ética – o que vale a ética se a moral
está corrompida – não sei se alguma vez teve dimensão universal. não creio. nem
sei se seria bom termos todos as mesmas leis. porque ou estaríamos todos bem.
perfeitos. ou estaríamos todos a pecar – o problema não está nas diferenças do
mundo. está na diferença entre cidades do mesmo país – incomoda-me. digo. estou
incomodado. às vezes pergunto se não sou eu o deslocado. possivelmente o mundo
cabe em mim. e não posso pedir a quem vive a cinquenta quilómetros que tenha a
mesma ética – possivelmente estou mais longe. o corpo reside aqui mas eu
vagueio pelo universo – mas incomodo-me – e também aqui não sou inocente. a
injustiça não me dói da mesma maneira quando acontece a quem não conheço. posso
reconhecê-la. posso condená-la. mas não me entra no corpo – são os amigos que
me estragam a distância. quando toca num deles deixa de ser uma ideia. passa a
doer – não sei se isto me torna diferente daqueles que critico. talvez apenas
me coloque no mesmo lugar. com outra fronteira – mas há uma fronteira que não
consigo deslocar: a justiça – a justiça tem de ser cega. não pode aparecer
apenas quando somos nós os desconfortáveis – também não acredito numa justiça
repartida por valores. uma para o futebol. outra para a vida. posso compreender
que durante um jogo a paixão nos retire o discernimento. que por alguns minutos
queiramos um penálti que sabemos não existir. que o nosso jogador seja sempre
menos culpado do que o outro – somos humanos. pertencemos. queremos ganhar –
mas o jogo acaba. e o discernimento tem de voltar – se depois do apito ainda
aceitamos como justo aquilo que sabemos ter sido injusto apenas porque nos
favoreceu. então alguma coisa fica por explicar – se um homem suspende a
justiça quando ela lhe é inconveniente. que garantia me dá de que não fará o
mesmo quando estiver em causa alguma coisa verdadeiramente importante – talvez
o problema esteja aqui. há pessoas que têm os valores catalogados. uma ética
para cada gaveta. abrem a que lhes convém conforme o lugar onde estão – essas
pessoas assustam-me mais quando estão próximas. porque aos desconhecidos não
entrego nada de mim – não consigo perceber a mente humana. que tipo de justiça
há dentro das pessoas para que se deixem manipular por grupos. apenas porque
acreditam que vivem no mesmo bairro – pergunto-me: faço de conta que são
humanos bons? ou alimento a dúvida: se são assim para o que não tem valor. o
que serão quando o destino lhes exigir sacrifício pela verdade – se eu os
questionasse tenho a certeza de que diriam: mas isto não tem valor. é um jogo.
é diversão – talvez seja esse o problema. a justiça só ter valor quando não nos
custa nada – custa-me acreditar em humanos que repartem a alma de acordo com o
que os satisfaz. mesmo sabendo que outros ficam tristes – vou continuar na
minha dúvida. mas confesso. tenho medo. tenho medo da moral que apregoam –
ninguém pode ser sério quando divide o mundo pelos interesses – razão tinha
santo antónio em pregar aos peixes
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