – o que de mim resta guarda-me nos
noturnos. tocados em acordes de notas graves. com arranjos de desilusão – só
escrevo com música. é uma questão de ritmo. dizem que a música obedece a
fórmulas matemáticas. talvez seja esta a única ocasião de me encontrar com a
lógica – às vezes. não encontro nenhuma fórmula capaz de me atirar ao futuro.
nem sequer uma insignificante regra de três simples. triste – tenho tantos dias
onde não existo. tudo a permanecer no escuro. com tanta coisa sem nome. e o
coração a bater ao ritmo de uma porta açoitada por vento tirano – um dia destes.
apunhalo-me com uma palavra qualquer. ordinária – estou cansado. os dias estão
mais rápidos. e a mobilidade torna-se mais difícil. estou a ficar com as costas
tombadas. mais para a terra – os invernos chamam cuidados. frio. sempre que
escrevo fico enregelado. e os brônquios a chiar. pingo no nariz e eu sem o
lenço de mão – o pingo suspenso. fungo. escrevo. fungo. escrevo. repito – hoje
tenho um adjetivo qualificativo importante para rabiscar: a minha escrita é uma
palhaçada – e também um superlativo absoluto sintético: sinto-me sapientíssimo
quando escrevo – contradição lunática. fungo – confesso que por cada dia de
escrita o medo duplica e o desespero multiplica-se numa equação de resultado
infinito – quem sabe hoje é o meu dia da sorte. e as palavras constroem-se numa
primavera-abril sem águas mil – gracejo levemente. como se fosse uma daquelas
pinceladas minúsculas de van gogh. colho o ramo de flores da sua jarra.
girassóis brancos. e ato-as com dois verbos fortes: sou o que fui – escrevo. aligeiro
mais duas linhas ao pensamento. se soubesse escrever com arte talvez o livro da
minha vida estivesse no último capítulo. não sei – trago nas mãos palavras que
não são minhas. ouvi algumas. li outras. senti muitas mais. e sem saber qual
das partes do corpo resiste à incerteza – mas é nos silêncios da noite que encontro
outras que não sou capaz de descrever. quer dizer. escrever – destino – paz à
sua alma. luto eterno para um homem que nunca deixou de ser órfão – crueldade.
ninguém deveria nascer com um destino já escrito – só quero que depois de morto
não me roubem palavras da boca. peço – enfrento o que sou com o que fui. belisco-me.
e parto ao futuro navegando à bolina numa agitação norte que nunca parou de
anunciar desordem – agora. agora faço estas páginas de palavras para espalhar entre
os justos. dizem que há muitos. e que basta procurá-los nos murais da
modernidade – todos temos que ser qualquer coisa – o que sou eu quando não sou
o que sou por obrigação? talvez um carpinteiro* de palavras. operário de
palavras. soletradas por uma boca putrificada por uma inquietude autobiográfica
–
onde é que já ouvi isto –
passo
tanto tempo a ouvir-me. e o corpo repete: desiste. desiste. o destino já está
traçado – nunca compreendi a resistência dos órgãos ao suicídio – não me
compreendo – talvez a palavra compreender não seja a mais indicada para definir
esta coisa de querer dizer o que não pode ser dito por quem gosta de falar –
não sei escrever. não sei falar. não sei ler o futuro. vivo num silêncio de
barulho. sobrevivo – escrevo então com este barulho dos dedos a bater as
teclas. dou-lhe com força para fingir que não estou apenas na companhia de um silêncio
silêncio. e ganho coragem para escrever a palavra “graal”: aceito-me –
aceito-me assenta melhor num corpo dividido – aceito-me. gosto da palavra. alivia
a dor que nego àqueles que insistem na soma das partes – sei que existo porque
me obrigo a escrever – aceito-me. é a palavra mais que perfeita – a palavra de
quem escreve para implorar compaixão por uma dor sem nome – escrevo prosa
porque gosto de falar
[*]
– antónio lobo antunes -
21/01/2014
nuit des rêves - noite dos sonhos
de mãos dadas
com a paixão dos tempos
que por mim passaram
sou feliz!
de um lado. a torre eiffel,
do outro. l`arc de triomphe,
hoje. também meu
em degustação
o dîner;
“pavé de rumsteak grillé”
e um bom vinho de bordeaux
pelo olhar. deixo cair um je
t`aime
em surdina. recebo um sorriso
depois.
um leve pisar do pé
e assim vivo
chegam “les desserts”
“mille-feuille a la vanille
bourbon”
sem poder reclamar. o coração
diz mais um olá
somos assim!
agora. aproveitamos o tempo
café. “s´il vous plait”!
entre abraços. congelamos o
frio
somos. afinal. meninos
e em chamas. deslizamos
pelo champs-elysées
em branco. pela iluminação
que agradece
acendemos mais uma luz.
nesta cidade de luz
paris. afinal necessitava de
nós.
assim!
despidos para a vida
é noite
e por aqui andamos a escrever
o que um dia será passado
nosso. e de quem nos lê
16/01/2014
retalhos – número de série 07012014s(r)ego03
às vezes. estou só. imóvel.
como a noite – dentro de mim. o desejo de trazer sonhos à realidade. matar a
solidão e o escuro por inteiro. de uma só vez – com a raiva de uma palavra gelo
– aos retalhos. já basto eu
sou
sou
sou
sou
mesmo contra vossa vontade. sou
não sou este
o que desse palanque cogitais
sou aquele
aquele que daqui
deste meu reservatório
de ideias. sou
sou assim
duro como pedra
mole como os pensamentos
tramados pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido no que sou
sou até um qualquer
sempre que quero
e quando não quero
também sou
hoje. por acaso. sou um ruído com
olhos castanhos
vejo todos os sons com um sou
um sou único
talvez um sou com som
um que se ouve a si
para dizer:
assim serei
com o meu som. eu sou
sou
sou
sou
sou de um tamanho que já não
existe
presente para o mundo
dos que nada são
sou afinal. um sou só
só porque sou teimoso
para não ser um sou dos outros
sou meu
sou do meu sou
talvez louco. sim. talvez
mas sou
sou
14/01/2014
09/01/2014
goya
esta obra
de goya não é muito conhecida. o primeiro biógrafo de goya. matheron. no fim do
século XIX. ignora-a no catálogo das suas obras. o enfermo é o próprio goya –
um autorretrato. o médico é o doutor arrieta. que o tratou de uma doença no fim
da vida e. como presente. goya ofereceu-lhe esta pintura. atrás. veem-se os
fantasmas. figuras do seu delírio – é uma pintura fantástica
05/01/2014
23/11/2013
luto inacabado
acreditei que
o luto estava encerrado. disse: acreditei – esta coisa da morte é estranha.
quando menos se espera. ela volta a manifestar-se. como se nada tivesse partido
– se eu me compreendesse. talvez pudesse escrever algo com mais sentido. mas
não; não me compreendo – quiçá uma parte de mim está morta. e quem escreve este
rascunho. de coisa nenhuma. não é mais do que uma parte do
corpo que teima em escrever para viver
[quando saio à rua. vejo
tudo tão vivo. como se nada tivesse partido do mundo]
tu que me estás a ler. sim.
tu. tu mesmo. achas que estou louco? sabes o que é a morte? sabes? já sei o que
vais responder. vais dizer que sabes o que é a vida: e que a vida são pássaros
a voar em bando e roupa a secar num estendal de uma varanda num quarto andar
desabitado – mas quem me manda escrever? neste dia de merda. talvez o certo
fosse mudar a terra naquele vaso que ninguém vê – mas o bando de pássaros vê –
um dia vou mostrar-vos. talvez. depois de morto. os sonhos floresçam.
anunciando a ressurreição de quem sempre chegou atrasado às palavras. naquele
vaso que ninguém vê
21/11/2013
mário cesariny - é importante foder
07/11/2013
o cavalheiro das palavras: uma dissertação sobre a escrita e a existência - 4
IV.
no corpo. em local desconhecido. um minúsculo
grupo de átomos ligados por palavras funde-se: nasce o texto – as trompetes
rompem o silêncio e anunciam a nova obra do cavalheiro-artista. alegria – no
céu. as nuvens desistem de profetizar tempestade. e o céu dá agora lugar a um
novo astro-anunciador. este indica o caminho aos amantes da leitura para as novidades
do homem que escreve – a comprovação. em papel. é feita de vocábulos
organizados pelo talento dos olhos que ouvem no silêncio – no corpo. a gente
silenciosa parte para o descanso. recolhe-se à mudez das catacumbas do homem que
guarda o cavalheiro. harmonia – é a hora do leitor apaixonado. é a hora da
calmaria. é a hora da serenidade – tudo escrito à mão numa paixão abençoada
pelo ouvir dos olhos – “tenho apenas
duas mãos e o sentimento do mundo” [carlos drummond de andrade]. sinto – o
momento é de paz – o cavalheiro feliz. digo. quase feliz. se não houvesse aquela
dúvida persistente. talvez hoje fosse o dia certo para morrer acorrentado a uma
palavra de gratidão – mas há – a dúvida perdura. sufoca o mundo das pessoas que
guarda sem nome. das gaivotas. dos frutos. da sorte. dos animais. das árvores.
da chuva. da criança protegida no colo da sua mãe. da bicicleta que nunca
existiu. do vento norte. dos pesadelos das noites do nada. do corpo a pedir morte
por um distúrbio mental – paranoico. vive num delírio permanente na procura da
palavra que nunca existiu. mito – o cavalheiro que escreve vive doente na recapitulação
de um texto que nunca está pronto. louco – lê. volta a ler. a calma dói. e já se
vão em cem dias. e o coração a segredar pânico para um abismo de silêncio
sepulcral – não! acabou. não leio mais. a perfeição é a morada dos deuses. só
conheço a casa onde guardo o corpo. agonia – solidão. sofrimento. suicídio – chegou
o momento. coragem. um dia tinha que ser. o cavalheiro resistirá. o homem
resistirá. sobreviver é também escrever – o homem que escreve ali. relembro. os
olhos também. o sentimento. o mesmo de sempre. de dentro. medo – tantos corpos
parados a murmurar cada vez mais baixinho. e as noites que nunca foram noites
em memória-dor. teimavam em iluminar um caminho que nunca encontrei – louco.
acreditei no silêncio das noites. e o corpo cada vez mais doente por não saber
distinguir a loucura da ambição genuína. resignação – tudo parte. tudo na vida
é assim. tudo tem um princípio e um fim. eu também. o cavalheiro também – para
trás uma porta aberta indica desespero: perder para sempre as palavras ouvidas
com o olhar – mais medo – agora sou de quem não me conhece – sobra-me o corpo. tudo
o resto nu. despido pela leitura – contrataria a morte por um dia – mais medo.
muito medo. terror. as palavras no leitor podem dizer o que nunca senti. mais
terror – não há boa escrita sem consciência. sem angústia. sem gemido. sem
arrependimento – amanhã sei que escreveria tudo de forma diferente – morte e
ressurreição – para o leitor. a descoberta de novas vidas. talvez sim. talvez
não. não importa. nunca haverá certezas para olhos que não ouvem – no
cavalheiro. finalmente um momento silencioso anuncia descanso. acredita na
mensagem das palavras. paz – o belo não tem pressa. aparece a cada leitura e
descansa num marcador de livro: é ali que a vida parou. mais tarde será noutra
página – tudo é agora texto. fundido em verdade. ganhou existência terrena.
como o verde das montanhas. como o mar batido a vento. como um instrumento que
trabalha a terra. como árvore de fruto. como flor a nascer e o fruto a aparecer
– as palavras dão pão às bocas e saciam a alma de quem as lê. tudo é real na
escrita de quem escreve para falar. o cavalheiro mais não é do que um homem a
lutar pela sobrevivência do homem que lhe oferece o corpo para se revelar – para
o homem que lê a leitura é apenas a junção das letras de dois homens que se
toleram para sobreviver – a boa leitura é invisível. sente-se – no corpo o
sentimento da leitura encurta o tempo e tudo é
como se hoje fosse o primeiro dia do universo – lá está adão. e eva. nus.
desta vez sem parra. e o cavalheiro ali a ouvir tudo com os olhos. com as árvores vergadas ao fruto – assim está o
homem que escreve. vergado pelo peso das palavras – há um novo mundo sempre que
há um novo texto e também um novo cavalheiro – o homem que escreve prolonga-se
na procura da perfeição – a morte não sobrevive à imperfeição – escrever pouco
e dizer tudo é delírio – para o cavalheiro o texto nunca mais voltará a
pertencer-lhe. a alma do homem-escritor perdida para sempre – e o humano que lê
gosta e ama. não gosta e não ama – recorda e ama. não gosta e esquece – acredita
e sonha. não acredita e o pesadelo acontece – sente verdade e acalenta.
experimenta mentira e o gelo aparece – exigente. egoísta. quer sentir as
palavras como se fossem suas. uma boca para compensar outra – sou também tu
–“ser poeta é ser mais alto. é ser maior” – uma vida à procura do belo-supremo
e o tudo é quase sempre nada ao dia seguinte – as palavras de ontem estão
mortas. o belo é agora arrependimento. a história repete-se. tudo que é palavra
está amaldiçoado – tudo se resume a dar vida ao ouvir dos olhos – o escrevedor
vive com o nascer das palavras e morre com o sono
[4
de 4] – fim


















