soubesse eu
o futuro. soubesse eu o que me espera. e tudo seria mais fácil. mas não sei –
sei que às vezes estou cansado. outras vezes melancólico. às vezes zangado e
irritado. ou agoniado também. e em dias
que não sei precisar. como se merecesse um bónus divino. fico radiante e
enérgico. é então que salto para fora de mim e corro sem saber como parar. e
pergunto-me: por que não corro assim todos os dias – talvez não mereça. talvez
não tenha sido feito para correrias. talvez tenha nascido já envelhecido. ou
com aquela doença rara que envelhece crianças -hutchinson-gilford- como se o
tempo tivesse começado de trás para a frente – mas agora sei que o corpo se avelhentou.
enrugou-se por dentro. mingou. só a cabeça continua parada num apeadeiro à
espera da passagem do último alfa – e o corpo geme como se fosse um bebé
acabado de nascer. a olhar para o mundo com espanto. uma gota de orvalho ali. um
pedaço de sol acolá. um pauzinho de algodão doce a fazer sorrir o pai da
criança. o fumo de um cigarro a girar para o infinito. a lua a ir e a vir. às
vezes prenha. outras anorética. e as pessoas passam de um lado para o outro sem
tempo de chegar a lado nenhum – e eu a olhar para os meus sapatos negros. de
luva. finíssima. e a perguntar-me porque correm as pessoas se vão descalças –
se o futuro me tivesse sido revelado. também me tinha descalçado. tinha corrido
para lá mesmo que depois não soubesse o caminho de volta. tinha inventado uma
casa apeadeiro e metia o alfa dentro do guarda-vestidos pendurado numa cruzeta
a apitar. a anunciar fim do destino. e eu estendido numa senhorinha encarnada
acertava o relógio para o dia em que nasci – quando damos conta os pássaros de ruy belo já não nascem
nas árvores. A macieira já não dá maçãs. e os pecados começam a cair de podre. melosos
e fedorentos. deixamos de ter raiva. cobiça. desejos pecaminosos. o esperma
coalha e as pernas tremem porque tremem. esvaziamo-nos de tudo. ficam apenas
meia dúzia de palavrões agarrados a uma língua que também deixou de estar
afiada. e quase já não consigo mandar tudo para o caralho mesmo que este habite
no mastro mais alto de um navio fantasma – deixamos de pensar no corpo por
inteiro. não queremos saber do cabelo. dos olhos. da pele. da camisa lacoste
que a cobre. nem dos sonhos. só queremos mostrar o fígado e dizer a quem nos
ouve: vejam só este fígado. está como novo. purga o sangue melhor hoje do que
há quarenta anos – depois amarramos no coração e levantámo-lo no ar para que
ninguém deixe de o ver e dizemos: ama mais hoje do que há quarenta anos. bate
como os sinos aos defuntos – queremos dizer com todo o vigor que nunca
embarcamos no alfa para lado nenhum e tudo em nós está como quando aparecemos
ao mundo: virgem e inocente – e enrodilhamo-nos na senhorinha a sonhar com o
passado. e ali ficamos. como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. às
vezes a dormir. outras apenas com os olhos fechados e o corpo acordado de
cansaço. os sapatos-luva pendurados nos pés. cambados e rotos de não ir a lado
nenhum. e as mãos enroladas no tronco a segurar o ar de um mundo cada vez mais
pesado. tão pesado que promete cair a qualquer momento – e o alfa pendurado na
cruzeta a apitar desesperado. a pedir misericórdia. a pedir só mais uma viagem
de ida mesmo que se arraste para lá da vida – se eu soubesse o futuro juro que
tinha envelhecido mais a modinho. tinha embarcado num comboio de mercadorias e
tinha ido para alfama ouvir fado. e quando o fadista calasse as guitarras
deitava-me ao tejo e desaguava na amazónia. pescava piranhas. pendurava
amuletos ao pescoço e gritava por socorro até que os deuses me ouvissem – depois
oferecia o meu corpo aos espíritos da floresta. e em volta de uma fogueira
rogava ao ser supremo do candomblé que me encarnasse numa anaconda e me
deixasse rastejar pelo mundo invisível – se soubesse o futuro. se tivesse feito
a sopro uma bola de cristal. quem sabe vivia lá dentro. e viajava até 3021 e
juro que não dizia a ninguém que tinha mais de mil anos. calçava uns sapatos
luva vermelhos. reforçados com contrafortes. sola de couro dupla e desatava a
correr escondido em sorrisos. e dançava kizomba para o alfa mesmo que não
soubesse o seu destino. mesmo que o fígado tivesse aziumado. mesmo que as
vielas do coração rangessem de velhas. mesmo que as pernas me arrastassem para
lado nenhum e as mãos se estrangulassem de dor por não saber escrever uma única
palavra decente – não queria saber. nunca deveria ter querido saber e assim ainda
era um inocente parado no apeadeiro à espera do alfa – mas aqui ando eu perdido
a fazer contas: quantos quilómetros fiz com estas pernas? quantos abraços dei
com estes braços? quanto calor despendi a amar com este coração? e para todos
me parece demasiado: andei até cansar. abracei até magoar. amei até chorar. e
tudo somado me dá tão pouco tempo de vida – que raio de contas faço eu. de dia
tudo é soma e à noite. no escuro. tudo é resto zero – é tudo fantasmagórico. invisível.
e por mais que queira encontrar uma razão que me salve desta agonia das contas.
nada enxergo: ilumino-me com parafina… e nada. apago as luzes e tudo fica num escuro-negro. rezo.
mas deus ignora-me. tudo não passa de uma mortalidade agonizante. tudo se
divide numa equação simples: noite e dia. preto e branco. certo e errado. com
destino e sem tino. vida ou morte. e eu preso a estas contas que deixam de ser
contas quando o mortal que as faz se lembra que tem o alfa preso numa cruzeta –
e um homem apruma-se. levanta o queixo. esfrega os olhos e pergunta às pratas
que servem de espelho: porque me obrigas a somar se o reflexo duplica o que não
sou – estou convencido de que deveria ter comprado um espelho mágico. ou a cruz
de caravaca. ou uma máquina de calcular baratíssima. daquelas da feira – acredito
que os que vivem a fazer contas ao cêntimo aprendem a ver o mundo por ranhuras.
como eu. que de tanto errar nos números acabei a olhar a vida de lado.
desconfiado e amarrotado. quase fechados – eu também vendi a vida por
tuta-e-meia. e quando comecei. ainda não tinha os olhos em bico. nem tristes. nem
desconfiados. nem amarrotados. só quando fiz contas é que fiquei estrábico.
fiquei quase chinês – às vezes apetece-me tirar o alfa do guarda-vestidos e
deixá-lo fazer caminho. mas depois pergunto-me: deixo-o ir para onde? que
garantias tenho de que vai para o destino apalavrado? que se lixe. continuará
preso à cruzeta e que apite. porque todos aqueles que apitam seu mal espantam –
um dia prometo libertá-lo – e então. todas as contas somadas darão paz
19/07/2021
alfa
22/06/2021
vou
de manhã cedo
salto de mim
e
vou para o que não sou
absorvo
café com leite
uma
bucha de pão
e
sinto o coração alçapão
mas
vou
vou
com pressa
em
expresso
levo
um sorriso
de
vintém
e
vou para o que não sou
mas
vou
assim
como sou
às
vezes camaleão
às
vezes papelão
às
vezes irritação
e
de curva em curva
entre
campeões e matolões
vou
como se não fosse
para
lado nenhum
e
penso:
vou
para lá
ou
fujo para acolá
não
interessa
às
vezes morro por lá
e
também por acolá
mas
vou
levo
a bucha de pão
e
um melão
que
é mais desilusão
do
que ebulição
mas
vou
sem
saber ao que vou
às
vezes sem tino
às
vezes sem destino
às
vezes num equilíbrio
que
é apenas pesar
de
ser o que sou
mas
vou
vou
com temor
triste
e desiludido
[até
perdido]
por
não saber porque vou
se
não gosto do que sou
quando
vou
mas
se o destino me atrasar
volto
atrás
por
caminho envesgado
não
vá satanás saber
que
sou aquele que vai
com
melão
que
é muito mais mutilação
do
que paixão
mas
vou
vou
porque todos vão
mesmo
que ninguém saiba
para
onde vai
esta
procissão
de
tristonhos mortais
eu
vou
mesmo
com melão
mesmo
com mutilação
mesmo
com irritação
eu
vou
vou
com a minha careta
que
não é vedeta
mas
que importa
é
a que tenho
e
é com ela
que
vou chegar
de
onde nunca parti
09/06/2021
eu. o meu pai. e o meu primeiro dia de trabalho - III
3. terceiro dia de
trabalho
7.30 da manhã entro na fábrica. com um pé ao acaso. ainda
não tinha compreendido que na vida um toque de superstição não faz mal a
ninguém. encantonei-me junto à secção de corte. sem saber muito bem o que me
esperava. nervosíssimo e cheio de temor. com os olhos escondidos. aguardava
pelo toque das oito – as mulheres-operárias iam entrando. marcavam o relógio de
ponto. uma a uma davam o bom dia ao filho do patrão. deitavam os olhos ao chão
e esgueiravam-se em passo ligeiro para o seu posto de trabalho – a meu lado. os
meus colegas de corte arrumavam-se calmamente nas suas mesas e começavam a
amolar as facas. num vai e vem da lâmina. rasgando a lixa e o aço. ora com um
lado da faca para baixo. ora para cima. num movimento de pulso firme e ritmado.
certo. como se houvesse um metrônomo a marcar o tempo de ida e volta – as
mulheres mesmo sem quotas. não havia ainda qualquer lei da paridade. estavam em
grande maioria. sempre estiveram neste ramo da confeção – os minutos galopavam.
a ansiedade galopava com o relógio. sem imaginar que iria dar início a um
trabalho de vinte e dois anos – quando levantei os olhos do chão mesas e
máquinas estavam ocupadas. embaladas por um barulho miudinho. cochichos sobre a
minha chegada. curiosas por saber qual
função teria o filho do patrão – seriam mais ou menos quarenta mulheres. mais
quatro homens no corte. um nos acabamentos. um no armazém. e mais três
administrativos. incluindo a minha irmã – o pessoal da contabilidade só entrava
às oito e trinta. era gente com outra graciosidade nos gestos e na fala. mais
citadinos. mais cultos. e por via desse refinamento eram os donos das contas –
a campainha começa a ressoar. tocada pelo encarregado geral. oito horas em
ponto. nas fábricas não há tolerância de ponto. oito horas são mesmo oito horas
– no fim do zunido houve uns microssegundos de silêncio que se estendia por
toda a fábrica – uma explosão de barulho varre todo o silêncio. as máquinas de
costura arrancam agitadas. tinham pela frente oito horas de ziguezague – era um
trabalho duro e de muita responsabilidade. na pele não se pode recuar um ponto.
para além de que uma qualquer desatenção e o dedo fica debaixo da agulha – um
ofício de costas dobradas. braços a carregar material. pernas no pedal. e olhos
fixos numa agulha que não cessa de saltar para cima e para baixo. sem dúvida o
trabalho mais pesado de toda a produção – todo mundo labuta. ao contrário do
liceu que havia sempre mandriões como eu. só trabalhava quando me apetecia ou
quando resolvia frequentar as aulas – o meu irmão já estava a postos. pegava
também às oito e era sempre certíssimo. um autêntico relógio suíço. dos caros.
nunca se atrasava. nunca o vi chegar depois da hora – a minha mãe metida no
meio das mulheres distribuía trabalho. sempre numa lufa-lufa. chamava por esta
e aquela. tudo girava sobre a sua orientação – sempre com um ar de preocupada.
como se trouxesse o mundo às costas. rodava de mesa em mesa gesticulando com
autoridade – depois da ronda. estando todo o material distribuído e certa de
que nada as faria abrandar. embrenhava-se numa mesa a ajudar – o sr. arlindo.
encarregado geral. veio ter comigo. leva-me para a mesa dos forros. chama o
alberto. o mais qualificado na arte de golpear a pele. manda-o preparar uma
faca e uma tala da lixa para amolar o fio. e recebo a minha primeira lição na
arte de amolar – nunca me dei bem com os amolanços. nunca consegui pôr o fio da
faca como um profissional. ficava sempre como um formão. não havia manómetro
que me guiasse a mão. o que me roubava precisão. os cantos e reentrâncias
precisavam sempre de duas ou três passagens para concluir o corte. um desastre
– colocam-me em cima da mesa os moldes de uma determinada bolsa. nunca imaginei
que levasse tantos. teria trinta a cinquenta. felizmente que os do forro eram
menos. mas mesmo assim. quase uma dezena. uma confusão – o alberto começa a
colocar os moldes em cima do forro. chama-me atenção para o desperdício e
alerta-me para a necessidade de os encaixar uns nos outros. era fundamental
evitar desperdício de material. no poupar residia a arte de um cortador de
primeira categoria – por último o perigo da faca resvalar no molde e cortar um
dedo. claro que não evitei alguns cortes. era um novato habituado à
esferográfica – e pronto. chegara o momento de provar o que valia. estava por
minha conta. anos e anos de malandrice e dez minutos de formação profissional –
não me lembro quantos forros fui obrigado a cortar naquela minha primeira
referência. mas também não era importante. o trabalho nunca acabava. o meu
estudo sim. mal começava – ainda não tinha chegado o meio da manhã já eu dava
voltas e voltas à minha cabeça. percebi rapidamente que foi um erro. não tinha
necessidade nenhuma de ali estar. mesmo sendo um estudante medíocre – o orgulho
derrotou-me. empurrou-me para um mundo que só passados muitos anos percebi. e
apesar de me ter apaixonado pela criação de moda. que nunca fui verdadeiramente
eu naquele ofício. nem creio que os meus irmãos também alguma vez tenham sido
inteiramente felizes – não somos da arte dos negócios. somos emocionais. e quem
vive do coração nunca é feito para ser um bom industrial – tudo fiz para
esconder este meu lado afetivo. durante muitos anos fui o patrão mais exigente
dentro daquela empresa. algumas vezes muito duro. tinha objetivos que queria
atingir. queria ser o número um. e talvez por isso. apesar de querer ser o
número um. apesar de me forçar a sê-lo. era ali no meio dos modelos e das
ideias que me sentia inteiro – naquele tempo lidar com o pessoal era muito
complicado. ainda não se falava em produtividade como nos dias de hoje. e muito
menos em competitividade – havia um outro sector da empresa muito importante:
os vendedores. eram um pouco como os propagandistas. lábia e uma conversa
afinada fazia toda a diferença no total de vendas – nunca gostei de vender.
ainda hoje não gosto. tínhamos seis ou sete vendedores espalhados pelo país.
mas quando era exigido a presença de um responsável da empresa junto de um
cliente. pedia sempre aos meus irmãos para me substituírem – os dois eram muito
melhores na arte de impingir mercadoria. principalmente a minha irmã. tinha
herdado esse jeito do meu pai. eram mais profissionais. vendiam mesmo sem
gostar. para mim isso era impensável. para além de serem mais atenciosos. mais
sorridentes – o que eu gostava mesmo era de estar dentro da fábrica. gostava de
máquinas. do cheiro à cola. à pele. e daquela gente que com as mãos fazia quase
tudo – mas onde me realizava. era no gabinete de design e modelagem. era neste
espaço mágico que se criavam todas as coleções – fomos a primeira empresa do
ramo a ter uma equipa de modelistas. o crescimento da empresa a isso obrigou.
no começo a criação de modelos era feita pela minha mãe. quem mais senão ela –
esta equipa. não fazia mais nada a não ser tratar da criação de novos modelos –
era um trabalho infernal. de seis em seis meses tínhamos que criar sessenta
modelos de bolsas. cinquenta cintos de senhora. mais uma dezena de homem.
quatro ou cinco coleções de viagem. tendo cada coleção pelo menos vinte a
trinta modelos. e mais quase uma centena de marroquinaria de homem e mulher –
quando terminávamos as coleções. estávamos completamente esgotados – a par da
confeção dos novos modelos tínhamos que calcular a previsão de vendas.
orientávamo-nos apenas pela experiência e intuição. só com esta arte de
adivinhação era possível começar a fazer compras da matéria prima. centenas de
coisas difíceis de enumerar. trabalhávamos sem rede. o fabrico era feito em
cima das vendas – era um trabalho extenuante. às vezes completamente louco. os
problemas sucediam-se e o improviso era a nossa maior arte – hoje sei que não
seria possível manter aquele ritmo por muito mais tempo. era imensamente
desgastante. valia-me a idade e uma vontade enorme de vencer – depois do
encerramento da fábrica fui pela primeira vez verdadeiramente feliz. não por
escassos momentos. mas durante muito tempo. nem sabia que era possível ter
tanto espaço para ser feliz. reencontrei-me com a família. voltei a estudar. e
finalmente. comecei a ler. essa viria a ser a minha grande paixão. e logo logo
comecei a escrever. faço-o há vinte e quatro anos. todos os dias. seis horas no
mínimo – há males que vem por bem. nunca teria sido o pai que fui. nem o
marido. nem teria sabido separar os bons amigos dos maus. tornei-me exímio
nesta triagem. rapidamente percebo o que está dentro do invólucro – no entanto.
tenho que ser sincero com uma coisa. tudo o que sei e o que sou aprendi na
nossa empresa familiar. e aprendi imenso. entrei um miúdo irresponsável e
aquela gente fez-me homem. prepararam-me para a vida. foi uma experiência
fantástica – confesso que nunca recuperei totalmente daquele encerramento
forçado da empresa. estávamos a escassos anos de nos tornarmo-nos líderes
destacados do mercado nacional. fiquei muito zangado. com raiva dos políticos.
os primeiros tempos foram muito difíceis – não sei se alguma vez vou conseguir
dormir sem que os pesadelos me assaltem o descanso. às vezes dói muito – a
fábrica deu-me autoestima. acreditava em mim. acreditava que tudo o que fazia
teria sucesso. e tive muito. e quanto mais conseguia. mais queria. queria
sempre fazer mais coisas. queria aumentar a produção. fabricar novos produtos.
queria estar sempre na vanguarda da moda. queria ter a primeira cor. a primeira
inovação. a primeira máquina. queria um mundo perfeito. com o envelhecimento
compreendi que o ótimo é inimigo do bom – tinha tantos sonhos. não pensava em
mais nada a não ser tornar-me cada dia melhor. tinha a certeza de que mais
tarde. ou mais cedo. seriamos uma marca de referência nacional e internacional
– apesar de ser muito exigente com todos os colaboradores nunca disse não a
nenhum. fosse o que fosse. tantas vezes critiquei o meu pai pela proximidade
com os funcionários e aí estava eu. igual ou mais próximo ainda – o mais
difícil era gerir os egos dos chefes de secção. passei as passas do algarve
para manter a equipa unida até ao último dia da empresa. felizmente nunca me
abandonaram. principalmente a margarida e o paulo. caíram como árvores. firmes.
de pé. agoniaram a meu lado. e deram-me a oportunidade de encerrar a empresa
com a dignidade possível. fizemos contas com todos os trabalhadores. apenas uma
funcionária não aceitou o acordo – ainda hoje. sempre que me cruzo com qualquer
um deles. saudámo-nos com carinho. é bom saber que ficaram com o melhor de mim
– o mundo do trabalho é complicado para qualquer pessoa que está a dar os
primeiros passos. acredito que em todas as profissões o primeiro dia será
sempre lembrado. mas eu tinha levado uma vida de rambóia. sempre bem vestido.
com dinheiro no bolso. com os mesmos amigos de rua. amava os meus amigos. a
partilhar todas as brincadeiras de manhã à noite. a planear passeios e viagens
à volta do mundo. a olhar as pernas das minhas colegas de liceu. levemente
escondidas atrás de minissaias. a não ter que pensar no dia seguinte. a mandar
o futuro lixar-se. e de repente tudo acabara. estava prisioneiro do toque da
campainha – na fábrica não se parava de hora em hora como no liceu. o único
toque de intervalo era para almoçar. não podia ir ao bar. nem ao badalhoco em
frente ao liceu sá de miranda. comprar meia sêmea com chouriço. não podia fazer
piadas. fazer charme. namoriscava. Fugia às aulas. não podia tudo. estava
aprisionado numa cadeia em que o guarda prisional era o meu pai – na fábrica
ninguém falava. a única linguagem permitida era a das máquinas. que mesmo
fazendo muito barulho nunca conseguia imitar a saída dos alunos do liceu. nós
fazíamos muito mais chinfrim – rapidamente percebi que o trabalho era levado
muito a sério – ao fim das duas primeiras horas não tinha feito nada. a faca
não me obedecia nas mãos. e as mulheres de volta da mesa a perguntar se já
tinha os forros cortados – comecei a ficar preocupado. percebi que a continuar
assim estaria metido num rico sarilho. iria passar uma vergonha no meio da
mulherada – ao fim do dia já era outro. não digo que fosse um cortador de
primeira. mas a faca já corria nas mãos e os forros começaram a estar prontos
sempre que me eram solicitados – ao segundo dia já acumulava obra em cesto e
comecei a ter mais vagar para pensar. porque se cortava daquela maneira e não
de outra – no fim da primeira semana já tinha colocado tudo em causa. e pensei:
se encontrar uma forma de cortar mais rápido os forros. quem sabe. posso dar à
soleta mais cedo – a minha motivação não era o trabalho. mas sim fugir
rapidamente daquele inferno – não conseguia esquecer os amigos. de cada vez que
cortava um forro assolava-me o fantasma da liberdade. da rua. das brincadeiras.
da boa vida – já passou muito tempo desde esse meu primeiro dia de trabalho. o
meu pai e a minha mãe já estão confortavelmente nalgum lugar sagrado. vivos. e
com saúde. só mesmo os meus irmãos. por isso posso escrever a minha verdade.
aquela que guardo. e fazer deste pedaço da minha vida. um pedido íntimo de
perdão. acreditando que já estou perdoado por tudo que tenha corrido menos bem
– por esta certeza. e com a idade a crescer numa corrida de velocidade. permite-me qualquer tipo de confissão. o
tempo lava a alma. e com a “velhice” percebemos que o que era importante na
juventude. agora com cabelos embranquecidos. ou sem eles. já não é – como já
escrevi várias vezes: o que não é realmente importante. não o será mais tarde.
acredito que os meus irmãos possam ter uma outra opinião. o que é normal e
compreensível. aprendi a não me colocar no lugar dos outros. a não ser para os
compreender – para justificar este meu receio sobre a memória e o que ela tende
a guardar. vou contar uma história engraçada que me aconteceu há relativamente
pouco tempo – quando eu tinha os meus nove anos. estudava no conservatório de
música calouste gulbenkian. estávamos no período de carnaval. e já nesse tempo
os miúdos fantasiavam-se – era uma escola frequentada pelas elites da cidade.
tudo filhos de senhores doutores. gente endinheirada e muito respeitada pela
importância das suas profissões – na maioria das escolas os alunos não tinham
dinheiro para roupa e sapatos quanto mais para fantasias. o carnaval das
crianças era vivido consoante o poder económico dos seus pais – lembro-me
muitíssimo bem de pedir à minha mãe uma roupa de cowboy. e também me lembro de
insistir durante uns quantos dias na necessidade de ir fantasiado – cansado de
não ter a sua atenção disse-lhe que todos os meus colegas iam mascarados e que
seria uma vergonha se eu também não fosse – a minha mãe era muito forreta.
sempre foi. uma das suas muitas virtudes. mas os tempos não eram nada fáceis –
depois de muito insistir. lá me foi comprar uma roupa de cowboy ao centro da
cidade – mas a coisa não correu bem. a roupa era cara. a minha mãe recusou-se a
gastar tanto dinheiro. e acabei com um chapéu de cowboy. uma estrela de
sheriff. um coldre de plástico e uma pistola que não dava para matar coisa
nenhuma. tudo muito piroso e de mau gosto – eram os limites da minha mãe. e
sabendo como se comportava com gastos excêntricos sei hoje que foi um ato de
amor – lembro-me da festa de carnaval e também me lembro de ser o puto mais mal
vestido da minha classe. com a fantasia mais rasca. uma tragédia em dois atos:
a compra da minha mãe. e a vergonha da minha aparição no dia de carnaval na
escola. estava envergonhado – pois bem. andei com esse trauma anos e anos.
sempre que o carnaval chegava lá me assolavam as memórias da pirosice da minha
fardeta – eis a surpresa. passados mais de vinte anos. a minha colega na
gulbenkian ana paula aparece-me num jantar de um amigo comum. tinha passado uma
eternidade – é claro que não estávamos iguais. tínhamos ambos envelhecido.
estávamos casados e cada um de nós com dois filhos rapazes. mas os traços de
fisionomia e personalidade mantinham-se intactos – ao fim de alguns minutos.
com milhentas interrogações. demos conta que tínhamos retomado a amizade no
lugar em que a deixamos – foi fantástico. claro que tudo se deveu à minha
amiga. continuava a falar pelos cotovelos. foi o suficiente para acabar com
qualquer receio que ainda pudesse existir – passamos momentos fantásticos.
fizemos viagens que recordamos. férias divertidas. muitas noitadas. pudemos
partilhar um pouco da nossa vida. foi muito bom reconquistá-la para perto de
mim – ainda nos vemos com alguma regularidade. agora menos porque deixou a
minha cidade à procura de melhor sorte. mas a amizade mantém-se sabendo agora
que a distância será sempre a que nós quisermos – há três ou quatro anos a
minha amiga manda-me uma foto de grupo desse carnaval. e lá estou eu metido no
meio de trinta e muitos alunos. com cara de poucos amigos. renegando com toda a
certeza a minha mãe. e para meu grande espanto. e ao contrário do que tinha
guardado em lembrança. estava fantasticamente mascarado. muitos dos meus amigos
nem sequer estavam fantasiados – fiquei para morrer. como é possível ter
guardado uma memória falsa durante tanto tempo. não sei como. mas sei que
aconteceu – passei a duvidar de todas as memórias de infância – bem sei que
estas memórias que escrevo já não são de uma criança. são de um quase adulto.
mas mesmo assim. cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém –
quando resolvi largar os estudos pensei com os meus botões. os meus irmãos são
mais velhos. já tem a empresa oleada. eu vou mesmo ser patrão. trabalho quando
me apetecer. vou fazendo o meu percurso profissional nas calmas. e o ordenado
cai ao fim do mês – enganei-me completamente. os meus irmãos. como já referi.
não nasceram para serem industriais. e por essa lacuna [agora menor] a fábrica
continuava a depender dos meus pais. a única que estava mais ou menos adaptada
era a minha irmã. estava na contabilidade. setor não produtivo e dependente da
produção. quando há dinheiro é o melhor local para se trabalhar. quando o
dinheiro falta é o deus me livre da aflição – o meu irmão era. e ainda é. uma
pessoa excecional. atrever-me-ia a dizer que excelente pode não traduzir com
justiça quão é excelente. agora que estou envelhecido e já posso dizer tudo.
creio que o único defeito era ter ainda menos jeito para a fábrica do que eu –
era bom demais. às vezes irritava-me que ele fosse tão bom. mas no mundo
industrializado é um defeito perigoso. em determinadas situações pode até
tornar-se muito perigoso. infelizmente era um defeito de família – eu também
entrei boa pessoa. quando me apaixonei pelo trabalho fiz um grande esforço para
me tornar um pouco pior. o mundo estava a mudar e não era possível singrar sem
exigência. a produtividade era baixíssima. muitas das funcionárias não tinham
nenhuma noção da importância do tempo nas empresas. o custo do minuto começou a
pesar. e corríamos o risco de não ser competitivos com os nossos concorrentes –
atrevo-mo a dizer que uma grande parte não queria um trabalho. mas apenas um
emprego – hoje. percebo que a culpa não era completamente dos funcionários. mas
isso é outra história – o primeiro dia passou com muito custo. quando saí
parecia que tinha estado preso um mês. senti-me como se fosse um presidiário
que. depois de cumprir largos anos de pena. sai da prisão sem saber o que fazer
ao destino – eu sabia. fui logo ter com os amigos e sem dar parte de fraco
enfrentei a realidade. tinham estado toda a tarde na galhofa – estive para
morrer – no dia seguinte comecei a pensar em terminar o trabalho mais depressa.
começou a obra de engenharia que espantou não só os meus pais como também todos
os funcionários. revolucionei o corte dos forros. passou a andar mais folgado.
passei a fazer em menos de uma manhã o que antes demorava um dia – esta
solução-invenção baseava-se num jogo de réguas de madeira numeradas e colocadas
nas extremidades laterais da mesa de corte: no lado oposto ao cortador um
desenrolador. e junto a este uma régua fixa e uma outra que deslizava sobre as
réguas laterais – com esta engenhoca os forros eram cortados sem necessidade de
sobrepor os moldes. quando se puxava a peça do forro ela assentava sempre no
local de corte. o ganho de tempo era quase de uma hora para sete. sete vezes
mais produção – em traços gerais era mais ou menos isto. uma daquelas coisas
simples. tipo ovo do colombo que. como todas as invenções. surgem para ajudar o
trabalhador a simplificar o trabalho e a ganhar mais tempo para si. no meu caso
esse tempo seria para ir ter com os meus amigos – pedi autorização para mandar
construir a engenhoca. ainda sofri alguma resistência. mas a permissão lá saiu
por parte de quem mandava – a família desconfiada torcia para que corresse bem.
o encarregado zombava com subtileza. todos estavam à espera de um valente
trambolhão. vinha agora um puto mostrar como se trabalhava – mostrei mesmo –
por momentos acreditei que tinha achado o santo graal. mas nada disso. afinal o
cálice era de latão. não havia forros para cortar havia outras tarefas.
puseram-me na mesa de acabamentos – confesso que esta invenção trouxe a
motivação que me faltava. passei a acreditar que era capaz de ser líder. e fui
durante mais de vinte anos seguidos. mas trouxe também algo que desconhecia. o
respeito dos trabalhadores que começaram a ver-me não como o filho do patrão.
mas como alguém com aptidão para liderar os destinos da empresa – durante uns
tempos não se falava de outra coisa. era o maior – o meu pai orgulhoso. nunca
lhe tinha passado pela cabeça que o filho fosse capaz de tamanho feito em tão
pouco tempo. apanhou o meu cunhado na empresa e foi logo mostrar-lhe a obra de
engenharia – o meu cunhado filipe vale era engenheiro nos CTT. hoje na altice.
e como engenheiro tinha sempre direito a opinar. o meu pai dava-lhe ouvidos.
percebia-se que tinha por ele uma grande estima – isto cá para nós. o meu pai
tinha um fraquinho pela lolinha. nunca deixou de ser a menina da casa – a minha
mãe sempre teve o feitio mais difícil. mas no que dizia respeito ao genro era
mais tolerante. tinha vaidade por ter a filha casada com um homem formado –
naquele tempo uma pessoa com um curso superior trazia consigo quase sempre a
verdade da vida. mesmo que assim não fosse. o que dizia obrigava que pelo menos
colhesse atenção – ora o problema é que o meu cunhado também achou que eu podia
chegar longe. sugeriu ao meu pai mandar-me tirar um curso de agente de métodos.
no porto. numa escola que dava pelo nome de NORMA – era tudo muito bonito. mas
obrigava-me a levantar cedo. apanhar o autocarro. passar o dia em aulas e voltar
tarde – fui trabalhar para não ter aulas e o meu querido cunhado mete-me numa
sala o dia todo – lá se foram os amigos durante quatro meses – mas como um mal
nunca vem só. o meu pai tinha uma casa de campo. e no início do tempo quente.
com a desculpa de que precisava de regar as árvores. no fim do trabalho fugia
para a aldeia. e só de lá saía no fim das vindimas – fui muito feliz na aldeia
dos meus avós. as férias grandes eram vividas no meio dos campos e eucaliptos –
arrisco-me a dizer que foi talvez o período em que fui mais tempo feliz. é
hábito dizer que a felicidade não existe. vive-se apenas pequenos momentos.
naquela aldeia era feliz desde o levantar até ao deitar – tenho imensas
saudades dessa infância de luz. pela manhã cedo levantava-me e ia direto para
casa de um vizinho lavrador. santana e glorinha. o pequeno almoço era uma malga
de sopa de couves e feijões e um naco de boroa cozida no forno. estava
alimentado para a manhã – arrancava com a dona glorinha e filhas. são e
gracinha. para o campo. a puxar o carro de bois – meu deus. que alegria – e ali
ficava todo o dia. a ajudar no que podia. às vezes a desajudar no que não
entendia – aprendi rapidamente a aparelhar uma junta de bois. apanhar milho.
sacholar a terra e abrir canais de água para a rega. e à merenda lanchava como
os jornaleiros. uma posta de bacalhau. broa e um trago de vinho tinto a
empurrar tudo isso – foi uma das mais bonitas infâncias que tive na aldeia –
sem os meus pais em casa era obrigado a dormir na cama dos meus pais. tinham telefone
na mesinha de cabeceira o que me permitia ligar para o número do despertar e
apanhar a camioneta a horas – se tudo isto era mau. agora imaginem que a cama
dos meus pais tinha um colchão ortopédico que era como pedra. duro como tudo.
coitado do meu pai. as dores da minha mãe sobravam sempre para ele – quando me
habituei ao colchão estava a acabar a formação. nunca consegui dormir uma noite
sem dores. levantava-me sempre amarrado à coluna. torto – nunca mais fiquei bem
das minhas costas. o que agradeço ao meu cunhado filipe – tenho milhentas
histórias da fábrica. não seria possível não ter. foram muitos anos ali metido.
algumas poderia escrevê-las neste momento. outras. ainda precisam de mais tempo
de maturação. preciso que o amadurecimento me mostre o que fiz bem. e o que fiz
de errado. onde tinha razão. e principalmente onde perdi a razão – o que posso
garantir é que serei inflexível neste meu acerto de contas com o passado. sem
contemplações. é absolutamente essencial que assim seja. os meus filhos estão
criados. mas faltam os netos. é essencialmente por estes que escrevo. um dia
este meu testemunho pode fazer a diferença – estudar é fundamental. podia ter
feito tudo. podia até ter acabado o curso e só depois ter ido para a fábrica.
mas deveria ter entrado na universidade – não há industriais sem fábricas. mas
há advogados sem tribunais. há dentistas sem consultórios. há professores sem
escolas
há o dever de morrermos com uma profissão
21/04/2021
eu. o meu pai. e o meu primeiro dia de trabalho - II
2º dia de trabalho
fui oficialmente
informado pelo administrador da empresa. o senhor meu pai. que ainda antes do
nascer do dia viajaríamos para alcanena. cidade do distrito de santarém. conhecida
pela capital da pele – esta pequena terra junto ao rio alviela possuía [ainda
possui] uma importante indústria de curtumes. tratamento do couro cru com a
finalidade de o preparar para a indústria transformadora: sapatos. vestuário de
pele. carteiras e porta-moedas. bolsas de senhora. cintos e outras pequenas
bugigangas – visitamos duas ou três empresas. deixamos encomendas para suprir
as necessidades das vendas. umas dezenas de pacotes de pele em várias cores. solicitando
máxima brevidade na entrega. havia rotura de stock. precisávamos quanto antes
que a matéria-prima chegasse à cadeia produtiva – com as compras realizadas. iniciamos
o regresso ao doce lar. estava ansioso. sempre adorei regressar a casa. ainda
hoje adoro – em tempos viajei bastante. visitava feiras em vários países da
europa. um ritual que se repetia duas vezes por ano: milão. florença. paris.
madrid. barcelona. para ver tendências de moda. bolonha e frankfurt. para
adquirir matéria-prima – logo nos primeiros dias de visita. depois de passar o
entusiasmo de chegar a uma grande cidade do centro da europa. com centenas de
anos e de história para descobrir e conhecer. com hábitos e costumes que em
nada se assemelham com a afabilidade lusitana: nós caminhamos sempre a sorrir.
com sol – com o cinzentismo destes estranhos. sempre a prometer mau tempo. com
ar de arrependidos de qualquer coisa que nunca consegui descortinar. passado
pouquíssimo tempo. começava a sentir-me deslocado numa terra que sabia não ser
minha. sentia-me um estranho. faltava sol. brilho nos caminhantes… faltava-me
conforto. nada de especial. apenas coisas simples: a minha cadeira. a minha
cama. o meu lugar na mesa. aquele jeito especial de me sentar no sofá. o
comando da TV. o telejornal da noite. a língua. há no que é nosso um bem-estar
aconchegante e tranquilizador. em boa linguagem o que me faltava mesmo era a
minha casa. tudo o que realmente era meu – o corpo com o tempo apropria-se das
coisas mais incríveis. quando toma posse de alguns hábitos. por mais simples
que sejam. incrusta-os na pele. uma espécie de artimanha para se sentir
tranquilo – esta magia do lar permite-nos distender os músculos. purificar a
alma. equilibrar-nos. ao fim de uns minutos compreendemos facilmente o que
realmente é importante. e tudo isto assente em gestos impercetíveis ao resto do
mundo: o modo de meter a chave na porta. o arrumar as chaves na cardência. o equilíbrio dos móveis: um quadro ali. a
porcelana acolá. os relógios parados em horas conhecidas. o cadeirão a olhar a
janela. ao canto a lareira que arde continuamente sem se ver. em cima da
lareira uma escultura africana. e atrás das costas. a certeza de que
encontraremos o corredor. o quarto. o escritório. e neste conforto mágico. o
controle absoluto sobre o que queremos fazer a cada momento: porque mantemos as
pernas silenciosamente paradas e não as arrastamos de um lado para o outro.
porque vemos TV e não rádio. porque lemos um livro e não um jornal. fazemos o
que fazemos apenas porque assim dicidimos. e se o nosso escolhimento obrigar o
corpo a abandonar a sala. vai-se como se não se saísse daquele equilíbrio
absurdo. mudamos sem mudar. continuamos numa bem-aventurança tranquila. alma e
corpo numa simbiose com o espaço-matéria – estes hábitos que se repetem dia
após dia. ano após ano. ganham estatuto de norma. como se tudo em casa não
passasse de um jogo de xadrez. todos se movimentam e ninguém embarra com
ninguém. só vemos o que queremos ver. só ouvimos o que precisamos ouvir.
mexemo-nos sempre em linha reta. as curvas e as diagonais ficam para o outro
mundo. se não gostamos de alguma coisa jogamos um peão em nossa defesa. e se
algo se complicar. movemos a rainha e pedimos-lhe um xeque-mate. a rainha
resolve qualquer ataque mais virulento – às vezes é como se vivêssemos sozinhos
tal é abstração de tudo o que nos rodeia. como se o sofá ou a cama se
transformassem num elevador direto ao céu. o paraíso num apartamento – quando
estamos num hotel não é assim. estamos ali porque não podemos ir para mais lado
nenhum. aturamos aquelas pessoas porque não temos outras. vemos aquela TV e
aquele programa como poderíamos ver outro que nos oferecesse o mesmo. tudo é um
aborrecimento. um exponenciador do mau.
o elevador não sobe para lado nenhum. desce ao inferno. em descidas
vertiginosas. falta-nos tudo o que realmente é nosso. o silêncio magoa. a
solidão rebuliça-nos. a saudade mostra-nos em desespero o que é verdadeiramente
importante. falta-nos a nossa casa com a sua infinitude – a minha casa sempre
me permitiu criar uma bolha protetora. um refúgio à prova de desgraça. por pior
que me corresse o dia. era [é] naquele espaço mágico que recuperava a alma – ao
meter a chave na porta era outro homem. os sorrisos cresciam. era invadido pela
certeza dos hábitos. cada coisa no seu lugar. as vozes todas reconhecidas.
minhas. e eu a despir-me do que não tem valor. os miúdos apareciam numa pressa
boa. os braços corriam para os abraços. e o lar. com a sua poderosa magia restabelecia
as ligações sanguíneas: tocamos uns nos outros. às vezes só com o coração. os
olhos recuperam o compromisso suave e apaixonado. finalmente no mundo dos
afetos – agora. que o tempo dos desprendimentos já passou. torna-se mais fácil
defender as coisas que realmente são importantes. aquelas que nos prendem à
vida. que nos fazem sorrir: a família. com a sua honra. a sua liberdade. a sua
independência perante os interesses do mundo moderno e caótico – temos que ter
um código. um ethos. e a certeza de que tudo em que acreditamos está protegido
no nosso castelo – creio que este gosto pelo doce lar herdei da minha mãe.
enquanto o meu pai gostava de girar pelo mundo. se pudesse sair. não ficava em
casa. a minha mãe era o oposto. se pudesse ficar em casa. não saía – um certo
dia o meu pai chega a casa com uma proposta que acreditava ser irrecusável para
a minha mãe. tirar umas férias e viajarem juntos para a moscovo. a antiga união
soviética – queria ver com os seus olhos. se era verdade ou não. a pobreza
miserável que se vivia nos países socialistas – depois de muita insistência. e
muito empenho para convencer a minha mãe a acompanhá-lo. incluindo eu. que tudo
fiz para que não deixasse o meu pai viajar sozinho. seria uma belíssima
oportunidade para tirarem um tempo só para eles. e ninguém mais do que a minha
mãe merecia aqueles dias – não adiantou nada a nossa teimosia. a resposta foi
sempre não. não me apetece. é muito longe. é muito frio. sei lá o que mais. o
remédio foi mesmo o meu pai meter-se no avião sozinho – regressou a casa feliz.
com um gorro ushanka. uma garrafa de vodka original. umas quantas matriocas
encaixadas umas nas outras. e a certeza absoluta de que o socialismo não
interessava a ninguém – durante um mês não se falou de mais nada. o meu pai não
se cansava de nos dizer como aquele povo vivia na miséria. nem queria ouvir
falar nessa ideologia. deus nos livrasse de tal infortúnio – a sua única
alegria era saber que tinha agora mais argumentos para rebater a narrativa comunista
com os amigos – a minha mãe estava-se nas tintas para os comunistas. para ela o
que era mesmo importante era como vivia a sua família. ficar perto dos filhos
sempre foi a sua grande viagem. quer dizer. nos últimos anos era mais estar
perto de mim. era o único que ainda dependia dos seus proveitos. e a viver na
sua casa em comunhão de bens – os meus irmãos estavam casados e arrumados nas
suas novas vidas – a sua grande preocupação era que o avião caísse e eu ficasse
órfão. sem meios de sobrevivência e a depender da família e amigos – são estas
lembranças doces que agora. passados tantos anos. me aquietam as recordações.
este amor terno. os filhos estavam sempre em primeiro lugar. mesmo quando se
tratava de aproveitar um miminho merecido – este lado da minha mãe ia muito
além do amor. havia em si uma disciplina rígida de cuidados. sempre sustentada
por situações catastróficas: não tens bicicleta porque pode vir um carro e
atropelar-te. não vás por aquela rua. é muito escura e pode aparecer alguém
perigoso. não saias que está muito frio e podes apanhar uma pneumonia. não
faças isto ou aquilo porque o céu pode cair-te em cima da cabeça – os cuidados
da minha mãe eram sempre dramáticos como numa tragédia grega. nunca partia uma
perna ou tinha uma constipação. não. ia sempre direto à morgue – a minha mãe
ligou-me para sempre aos afetos. não que fosse uma mãe superprotetora. mas nos momentos
mais improváveis e complicados estava sempre presente. sempre pronta a abdicar
do seu bem-estar. com o seu exemplo de amor-abnegado. de sacrifício. de
perseverança. de força e resistência – trabalhou como ninguém. dando sempre o
exemplo a quem dependia da sua liderança. ninguém fazia nada que ela também não
o fizesse. seis dias por semana. antigamente não havia a semana-americana.
trabalhava-se aos sábados – ligada à máquina de costura. a dar ao pedal. sem
motor elétrico. que só apareceu anos mais tarde. sem tirar os olhos da ponta da
agulha. ou nas mesas de montagem dando forma ao material. no controle da
produtividade. nos acabamentos. era o coração da empresa. era a minha mãe que
escorava. com a sua qualidade de trabalho e liderança. o sucesso da empresa.
era a engrenagem principal de uma máquina que mantinha a família unida. e assegurava
uma vida tranquila. nada nos faltava – o meu pai sabia disso. e também sabia
que sem a sua companheira possivelmente nunca teria chegado ao que chegou – não
posso permitir que os meus filhos não saibam que [também] o seu destino está
conexo ao trabalho dos avós. todos nós. eu e os meus dois irmãos – houve um
momento em que toda a família dependia dos resultados da fábrica. e por mais
que tenhamos participado no seu crescimento. dando-lhe um rumo de maior qualidade. com
valor acrescentado. o que é certo. é que quando lá chegamos a empresa já
existia – a nossa excelente qualidade de vida só foi possível porque em
determinada altura da vida dos meus pais. tiveram coragem e determinação para concretizarem
um sonho. e deste modo. permitir que os seus filhos. e também os netos.
pudessem crescer com um pouco mais de conforto – resolveram criar uma digna
unidade de produção familiar. e com grande esforço trouxeram-na até aos nossos
dias. passando muitas dificuldades. suportando imenso – o seu exemplo é a sua
maior herança. por mais que façam nunca os meus filhos conseguirão gastá-la.
perdurará para sempre. até ao último dia da sua vida – quando cheguei à empresa.
rapidamente percebi o destino que levariam os pacotes de pele que tínhamos
comprado – chegados à fábrica. eram distribuídos pelos cortadores. homens
especializados com muitos anos de experiência – uma arte que começava sempre
por materiais menos nobres: forro. cartão. tela. espuma. matéria-prima mais
barata e mais fácil de cortar – a pele era. e ainda é. um produto caríssimo.
evitar desperdícios. encaixar os moldes de corte na perfeição. era só para os
mais capazes. apenas estes chegavam à categoria de cortadores de pele de
primeira – o resto da confeção estava a cargo apenas de mulheres. mesas de
trabalho. máquinas de costura. e acabamentos – com o produto terminado seguia
depois para o armazém e era distribuído por lojas da especialidade em todo o
território nacional. incluindo as ilhas da madeira e açores – de uma forma
simplificada era mais ou menos isto que a fábrica dos meus pais transformava:
pele de animais tratada em bolsas de senhora. nada mais – era um produto muito
caro pelo preço dos materiais e pela elevada incorporação de mão de obra
especializada – comprar uma bolsa de pele. nesse tempo. não era fácil. ainda
hoje é complicado. mas não creio que haja dúvida que passados quase quarenta
anos tudo está mais facilitado. antigamente a pobreza era mesmo pobreza. era
miserável e agonizante – ainda não havia quotas de emprego para as mulheres. poucas
estavam no mercado de trabalho. e mais escasso era encontrar mulheres mais ou
menos bem remuneradas. por isso a sua capacidade económica para comprar moda
era reduzida – apenas um número muito pequeno de mulheres podia comprar uma
bolsa de pele: professoras. funcionárias ligadas ao estado. ou camarárias. eram
a exceção. tudo o resto andava com bolsas sintéticas ou de plástico comum – o
país era muito rural. as cidades pequenas. quase todas as mulheres se vestiam
de preto. lenço na cabeça. com saia até aos pés. com sapatos de tacão raso. muitas
de chinelos. e não era raro vê-las descalças – não havia sistema de proteção
social. não havia serviço nacional de saúde. uma grande parte da população era
analfabeta ou apenas com a quarta classe – havia pouquíssimos milionários. quem
tivesse cem contos era riquíssimo. e as casas reduzidas à simplicidade. tudo
muito modesto e funcional: um rádio. cama. mesa e uns quantos bancos. e pouco
mais – a televisão era um luxo raro. poucas famílias se permitiam a esse luxo –
os automóveis eram ainda mais raros. lembro-me de que na nossa rua só o meu pai
tinha automóvel à porta.
tínhamos mais quatro ou cinco vizinhos com automóvel. mas estavam na garagem e
só saíam para levar a família à missa dominical no santuário do sameiro – o
tecido empresarial era também debilitado. a sua sobrevivência assentava em
baixos salários e no sacrifício dos trabalhadores. eram os novos escravos da
revolução industrial. trabalho indigno. mal remunerado. e pouco produtivo – as
empresas com condições de trabalho insalubres. sem estratégia. maquinaria
deficiente e ultrapassada. produtividade e capacidade competitiva nula.
protegidos por leis do trabalho completamente obsoletas – o 25 de abril trouxe
os sindicatos. completamente politizados e desajustados da realidade social.
afetos aos delírios dos partidos de esquerda – toda esta amálgama de
incoerências permitia tanto ao patronato. como aos trabalhadores. uma
comodidade tática: não damos nada em troca. mas também não nos podem pedir nada
– a classe patronal era igualmente maltratada pelo aparelho do estado. isso não
mudou nada. hoje é igual. a máquina tributária alienava por completo a
possibilidade de as empresas se modernizarem – as importações de matéria-prima
eram praticamente proibidas. as autorizações para trazer produtos novos estavam
vedadas. e por fim. um escudo que não era aceite em lado nenhum. viajávamos com
moeda estrangeira na carteira. marcos. francos ou dólares. o nosso escudo não
tinha cotação no mercado financeiro europeu. em nenhuma parte do mundo – o país
esteve fechado ao exterior durante quase meio século. as mentes estavam
impreparadas para aceitar mudanças. depois da revolução as transformações na
sociedade começaram a acontecer rapidamente. nem sempre bem. nem sempre com
juízo. governados por políticos incompetentes e corruptos. acabámos por chegar
ao que somos hoje. pode não ser grande coisa. mas acreditem que é bem melhor do
que há quarenta anos – por essa miséria tolerada e aceite é que a principal
produção da fábrica assentava no sintético. era a sua base de faturação. talvez
um pouco mais de noventa por cento. a pele era residual – foi nesta realidade
que começou o meu segundo dia de trabalho. levantar cedíssimo. não havia as
autoestradas de hoje. o caminho fazia-se vagarosamente pela nacional número um
– era muito penoso e cansativo viajar naquele tempo. trezentos quilómetros de
estrada precária. passar pelo interior das cidades e vilas era um martírio.
filas intermináveis de camiões. sem possibilidade de ultrapassagens. os
quilómetros eram feitos a passo de caracol – possivelmente foram os trezentos
quilómetros mais longos da minha existência. o meu pai aproveitou o vagar da
viagem para me dar a maior lição de vida – naquela conversa havia um misto de
pai versus patrão. por isso não tive outra alternativa senão ouvir e calar – ao
patrão podia passar-lhe alguma coisa pela cabeça e despedir-me. ao meu pai.
como meu tutor. podia dar-me uma bofetada. acreditem que seria muito mais
rápido que o despedimento – estava encurralado entre duas superpotências. ambos
na posse dos códigos para lançar sobre mim um ataque arrasador – o meu pai
começou por me relembrar que foi minha a iniciativa para terminar com os
estudos. e apesar de não concordar. a única alternativa que tinha agora era
tornar-me num homem adulto. exigindo-me um comportamento responsável. empenho. desta vez não podia falhar – a
fábrica era um assunto sério. com regras rígidas para cumprir. tinha o dever.
por respeito à família. de me tornar um exemplo para os trabalhadores. para
todos os efeitos. aos seus olhos. eu também era patrão – de um momento para o
outro começa-se a abater sobre mim um vendaval terrível. não no céu. não na
estrada. mas ali mesmo. no carro. o meu pai começa a debitar as regras que
teria de cumprir e respeitar a partir daquele dia:
1º
- tens que estar na fábrica antes dos funcionários. 7.40 a porta tem que estar
aberta
2º
- começas como cortador de forros e. à medida que fores dominando a arte. vamos-te
confiando outros trabalhos com mais responsabilidade
3º
- deves respeitar os teus irmãos que são mais velhos e têm muita mais
experiência
4º -
os encarregados [arlindo e zé meireles. este sindicalista da intersindical] são
importantíssimos. tens obrigatoriamente que os respeitar como superiores. ouves
o que eles dizem. e tenta aprender tudo o que puderes com a sua experiência.
eles e a tua mãe são os mestres
5º -
mantém o respeito com os funcionários e nada de muitos risos nem excesso de confiança.
é preciso mão dura para os manter na linha [isto dito pelo meu pai só podia ser
para gargalhar. ele que se desfazia em sorrisos… e confiança]
6º -
se tudo correr bem entras para sócio da empresa com uma quota igual aos teus
irmãos. o que eles ganham passas também a ganhar [os meus pais não se cansavam
de repetir que para eles não havia diferenças entre os filhos]
7º irás ganhar quatro contos e trezentos para
começar. o ordenado mínimo. se correr tudo bem. se não criares problemas. se mostrares
interesse. se aprenderes a arte. vamos-te aumentando o ordenado [o meu pai
falava sempre no plural pois não fazia nada sem o consentimento da minha mãe]
8º
- e sobretudo. sê digno da confiança que depositamos em ti
para
o que entendia da arte até que não era muito mau o ordenado. recebia um pouco
mais que o ordenado mínimo. enquanto os meus irmãos já recebiam quase vinte
contos – o que eu não sabia. e foi uma grande surpresa. é que passei logo a
receber o mesmo vencimento que os meus irmãos. em segredo a diferença era
desviada para uma conta do montepio – com este dinheiro amealhado. um pouco
antes dos dezanove anos. consegui comprar um carro novo. um talbot vermelho.
pela módica quantia de quatrocentos e sessenta e quatro contos e trezentos
escudos – naquele tempo ainda se fazia a rodagem aos motores. uma seca total. peguei
em mais três amigos e arrancamos para paris. mas isto é outra história. muito
louca. e muito excêntrica. um dia destes passá-la-ei a papel – lá fomos
galgando quilómetros sempre a dar no ceguinho. o que me levou às primeiras
interrogações: será que fiz bem em deixar de estudar? numa coisa o meu pai
tinha razão. a decisão de abandonar os estudos foi minha. a solução era
aguentar. não havia volta atrás – o que o meu pai não percebia era a minha
vergonha em pedir-lhe a semanada ao domingo. os meus pais davam-me de bom
agrado. mas eu não me sentia merecedor daqueles quinhentos escudos – o meu
trabalho era estudar e eu não o fazia. era malandro. e essa malandrice fazia-me
sentir um impostor diante da bondade dos meus pais – a minha consciência sempre
foi o meu calcanhar de aquiles – esta foi a única razão. pelo menos a que mais
me atormentava. porque deixei os estudos – não estava a conviver bem com o peso
na consciência. acordava e deitava-me a pensar que não era correto o que fazia
– não tinha necessidade nenhuma de deixar os estudos. os meus pais pagar-me-iam
o que fosse necessário até que acabasse o curso superior. para eles o
importante era mesmo tornar-me doutor – tive um amigo que foi tirar direito
para coimbra aos dezoito anos. acabou já passava dos trinta. regressou a braga
com mulher e filho – hoje anda aí com o curso debaixo do braço. feliz da vida.
farto de ser doutor de leis. e ninguém quer saber se demorou seis. ou doze anos.
se pediu dinheiro aos pais. se o estragou. se lhe pesou a consciência. se foi
digno ou não. é doutor. e ponto final – eu podia ter feito igual. talvez até ter
trazido mais do que uma mulher. e uma ranchada de filhos. a licenciatura para a
minha mãe dava direito a quase tudo – não estou arrependido. nem gosto de
pensar muito nisso. o que sei. é que se fosse para coimbra. não teria os filhos
que a vida me deu. nem a maria joão. nem este amor que sinto por eles. e em boa
verdade. seria impossível viver sem isso. são a razão porque escrevo a minha
vida. sem eles desconheceria que o belo existe – a viagem foi dramática não só
pela lição de moral. mas também pela falta de tabaco. fumava mais de dois maços
por dia. sempre às escondidas. claro que o meu pai sabia desse meu vício
maldito. ele foi o grande culpado. fumava tanto como eu – durante o período de
racionamento. logo após o 25 de abril. encheu o guarda-vestidos com dezenas de
volumes ritz – fumava ele e eu. surripiava-lhe um maço por dia. não ligava
nenhum à sua contabilidade. fosse tabaco ou dinheiro. era-lhe indiferente – por
causa dessa sua indiferença pelos bens materiais. quase todos os dias eu tinha
um suplemento à semana. pela manhã a lurdes sempre que arrumava o quarto dos
meus pais encontrava no chão umas quantas moedas. o meu pai á noite dobrava as
calças pelas vincas. e ao colocá-las na cadeira os trocos espalhavam-se silenciosamente
pela alcatifa. era um puto muito abastado para aquela época – com esse seu
despreendimento. nunca deu fé de que estávamos a partilhar os cigarros –
apanhou-me umas quantas vezes de cigarro na boca – naquele tempo os filhos só
fumavam em frente aos pais a partir dos dezoitos anos. a maior idade dava
passagem direta ao estatuto de adulto – foi muito duro. paramos para tomar café
da parte da manhã e logo que pude corri para a casa de banho para tirar duas
passitas. outra correria no fim do almoço. e assim me fiquei. meia dúzia de
puxadas até chegar a casa ao fim do dia – agora é-me fácil confessar que no
começo o trabalho não me correu muito bem. precisava de movimento. estava
habituado a andar de um lado para o outro. aquela campainha maldita para pegar
e largar a laboração deixava-me louco. era parecida com a campainha do liceu.
só com uma diferença. nunca havia feriado. nunca havia falta de trabalho –
estar parado em frente a uma mesa de corte. amolar a faca. acertar os moldes. deixava-me
louco – tudo aquilo que tinha imaginado estava de pernas para o ar. começaram a
brotar as primeiras gotas de sangue nas orelhas. tal era a tensão que me tomava
– mas o impensável aconteceu. apaixonei-me pela indústria. pela moda. e
principalmente pela sua criação – vivi esta paixão mais de vinte anos. como
todas as paixões um dia acabam. umas por saturação. outras. porque nos
abandonam – a minha não acabou. nem me abandonou. mas como tudo o que se ama excesso.
acaba por nos ser tirada – foi roubada pelos políticos. foi moeda de troca com
a china. a alemanha e frança passaram a vender os seus carros de luxo aos novos
milionários chineses. em sentido inverso. começaram os chineses a vender o seu
têxtil na europa. infelizmente incluía o meu ramo – uns anos antes os nossos
políticos pediram-nos para nos modernizar. tínhamos que ser competitivos no
mercado europeu. assim fizemos. dotamos a empresa com maquinaria de ponta.
contratamos dezenas de pessoas. ultrapassamos a centena e muitos. éramos uma
das maiores empresas. bonita. moderna. estávamos muito à frente da concorrência.
lançamos novos produtos. cintos. artigo de viagem. marroquinaria. uma
metalurgia preparada para responder às necessidades internas. uma secção com
todo o tipo de banhos: ouro. prata. cobre e níquel. e de um momento para o
outro tiraram-nos o tapete e ficamos a concorrer diretamente com os asiáticos –
obviamente que era impossível – mas esta é outra história que nascerá mais lá
para a frente – confesso que às vezes a ferida abre e revolta aparece – um dia.
mais lá para diante. quando tiver um pouco mais de coragem. registarei em papel
o fim do nosso modo de vida – entretanto o terceiro dia estava prestes a
acontecer. e as surpresas também
20/04/2021
17 de abril de 2021
cinema
paraíso é o filme da minha vida. uma história de amizade e amor entre duas personagens
improváveis: totó e alfredo – revejo o filme com frequência. e todas as vezes sinto
o mesmo que senti na primeira visualização: uma enorme emoção. diria. uma
enorme perturbação boa na alma – a maria joão é a minha maior amiga. é como se o
cinema paraíso estivesse em exibição contínua aqui em casa. e sempre que a olho.
e não há dia nenhum que não o faça. sinto sempre uma perturbação boa. e
interrogo-me: porque razão deus a colocou a meu lado? só pode ter sido para me
amparar quando vacilo. para me estender a mão quando estou perdido. para me
mostrar que a nossa vida ganha mais sentido com o passar dos aniversários –
nesta nossa história de amizade. o amor trouxe-me os melhores presentes da vida:
os meus filhos – todos os dias agradeço as manhãs que despertam em mim. é com
elas que renasço para o meu mundo: a minha família. juntos. temos escrito uma
bonita história. e logo logo. os amigos. se soubessem quanto amo os meus amigos.
sem eles os dias não teriam o mesmo colorido – obrigado por darem luz. serenidade
e paz ao meu tempo – sinto-me grato e muito feliz. tenho tudo o que realmente
importa – o meu muito obrigado a todos os amigos que gentilmente se lembraram
de mim
P.S. – claro que me fazem
muita falta os que já não estão entre nós: o meu pai. a minha mãe. o meu sogro.
e a minha cunhada zeza – se a sua ausência não pesasse tanto. este dia seria
perfeito
09/04/2021
eu. o meu pai. e o meu primeiro dia de trabalho - I
1. último dia de liceu
corria o
ano de 1979 – já se tinham vencido os primeiros cinco anos da revolução de
abril. quando também eu senti a necessidade urgente de fazer uma revolução na
minha vida – já no liceu d. maria II. o antigo liceu feminino. e a meio do
segundo período de aulas do 9º ano. resolvi enfrentar o meu pai e dizer-lhe que
queria deixar de estudar – são as duas únicas bofetadas que me faltaram na
vida. e o mais caricato. aquelas de que ainda hoje sinto falta – apesar de
raramente pegar num livro para estudar. talvez algumas horas no fim do terceiro
período. altura do tudo ou nada. onde em esforço procurava o dez para passar
com duas negativas: inglês e matemática – para estes cadeirões não havia salvação
para quem preguiçou o ano inteiro – não creio que tivesse qualquer tipo de
dificuldade em assimilar os conteúdos lecionados. o meu único problema era déficit de atenção. aliado a um
estado de alegria hiperativo. queria estar sempre onde não estava. dominado por
uma vontade devoradora de saber tudo do mundo. as paredes sufocavam-me – havia
tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo. o país estava em roda livre. todos os
dias eram novidade: manifestações. debates políticos. governos a cair. bombas a
explodir. sedes de partidos incendiadas. confrontos. perseguições políticas.
militares na rua. manifestações de apoio ao MFA [movimento das forças armadas].
saneamentos nas empresas. nas universidades. nas escolas. nas fábricas. novos
partidos políticos. não havia limites para a distração de um jovem faminto de
vida – as cidades encheram-se de novos barulhos. as ruas abriram-se à
liberdade. ninguém descansava. o ritmo era alucinante. as pessoas transbordavam
alegria. rodopiavam sem parar. sempre com os olhos no ar. como se procurassem algo
que ainda faltava. acredito até que algumas voavam. tal era a leveza com que se
viviam os dias – emergia do seu interior um estado de alma de bem-estar. uma
euforia descontrolada. boa. o paraíso não podia ser mais belo – havia. não só
para mim. mas para todos os portugueses. um mundo novo à nossa espera: havia
futuro. esperança. as mensagens dos novos donos da política ofereciam
credibilidade. ao contrário dos de hoje. o futuro parecia certo. haveria paz.
pão. habitação. igualdade. fraternidade. justiça. e as paredes. outrora caiadas
de branco. nasciam pelas manhãs pintadas de movimento revolucionário: fascismo
nunca mais. o povo é quem mais ordena. 25 de abril sempre. o povo unido jamais
será vencido. a terra a quem a trabalha. e a grândola sonhos para um novo
mundo. e vila morena do zeca afonso a tocar interruptamente. como se as
chaimites ainda rodassem em revolução
desde aquela madrugada de abril – o cravo vermelho na ponta da G3 disparava
para um novo mundo. finalmente uma sociedade mais justa e fraterna – havia uma
luz de bem-aventurança para os portugueses – para mim. adolescente que nada
sabia sobre ditaduras. a única que conhecia era a do meu pai. o 25 de abril foi
como se me dessem um lego gigante. montava e desmontava os dias. e tudo acabava
com novas surpresas – abril ampliou o que já existia em mim: menos regras e
mais liberdade – talvez a melhor comparação seja o que aconteceu ao país depois
de ganhar o campeonato europeu de futebol. imaginem essa explosão de alegria a
repetida todos os dias. durante pelo menos os primeiros seis anos da democracia
– foi fantástico – a juntar a esta loucura coletiva. o fim da guerra do
ultramar. o que permitiu que o meu irmão regressasse mais cedo a casa. estava
deslocado no pior cenário de guerra: guiné-bissau – com o fim da guerra em
angola. moçambique. e guiné. chega também a independência para os seus povos. o
que provoca o regresso de milhares de retornados – estes portugueses ultramarinos
regressavam à terra dos seus pais. muitos mais africanos. e poucas ou nenhumas
raízes os ligavam ao território de chegada – empurrados por uma descolonização
caótica. chegaram a portugal só com a roupa no corpo. sem recursos financeiros.
sem habitação. sem trabalho. com apenas a vontade de recomeçar. alguns sem
esperança de um recomeço pela idade avançada – a única ferramenta para
sobreviver que traziam consigo era um dinamismo excecional. e um sentido de
liberdade que nós desconhecíamos. com o seu empreendedorismo revolucionaram
rapidamente toda a estrutura do mundo do trabalho. social e económico. foram a
grande impulso para um novo país. eram diferentes. gente sem preconceitos e com
a mente aberta ao mundo – o país do fado. fátima e futebol transformou-se radicalmente
para melhor. foi restabelecido o direito à greve. às manifestações. vários
sindicatos foram formados. acabou a censura. passamos a ter uma RTP livre.
jornais a publicar livremente a verdade. os cinemas começaram a passar filmes
interditos. os bares começaram a estar abertos até de madrugada.
apareceram as salas de jogos. as mulheres deixaram cair as roupas pretas e
embelezaram-se com cores e pinturas. as rotinas dos portugueses alteraram-se
radicalmente – a revolução política chegou. com ela a dos costumes. e também a
sexual dos jovens – lá ia rolando pela vida estudantil conforme queria e
entendia. as notas andavam entre o quase dez e o dez e qualquer coisa. mas
sempre com um sorriso nos lábios e mil coisas por fazer – reprovei uma única
vez. a tragédia aconteceu no primeiro ano de liberdade – confesso que foi particularmente
injusto. mesmo muito injusto – foi um ano muito difícil. com imensas greves
estudantis. piquetes impediam a entrada dos alunos no estabelecimento de
ensino. liceu sá de miranda. as reuniões gerais de alunos [RGA] eram
consecutivas e extremamente violentas. o CDS e o MRPP confrontavam-se em
grandes cenas de pancadaria – vivia-se um clima de muita instabilidade. o país
estava em convulsão. a escola não era exceção. este jardim plantado à beira-mar
estava a ferro e fogo – para pôr cobro a estes confrontos a reitoria [comissão
de gestão] via-se obrigada a pedir a intervenção musculada da COPCON [comando
militar criado pelo movimento das forças armadas]. invadiam o liceu
aparatosamente em carros militares e emergiam de G3 por onde lhes apetecesse – era um temor permanente. ninguém podia
garantir segurança alguma. havia no meio escolar medo e indefinição persistente
– não se sabia se as escolas abririam portas. se havia greve geral. ou se os
professores eram todos saneados. Uma situação que nos mantinha num estado de
completo caos – no tempo da ditadura não
havia este tipo de conflitos. os reitores eram respeitadíssimos e a única
autoridade dentro das escolas. e se houvesse necessidade de uma intervenção
mais enérgica. a PIDE resolvia o problema rapidamente. era tudo enjaulado – a
única crise académica tinha acontecido em coimbra em 1969. um derivado do maio
de 68 em frança. e apesar da convulsão social. salazar resolveu a crise à
bastonada e mais umas quantas prisões – lembro-me de os militares entrarem no
bar da escola. a confusão instalou-se. de um lado as forças da direita. do
outro as da esquerda radical. todos tentavam fugir para algum lado. o problema
é que só havia uma porta de saída. o remédio foi saltar da janela para a rua [stª margarida].
felizmente era um primeiro andar e tudo não passou de um susto – nesse ano
quase não tivemos aulas. e as que tivemos foram uma total bandalheira. os
professores em pânico optaram pelo facilitismo. a bola de neve acumulava
conflitos. e dia após dia ficava maior e incontrolável. os problemas
sucediam-se em cascata. começaram a surgir os primeiros casos de agressão.
faltas a vermelho de mau comportamento eram às dúzias. e a matéria cada vez
mais simplificada para evitar chumbos e convulsões estudantis – ninguém tinha
mão nos alunos. reitoria. professores. auxiliares. todos tentavam sobreviver à
incerteza política. estávamos com um pé na democracia. outro na ditadura
comunista – as revoluções eram diárias. e o medo instalou-se não só nos liceus.
mas de uma forma geral em toda a sociedade. ninguém estava certo do que poderia
acontecer no dia seguinte – num desses dias de liberdade total louca. um grupo
de alunos da minha turma decidiu sanear a professora de física e química. uma
parvoíce só possível em período revolucionário. tínhamos todos acabado de
entrar no liceu. crianças dos doze aos treze anos. putos sem juízo. sem nenhuma
capacidade de avaliar os conteúdos lecionados. ainda a precisar de biberon. e
do pé para a mão. só porque a professora não permitia abandalhamentos na sua
sala de aulas. resolveram saneá-la – sempre fui contra o saneamento. sempre
achei as acusações de fascista e sem mestria para lecionar uma autêntica
barbaridade. uma ignominia – nenhuma revolução. por mais força que tivesse o
seu movimento. me levaria a participar numa injustiça. não me podia permitir
entrar num embuste. assinar uma petição falsa sobre uma professora que o único
defeito era ser realmente professora. e não permitir que um grupo de alunos
arruaceiros tornassem as aulas num circo. com faltas de educação gravíssimas –
apesar de brincalhão e rufia. respeitar as pessoas mais velhas era algo sagrado
na minha educação – fui muitas vezes posto na rua por brincadeiras. por falta
de atenção. por diversas idiotices fruto da idade. mas nunca por faltar ao
respeito a um professor – no fim do ano despedia-me dos professores ou com um
beijo. ou com um cumprimento de mão. e todos eram unanimes em dizer que não se
importavam de me ter no próximo ano. tinha era que me portar um pouco melhor.
algo bastante difícil. ou mesmo impossível – os saneamentos não estavam na
minha frágil convicção política. tornei-me então militante do CDS aderindo à
juventude centrista. única oposição à esquerda marxista. o PS e PSD ainda não
tinham implantação nos liceus – na época. nem sei se aderi ao CDS por acreditar
na democracia cristã ou por pena dos seus dirigentes e militantes. era um
partido atormentado. as sedes assaltadas. os seus militantes insultados e
perseguidos. ser-se do CDS era um ato de resistência silenciosa. considerado um
partido do antigo regime. onde estavam refugiados todos aqueles que colaboraram
e ajudaram a perpetuar o estado novo durante quase meio século – ser do CDS era
ser fascista. capitalista. aristocrata. a alta finança de um país empobrecido –
ninguém da nossa família se enquadrava neste quadro de gente endinheirada. pelo
contrário. foi com muito sacrifício que conseguiram construir um património que
assentava exclusivamente numa fábrica. e as fábricas só tem valor quando tem
trabalhadores e laboram. e os principais obreiros dessa criação eram os meu
pais – estou quase certo que optei pelo CDS por ser o partido mais desditoso.
sempre tive uma inclinação para me juntar aos mais desfavorecidos. os mais
fracos. ou com menos possibilidade de se defenderem – os tempos da política em
portugal escaldavam. estávamos a um passo da guerra civil. os confrontos
físicos entre as várias tendências sucediam-se a um ritmo cada vez mais
perigoso. e a linha limite da tolerância ultrapassada várias vezes – a
liberdade alcançada com o 25 de abril não se aplicava à democracia cristã –
eram tempos muito conturbados e perigosos. e por via de todas essas incertezas
e violência. optei por manter uma posição discreta no liceu. não deixando que
ninguém percebesse qual era o meu posicionamento político. e assim evitar males
maiores não só para mim. mas também para a minha família. que sendo patrões
eram considerados reacionários e capitalistas – o problema é que fui tão
discreto que a professora não percebeu de que lado eu estava. pelo meu silêncio
deve ter pensado que era um dos cérebros do movimento para a sanear – tal como
eu também se manteve em silêncio. esperou pelo fim do ano para ajustar contas
com os alunos. e sem contemplações escarrapachou-me na pauta uma negativa que
me tirou o ano. mesmo tirando positiva nos dois testes do terceiro período –
revoltei-me. apeteceu-me fazer-lhe tudo. mas era novo e resolvi seguir em
frente. o que vale um ano na vida de um jovem. nada – a professora nunca
compreendeu que eu fui dos poucos a votar a sua continuidade. sempre a defendi.
é verdade que nunca me expus. nunca teve em mim um aliado. mas dentro do que me
era possível fui alertando os meus colegas de turma para a injustiça que
estávamos a cometer. não estávamos a ser íntegros. dignos. e podíamos arranjar
problemas difíceis de solucionar com a sua substituição – nunca foi saneada.
tenho a certeza de que foi decisiva a minha intervenção junto dos colegas mais
frágeis – foi uma grande desilusão quando as notas chegaram à pauta. o vinte
cinco de abril fez-me o seu primeiro estrago – se me perguntarem o nome de
algum professor do liceu não sou capaz de dizer. nenhum me aprisionou pelo seu
valor. pelo seu carisma. ou pela excecionalidade do seu método de ensino.
nenhum me deixou uma marca positiva para recordar. com exceção desta senhora
professora: isabel manta. fiquei com a cicatriz gravada em mim – foram umas
férias complicadas. sentia-me responsável pelo insucesso. apesar de não ter
tido grandes problemas com o chumbo. os meus pais atribuíram a culpa ao 25 de
abril. era verdade. mas não era toda a verdade. podia ter feito muito mais.
devia ter feito muito mais – vivia cada dia com uma intensidade estonteante.
sentia-me empurrado pela vida e pelas pessoas que ia conhecendo. era assim como
se andasse sempre no meio da turba. comprimido. empanturrado entre as
diferenças. feliz. a querer ver tudo. a querer sentir o que cada uma daquelas
almas sentia. e uma vontade de atracar em todas aquelas fantásticas luzes – os
dias corriam velozmente sempre num estado de sofreguidão. procurava a
felicidade nas coisas mais simples. que fossem fáceis de consumir. atolava-me
nas oferendas da vida a cada instante. como se tudo não fosse mais que uma
faísca. e em cada instante de luz. cegava-me por olhar para tanto lugar ao
mesmo tempo – tudo faiscava. e todos os lugares olhavam para mim. num apelo
misericordioso. enfeitiçando-me. dizendo-me: vem para aqui. é muito melhor do
que aí – e lá ia eu. sem nunca me interrogar porque o fazia – o corpo
recusava-se a parar. não sei se para fazer a vontade à alma. ou apenas pela
inércia do movimento. vivia sem lei. sem regras. sem estratégia. o que a mente
quer que aconteça. acontece. e quando não acontece é a providência de deus –
deixei de controlar o destino. também não sei se era possível controlar. ia
porque queria ir. porque o corpo pedia para ir. porque parado sentia-me a desaparecer
– a multidão aumentava a cada dia. às tantas já não era uma multidão. mas o
mundo todo a consumir-me. deixei de
andar. passei a flutuar nas nuvens. ia para onde o vento me levasse –
embebedei-me com o mundo. que sem saber. pouco mais era do que a minha terra
com todos os amigos que amava. e do cimo dessa multidão percebi que o que via
não tinha fim. nem eu tinha fim. era imortal. e a boca sôfrega falava: para a
frente é que é o caminho. os sonhos amarrados às costas em gritos de euforia –
cada vez mais pesados – e as mãos vazias de quase tudo que lhe dessem sentido. Arrogantes.
chamavam ao medo covarde – nunca imaginei que a vida fosse tão longa para quem
não faz o que está certo na altura certa – corria tão depressa que rapidamente
deixei de perceber que viver é também comtemplar. parar. refletir. preparar o
corpo e alma para o desconhecido – só a noite me sossegava – era um mau aluno.
principalmente por ser preguiçoso e entender que a vida fora dos espaços
escolares era muito mais atrativa. tudo acontecia à velocidade da luz. não
havia tempo a perder com manigâncias. a liberdade estava em marcha. o liceu
esperaria por mim – o meu pai não fez grande esforço. ou nenhum para me demover
do abandono escolar. talvez por lhe ter prometido que entraria no regime
noturno e passaria a trabalhar de dia na empresa familiar – acredito que na
base desta aceitação estaria o meu feitio imprevisível. senhor de um nariz empinado.
de um saber que afinal não era coisa nenhuma. era loucura juvenil.
irresponsabilidade. arrogância. petulância. e tudo isto com uma falta de
humildade gritante – sempre entendi que apenas eu era dono do meu destino. e
lembro-me [bem] de ter alguns conflitos com o meu pai por não acatar as suas
demandas. tivemos momentos complicados – farto das guerras que foi tendo com o
meu crescimento. optou por me deixar seguir o meu próprio destino – finalmente
consegui ter paz interior na relação com o meu pai – mesmo assim estou certo
que não foi de seu agrado – da minha mãe é que não foi mesmo. queria à força
que eu fosse dentista. talvez porque na época havia poucos dentistas em braga.
os que havia ganhavam muito dinheiro. e era muito difícil arranjar uma consulta.
esperava-se meses para broquear um dente – realizou o seu desejo com um neto. o
meu filho mais velho luís deu-lhe esse gosto. formou-se em dentária – no dia da
sua formatura foi a minha mãe que lhe deu as pancadinhas na cartola. nunca a vi
com tanto orgulho. foi muito saboroso ver aqueles olhos cheios de luz e orgulho
– a minha mãe não me viu doutor. partiu com esse desgosto. mas viu-me homem.
homem ressuscitado. homem de família. finalmente tinha chegado ao meu mundo: o
mundo dos afetos – a família é a minha única missão nesta passagem terrena –
retomando a história principal. vivíamos o período em que o partido comunista
tinha uma grande implementação nacional. estava em curso as ocupações selvagens
das empresas e das terras. saneamentos indiscriminados. e graves conflitos
sociais por todo o país – o meu pai estava em pânico. em cada esquina morava um
comunista de foice e martelo. daqueles que davam injeções aos velhinhos. pronto
para o sanear. para lhe roubar a menina dos seus olhos. a fábrica era a razão
da sua vida – resolveu então comprar uma
caçadeira e umas quantas caixas de zagalotes. mais uma pistola de 9mm. armado
até aos dentes. só lhe faltava o camuflado e as pinturas de guerra na face.
jurava que se algum comunista lhe entrasse na empresa o carregava de chumbo –
as notícias de ocupação das empresas eram diárias. o medo estava instalado na
classe patronal. por isso quis acreditar que num momento tresloucado matasse
mesmo um comunista. mais tarde percebi que seria impossível. o meu pai já tinha
passado os cinquenta. estava a degustar pela primeira vez a vida. tinha passado
por muitas dificuldades para erguer a empresa. queria paz. não tinha vocação para a arte da
guerra. o mais certo seria saírem todos aos abraços. a cantar a
internacional socialista – era um homem respeitado. principalmente pelos
trabalhadores. todos gostavam dele. nunca dizia não a ninguém. o sr. lopes
tinha um coração maior que o corpo – tenho tantas histórias fantásticas para
contar do meu pai. era ele mesmo um contador de histórias. exímio. doce.
humilde. justo. o seu grande prazer era estar rodeado de amigos – um dia até
poderei escrever algumas das narrativas do meu pai. o que não sei. e não sei
mesmo. é se conseguirei impregná-las com
a sua magia. a alegria com que as contava. a paz com que as embelezava. e a
serenidade como aceitava o que
lhe tinha corrido menos bem – cada história era uma lição de vida. um exemplo.
um modo de nos dizer: a vida são dois dias. vivam. sejam felizes. preocupem-se
apenas com o que não pode ser comprado – infelizmente só compreendi
algumas dessas lições já depois de ter partido – fruto desses ensinamentos.
tento evitar a todo o custo que aconteça aos meus filhos [e descendência] os
erros que cometi com a minha surdez da juventude – confesso que não sou um
homem sossegado pelas escolhas que fiz. apesar de sentir que a aceitação está
cada vez mais perto. muita coisa aconteceu nesta minha caminhada que não
aconteceria se tivesse optado por outro caminho. e isso também não
gostaria de ter perdido – por isso o meu desígnio é agora escrever. e quem
sabe. os meus descentes compreendam mais rapidamente o que são. e porque o são
– há um fio condutor que atravessa todas as gerações de uma linhagem. e mais
uma vez. se tivermos a cabeça no lugar. percebemos rapidamente que somos o que
somos. não por obra do acaso. mas por obra de pertencermos a uma família ligada a esse fio. acredito
que vai muito para além do DNA – esse fio que nos liga de geração em geração.
através dos séculos. por mais que se tente não é possível quebrá-lo. diria
mesmo que é feito da liga mais resistente do universo: linhagem – é essa
resistência invisível que faz de nós o que somos. com defeitos e virtudes.
altos ou baixos. bons ou maus. sorridentes ou sérios. com os olhos a brilhar ou
apagados. com a vontade infinita de nunca vergar às adversidades. ou render-se
à primeira dificuldade – nós lutamos. o meu pai lutou. eu lutei. os meus filhos
à sua maneira irão lutar também – a glória está na forma como nunca desistimos
de nada. e nunca no que conseguimos alcançar – talvez os meus filhos comecem
agora a compreender melhor porque fui um pai exigentíssimo com a escola. com a
sua formação para homens adultos. como diria a minha cunhada maria josé. são o
meu sol. vê-los brilhar é saber que não falhei – um homem precisa sempre
da ajuda do plural. quando se é novo é muito difícil ver e sentir o plural.
fazer o certo ainda se torna mais complicado quando a sociedade valoriza sempre
o que é mais brilhante e vistoso. mas o meu plural é a família. não sei onde começou.
e também não sei quando acabará. mas sei. neste incrível momento. que os meus
filhos podem descobrir mais rapidamente o porquê de serem o que são. e eu adoro
aquilo que eles são – às vezes interrogo-me o que é um miúdo inteligente. pois
bem. um miúdo inteligente é aquele que faz o que está certo no momento certo –
eu não fiz – a juventude está cheia de armadilhas. saber priorizar o que
realmente é importante é sinónimo de inteligência. na juventude diria que é
talvez inteligência emocional – é essa inteligência que nos momentos mais
complicados da vida nos leva a optar por fazer o que é mais correto – descobrir
o caminho certo só está ao alcance dos mais iluminados – usei tardiamente essa
inteligência emocional. mas felizmente a família deu-me um rumo. optei por ela.
fazendo emergir dos destroços a capacidade de superação e perdão. não de
esquecer o que me aconteceu de menos bom. mas projetando-me rapidamente para
novos desafios. novos recomeços. aceitando o erro ou o destino como um processo
de aprendizagem. um ensinamento para me tornar melhor e mais justo – agora que
a idade já começa a colorir os dias com as cores outonais. resolvi aprender a
queixar-me o menos possível. em boa verdade sou um afortunado. tudo o que é
realmente importante tenho comigo. ao meu lado. ou na memória – assim foi.
despedi-me do liceu aos dezasseis anos prometendo a mim mesmo que voltaria mais
tarde. com outra postura para os livros – e fui para o mundo do trabalho. algo
que nunca tinha experienciado. em boa verdade era o filho mimado da mamã. não
fazia coisa nenhuma. o que necessitava a lurdes providenciava. nunca me faltou
absolutamente nada. bem tratado. bem alimentado. bem vestido. bem calçado. e
sempre com dinheiro no bolso. pela semanada que o meu pai me dava todos os
santos domingos. que era tanto como alguns amigos recebiam num mês. alguns num
ano – agora imaginem que o meu primeiro dia de trabalho é nada mais. nada
menos. que o 1º de maio. dia do trabalhador e feriado nacional – pensei logo
com os meus botões. isto vai correr bem. ainda não fiz nada e já tenho um dia
ganho – era um dia de multidões. o PCP e a intersindical. com grande
implantação e capacidade de mobilização. juntava milhares de trabalhadores em
todas as cidades do país – apesar de ainda não ter tido um único dia de
trabalho. na verdade. e oficialmente. era um trabalhador. e por via desse novo
estatuto. não podia faltar à comemoração do meu dia. era importante estar no
meio da minha classe. apesar de ser filho de patrão – ao meu segundo dia de
profissional de moda. chego já cansado à nova labuta. participar nas
manifestações do dia anterior deixou-me sem energia. mas motivação não me
faltava


