30/06/2013
kali
17/06/2013
embuste
imensamente tranquilo – o tempo é realmente a
única cura contra a dor da desilusão – é o que faço neste momento. aguardo –
aguardo com a verdade de um coração que nunca se deixou manipular – aguardo com
tudo o que sempre tive. resiliência inquebrantável – nós aguardamos – aguardamos
todos neste lugar com janelas a que chamo lar – lá fora. do outro lado deste
lugar que nos cobre com dignidade. corre a mentira – não se engana o mundo
sábio. alguns tolos talvez – corre descalço o embuste. carrega fardo pesado de vida
de fraude – pobre e coitada. só como sempre. inverte o mundo para ficar de pé –
estamos aqui todos. unidos como se fôssemos um só tempo – como sempre. e para
sempre. aguardamos imensamente tranquilos – nós
14/06/2013
13/06/2013
sofrimento implacável
estou finalmente
numa paz feita de algodão doce – a última vez que senti esta paz aconchegadora
foi no dia em que enterrei o meu pai – a doença foi cruel e o sofrimento
implacável. para todos – estar em paz é voltar a viver em harmonia com as leis
naturais da vida – doce. como sempre deveria ter sido – lar. doce lar
10/06/2013
todos
08/06/2013
ingratidão
"Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais
conheci homem de valor que fosse ingrato."
johann goethe
18/05/2013
a definição do amor
dantes
escrevia poemas de amor. para viver com o amor
nos
poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a
gente
o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.
que
o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei
o
conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi
muitos
poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que
a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do
amor. e voltei a escrever o que nada havia a
dizer.
porque até o poema é sinónimo de amor.
jorge reis-sá – a definição do amor
-//-
também
eu escrevia
escrevo
pai:
fazes-me
tanta falta
tenho
saudades
desse
teu jeito
de
dar cor
ao
preto e branco
05/05/2013
1ª de maio – o povo já não ordena
foram-se os chapéus e a nação assobiou – foi-se o ardina e
a nação assobiou – foi-se o alfaiate e a nação assobiou – foi-se o leiteiro e a
nação assobiou – foi-se o aduaneiro e a nação assobiou – fecharam-se os
guarda-chuvas e a nação assobiou mais forte – há um novo iluminismo na europa e
as nações gritam de braço no ar: o povo é quem mais ordena. a luz quando nasce
é para todos – e o povo em manifestação a dizer: assim se vê a força da ingenuidade
– quem não gosta de sol? quem não quer andorinhas nos beirais? e o povo sempre
a assobiar em postura de orquestra e o ritmo a sair como marcha militar – os
pés batem certos. comem caminho. e as mãos andam para trás e para a frente.
fazem desenhos geométricos com ângulos de 180 graus – tudo é reto. tudo está de
pernas para o ar na exploração do homem pelo homem – não tardou partiram os
merceeiros e os assobios a chegar escoltados pelo ruído dos carrinhos de metal
– agora tudo gira sem parar noite e dia – e a europa a uma só voz: somos mais
fortes juntos. e a livre circulação a trazer o supérfluo. e o povo a gritar:
somos euro e vamos para onde quisermos com o cartão de cidadão – a soberania a
ruir. e as vozes do além a dizer: também sodoma e gomorra foram destruídas [gênesis
19] – foi-se o escudo e o dinheiro circula à velocidade de um tgv pela mão de
gente que não sabe cantar o fado – tudo é embrulho. e o que é nosso é deles e o
que é deles nunca será nosso – é a lei do mais forte a escrever torto por linhas
tortas. e a nação lusitana saqueada das leis tomadas pelo nosso primeiro afonso
– foram-se as fronteiras. as doutrinas. a nação e a iniciativa de quem com
coragem dobrou o cabo da boa esperança – e os mastros com a cruz de cristo
regateiam ao vento força para lutar contra os adamastores. e todos remam para o
mesmo lado. e o contra–mestre a gritar: terra à vista – somos lusos. somos
gente do sul. somos gente de sol e as gaivotas pasmam por verem gente a falar a
língua de camões – e os mastros com quinas a dizer: somos nós sim. somos gente
destemida. gente de fé. de abraço. é sempre bem-vindo quem vier por bem – e a
dinastia de aviz. e o d. nuno. e a padeira de aljubarrota. e o d. joão. e o d.
henrique. e o vasco da gama . e o cabral. e o colombo. e o fontes pereira de
melo. e o pombal. e a amália. e tu. e
eu. e nós a pensar se tudo isto valeu a pena – e os abutres a chegar com
trabalho precário. e o camponês passa a capataz. trabalha o alcatrão – e a
varina passa a técnica de limpeza. limpa a bosta das multinacionais – e o
pastor passa a comercial. vende lã da china – e a profissão de futuro é um
balcão com gente a vender crédito até ao fim da vida – e os montes a arder de abandono.
e as marés sem o levar e trazer de barcos. e os campos vazios de tudo e tudo a
andar para trás. e os doutores a dizer: é para a frente que se faz caminho – e
tudo é afinal precipício – e o tempo a sorrir para muitos e os assobios a romper
barulho para o lado de poucos – e festa é festa. e o povo dividido por grupos
canta ao desafio: eu estou bem com o mal de alguém – e os dias amenos disfarçam
a tempestade nascida a oriente – e tu ris. e ele ri. nós rimos e o choro de
alguns abafado pela gargalhada coletiva de tantos e os ditados populares
esquecidos. “quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de
molho” – e o povo-nação sempre a assobiar. e as primaveras sempre a nascer mais
cedo. e o degelo aumentou 120 vezes e os rios galgaram as margens da sensatez e
tudo está louco e fácil – e as mãos esfregam-se de ganância e o frio sem
estação do ano certa e o povo-carnaval a dançar sobre o mal dos outros. e o
parlamento-pinóquio diz que é esta a casa do povo de quem mais ordena – o abril
murchou e o zeca volta a cantar a grândola na boca dos esfomeados de pão. de
emprego. de habitação. de dignidade. de honra. de gente que é a minha gente.
carne da minha carne. o meu povo – e o mal agora é de muitos e o bem de poucos.
e paga a saúde. e paga a escola. e paga a justiça. e paga a estrada. e paga o
imposto. e paga o que não tem e povo a ferver. e o passo já não é certo e o
ouvido a escutar o rufar dos canhões e grita: o povo já não está contigo – e a
confiança é choro. e as andorinhas são abutres. e o povo triste grita: contra
os canhões marchar. marchar – estamos fartos de tanta mentira. estamos fartos
de engenheiros. de doutores. de deputados. de políticos. de banqueiros. estamos
fartos de gente que fala por falar – o sol a torrar e a pele a tostar. e o
fator 6 passou a 66 e depois a 666 e o número da burra estampado na testa de
cada zé enganado – e o mal de poucos passou a cem e a razão já não é de ninguém
– e tudo o vento levou com polícias a
correr de um lado para o outro sem saber onde está o ladrão – e o povo ergue as
mãos no ar e grita: “só há liberdade a sério quando houver paz. pão. habitação.
saúde. educação”. e as mãos cada vez mais no ar. mãos que abanam como abanadores
– e a revolta é agora uma palavra de ordem: “assim se vê a força de um povo”
enganado – e a nação mais antiga da europa pronta a explodir com novecentos
anos de unidade e nós enganados. roubados. e os filhos enganados. roubados. e
os netos vão pagar. e os bisnetos vão pagar. e os trinetos vão pagar – o
culpado sou eu
30/04/2013
ai de abril que chegou o maio
ai.
ai de terror. de pânico. de medo. ai de cerrar os olhos e fingir que não vejo o
que vejo
ai.
ai de bandido. de leproso. de excluído. de rejeitado. ai de saber hoje o que
não sabia ontem
ai.
ai de desânimo. de desistência. de desemprego. de fome. ai de não compreender o
que me sai da boca para fora
ai.
ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador
ai.
ai de silêncio. de descanso. de paragem. de pausa. de intervalo. ai de quem era
e não volta a ser
ai.
ai de esgotado. de cansado. de louco. de raiva. ai de um sinal que é cruz
ai.
ai de adeus. de saudade. de suicídio. de covarde. de perdão. ai de quem parte
para nunca mais voltar
ai.
ai cada palavra uma orelha. uma opinião. uma sentença. uma prisão. um abutre. e
nunca sei onde chego
ai.
ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador
ai.
ai de solidão. de aperto. de miséria. de desgraça. ai da culpa que morre
solteira quando há uma aparadeira
ai.
ai de todos os ais. de grito. de corda.
de veneno. de guilhotina. e corta. e corta. e toda a seara morta
ai.
ai. de balança. de justiça. de causa. de equidade. ai da espada que mutila a
razão do pensamento
ai.
ai. de religião. de terço. de salvação. ai de um deus surdo que não escuta a
oração
ai.
ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador
ai.
ai de ânsia. de agonia. de pandemia. ai de aflição. ai de quem já não acredita na multiplicação do pão
ai.
ai de morte. de morte sem salvação… ai. um corpo sem fé é um corpo sem medo da
morte
26/04/2013
o grito - declamado pela voz da minha vida
às vezes acredito
penso que sou poeta
iludo-me
e quero acreditar
que sou fenomenal
único
e mesmo sem falar
basta-me um gesto
para ser um génio do amor
translúcido
penso eu.
então digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém acreditará que és especial.
de tanto meditar
escolho um mundo:
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
aqueles que são poetas só às vezes
esfrego os olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é escassa
e as sombras são vida
o choro
esse…
que nunca se ouve
é onde os poetas de verdade se tornam homens
onde nascem as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas perdidas
os tempos passados
ou mesmo um grande esforço
para se ser aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a falta das palavras.
mas afinal são vaidades
de apenas terem tempo
para o ego
os poetas nada dizem
eles
dizem que dizem
porque escrevem
mas não transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
esgotado para todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na cara
nos olhos
nesta alma que chora
nesta vida que também é vossa
digam-me
apenas mais que uma palavra
mesmo que seja
gosto de ti
desculpem
não chega
eu quero mais
quero que falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso mundo
quero-vos sentados
quero-vos ao meu lado
quero esse vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não interessa
só quero que não escrevam
quero que falem
não se calem
falem
sejam poetas de verdade
ainda há tanto para te dizer. muito mais do que duas palavras. muito mais do que gosto de ti - gosto de estar no teu mundo
25/04/2013
abril. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo
estamos a fechar o ventre da esperança – ouvem-se gritos
inocentes e o céu embrulhado numa bola de fogo cega – há morte de gente boa. há
jardins a secar. há medo. há mulheres com medo. há homens com medo. há povo com
medo. o meu povo está com medo dos vampiros – o mundo já não fica grávido. não
há primaveras. não há flores a nascer. não há cravos vermelhos – renasce. zeca.
renasce com a tua voz. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo
23/04/2013
a morte das flores
equidade – como se previa. depois da morte dos cravos. das
magnólias. das estrelícias. das margaridas e dos malmequeres a morte chegou à
banca das floristas – e o mundo a mirrar
22/04/2013
daniel faria - ando um pouco acima do chão
19/04/2013
sol
vamos todos rezar um credo a esta alma
invernal – o inverno chegou ao fim. morto – tenho esperança. mantenho sempre
esperança no que chega de novo
18/04/2013
bastou um abril... para encher o cantil de sede
ouço – bach. ave maria – e questiono-me se
o tempo é igual para todos – sei tão pouco sobre mim. sei tão pouco do mundo – abril.
abril – cinquenta e um anos. e só me lembro dos invernos e desta dor nas mãos por
não conseguir escrever o que sinto – sinto – sinto tantas coisas na carne e não
sei se são minhas por amor ou fruto de doença maligna – restam-me as gaivotas e
o vento
16/04/2013
abril. doente
depois de uma análise cuidada aos exames
radiológicos o médico. com um ar sério e inquieto. informou-me: essa falta de
ar que lhe está a tirar o prazer de viver é provocada por um “linfoma-troikiano”.
afeta não só o seu sistema imunológico. mas também os que partilham de perto a
sua companhia. esta nova doença. ainda sem tratamento. é também conhecida por “necrose
aguda” capitalista – Infelizmente. as notícias não são boas para si. a doença
está descontrolada as ramificações espalharam-se pelo corpo. danificando
gravemente o funcionamento normal dos principais órgãos da república – a
solução. na minha opinião. é extirpá-lo integralmente – deve saber que esta
intervenção cirúrgica é bastante melindrosa e perigosa – bem sei que não será a
cura total. mas aliviará significativamente esse mal-estar generalizado. aumentando
consideravelmente a sua qualidade de vida – mais do que isso. acredito piamente
que. com esta abordagem global. mais cedo ou mais tarde. conseguiremos
encontrar a solução definitiva para esta aflição. erradicaremos para sempre
esta monstruosidade da superfície da terra – não ficaria de bem comigo se não o
alertasse sinceramente para a possibilidade de existirem sérios riscos de recidivas
complicadas – há imensos imponderáveis neste tipo de intervenção. ainda não é possível
avaliar todos. o risco de uma septicemia generalizada é bem real – infelizmente.
a ciência dos homens bons ainda não encontrou
solução para derrotar de vez os banqueiros. políticos ao serviço do capital
selvagem. administradores de grandes empresas. multinacionais sem escrúpulos.
entre outros – é verdade que o cancro do homem ganancioso ainda ganha terreno.
no entanto. acredito que em breve a revolução que fará nascer um novo mundo. o
mundo dos homens justos – até à vitória final














