foto - sampaio rego
III.
na maior parte
dos dias não sou nada. noutros. sou eu. que nada sou também – mas há dias em
que me sinto herói. assim como aqueles super-heróis americanos que voam. que
andam pelas paredes. que se transformam em rochas e deitam fogo pelas mãos.
sempre com uma única motivação: a de proteger os mais débeis – nesses dias. sou
então fenomenal. sou herói por inteiro. ainda que tenha pés de barro – sou
feliz – a razão dessa felicidade é simples. os meus superpoderes anularam
[temporariamente] umas quantas forças do mal que me infernizam a memória – são
vitórias curtas. inofensivas e tantas vezes inconsequentes. servindo apenas
para ganhar uns míseros instantes de bem-estar no corpo – mas são estas janelas
no tempo que me permitem debruçar-me no parapeito e olhar o mundo de uma forma
mais tranquila. com mais tolerância. mais sossego. mais ternura. sem amargura.
sem desumanidade. sem culpabilidade. sem desassossego. aceitando a sua forma de
girar. de rodopiar. de encaixar as pessoas. de criar amigos. de os estimar. e
de me levar ao cimo da minha montanha. olhar o futuro com misericórdia. perdoar
o passado. reajustar o corpo com o que me resta da alma sã. meter as mãos aos
bolsos. escutar o coração. e devolver aos olhos a coragem de caminhar. de não
desistir. de acreditar. de desafiar o destino mais uma vez – e ali fico.
estático. à procura de um lugar no céu que nunca conheci. sem nunca perceber se
o seu azul anuncia tempestade ou bonança – isto tudo numa resignação tranquila.
de aceitação do mundo que me foi oferecido. e de uma absolvição sincera.
merecida e desejada mesmo que condicionada pelo tamanho do horizonte da minha
janela – sempre acreditei que o [meu] mundo é tendencialmente bom – mas às
vezes a minha memória atraiçoa-me e não me autoriza ver o seu lado melhor – é o
seu lado mais sombrio. mais adulterado. mais egoísta. portando-se como os
antigos corsários: terrífica. de tapa-olho. de perna de pau. e espada em riste
rouba-me sem piedade a alegria de viver. deixando-me ficar o revés como sinal
de aviso: não estás a sonhar – cruel – mas a realidade é que a memória não é
mais do que o armazenamento das nossas vidas através de histórias ou
experiências vividas – em boa verdade é tudo aquilo que eu quis que fosse –
libertar-me do passado indesejado é apagar a memória. mas também é apagar uma
parte da minha essência como homem que cresceu numa soma de todas as
experiências – sou assim feito tanto de acertos como de enganos – mas mesmo
assim há tanto que gostava de apagar – nem sei se são assim tão más. mas cresci
e. quando crescemos. mudamos tanto que. inexplicavelmente. queremos apagar
ainda mais – cresci tanto que há rostos que apenas reconheço nos sonhos.
surgindo-me então os corpos afeiçoados com os sorrisos do dia em que deixei de
os lembrar – quando crescemos a saudade cresce connosco. e aquele até amanhã
perdido na despedida do amigo torna-se agora uma necessidade – é urgente rever
os amigos de calções. da bola. da carica. do jogo do polícia e ladrão – é
absolutamente essencial. para o meu sossego. saber que estão vivos e que afinal
o tempo não os mudou por dentro – é o lado bom da memória antes que o tempo a
corrompa – recordo então os que já partiram e peço-lhes perdão por erros que só
a juventude é capaz de perdoar e lamentar – a morte é a saudade vestida de luto
– cresci para partes do corpo que rejeito. mas também cresci para outras que
aceito com humildade – cresci para um futuro que já não é só meu. cresci tanto
que já sento ao colo os netos. um avô renasce como pai duas vezes – cresci para
os meus filhos. estão enormes. homens bons. dignos. a saberem coisas do mundo
que eu na idade deles. nem sonhava conhecer. a prometerem o resgate da
felicidade em definitivo para a nossa família. com honra. com nobreza – cresci
para a minha mãe que do cimo dos seus noventa e dois anos não se cansa de me
dizer para ter cuidado com os invernos: -- toma a vacina para a gripe meu
filho. tem cuidado contigo. já não és nenhuma criança – mas cuidado para quê
minha mãe se o único mal que temo é este que me permite sobreviver no vosso
meio sem acerto com a minha consciência – fernando pessoa diz que “a memória é
a consciência inserida no tempo” – que verdade tão cruel. há verdades que doem
como o fogo de camões – não gosto de algumas memórias e faço de tudo para as
apagar – infelizmente. quase sempre. temporariamente – não é fácil – há
momentos gravados a cinzel na alma. eternos. inapagáveis – como dizia
cervantes: “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” – são estes momentos
que nos fazem sofrer – ainda estou a ouvir a minha mãe a dizer: -- um dia vais
puxar pelas orelhas – quando um homem quer safar o passado a ruína está sempre
para breve – nunca me passou pela cabeça. bem… talvez não seja bem verdade que
um dia iria querer dar um apagão à memória. desativá-la. eliminá-la. destruí-la
– há recordações que se comportam como a peste negra – a única diferença é a
lentidão com que nos leva à morte – nunca imaginei que ao longo do tempo esta
adquirisse um tal poder de persuasão capaz de ordenar a destruição do seu
próprio corpo – rouba-lhe o sorriso. a vontade de viver. a autoestima. a fala.
a vontade de amar e de ser amado – dá-nos a solidão e com esta chega a coragem
para esquecer o amor de quem nos quer bem – quando damos conta já não temos
nada de nós. gelamos e daí a fragmentar a alma é apenas a ocasião – não é
possível lutar contra a vontade de algo que não sei como dominar. alterar.
reformular. ou até ajoelhar. pedir perdão e prometer-lhe um novo par de olhos.
de ouvidos. de gestos. de sorrisos. tudo para construir uma outra dimensão
humana – confesso que não sei o que fazer. tudo o que tinha para fazer já fiz –
não podemos entregar a nossa memória a ninguém para retificar o que quer que
seja – não foi feita de um dia para o outro. é feita de tempo. do que ouvi. do
que vi. do que senti em cada momento. e que por ser apenas minha só eu serei
capaz de compreender as suas opções – sou um par de olhos e ouvidos – agora.
enquanto vos escrevo. sei apenas que os olhos se apagaram e os ouvidos são
zumbidos incessantes que me impedem de descansar – só a memória. em momentos
raros de lucidez. ainda é capaz de distinguir o bem do mal. o certo do errado.
a luz da escuridão – talvez esteja louco e a memória me esteja a trair.
fazendo-me esquecer a razão principal da minha chegada a este mundo. levando-me
a ver outra forma do meu corpo. outras vozes. outros gestos. outros sorrisos –
agora todo eu sou estranho. e tudo o que imaginava ser meu em definitivo
afinal. não é – estou cada vez mais só porque não me reconheço. e também já não
tenho a certeza de que esta memória seja realmente só minha – compreender-me neste todo é cada vez mais difícil
– há um ruído bem lá no fundo. um cansaço que apela à autodestruição – já não
sei se vivi muito ou pouco. há dias em que só quero voltar para casa. e
noutros. continuo a magoar-me nesta luta que não me leva para lado nenhum –
estou com uma vontade enorme de voltar para sul – sei que nasci a sul e depois
caminhei para norte – é a sul que as andorinhas fazem os ninhos e os rios se
entregam ao mar em definitivo – é no sul que os meninos jogam à bola numa rua
igual à que me viu nascer – é no sul que descobrimos o saber de toda a humanidade.
que encontramos tudo o que perdemos violentamente: o meu pai. a sua paz. a sua
serenidade e finalmente. a seu lado. a verdadeira aceitação do que realmente
sou – com a idade percebi que sou tanto do meu pai – é no sul que podemos
definitivamente dizer à memória que já não nos faz mais falta – eliminamos de
vez o que nos magoa porque a sul não existe desonra. nem o erro. nem o pecado –
a sul existimos exatamente como viemos ao mundo – a memória é pertença de um
corpo com uma vontade intrínseca para conquistar a paz – neste mundo. esta
memória que me consome diariamente. o corpo existe só para a carregar. é um
alforge que a suporta em sorrisos angelicais. em gesticulações graciosas. em
fonemas musicais descarregados em boca gentil: --sim. está tudo bem. obrigado –
mas a memória nega – dentro dela cabe o corpo. e dentro do corpo a dor que.
invisível. ainda assim pode ser descrita: uma lâmina abstrata. de contornos
indefinidos. sem linhas retas. de arestas vivas. curvas e contracurvas que
nunca deixam uma cicatriz reconhecível. nenhum corte se repete. nenhuma marca
se torna assinatura do sofrimento – com esta lâmina invisível. cada ferida
assume a forma única da dor que a originou. irreconhecível. impossível de
imitar. inconfundível na sua ausência de cicatrização. um golpe que pertence
apenas a quem o sente. uma dor exclusiva da memória – é uma dor silenciosa que
nos mata em duodécimos para ganhar ao tempo mais humilhação – dor e mais dor –
a angústia desta dor não pode ser explicada – sente-se e magoa. só – não há
dores iguais. não há cortes iguais na forma. mas todos magoam do mesmo modo –
pode parecer. mas não há – por isso peço aos meus amigos que não tentem dar
forma a esta dor. não a criem à sua semelhança. não a desenhem. não a preencham
com as dores da vossa vida – não seria justo e eu não gosto de amigos injustos.
perco-os na memória. e confesso que depois já não sou capaz de os procurar –
esfumam-se para sempre – os verdadeiros amigos. os afetuosos. não se zangam
pelas dores que não são suas. respeitam-nas – um dia recordarão a minha
existência num silêncio-entendimento. de aceitação-paz. de
amizade-incondicional. de verdade. de saudade. de compreensão – cada
metamorfose da memória projeta no corpo uma dor diferente – bem sei que as
dores se tornam públicas quando oferecidas em palavras. também sei que todas
estão sujeitas a um julgamento. a um exame. um estudo até. crítica também. mas
não se esqueçam nunca da compreensão. da amizade. da tolerância. mesmo da sua
aprovação por compaixão e mais importante. da legitimidade das minhas escolhas
– bem sei que nem sempre as escolhi. muitas tocaram-me em sorte – a dor é
pertença apenas de um corpo com a sua memória. e apenas essa memória será capaz
de a julgar e compreender as suas motivações – a memória é uma armadilha
dolorosa que. depois de escolher a sua vítima. prolonga-lhe o sofrimento numa
espiral suicida – são dores que ficam para sempre. nos dias melhores adormecem
atordoadas. anestesiadas. mas na maior parte das vezes. camuflamo-las com
sorrisos. com festas surpresas. com brindes. e com amigos que estimamos o
suficiente para não lhes transmitir uma dor que não lhes pertence – para sofrer
já basta um corpo – acumulamos dor. acumulamos sofrimento. acumulamos falta de
compreensão. acumulamos indiferença e o mundo parece querer convencer-nos de
que seríamos melhores de qualquer outra forma – como se eu não quisesse ser
outra coisa – às vezes queria mesmo ser o resto do mundo. menos ser o que sou –
a dor é um vulcão que. de tempos a tempos. precisa de vomitar lava para que o
corpo aguente mais um dia. para se reinventar. reformular. reajustar e aceitar
uma nova realidade por tempo limitado – mas nem sempre é possível. já não há
força. a honra perdeu-se para sempre – o tempo é um embuste: na juventude somos
feitos de idiotices. no entanto. juramos a pés juntos que tudo é perfeito –
envelhecemos e tudo o que era certeza é agora dúvida. erro. remorso.
arrependimento e o perdão perdido entre o castigo violento e um julgamento com
direito a pena de morte – e o nosso dedo apontado a tudo. e o dedo dos outros
apontado ao nosso coração. e a sentença consumada com a cabeça na guilhotina –
dor. arrependimento. dor. arrependimento. dor e mais arrependimento – e esta
repetição a ecoar sofrimento. sem cessar. sem piedade – nietzsche dizia que “é
possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas
é impossível viver sem esquecer” – eu não consigo esquecer – com o tempo a
memória rouba-nos a boca. as lágrimas. os olhos incham. esbugalham. deformam-se.
rouba a cor. rouba a realidade. e a morte surge por um afogamento que dura
tantos anos como quantos levo a pensar – o filme da vida passa-nos diariamente
numa agonia de quem sabe que tudo pode acabar de um momento para o outro – o
erro e a dor atribuídos a um passado de fé: é a vontade de um deus – perdi a
morada deste deus. não sei onde mora – um caminho errado mais cedo ou mais
tarde paralisa as pernas ao peregrino – morrer sufocado pelas memórias é
desumano – os amigos mereciam de mim muito mais do que esta despedida – que me
perdoem os poucos que comigo caminharam
– estimá-los deveria ter sido a minha última honra

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