27/09/2018
deambulações noturnas XXXIII
24/09/2018
aqui estou
aqui estou eu. um pé no passado e outro no futuro que me
escapa – quem me dera que o mundo não fosse um segredo. nem um passarinho tonto
à procura dos porquês. ou esta coisa que sinto dentro de mim que não sei se é
fé ou vontade de morrer – lanço-me para cima do que sou. escondo-me. a cama
rebola. eu rebolo-me contra a cama. afundo-me num contrato sonolento. luto. fujo
do segredo. fujo dos porquês e perco o rasto dos meus próprios pés –
não quero caminhar mais. estou cansado – a dormir fico morto para o mundo das
sombras – o candeeiro bamboleia entre uma janela e um guarda-roupa. onde
repousam os cabides de uma vida. encostado ao canto dos lamentos um casaco
preto de bombazina. forrado de procura e ambição. mangas puídas. cotovelos
esfacelados e um lenço branco no bolso direito escarrado de atropelos – na
parede a minha foto de há quarenta anos. olhos negros. tristes. não sei se posei
triste ou se antecipei o futuro na lente da máquina. lábio quebrado. cabelo
puxado à esquerda. escorrido. à espera de tesoura para me compor. pescoço meio
torto a tombar para o dono do destino e um cristo pregado por mim à parede – os
olhos de deus perdidos em mim. vigilante. castrador. incómodo. sempre a sussurrar
mesmo em silêncio: não devias ter feito isto. aquilo. aqueloutro. pecaste.
erraste. e a alma dorida de tantos porquês – entraste-me pela boca como se
fosses palavra. eu disse amém e o teu corpo amarrotou-se na minha gula de viver
– se realmente existes perdoa-me por nunca ter aceite o teu destino – se não
perdoares. vomita-me uma última vez e parte de mim como entraste
16/09/2018
eu. a minha cidade. o notário e o iodo
estou no coração da
minha cidade – raramente me desloco ao centro da minha cidade. nunca fui muito
de confusões nem vou muito à bola com multidões – pior. confesso que tenho medo
dos carros que não são conduzidos por mim. das motas com escape livre. dos
polícias com pistolas e das janelas em edifícios que não param de crescer – as cidades já não são como antigamente. são
confusas. impessoais. conflituosas. irritantes. barulhentas. fazem-me nervos. baralham-me
o funcionamento do corpo e o coração começa a bater sem gostar. quando dou
conta o coração descompassa. as pernas entram em desespero. os calcanhares latejam.
perco o discernimento. a paciência. entro numa agitação masoquista. acalento. ruborizo.
fico tresloucado e só me apetece fugir para o que é meu – este cansaço associado
ao nervoso miudinho recorda-me os domingos de verão na minha infância – não
havia domingo de bom tempo que os meus pais não aproveitassem para dar um
pulinho à praia – nessa época. os médicos aconselhavam banhos de iodo para
quase todos as maleitas do corpo e do espírito – os meus pais levavam muito a
sério os conselhos dos senhores doutores. era gente que tinha estudado em
coimbra – no sábado à noite já não havia sossego em minha casa: preparavam-se
os fatos de banho. as toalhas. os bonés. o protetor solar. o prego para o jogo
do espeto. a bola nívea. as cartas para jogar uma bisca lambida e sorrisos que só
apareciam nessa altura do ano. éramos felizes com tão pouco – a noite passava em passo de caracol. mas quando
o dia raiava já a minha mãe e a lurdes [minha segunda mãe] andavam em bolandas a tratar do farnel – neste
farnel não faltava nada. era tudo a multiplicar por dez. o ar do mar incrustado
de iodo puxava um apetite desgovernado – comia-se até chegar com o dedo – a
minha mãe ficava feliz. entendia que crianças bem alimentadas são mais
resistentes às maleitas dos invernos. ficam menos expostas às pontadas de uma
corrente de ar – eu acreditava. naquele tempo. dizia-se que napoleão temia mais
uma corrente de ar do que uma bala de canhão – passei a vida toda com medo das
pontadas de ar e estive quase a morrer atropelado – são coisas do diabo
– o meu pai era o responsável por reunir os apetrechos que garantiam luxo e
conforto à excursão domingueira: guarda-sóis. tapa ventos. mantas. cadeiras e banquinhos
e uma cuba de plástico cheia de gelo para manter as bebidas frescas durante
todo o dia – a questão que se colocava era como meter tudo na mala do carro –
nunca nada ficou para trás – depois dos banhos de sol. sal e iodo
refugiávamo-nos num pinhal a forrar o estômago com as iguarias preparadas pelas
minhas duas mães – eram dias enormes. bonitos. afetuosos. era um abraço que ainda
hoje aperta – chegávamos a casa já com o sol quase engolido pela escuridão – seria
tudo perfeito não fosse eu regressar completamente arrasado de cansaço. sentia
o corpo todo a colapsar. preso por arames. como se estivesse ligado à corrente
elétrica e pudesse implodir os fusíveis a todo o momento – ficava um cangalho. quebrado
e sem forças – a minha mãe dizia que era efeito do iodo. mexia com o meu
sistema nervoso. a transmissão de sinais entre as diferentes partes do corpo
estava em conflito. em rotura e as dores nas pernas completavam a moldura de um
miúdo à beira do colapso – a praia era demasiadamente esgotante para mim – não era nada fácil aguentar
aqueles domingos mergulhados em iodo – o problema piorava com a minha mãe a multiplicar por cem os sintomas.
resultado: overdose quase mortal – mas aos poucos lá me ia acalmando dizendo que
os benefícios destas tomas seriam para toda a vida e que uma noite de repouso traria
tudo à normalidade – assim era. no dia
seguinte acordava novo em folha – em troca destas dores benfeitoras o frio do
inverno não passaria pela lã das camisolas interiores e as gripes e
constipações curar-se-iam com sumos de laranja. vitamina C natural – já não uso
camisola interior de lã. nem ceroulas. nem tenho aquela comichão da lã virgem que
me comia o cérebro o dia todo – só eu e deus é que sabemos o que se sofria com
aquele agasalho. mil vezes pior do que o iodo – toda a comichão acabou quando chegou a
camisola do século XXI: a thermotebe – foi uma bênção de deus – nunca percebi
porque não foi contemplado com um nobel o sr. thermotebe. uma injustiça – o
tempo passou rápido demais. tudo está diferente. trocámos o iodo pelo monóxido
de carbono. comecei a fumar e só parei trinta anos mais tarde. engordei. fiquei
feiíssimo. passei a usar óculos para ler. desisti de correr. de saltar. de ter pressa
pelo dia seguinte. os prédios cresceram. desumanizaram-se. a mercearia do zeca
lacota e a casa de pasto luso-brasileira fecharam. também e à praça do comércio
já não chegam pela madrugada os camiões do algarve carregados com as primeiras
uvas da época – quem a viu e quem vê. não conheço ninguém. ando aqui à meia
hora e nenhum dos meus colegas de liceu passou por mim. estou só numa cidade
que era minha – as portas do comércio despidas de amizade. sem comerciantes
enfarpelados. a sorrir. a dar bom dia. a enviar cumprimentos para os paizinhos.
já ninguém me chama pelo nome. as crianças já não partem vidros a jogar à bola.
nem jogam à macaca. nem há peditórios para as festas de santo antónio. olho
para todo o lado e não encontro nada. nem o mário polícia sinaleiro. está tudo
de pernas para o ar. só os sinos das igrejas batem as mesmas horas – sou um
desconhecido na minha cidade – enquanto caminho vou recusando todas as emoções
saudosistas – um homem tem que ter os olhos postos no futuro. sei ao que vim – vim
ao centro da minha cidade por obrigação. o notário exige a minha presença. com
mais rigor. exige que assine presencial – aqui estou para fazer valer com
verdade o meu nome num papel que deveria ser importante. não estou certo que
assim seja – e o doutor notário confirma que sou mesmo quem diz o cartão de
cidadão – são casas estranhíssimas. povoadas de doutores. de vendedores e
compradores. todos com sorrisos cuidados. os que vendem convencidos que
venderam bem. os que compram inchados de orgulho. atestando o seu poderio
económico e os doutores juram que sem o conhecimento da lei o mundo seria uma selva
– com ar sério só mesmo as funcionárias. estão-se nas tintas para os negócios.
passam-lhes pelas mãos milhões e ganham tostões – já passou o tempo em que era simpaticamente
coagido pelo advogado a entregar voluntariamente uma gorjeta ao funcionário
como reconhecimento de bons serviços prestados – este. agradecido pela
deferência. despedia-se com um aperto de mão que se não fosse o iodo lixava-me
as falanges – subi ao notário para reconhecer uma procuração que permite
alienar. no brasil. uma coisa que nunca rendeu um centavo – que homem de
negócios compreende isto? o melhor é enterrar este ex-negócio no esquecimento
para não me envergonhar – esta coisa dos contratos escritos exige corpos
robustos e bem iodados – o tráfico comercial produz cada coisa mais estranha –
só gente estranha produz coisas estranhas – mas acreditemos no futuro – saí
para a rua feliz. o brasil em breve terá notícias minhas. a minha assinatura
voará sobre o atlântico e me fará representar com tudo que existe em abundância
em mim: imaginação e esperança – creio que este stock de imaginação e esperança
se deve às doses maciças de iodo que apanhei em catraio – a minha mãe tinha
razão. o iodo é para toda a vida – estou de regresso a casa. o tempo passou. os
carros também e os semáforos ordenam ritmadamente o nosso mundo. agora passa a
combustão fóssil para logo de seguida passar a combustão O2 – tudo a consumir
energia que não é renovável e os filhos do criador cada vez mais acelerados e
irritados. afrontam as buzinadelas com movimentos de toureio a pé. e a classe para
sobreviver é a forma como gingamos a coluna vertebral. o joelho metido para
dentro e o corpo a equilibrar a desordem psíquica enquanto o físico acelera
rumo ao inevitável: o fim dos sonhos – vivo nesta confusão que se tornou
sobrevivência. ainda ando com verde. ainda paro com o vermelho – graças ao iodo
ainda conservo o tino – a minha vida é um para-arranca. tanto esticão e
solavanco. um dia fico sem caixa de velocidades – vai-me valendo o iodo para aguentar
esta vida de trampa
14/09/2018
deambulações noturnas XXXII
senti-me inspirado e pensei: tenho de escrever qualquer
coisa – como correu bem resolvi não parar: qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer
coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer
coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer
coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa… e quando dei por mim já
era tudo e já era nada – qualquer coisa
12/09/2018
08/09/2018
acaso
25/06/2018
a imensidão de uma folha de papel – a escrita e o leitor
“desapareci” por
uns tempos do ciberespaço para escrever este ensaio pessoal de dimensão contida
sobre o [meu] ato de comunicação. a escrita que produzo como emissor. como eu-artista
ou [também] como eu-lírico. confesso que. com menos frequência – do outro lado.
em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou
menos próximo. mais ou menos silencioso. crítico. ponderado. com capacidade de
reflexão e principalmente. com sensibilidade para me ler as pausas. a pontuação
e as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta
de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me
lê – quase toda a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “o
autor morre quando põe o ponto final. o leitor nasce a seguir” – nem sempre é
fácil escrever o que trazemos no miolo da alma. a dificuldade torna-se
desespero e o apelo interior para fugir ensurdece – escrever dá trabalho para
caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornarão palavra. coisas que
só o coração sente e que por mais esforço e entrega nunca chegarão ao leitor – não
sou mestre o suficiente – em boa contramão. há a bondade do leitor-amigo e
também do leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem
que. na maior parte das vezes. não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros
o meu mais profundo agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que
de certa maneira resume em muito a minha motivação para escrever - “no fundo.
todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a
necessidade de deixar algo feito. porque esta vida não é eterna e deixar coisas
feitas pode ser uma forma de eternidade”
introdução:
“não vale a pena ter vaidades no processo. porque o que existe de facto é o leitor” – josé ilídio torres
não
vale a pena ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor.
escrevo a partir desta verdade como quem aceita uma condição sem defesa. tudo o
resto vem depois. o estilo. a biografia. a ambição – quando escrevo. escrevo
para alguém que não vejo. alguém que não controlo. alguém que termina o texto
por mim – o leitor não é o fim da viagem. é o ponto de partida – foi o tempo
que me ensinou a desconfiar da vaidade. envelhecer não dói apenas no corpo. dói
na memória. na comparação entre o que fomos e o que já não somos – a escrita
ficou. é o único lugar onde a idade não manda. aqui começa outra coisa. não
nasci com facilidade para as palavras. tudo o que escrevo é trabalho.
insistência. erro. releitura – escrever nunca foi talento natural. foi
teimosia. talvez por isso nunca tenha escrito sem pensar no leitor – é por ele
que volto atrás. corto. recomeço. tremo antes de publicar – aprendi cedo que um
texto não pertence a quem o escreve. pertence a quem o lê. e que basta uma
palavra escrita para justificar uma folha inteira – não escrevo para me
imortalizar. escrevo para falar com alguém – se houver um leitor. basta
1. o
leitor como origem
e aqui estou eu novamente – escrevo. escrevo o que
sei e o que posso. escrevo também o que me dá na real gana – confesso que estou
aterrorizado com as palavras. ou com a sua ausência. desapareceram de mim.
abandonaram-me. nem uma ficou para me iludir – estou completamente só. até de
mim também. não é fácil escolher escrever quando tudo em mim pede fuga. leio.
comparo. tenho tantos livros no meu pé-de-meia. tanta gente que dedicou a vida
à escrita. ao estudo. à procura do mais certo para dizer o incerto. e eu aqui.
como se o meu computador fosse uma arma de destruição maciça. a tentar vender
gato por lebre – releio um texto e surge sempre a mesma frase. podias fazer
melhor. releio outro e a frase regressa. não grita. insiste. a questão é só
uma. poderia ou não fazer melhor – caio em frustração e desapareço do word.
escondo-me no silêncio e interrogo-me em mil e uma coisas que não sei
responder. se tinha dúvidas antes de me esconder agora tenho o dobro. escondido
não sou de ninguém a não ser de mim. sozinho falo apenas para mim. e cada
palavra pesa como uma multidão – dito de forma direta. estou ausente de tudo.
do mundo. dos amigos. da memória. das mãos. da realidade. estou ausente
sobretudo do critério para distinguir a palavra viva. da palavra tosca que chega
ao papel aos repelões. raivosa. inútil. um desabafo hostil – bem sei que há
coisas que não controlo. quando partimos do corpo deixamos tudo para trás. até
o critério. e um homem sem critério não escreve. gatafunha – para se escrever é
preciso um propósito sério. uma mensagem coerente. ponderada. mas também
intensa. questionável. controversa. com pensamento maduro. mas sem perder a
irreverência – depois. é preciso escrever como quem conversa entre amigos. com
calor. com paixão. com envolvimento. capaz de puxar o leitor para dentro de si.
sentá-lo no seu interior com vista para tudo o que é seu. convidá-lo a sair do
seu mundo e dizer-lhe que. apesar do seu silêncio. é ele quem termina todas as
histórias – nenhum escritor sobrevive sem pelo menos um leitor. o leitor é o
centro do universo. todas as histórias gravitam à sua volta. não vale a pena
ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor. cabe-lhe
depurar a leitura. separar a palavra que abraça da palavra que diz basta. daqui
para a frente somos diferentes. acabou a tua história. só a leitura une o autor
ao leitor para sempre – um escritor precisa sentir-se possuído por um leitor
exigente. provocador. irreverente. só assim evolui – um escritor não é um ser
especial. é um carregador de palavras. um carrejão que transporta no corpo o
compromisso imperfeito do homem com o progresso. a imperfeição é o primeiro
passo da evolução. e o escritor-artista sabe isso melhor do que ninguém. ele
sabe que escrever é uma arte de sacrifício. e de superação. por isso não se
cansa de questionar o que escreve – quando não escreve é infeliz. quando
escreve também. a felicidade e a escrita não se misturam – o homem que escreve
é um sofredor na procura constante da perfeição. aceitar o erro é o seu grande
desafio. cada palavra escrita leva um pedaço da sua vida. assimilar. amassar.
dar forma. levar para o papel a sua realidade – um escritor é um interposto de
vários ADN. quando cuidadosamente compilados com arte. sacrifício e devoção.
transformam-se numa mensagem com força suficiente para mover a matéria do mundo
– por mais empírica. por mais precisa e verdadeira. só se manterá
inquestionável enquanto permanecer silenciada e oculta no interior do seu
criador. depois da criação artística. depois de entregue à leitura. será o que
cada leitor quiser que seja. essa é a missão – a minha verdade não existe fora
do meu corpo. cada leitor constrói a sua. e eu sou apenas isto neste momento.
um corpo em avaria total. entrei em combustão. o odor a palavra carbonizada é
insuportável – a escrita ficou – estou amarrado à palavra por um fio. no limite
da esperança. escrever exige vontade. tempo. solidão. silêncio. e eu estou
vazio. sem vontade. sem silêncio – resta a magia. procuro-a. quando não há
magia não se escreve. apenas se sobrevive no passado – com a escrita
reescrevo-me. aguento-me de pé. invento um ombro amigo que me diz tem calma.
isto passa. um dia estás com dez páginas escritas. sinto-me às portas do
inferno – só a escrita me protege da loucura. mesmo quando não escrevo continuo
exposto ao escrutínio dos leitores – o passado de quem escreve nunca morre.
enquanto houver um leitor. as palavras permanecem – escrevo para sobreviver.
sempre que escrevo crio uma vida. tantas quantas folhas de papel. não é fácil
escolher escrever quando tudo em mim pede fuga – é quando me escondo no
silêncio. interrogo-me. vale a pena continuar. será perseverança ou teimosia?
leio. comparo. sinto-me pequeno. sinto-me medíocre. e ainda assim escrevo.
porque escrever é existir. é não me repetir – quando não escrevo. repito-me
2. o corpo
em desordem
quando não escrevo. repito-me. torno-me
insuportável. maltrato-me. fujo dos espelhos como um vampiro. escondo-me atrás
de uma folha de papel e juro que a culpa não é minha. é do divino. de toda a
gente. da casa. da janela meio fechada que deveria estar entreaberta. do tempo.
da porta escancarada. das alterações climáticas e do el-niño que me sacode as
folhas e me atira ao desespero – quando não escrevo. os olhos desalinham-se. as
mãos engalfinham-se e o corpo grita socorro para dentro porque por fora o mundo
é surdo – ninguém quer saber de quem escreve – estou triste. em desordem
emocional. com a língua descolorida. e os lábios secos escondem uma boca a
saber a papel. o nariz ranhoso. os canais lacrimais em conflito. chora. não
chora. e o corpo. numa pilha de nervos. desafia tudo o que se atravessa – a
escrivaninha desfeita segura no tampo o zumbido-assobio de um computador podre.
geme de manhã à noite. está no fim. dizem que se formatar fica para mais um
tempinho – para quê se não tenho palavras. está tudo um caco. tudo preso por
arames. eu também. e não me posso formatar. a idade já não permite. há um
limite no tempo para recomeçar tudo de novo. passei esse limite há muito –
agora tudo me amedronta. não sei o que é feito das palavras. não sei se foram
de vez ou se voltam com mais exigências – estou como o burro no meio da ponte.
sem saber se espero ou desapareça para dentro de um livro – estremeço. a cabeça
imagina a morte. os pulmões rasgam-se. os braços deitam-se ao passado e remexem
no que está escrito – reler alivia a pressão – e o desassossego instala-se em
tudo o que sou – caio. não caio. desisto. não desisto. estou aflito. perdido.
sozinho. até de mim – o desespero trabalha com engenho. atiça o desalento.
devora coragem. corrompe a confiança – enlouqueço e tudo o que é louco está
fora da racionalidade. do equilíbrio. da tolerância. da esperança – a escrita é
a minha alegria – bem sei que posso sempre falar. mas a fala é volátil.
passageira. imprecisa. engasgo-me. a cabeça acelera. as palavras enrodilham-se
no céu da boca. fico vermelho. desatinado. morro de vergonha – será tudo obra
do divino para me obrigar a escrever? confesso que não sei. e não sei o que
fazer para inverter este apagão – apesar da agitação esperar é a única solução
– quem espera sempre encontra o que procura – estou nos limites da tolerância –
não posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir
de mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também. é agora ou
nunca. pelo menos um tem de chegar ao papel. um. não é preciso mais. basta um
para me despertar desta nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras
desçam pela coluna vertebral e ejacule. basta um e fecundo o papel de tudo o
que sou – basta um – o meu estado de alma está baralhado. confuso. sem rumo.
nada em mim é firmeza. coragem. liderança. quem diz se sento ou não sento. se
deito ou não deito. se parto a jarra ou não parto. se desisto ou não desisto…
quem? sinto o cérebro dividido por um muro de betão. de um lado o que sou. do
outro o que quero ser – e os neurónios esfrangalhados por um texto diabólico da
clarice. um texto destes pode matar qualquer leitor – um leitor morto perde a
lucidez. desfaz-se – e o muro a dividir o que estava unido. uma criança amuada
de um lado. malabarista do outro. os livros em branco no ar. e a mão de atena
sem chegar – os dias repetem-se nas folhas. os livros permanecem no vazio – não
posso esquecer que nasci em abril. nasci em revolução. de cravo ao peito. em
palavras de ordem – a escrita a quem a trabalha – serei abril até ao último
suspiro – olho para o que sobra de mim e vomito. estou um esterco. mas estou
aliviado. pronto para recomeçar o que verdadeiramente nunca acabei – quero o
mesmo cheiro a papel. às letras. às concordâncias. o mesmo barulho do mundo a
correr – estou desabitado de tudo – não sei o que dizer. juro que não sei –
digo que os rios correm para o infinito do mar. quantos poemas dizem o mesmo.
quantos falam de porra nenhuma – e eu com a mania das grandezas nunca estou bem
com nada do que escrevo – não sou humilde – um dia vou pagar por esta altivez –
não é justo viver assim. não é fácil. eu só quero escrever uma história –
quando escrevo sou criança. uma criança de júlio dinis – só quero ser criança e
escrever. mais nada – nunca quis ser grande coisa – o mundo fabrica coisas que
não são para mim – mas não importa. tenho o essencial. uma mulher que amo.
filhos que me adoram. dois cães que me idolatram – tenho um cão que é quase
labrador. quase porque aqui em casa não há raças puras. eu também sou quase
escritor. quase parvo. quase um cavalheiro. sou quase tudo o que gostaria de
ser. mas não sou – o quase que se lixe – o max deita-se ao meu pé enquanto
escrevo. enrola-se sabendo que a noite será longa. nada interfere entre o
teclar e a melodia de bach – sempre que teclo com mais força abre um olho. mede
o meu estado de alma. três segundos. está tudo bem. volta a fechar – creio que
a sua missão secreta é não deixar fugir nenhuma personagem – leio em voz alta.
ele escuta. não julga – fico com a ideia de que para ele tudo o que faço
ultrapassa a excelência – escrever é isto mesmo. enroscarmo-nos em nós.
imaginar um final feliz para um texto quase todo infeliz – não quero ser nada
especial. quero escrever – mas faltam-me palavras para explicar o vazio que as
palavras deixam – quando não escrevo. repito-me
3. a
quase-morte da palavra
quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim.
torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso
que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me
sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do
essencial. e a escuridão toma posse do desejo – primeiro ataca as mãos. depois
o corpo começa a resfriar. a temperatura cai. e os órgãos desorganizam-se –
fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele enrubesce. as unhas
param de crescer. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha o coração. e
interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – fico exausto.
cansado. com a tensão completamente descontrolada – não há de ser nada – o que
me inquieta é sentir o odor da morte. a sua vontade de ceifeira – sei
reconhecer quando a morte sai à rua. também sei quando passa perto de mim – só
não sei se vem por mim. ou pelas poucas palavras que ainda tenho – quando estou
neste estado de quase-morto tudo o que identifico é a tristeza – ninguém
entende esta mágoa. nem eu a sei escrever. ou desenhar. ou transformá-la em
poema – não sei de onde veio. nem como se instalou no corpo. só sei que magoa
–tocam os sinos da igreja da minha paróquia. o badalo anuncia defunto. em
terras pequenas os sinos são mensageiros das más notícias – dizem que quando o
sino deixa um ronco longo. um rasto que não quer parar. alguém morreu ou está
para morrer – não sei se roncou. acho que sim. confesso que estou com medo. não
da morte. mas de não concluir três ou quatro manuscritos que julgo importantes
para quem é próximo – vou ficar atento. um ouvido no adro. outro de vigia ao
sineiro – mas ainda estou vivo. sei-o porque respiro. e ainda não há ceifeira
por perto – nunca pisaria o meu espólio literário para desaparecer do mundo.
nunca pisaria o conde de monte cristo. o dom quixote. o tolstói. o pessoa. o
gabriel garcía márquez. o camões. o meu querido júlio dinis – por eles seria
imortal – resistirei até que a palavra me chegue às mãos – toda a palavra que
me chega às mãos respira. e faz-me respirar – sem palavras não sou nada – mas
também não quero ser nada para além de falar com o que escrevo – nasci para
escrever. quero escrever. sei o que quero ser. mas também sei o que não posso
ser – hoje só quero que nada me aborreça – no futuro. noutro dia. talvez queira
ser um saca-rolhas para arrancar de mim este desassossego. ou um garfo para
levar alimento à alma. ou uma toalha para enxugar a amargura. ou uma caixa de
fósforos para incinerar maus momentos – por agora só quero continuar – não
posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir de
mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também – é agora ou
nunca. basta um. um tem de chegar ao papel. basta um para me despertar desta
nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras me subam pela coluna
vertebral. basta um e fecundo o papel de tudo o que sou – basta um – o resto é
ruído – o passado pesa. o futuro ainda não chegou – só o presente respira –
cada palavra que chega às mãos devolve-me o corpo – quando respiro o corpo
acredita na vida eterna – escrevo para falar com alguém – não peço mais nada –
sem palavras não sou nada – quando não escrevo. repito-me
4. a
tentação da fuga
quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim.
torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso
que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me
sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do
essencial e a escuridão toma posse do desejo. primeiro ataca as mãos. depois o
corpo começa a arrefecer. a temperatura cai. os órgãos desorganizam-se. dão
sinais de colapso – fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele
enrubesce. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha-me o coração e
interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – não tenho medo de
morrer. tenho medo de ficar parado – tenho medo da imobilidade – escrever é o
que me mantém preso à vida. mas quando a escrita falha. tudo falha – e o corpo
começa a pedir outra coisa. velocidade. fuga. deslocação – preciso de sair de
mim – é quando me imagino num automóvel de velocidade. descapotável. a galgar
quilómetros de indiferença. sem medo do tempo. a deixar para trás o que fui – o
futuro é o pé no acelerador. o vento a rasgar o rosto. o corpo centrifugado das
impurezas a pedir mais estrada – não penso. não escrevo. avanço – e a boca fala
sem cuidado. sem ética. sem contenção. a mandar embora tudo o que pesa – quero
distância. quero ruído. quero que o passado desapareça no retrovisor – mas o
retrovisor insiste – olho. vejo-me a chegar do futuro – tudo o que vejo já não
existe à frente de mim. existe apenas atrás – basta uma milésima de segundo
para que tudo se torne passado irreversível – tiro os olhos da estrada e o
futuro já passou – o automóvel corre. mas eu continuo dentro de mim – paro.
arranco. paro. acelero – vou com velocidade. sem pressa – ligo o rádio. desligo
– não quero vozes. não quero notícias. não quero histórias que não são minhas –
a velocidade promete libertação. mas não entrega sentido – não se pode fugir de
si sem levar o corpo atrás – percebo então que a fuga também cansa – que a
estrada não escreve – que nenhum motor substitui uma palavra – posso correr o
mundo inteiro. mas continuo sem escrever – e sem escrever volto ao mesmo lugar
– parado. repetido – quando não escrevo. repito-me
5. onde a
linguagem perde um corpo
quando não escrevo. repito-me. mas há um dia em que
a repetição ganha peso real. um peso que não se imagina – é o dia em que a
morte deixa de ser metáfora – o meu pai morreu e com ele morreu uma parte da
linguagem – não a fala. a linguagem – porque há mortes que não retiram
palavras. retiram o lugar onde elas assentavam – lembro-me do dia como se o
tempo tivesse decidido parar só para nos observar – março. luz limpa. uma brisa
mansa. tudo indecentemente normal – o mundo não se perturbou com a morte do meu
pai – continuou a girar como se nada tivesse acontecido – essa é talvez a
primeira violência da morte – o silêncio misturava a família. os amigos. os
curiosos – todos juntos. todos separados – o padre falava em fé. em vida
eterna. em casa de deus – eu pensava em casas vazias – o meu pai sempre gostou
de ter pessoas à sua volta – naquele dia tinha todas. mas já não estava –
quando caiu a primeira pá de terra algo se fechou definitivamente – não foi o
caixão – foi a linguagem – percebi nesse instante que há coisas que nunca mais
se dizem da mesma forma – a palavra pai perdeu corpo – ficou ideia – e uma
ideia não abraça – o funeral é o reconhecimento da morte – é o cais de embarque
para uma viagem sem retorno – até ali ainda se nega – depois. aceita-se – a morte
exige assinatura – perdi-me nesse dia – passaram anos – ainda estou ali a ver a
terra a cair – há memórias que não avançam no tempo – ficam suspensas. não
envelhecem. apodrecem devagar – desde então escrevo com essa falta. não para a
preencher. isso seria impossível. mas para a contornar – escrever tornou-se uma
forma de conversar com o que já não responde – um monólogo consentido pela
ausência – não escrevo para ressuscitar o meu pai. isso seria blasfémia.
escrevo porque ele me ensinou a estar sentado à mesa. a ouvir. a esperar. a dar
tempo às coisas – e escrever é isso. é dar tempo ao que dói – há dias em que
escrevo e sinto que ele está ali. não como fantasma. como silêncio bom. aquele
silêncio que não julga. que não apressa. que não exige explicação – quando
escrevo respiro. quando respiro acredito. e quando acredito aceito que a morte
não é o fim da palavra – é o lugar onde ela começa a pesar – não tenho medo da
minha morte. tenho medo de morrer antes de dizer o essencial – talvez por isso
escreva. talvez por isso continue – o meu pai morreu. eu fiquei. e fiquei com
palavras a mais e tempo a menos – escrever é a forma que encontrei de não
desaparecer com ele – quando não escrevo. repito-me
6. existir
no meio do ruído
quando escrevo. não é vaidade. nem arte no sentido
elevado da palavra – escrever é sobrevivência – uma espécie de hemodiálise –
limpo o sangue. purifico-me. e volto ao mundo mais justo. mais tolerante. mais
inteiro – gosto de me sentir bem. de andar bonito no mundo – gosto de sorrir e
de sentir sorrisos em contramão – o mundo é feito de sorrisos. uns sinceros.
outros contrafeitos. alguns bordados à mão – mas sempre com afeição – gosto de
quem sorri – da mulher que amamenta. da que trabalha. da que ensina. da que
lava o chão – gosto do homem que prefere sorrir a endurecer – gosto dos que
fazem. dos que cuidam. dos que resistem – nem que fosse apenas pela minha mãe.
nem que fosse apenas pelo meu pai – gosto do sorriso da natureza – da chuva.
dos rios. das árvores. das aves – gosto do sorriso dos animais – dos que voam.
dos que rastejam. dos que sobrevivem – gosto do sorriso do mundo quando ainda
acredita em si – mas confesso que ultimamente tenho perdido a fé – não no
mundo. mas na forma como o mundo escuta – ainda assim não perdi a fé na escrita
– escrevo para não me repetir – escrevo para renovar a confiança – escrevo para
encontrar outra forma de entregar o meu sorriso – quando escrevo trago o leitor
para dentro de mim – acomodo-o – dou-lhe permanência – entrego-lhe tudo o que
sou – sem defesas – o texto é frágil – caminha-se nele com cuidado – cada
palavra pode partir – o leitor sabe isso – caminha atento – compreende – avalia
– e nessa atenção cria-se um lugar onde a morte recua – enquanto lemos ninguém morre
– existe apenas o perigo de morrer – os que escrevem vivem em clausura – não
por desprezo do mundo – mas por excesso de amor – tudo nos importa – mesmo o
que nos rejeita – mesmo o que nos ignora –vivemos num tempo de ruído –
mensagens curtas. frases leves. tudo para durar um dia – ler tornou-se difícil
– escrever tornou-se quase inútil – o leitor é uma espécie em extinção – e no
entanto escrevemos – não para agradar – mas para existir – escrevemos porque
sem palavras desaparecemos – escrevemos para que alguém. algures. nos encontre
– não queremos mansões. nem poder. nem heranças – queremos apenas isto – que a
palavra seja justa – que a língua seja honrada – que a escrita seja digna do
que carregou antes de nós – escrever é confiar no invisível – acreditar que
alguém surgirá de trás de um parágrafo – que lerá – que não nos deixará morrer
sozinhos – escrevemos com medo – cada frase é um risco – cada leitura uma bala
– nunca saberemos se morremos de alegria ou de desgosto – só o leitor saberá –
escrevemos amor. mas dói o erro – escrevemos fé. mas pesa a rotina – escrevemos
vida. mas o que dói é morrer sem chegar –escrevo para enganar a dor – escrevo
para não me tornar vulgar – escrevo porque ainda acredito que uma palavra pode
fazer falta – nem que seja por um instante – existir é isso – fazer falta – nem
que seja uma vez – quando não escrevo. repito-me
7. existir
no meio do ruído
quando não escrevo repito-me – escrevo então. imito
os escritores. e não sou sequer remotamente semelhante aos que sabem escrever –
mas escrevo. bracejo ideias para um teclado negro enquanto os olhos expulsam
uma luzinha hesitante. quase intermitente. como faróis rasgados pela tempestade
– escrevo protegido por uma persiana que do dia faz noite. luz acesa. quatro
lâmpadas iluminam um silêncio absoluto. um quadrado triste e aflitivo – atrás
da escrivaninha uma cadeira segura duas mãos penduradas. inertes. enquanto o
corpo oscila à procura das palavras – não é fácil escrever – escrevo.
procuro-me para fazer uma história – esfrego a manhã nos olhos. estou cansado.
os verbos parados numa indecisão rebelde. continuo ou não continuo – movo-me na
cadeira. os verbos também. querem fazer-se sentir – estremeço. o pensamento
estremece comigo – chegou a hora da luz. o quadrado entra em declínio. desaba –
a manhã explode pelas frinchas e uma ideia implode – o que era para ser
história é agora entulho – o delete pede um impulso suicida – que se dane.
nenhuma ideia é boa até ser história – escrever enlaça-me ao tempo. mesmo ao
que já passou – tudo passa. a vida passa. os amigos passam. a juventude passa –
os livros passam de mão em mão e as palavras tornam-se estranhas – escrevo para
me afastar de mim. para sair de mim – acredito que com a minha escrita acontece
o mesmo que nos retrovisores: há um ponto neutro que nos esconde a realidade. e
quando menos se acredita. ali está o leitor em atenção. a buzinar. a surgir de
trás de um parágrafo – encontro quem me lê como chega o vento norte. frio.
inconstante. descuidado – e eu perdido de mim. a morrer devagar por um
substantivo coletivo que nunca chega a ser comunidade – resisto – nem sempre
digo o que esperam de mim – escrevo. escrevo e não sou de ferro – escrevo e
choro – e a baba a escorrer pelo canto da boca. e mais outra. e mais baba. e
outra. e as manhãs começam numa carnificina – escrevo esta melancolia que me
ameaça dia após dia – como se a minha vida dependesse do que escrevo – em
tempos não dependeu. hoje escrever é o que me resta para continuar a sair de
mim – não há forma de me esconder da claridade. também não quero. acredito em
recomeços – acredito que cada raio de sol traga outra hipótese. talvez uma
palavra. talvez um silêncio. talvez apenas a coragem de continuar – escrever é
a negação do céu. é insatisfação dos órgãos – hoje dói um pulmão. amanhã o
coração – falta o ar. falta o humor. falta o sentido. e mesmo assim escolho a
palavra para louvar a vida quando já estou meio morto – escrever separa os
amigos – do lado de dentro ficam os que sabem ler. os que podem magoar – do
lado de fora os que vivem sem palavras – os que não leem não sabem magoar.
vivem do lado de fora do corpo. ausentes das palavras – não os condeno. mas não
posso viver ali – não sei porra de nada de mim. nada em mim é suficientemente
importante para decorar – quando me perguntam a matrícula de identificação
respondo: tenho que ver no bilhete. não sei de cor – escrevo porque não sei
viver de outra forma. porque escrever é a única linguagem inteligível que me
permite falar – é com as palavras que saio de mim. e quando me dou conta.
regressei – não sou escritor. imito os escritores – arremesso palavras contra o
papel com uma raiva boa – uma atrás de outra – e continuo – escrevo porque tudo
que escrevo é um bilhetinho que podes encostar ao coração. ou trazer no lenço
da mão. ou no bolso pequenino das calças. porque só quem escreve poderá um dia
ressuscitar – onde houver uma folha em branco eu escrevo. o que for preciso
para existir. e se ali tiver de morrer. que seja com todas as palavras
possíveis – quando não escrevo. repito-me
8. onde o
escritor se faz papel
não vale a pena ter vaidades no processo. porque o
que existe de facto é o leitor” – é verdade. o josé torres nunca teve tanta
razão – é por esta razão. gigantesca. que escrevi este conjunto de páginas e
decidi reconhecer [para sempre] que todo o leitor necessita de papel nas mãos –
assim farei. assim me farei papel – prometo – como será ainda não sei. mas
tenho umas luzes em que acredito – mas nunca jamais poderei [vocês também]
esquecer este meu amadorismo – tudo farei para não vos embustear. nem
desapontar
13/06/2018
clarice lispector - a paixão segundo G. H.
05/06/2018
alegoria
29/05/2018
deambulações noturnas XXX
quem nunca conheceu a dor jamais entenderá a morte –
conciliação precisasse
24/05/2018
facebook - até mete nojo de tão lindo que é
1º parte
apetece-me desabafar
– hoje vou falar sobre a maldita internet
– bem sei que não vai ser fácil. não se fala da internet sem perder uns quantos
amigos cibernautas e mesmo que não os perca na sua totalidade. sei que alguns vão
aziumar e murmurar entre dentes: se fosse escrever para o caralho – mas tem que
ser. apetece-me. e quando me apetece alguma coisa sou como as grávidas: ou faço.
ou corro o risco de perder para sempre esta raiva de escrever – não vai ser
fácil… mas em boa verdade. nos dias que correm. não há nada fácil. anda tudo no
ar. e tudo o que anda no ar ou é avião ou like do facebook
[dito isto]
na
minha juventude. sabia perfeitamente distinguir quando um amigo estava num
daqueles dias em que o pai lhe tinha dado um aquecimento às orelhas. o rosto
trazia instalado um sistema de alerta facial que nos colocava de sobreaviso:
-- estou com pouca paciência. toca a abanar as
orelhas para longe
mas
se pelo contrário conseguisse um suplemento na féria semanal o semblante abria-se
num sorriso rasgado de orelha a orelha e a partilha do aprazimento contagiava a
amizade do grupo mais rápido do que a gripe espanhola:
-- bora pessoal. hoje fuma tudo à borla
sabíamos
tudo uns dos outros. éramos amigos
desde que o sol nascia até ao seu sumiço – o nosso rosto era uma impressão
digital: única. intransferível e decifrável apenas pelos códigos da amizade – eram
tempos do arco da velha
[trinta anos mais tarde]
desde
que apareceu a internet os amigos passaram a comunicar pelas redes sociais numa
linguagem de símbolos e sons universais – passámos a estar diariamente presentes
na vida daqueles que estimamos e também na dos que pouco ou nada nos dizem –
basta ter um computador e um registo no facebook e os amigos começam a nascer
de todos os cantos. mais de mil no primeiro dia e ao fim do mês dez mil e ainda
não completamos seis meses e já temos amigos até do japão e por cada amigo cem
likes. enganchados nos likes milhares de dedos apontados para um céu que nem
sabíamos existir – não é fácil envelhecer com as novas tecnologias. todos os
dias uma nova ferramenta e eu sem escola profissional para me ensinar como se
faz um ctrl-alt-delete – o mundo de pernas para o ar e eu também – não tenho
tempo para tanto amigo. nem que vivesse mil anos chegaria. e o botão enter do
meu teclado gasto. sem tinta. prestes a furar de tanto bater que sim – parece
que estou triste. mas não estou. estou ansioso. as teclas chamam pelos dedos. os
likes sorriem. e os corações cada vez mais vermelhos. os lábios carnudos. os ursinhos.
os gatinhos. um autêntico jardim zoológico nas teclas. onde cada animal parece quer
dizer todo o tipo de merdas que nunca aprendi – estou velho. só sei mesmo deixar
um polegar virado para o céu – espero que todo mundo saiba que estou confiante
e bem de saúde
[hoje é um dia especial]
sinto-me
global. sinto que me entreguei por inteiro ao mundo das redes sociais – só não
quero é que me convidem para jogar á bola. não é por nada. mas já não sou dado
a correrias e também não quero que ninguém saiba das minhas mazelas nos joelhos –
estou todo fodido – ansioso que o facebook me comunique o número de likes
recebidos no último mês – tenho fé que vou bater um novo máximo. estou no
encalço do CR7 – eu e o melhor do mundo
a viver debaixo do mesmo teto global –
os humanos nunca param de surpreender. como muita gente não sabia exprimir os
seus sentimentos. logo surgiram ferramentas virtuais para traduzir emoções num
espaço sem fronteiras – tudo à distância de um clique – carrega num smile
amarelinho com a boca para cima já todo o mundo sabe que se trata de uma dose
controlada de felicidade. dez smiles
seguidos é uma overdose de júbilo. podendo. se não for vigiada. trazer sérios problemas de saúde –
mas para além destas preocupações e benefícios há uma outra vertente que
valorizo imenso. um smile não
envergonha a língua portuguesa. não exige
escrita. basta o tal clique
inofensivo. e até camões agradece – o único problema destas carinhas redondas a
sorrir é perceber a sua veracidade. nunca saberemos se é impostura ou se vem
mesmo do coração. e como recebemos resmas delas por dia. rapidamente percebemos
que o melhor é aceitar tudo como vem empacotado. sem questionar. sem argumentar
e no mesmo instante. para não acumular e perder o sentido da coisa. devolver a
cortesia em modo de correio azul. um dedo virado para o céu acompanhado com uma
dessas carinhas amarelas rechonchudinhas e a amizade ficará presa a cimento
para sempre – quem inventou esta comunicação é um génio. se tivesse nascido na
minha terra. garanto-vos. já teria uma rotunda com o seu nome – não importa o grau
de amizade que liga o emissor com o recetor. a carinha encaixa-se sempre na
perfeição. não importa se é gordo ou magro. letrado ou analfabeto. cavalheiro
ou marginal. viva em braga ou no chile e fale castelhano ou checheno. tudo
funciona sobre rodas – estou convencido de que um dia será com estas figurinhas
que faremos o primeiro contacto com os extraterrestres – comunicar tornou-se um
ato espontâneo. e rende centenas de amigos por dia – como é fácil iludir o nosso
universo habitável – para percebermos se realmente alguém está bem na vida das
redes sociais faz-se uma contagem rápida dos amigos e dos likes conquistados:
-- foda-se. parece impossível: aquele nabo do
antunes já tem mais oito amigos do que eu
2º parte
ganhar ou perder amigos tornou-se um drama com
consequências muito mais sérias do que no meu tempo – nesse tempo. um gajo
embrulhava-se numa troca de socos e pontapés. e no dia seguinte. como nunca
havia gente suficiente para jogar futebol. o remédio era mesmo fazer as pazes –
um aperto de mão e a amizade continuava no mesmo ponto em que tinha sido
interrompida – a oferta de amigos no mercado das redes sociais hoje é maior do
que a procura – os amigos estão ao preço da uva mijona – és um grande amigo se deixares
muitos likes. mas um amigo de trampa se te esqueceres de carregar nos likes – o
nosso mundo de amigos é agora assim:
esgadanham-se por meia dúzia de likes:
-- ó filho se me deixares ser teu amigo prometo que
te faço uns likes tão loucos que até vês a estrela polar
quem
tem poucos amigos nas redes sociais é logo marginalizado – se não me dás um
like. também não levas nenhum meu – se tem poucos amigos é porque o gajo não
deve ser grande pistola. deve ter a mania que é chico esperto. menino da mamã –
vai longe. vai – a solução é ignorar e passar ao lado das postagens e das fotos
– comentar um gajo com poucos amigos? nem pensar. é mau para a sua reputação
-- a estes merdas elitistas que não dão likes nem
lhes dou confiança. bloqueio-os logo – quero que se fodam todos
o
problema é que todos querem ser amigos de todos só para caberem neste mundo
global da internet – estes amigos não pesam às costas. não tens que os
compreender. nem ouvir. nem chamar a atenção num momento menos feliz.
simplesmente existem – é fácil a sua manutenção e mesmo quando se zangam por
algum motivo não andam ao soco. nem têm que apertar a mão como cavalheiros –
agora bloqueia-se o tratante e logo de seguida posta-se uma frase pesarosa no
perfil a dar conta da morte prematura de um amigo que verdadeiramente nunca o
tinha sido:
-- tão bem lhe fiz e o agradecimento é este. não
merecia. não tenho sorte nenhuma com os amigos
e
o milagre da multiplicação já não é pão nem vinho. são amigos aos milhares. a
emergir como ratos. de cantos que nem imaginava existir. e likes. abraços. migo
e migas aos beijinhos e jinhos a perder de vista:
-- força migo;
-- deus é grande;
-- não mereces. mas vais ultrapassar;
-- aconteceu-me na semana passada. é uma tristeza
mas já passou;
-- não ligues migo. esse gajo deve ser um paneleiro
de merda;
-- se fosse comigo. fodia-lhe as trombas;
-- vais “ber” que tudo se vai resolver. tem fé;
-- se precisares de uma amiga sabes que para ti
estou sempre aqui. jinhos;
-- cabrão. eu sei o que merecia esse filho da puta
– há gajos que não se enxergam - abraço
depois
destas manifestações de carinho incha mais que o peixe balão – bem sei que a
maioria destes amigos nem os conheço pessoalmente. e outra grande parte apenas
os conheço de um único aperto de mão. ou de uma palavra reles de circunstância.
ou então porque são amigos de amigos que também não conheço – o amigo de
verdade. aquele que é mesmo amigo amigo. nem me fala pelas redes sociais quando
percebe que há um problema. liga-me. e quando o telefone toca. o nome dele
ilumina o mostrador – atendo. e logo chega em letra grande um like que não tem
o dedo para cima. tem alegria suficiente para alimentar uma conversa por tempo
impossível de contar – e assim é. retoma-se a amizade exatamente no ponto em que
a interrompemos – não importa o tempo que passou. conhecemos todas as inflexões
de voz e recuamos ao passado na única máquina que nos faz viajar no tempo: a amizade – os amigos de verdade são
sempre únicos. cada um deles é um mundo único
-- que saudades tenho desses catraios
neste
novo movimento tecnológico. o mais importante já nem é o número de amigos que
se possa somar. para esta malta o que começa a contar é a rapidez com que se coloca
o like – um verdadeiro amigo tem que estar sempre atento. sempre de sentinela e.
mal surja a oportunidade. o seu like tem de ser o primeiro – acabamos de postar
um texto de quatro páginas e nos primeiros dez segundos já temos cinquenta
likes. aos trinta segundos chegaram já mais de mil e antes do minuto atinjo os nove
mil novecentos e noventa e cinco – incrível – passada a primeira hora. lá chegam
os últimos cinco amigos. de cabeça baixa e cheios de desculpas esfarrapadas. quatro
lamentam não terem tempo para ler a correr. o outro alegou:´
-- a culpa é da EDP cortou-me a eletricidade.
fiquei sem net por causa de uma fatura em atraso
entender
este novo mundo digital exige uma ginástica mental impossível. melhor. creio
até que nos dias de hoje já não há pessoas infelizes – a sociedade é agora um
bando de gente socialmente feliz.
-- toda a gente aparece nas redes sociais a rir.
com dentes mais brancos que o branco mais branco. o pepsodent faz milagres inacreditáveis
– os dentistas estão fodidos – o pessoal escova os dentes cem vezes ao dia só
para sair bem no facebook
todas
as manhãs mandam beijos de bom dia aos montes. o que me leva a pensar que
talvez despertem sem sequer se falarem. creio que é pelo respeito ao espaço de
cada um. no meu tempo. os quartos eram bem menores e não havia como não invadir
o espaço da nossa companheira:
-- vê se te despachas a sair da casa de banho que
quero ir aí
ou
então quando o amor andava no ar ela dizia:
-- deixa tudo arrumado que eu não sou tua criada
3º parte
os casais começavam logo pela manhã a comunicar. a dividir
tarefas e a trocar juras de amor eternas. ela prometia despachar-se mais
depressa nas pinturas e ele jurava pela sua saúde que nunca mais deixaria as
cuecas no chão – mas agora tudo mudou. para melhor. todo o mundo se ama numa
loucura que chega até a ser constrangedora para os casais mais antigos – agora
sei que no passado o amor era muito fatela. senão vejamos – de tempos a tempos.
curtos. vão para a internet. e como se fosse promessa. botam palavras de amor aos conjugues capazes
de derreter até o coração mais empedernido – ninguém resiste a tanto romance
digital
-- estou convencido de que. se o shakespeare fosse
vivo. teria que triplicar a dose de veneno para o romeu bater a soleta. com
este amor não é fácil falecer
o
que mais me encanta é que nos dias de hoje não há casais incultos. todo o mundo
exibe uma bagagem cultural que me comove até às lágrimas. oferecem frases de
autores tão desconhecidos que até os próprios autores citados ficam na dúvida
se alguma vez escreveram aquilo – o amor embrulhado em fitas de arte dura muito
mais tempo – fico sempre muito orgulhoso destes seres humanos tão especiais.
ainda bem que os amigos ficam realmente a saber que adoram literatura e que aproveitam
todos os bocadinhos livres do dia para lerem e promoverem autores desconhecidos
– são os novos mecenas da cultura digital– depois vem a parte pior deste amor
que arde e até se consegue ver. um amigo daqueles do coração. comunicativo e
muito sensível às coisas do amor e que é capaz de ir a tribunal jurar a pés
juntos que aquele amor é a oitava maravilha do mundo das redes sociais deixa um
comentário em lágrimas:
-- parabéns. continuem a regar esse jardim de amor.
vocês são perfeitos. nunca vi um casal que se amasse tanto
responde
logo a dona daquele amor que não cabe numa resma de papel A4
-- és lindo. tens um coração lindo. jinhos lindo
logo
a seguir. o facebook vira uma slot machine. os gostos e corações caem em
catadupa. suficientes para encher o cesto da capuchinho vermelho – a avó dela ficaria
com um ego de super-homem e o lobo mau teria que reaprender o seu papel – a
avozinha comia o lobo de faca e garfo com tanta manifestação carinhosa – mas o
que mais me surpreende nestes movimentos sentimentais são aqueles que substituem
o gosto por aqueles bonequinhos de boca aberta. espantados. creio eu – e aqui é
que a coisa se complica. fico sem saber se esse bonequinho de boca aberta
significa admiração genuína ou puro gozo. no meu computador. as interpretações
podem ser várias:
1º - não fazia ideia de que gostavas tanto do teu
marido. estou espantada;
2º - nunca pensei que ainda se amassem tanto.
depois do que já o vi fazer-te. estou espantada;
3º - olha que tu tens uma lata do caraças. és mesmo
uma vendida. andas sempre a dizer mal dele e agora vens para aqui meter nojo –
se fosses lavar a loiça… sua cabra. estou espantado;
4º - nunca vos vi comunicar um com o outro. mas
aqui na net são o casal mais maravilhoso do facebook. – ó bonitona. deixa que
te diga. és um exemplo para todos. só se pode ter inveja de um amor tão genuíno
- são TOP. estou espantado;
5º - tenho tantas saudades vossas. a última vez que
vos vi estavam a almoçar no zé das bifanas – estavam os dois lindos. são um
casal fantástico – só não fui à vossa mesa porque deveriam estar preocupados
com alguma coisa pois estiveram sempre ao telemóvel e saíram a correr –
beijinhos e continuem assim. estou
espantada;
6º - vocês estão juntos ainda? são uns heróis –
confesso que nunca me passou pela cabeça que o vosso casamento aguentasse tanto
– chegaram a casar pela igreja ou foi só pelo civil? – parabéns. estou espantada;
7º - tens o sorriso mais lindo da net. nunca tinha
reparado. estou espantada;
8º - és uma guerreira para aguentar esse gajo. ele
não te merece. estou espantada;
9º - puta que pariu esse amor. até mete nojo de tão
lindo que é. estou espantada;
10º - adoro-vos. gostava que a minha maria me escrevesse coisas assim. infelizmente é uma puta e só sabe foder-me a cabeça – maldita hora em que levei aquela cabra ao altar. se não fosse os filhos já a tinha atirado da janela – beijinho para vocês. são um exemplo – felicidades e dá um abraço ao sortudo. estou espantado
e
assim continuaríamos com mais uns quantos exemplos. mas infelizmente também eu
não tenho tempo para escrever mais nada – a minha maria está aos berros e já
sei que ou me apresento rapidamente em passo ligeirinho ou acontece-me como da
última vez. deu-me no focinho e de seguida ligou para o número verde de
violência doméstica a queixar-se de défice de atenção – bem sei que tudo acaba bem.
mal apanha um computador esquece tudo. e enche-me de beijos e likes e não se
farta de dizer aos amigos que sou o homem da sua vida – com a idade aprendi a
ser tolerante e nunca me esqueço do que diziam os meus avós: uma bofetada pode
salvar o casamento – o meu já vai a caminho das bodas de ouro e nunca me
queixei de uma bofetada mal dada – sou um sortudo da velha guarda








