02/10/2026

sem tocar os olhos





é noite – estou a capear as memórias. recordo passagens de ano – uma com os meus pais num hotel. outra dentro de uma toyota hiace com dois amigos. outras em espanha. em bayona. eu e a minha companheira de bar em bar. a beber até que o ano mudasse de nome – lembro-me também da primeira sem o meu pai. das doze badaladas e de uma promessa que fiz ao silêncio – mas há uma de que não gosto de me lembrar – meia-noite – eu e a minha companheira sentados no sofá. abrimos uma garrafa de espumante. desejámos um ao outro um bom ano – bom ano. dissemos. como se aquelas duas palavras ainda soubessem significar alguma coisa – brindámos. agarrámo-nos um ao outro. sem nunca tocar os olhos – talvez porque nos olhos estivesse aquilo que nenhum dos dois queria confirmar – chorámos – tristes sem medida – tão tristes que acredito que toda a tristeza do mundo estava dentro de mim. de nós – não sei explicar melhor. nem hoje – há tristezas que não cabem nas palavras. apenas ocupam o corpo e ficam – mas ainda havia o medo. meu deus. o medo – ainda hoje tenho medo daquele medo – não era medo de alguma coisa acontecer. era medo de tudo. do dia seguinte. de não saber. de não conseguir. de olhar para ela. de olhar para os meus filhos – e a revolta a trabalhar dentro de mim: não fui suficientemente bom. ela não merecia. os meus filhos não mereciam. nós não merecíamos – o medo já não fazia caminho. estava ali. connosco. sentado no sofá – porque destino já não tinha margem – nenhum desgraçado tem pernas – ficámos em silêncio a olhar para a alegria da televisão – gente aos abraços. copos levantados. bocas a desejar felicidade. os foguetes rebentavam na rua e não magoavam – um homem com medo acredita que nada pode ser pior – e nada aconteceu – a meia-noite passou. os foguetes calaram-se. a televisão continuou a mostrar gente feliz. a garrafa ficou aberta. os copos por terminar – e nós continuámos agarrados um ao outro. como se largar os braços fosse deixar entrar o dia seguinte – não sei quanto tempo ficámos naquele sofá. sei que o ano começou – e nós também – no dia seguinte olhei para trás e caminhei – não sei o que vem. não sei quem serei quando vier. hoje estou aqui. hoje estou em paz. amanhã veremos

pedro machado – para memória