16/04/2011

num abril e fechar do tempo






meio-dia. metade de um dia ganho ao tempo  - doze horas. setecentos e vinte minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de microespaços de tempo – ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações. intuições de aguarela e a boca resmunga  – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos aos ponteiros de relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos. rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias galgam abril. mais um abril. outro abril e os neutrões sempre a crescer. a crescer. e o ar a desaparecer – meio-dia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor 




14/04/2011

à volta do meu eixo






a terra gira sobre um eixo imaginário – gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite. gira num eixo que não existe. é imaginário. como todas as coisas que escrevo à volta do meu eixo. imaginário. também. imaginário porque é feito de palavras que ainda não escrevi 



09/04/2011

poeta: às vezes. nem sempre. nunca






vivo. respiro. sonho ser poeta – acredito que um poeta é aquele que veste o silêncio com palavras. são palavras que se agigantam aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco e. nas mãos o cheiro de palavras por escrever. e eu. sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde. vou decapitar as mãos – encerrá-las numa caixa forte junto com a vontade de escrever – quando morrem as mãos. morre o sonho do poeta



04/04/2011

tudo vem da noite






a noite. a noite é tudo. tudo o que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando digo às estrelas que a noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite. amo-te




02/04/2011

quando o futuro é passado





acordei a saber que afinal existo – aquele que. com ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é apenas uma cópia de mim – o meu corpo tem futuro – o futuro são palavras que me chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado – de ti meu novo amigo. que vieste do futuro de tudo o que ainda quero escrever. deixo-te um abraço – vamos. com toda a certeza. um dia ser ambos felizes. sei que somos dois. mas as dores são apenas de um



01/04/2011

fotolitografia: a imagem do tempo







nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida

 

a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu. estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus. estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas. estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários. clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só. livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado. para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas. e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir. gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado. deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem. todos os domingos pertencem a de deus. mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres. anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do que o meu próprio tempo



28/03/2011

somos palavras. somos memória







– não minha amiga –

afastei-me apenas da claridade desnecessária. aquela que. em vez de aclarar. acaba por cegar com luz sobre o vazio – o teu amigo continua dentro das palavras. mesmo naquelas que. por momentos. te possam confundir com uma outra qualquer personagem. que um dia partiu sem te dizer adeus  - acredita que estou sempre aqui. sempre. e. quando não estou a escrever. estou deitado a descansar nas linhas em branco que deixo sempre entre o fim de uma história e o começo de outra – leio-te sempre. e em cada palavra tua. encontro algo novo para aprender. principalmente com as viagens ao interior dos teus olhos. que são o teu mundo – e eu sempre aqui. sentado a ver-te pintar o mundo com palavras. com orações subordinadas ao teu universo. que é tantas vezes meu também - eu sou eu. sou pouco mais do que nada. serei sempre este grão de poeira no tempo – há dias que apenas sou o que consigo ler. são as tuas palavras que me aliviam a dor de não saber escrever – nesses dias de caos. ainda sou mais teu amigo. estou mais aí. mais perto do que és. do que somos com palavras – afinal. somos palavras que se escrevem umas nas outras. construindo quem somos a cada linha partilhada



19/03/2011

pai





hoje é o meu dia - sou pai. sou pai com sorrisos. com abraços. com beijos. com carinho. com amizade – é bom ser pai - um dia. mais tarde. muito mais tarde. no meu sofá. trémulo no olhar e nas mãos. vou contar uma história. construída no tempo desta família que guiei até ao meu outono – vou dizer aos meus netos que os meus filhos também são pais. bons pais. porque o meu pai era um grande pai - estou feliz. recordo o meu pai em março. recordo a sua bondade com o mundo. com os homens. a tolerância. a amizade. a alma com que dizia as coisas simples. eu tão novo as complicava tudo. jovem. mas filho sempre – estou feliz. estou feliz porque ainda tenho memória. sei agora que sou também eu fruto desse tempo das palavras segredadas com afeto. com amor. com saber. com caminho – sou pai hoje. sou pai para sempre. serei pai mesmo depois do sol cair. adoro ser pai. foi o melhor da vida  – dia feliz meu pai onde quer que estejas. hoje um teu neto trouxe-me moletinhos de s. josé. como eu fazia no passado. estão em cima da mesa. e tu também estás cá para sempre



16/03/2011

é março







1.

continuo a esconder os olhos ao futuro. estas vestes negras não me largam. trapos carregados de memórias dolorosas – o corpo traja luto. as mãos permanecem doentes. definham – a torre bate a defunto – bate forte. bate sem tempo – o corpo no badalo vai e vem – as pombas brancas voam em círculo sobre a terra que engoliu a oliveira – já não há esperança de um novo mundo para os vivos – corre a morte. corre silenciosa. como o rio para o mar corre – é março. e em março o silêncio magoa antes da primavera – ainda te vejo dentro dos olhos: deitado. sem sofrimento. sem gemidos. sem lamentos. sem sorrisos. dormes. dormes como sempre. em paz – é março e as tuas mãos continuam cruzadas no meu olhar  

 

2.

à tua volta as flores. em coroas. uma dor de primavera. castiçais dourados suportam círios mudos. iluminam a noite onde me encontro. ardem. ardem com pressa. consomem o tempo que era todo nosso – o salão está frio. nenhum corpo consegue aquecer a vida parada. a saudade já faz medo. está aí. espreita nas sombras imóveis das paredes e o tempo sempre a correr. sempre a fugir da luz – pela espera dentro. o entra e sai da vida. chamam-me pelo nome. roubam-me a calmaria que descansa a teu lado. já tenho pouco tempo para te dizer que o silêncio chegará em pranto. não vamos poder estar juntos quando o sol abrir os dias grandes. bem sei que ao teu lado todos os dias eram grandes. havia sempre mais dia do que noite. sempre mais esperança do que temor. estavas sempre certo nas tuas certezas. sentia-me tão confortável quando dizias: tudo vai correr bem. era um tudo que me deixava a olhar a eternidade. sem fim. só sabia ser feliz. tudo estava nas tuas palavras – mas a vida não para. as caras continuam a entrar. querem dizer adeus. abraçam-me – os meus sentimentos – mas eu já não sei o que são sentimentos. perdi-os quando gritavas pela morte. e eu ainda via vida. sempre te vi vida. mesmo naqueles momentos em que não te olhava nos olhos. não queria sofrer. queria ver vida. sempre vi vida a teu lado – lamento muito a sua perda – qual perda? jamais serás uma perda. queria tanto ser como tu. queria tanto fazer coisas para ti. queria o teu abraço de orgulho. entregar-te o que sou. por ter crescido a teu lado a ouvir-te dizer que a família era a tua vida. e eu sempre dentro dela. na tua graça. sempre teu filho – abraçam-me. muita coragem – qual coragem? tu que partiste sem boca. sem memória. sem braços para acenar por socorro. sem olhos para pedires que te ajudassem a encontrar a luz. abraçam-me. coragem – coragem é teu nome. só tu sabes falar de dor. só tu gritaste com os olhos. só tu viveste no inferno enquanto a vida ruía – abraçam-me. agora está junto aos santos – como assim? os santos estão escondidos nas sombras. têm vergonha do que te fizeram. nunca te valeram. se fossem realmente santos. tinham-te levado mais cedo para as nuvens. tu merecias. merecias porque toda a vida me ensinaste a viver de mãos entrelaçadas – eles não te merecem à direita do pai. talvez me revolte. talvez. mas será que eles veem o que te fizeram? já é tarde. já não tens dores. agora já só resta o som dentro dos meus ouvidos. ouço-te todos os dias. a todas as horas. ouço-te como carne da tua carne. ouço-te como ouço o mar nos búzios – mas não me zango. tu não eras nada de zangas. resolvias tudo a falar. gostavas tanto de falar. mesmo quando a doença te tirou a boca tu continuavas a falar. bem sei que muitas vezes não te entendia. tu ficavas irritado. ah como eu fui estúpido. podia  ter fingido. podia muito bem mentir à tua dor. à tua luta para nunca desistir de falar. a boca era agora pequena e já não aguentava o sofrimento. ainda assim sorrias sempre que fazias meias palavras. fazias tantas meias palavras. e eu achava sempre pouco. queria-te como no passado. queria-te outra vez de mão dada a correr nas procissões da semana santa – o escuro é agora cada vez mais escuro. nunca tinha tido um escuro tão sereno. tão iluminado por dentro. sempre que repouso os olhos em ti. vejo luz. muita luz. o tempo passa e a luz continua acesa – amanhã é dia do pai. como é possível tu partires no teu dia. neste dia deverias estar comigo para me dizeres que as derrotas fazem parte da vida do homem. mesmo quando esse homem é o teu filho. queria tanto que me pudesses dizer que um dia também tu não foste capaz de terminar o teu trabalho. queria que me desses a mão e me levasses ao teu mundo. ao mundo da tua meninice. aquele rio que agora não é rio e que tu mergulhavas para crescer. aquela bicicleta que fazia de ti um rapaz com brilhantina no cabelo. ou aquela fotografia em que tu. homem de chapéu. montavas um cavalo como os artistas de hollywood. e eu encostado à vida choro por não saber como dizer-te adeus – não te sei dizer adeus. sei que estás sem dores. estás sem carne. estás finalmente livre. mas não te sei dizer adeus. sei de tudo isso. mas o adeus ainda me foge da boca. não me peças para aceitar a tua partida no teu dia.  terás que  ser tu a soltar o último calor do corpo. sei que estás a ficar gelado. mas no teu rosto ainda é possível haver mais um dia. dormes tão sossegado. o teu sono ainda tem rios. chuva. ruas alagadas. campos. campos de girassóis e vozes. muitas vozes de crianças que ajudaste a crescer – nos teus olhos fechados a vida continua. ainda me vejo dentro deles a correr

 

3.

chorei tudo. deixei as lágrimas nas noites em que a dor te comia a carne. eu escondia os ouvidos na indiferença para não sofrer – um dia um dos teus netos disse-me que não suportava mais ouvir-te. fiquei destroçado. afinal até eles sabiam que estavas de partida – hoje ainda se lembra dos dias em que o sentavas ao colo e lhe dizias que a vida era bela. eras um homem feliz. aquele teu filho tinha-te dado outro filho. outra esperança para construir uma família cada vez mais ao teu jeito. uma família com muitas pessoas. com palavras ditas aos abraços – a minha vida murmura despedida. por momentos quero acreditar que tu ainda dormes. sem dor. embalado por anjos que vieram do começo do tempo. onde tu corrias para mudar o destino dos que viviam ao teu lado. e eu sempre feliz. descobria ruas. chutava bolas. inventava futuros de que não gostavas. mas eu era teimoso. era feito de ti. feito desse mundo que me oferecias com o teu trabalho. e eu sempre a andar. andava mais depressa do que as tuas palavras. a juventude não nos deu descanso. e tu sempre a falar. sempre a entender-me que a vida também se faz com erros – agora estás aí. pronto a partir. e sou eu que insisto: ainda há tempo para ficar. não podes simplesmente partir assim. não assim – bem sei que se acordares as dores voltam. e também voltará a minha dor. bem sei. mas quero tanto que fiques por aqui só mais um pouco. mesmo que fiques assim deitado. de olhos fechados. de boca fechada. de mãos atadas e com os ossos partidos. quero-te assim. quero-te para sempre assim. mesmo que bem lá no fundo tu tenhas partido. sei que partiste. nós sabíamos que já tinhas partido há muito tempo. os teus olhos eram buracos e a tua língua tinha caído para o outro lado. já não havia meias palavras. já não havia esperança nos teus gestos. restava apenas um pequeno braseiro nas tuas mãos fracas. cada vez mais fracas. trémulas. já incapazes de dizer adeus. já não me abraçavas mais. nunca mais me abraçarás. nunca mais. nunca mais – hoje é dia do pai. é agora também o meu dia. o dia dos meus filhos. dos teus netos. da tua família. da nossa força para existir. somos como ramos de uma árvore que continua a crescer mesmo depois de perder a raiz. para lutar. para contar as tuas histórias. nós somos a tua história. tu ainda corres dentro dos meus olhos e eu dentro dos teus. nós corremos. sempre. sempre até que as oliveiras tragam um novo mundo



sempre março









retratos
retratos guardados
…………………………………memórias
………………………………………………….cores
…………………………………………………………..perfumes
………………………………..agora
preto
…………….branco
………………………………..preto
………………………………………………….branco
rompem-se folhas
………………………………..cinza
………………………………………………….marfim
cai a vida
……………….os abraços
………………………………….as palavras
……………………………………………………….os beijos
e o cheiro ao mar
…………………………………sempre a sorrir
…………………………………………………………………sempre a ir e a vir
sempre
sempre
até que o sal cristalize
………………………………………….os olhos
…………………………………………………………..os lábios
o cheiro das flores
……………………………...…….as coroas
………………………………………………….os ramos verdes
palavras escritas
………………………………...saudades eternas
…………………………………………………………………lágrimas
a terra
…………………escura
………………………………….escura como a noite
dobram-se as pestanas
………………………………….as costas
……………………………………………………….os joelhos
………………………………………………………………………………o beijo
………………………………………………………………………………………………gélido
terra
……………..terra
………………………………terra
……………………………………....sem terra
…….............................................................…...escura como a noite

mas as mãos teimam
…………………………………………..teimam em escrever
a tua voz
…………………..o teu cabelo
…………………………………………….o teu gesto
………………………………………………………………………o teu sorriso
a generosidade
………………………..do teu
……………………………………….olhar
………………………..do teu
…………………..............................abraço quente
………………………..do teu
……………………………………….até logo

voltaremos a falar

voltaremos a falar
sem retrato
.........................sem sombra
.............................................sem tempo
…………………………………………sem terra




-17 de março 1998-



05/03/2011

ainda te abraço





ainda gosto de tanta gente – parto pelos retratos. uns aqui. outros antigos. uns bonitos. outros irritados. uns preto e branco. outros em tom de esperança. uns dor. outros sorrisos. uns arte. outros abecedário. retratos que fazem a minha vida no tempo – neste relógio cresci. e todos os dias sou maior. os braços abraçam tanto. abraçam tudo ao mesmo tempo – nos cabelos brancos a saudade. a memória já não agradece. só enaltece o que a juventude não vê – ainda gosto de tanta gente – hoje escrevo para o meu amigo zé antunes – o tempo separou-nos. tempo injusto. mas ainda estás nos meus retratos. ainda é o meu grande amigo. ainda te abraço 



27/02/2011

para sempre. perdi-me







esta manhã procurei-me. desapareci. perdi-me no tempo – ouço o corpo a caminhar de um lado para o outro. aos pés presas as coisas. talvez memórias de outra vida – pedaços de mim que fui perdendo aos poucos – olho. volto a olhar. e nada vejo. estou escondido atrás de um pensamento: como uma janela partida. de onde se veem coisas que um dia foram reais – silêncio. todo o silêncio que alcanço está comigo – dentro do silêncio eu - rebentam lágrimas. acontecem sempre que recordo o passado. deve ser da saudade. arrependimentos. talvez – dentro deste emudecimento uma papoila reclama luz. os barulhos já não existem. e os ouvidos abrem-se como flores a atapetar ruas – talvez esteja mais sensível. mais velho. mais perto do fim. só pode ser – os humanos choram por coisas de nada. alguns choram até de felicidade. não é o meu caso. choro por dilacerar memórias. choro por não poder voltar a encontrar-me com o que fui. e principalmente com o que pensava ser – deito-me. deixo o corpo cair no nada e fujo. fujo todas as noites em que não durmo. fujo a cada nascer do sol que não é meu. fujo a cada prato de sopa que me afoga em medo. fujo de cada vez que tenho de comer o pão amargo que o diabo amassou – fujo sem saber para onde. e também não seu se a carne ainda se agarra aos ossos – perdi-me para sempre. para sempre – este jeito de fugir leva-me ao passado sem sair do presente. e eu perdido no interior do furacão a levar-me para norte. a pedir-me que me transforme em folha. e que voe até desaparecer no inferno – no inferno vivo eu. eu e este vento norte maldito. esta fraqueza que me toma a vontade como se eu fosse um humano ingrato – depressa. tenho de aparecer ao corpo. usá-lo. assim como quem vai construir outra vida. outra história. a morte afinal já está tão perto. sinto a oração na boca para a absolvição. talvez o melhor seja caminhar. para chegar a tempo de ser o que sou. ir de encontro ao fim sem medo. sem receio. sem o suor frio que gela a pela que me cobre as impurezas – caminho. às vezes devagar. outras mais depressa que os pés. umas vezes na vertical. outras curvado. é aqui que aproveito para deitar os olhos ao chão. onde vive tudo o que escrevi com alma – há dias em que é tanta a desonra que nem os abro. tenho medo. tantos barulhos correm dentro de mim. correm como o sangue nas veias. e eu apodreço. sempre que penso apodreço mais. sempre que chamo pelo meu nome apodreço ainda mais. sempre que a brisa é quente. como se ainda houvesse verão e o cheiro a terra conquistasse a fé que um dia tive. mas o calor é o inferno e no inferno não há quem não apodreça – maldito inferno – tenho que andar. tenho de ir – mas olhar para dentro do passado não é fácil. o arrependimento não quebra correntes feitas de aço temperado ao fogo da juventude – queria tanto que se quebrassem. talvez assim a dor partisse e as mãos morressem de paixão. talvez – o tempo passa e em pedra continuo. bruxedo. feitiço. não interessa. o corpo ainda continua a fugir. sem lágrimas. sem língua. sem memória. sem futuro. sem solução. sobram as mãos para escrever – não sei se estas são as últimas palavras. nunca sei quando serão as últimas. o último suspiro. o último sofrimento. o último sopro de vida.  mas em cada dia que vivo. o tempo farta-se de mim – há tempo – tempo é despedida



15/02/2011

hoje. ando por aqui: o último verão dos castelos



luc tuymans e michaël borremans


hoje ando por aqui. nem compreendo bem o que significa este andar. talvez sentir o movimento das marés. ouvir as gaivotas a falar com o vento. recordar o calor dos verões que me fizeram crescer. lembrar o homem fada que vendia língua da sogra – dentro de mim há uma praia azul. enorme. com baldinhos. forminhas. ancinhos. e grandes castelos de areia – nos meus castelos. aqueles que eram feitos por mãos que ainda não conheciam o pecado. só havia o bem –  naquela praia todos os dias nascia um novo castelo – eu era rei. a meu lado os meus súbditos: estrelas-do-mar. búzios. lapas. mexilhões. o sargaço e aquele cheiro a iodo que me faz correr vida adentro – o mar ia e vinha. vaga após vaga. dia após dia e os castelos de sonhos cresciam e desfaziam-se com o sol a afundar-se no mar – pela manhã. no areal. o prenúncio de uma vida: ruínas – mas os meus súbditos ali estavam. fiéis. nunca me abandonaram. a cada dia de sol. um novo castelo de esperança – ainda hoje. sempre que vou à praia. ali estão os meus amigos. mas já não sou capaz de construir castelos. não os quero desiludir mais. sei que vão ruir ao cair da noite. e pela manhã não terei a mesma força para construir outros. como no passado – não sou capaz. já não sou capaz – o meu mundo já não é igual. o sol já não volta a cair no mar – agora sou peregrino. as mãos outrora brancas. agora cinzentas. sem alegria. sem vida. sem iodo. respiram apenas para sobreviver. encurtam caminham lentamente para a morte – um dia. depois de outro verão. as marés não mais subirão até ao meu areal. não mais voltarão a destruir os meus castelos. estarei então. finalmente frente a frente com o tudo e o nada – o meu último verão – eu e os meus castelos seremos então. para sempre. uma história de fadas. enterrados num mundo só nosso.  mágico. viveremos para sempre onde agora vivem aqueles que. um dia. me ajudaram a fazer verdadeiros castelos – hoje ando por aqui. este verão não me larga. a água é tão azul. encontro ainda as barracas enterradas no areal. guardavam famílias felizes. pais cansados pelo trabalho o meu pai falava. gostava de falar. era enorme. havia dias que tapava o sol. as nuvens. e até o horizonte acabava morto a seus pés. nunca vi nenhuma onda maior do que ele. sabia que a vida era feita de palavras. palavras francas. livres. doces. doces como mel. sempre enfeitadas de gestos para rostos passageiros –  a minha mãe. sentada na areia. ouvia o sol. olhava o futuro com orgulho na face – sempre teve medo dos inesperados males de um mundo feito de trabalho que não queria para os seus – o futuro tão perto e tão longe – a saudade é cada vez mais cruel. deve ser por conhecer a morte  cada dia mais perto. mais negra – a carne. mais dia menos dia. não vai aguentar. levará definitivamente outra metade de mim – o homem fada que vende língua da sogra grita pelo meu nome. enquanto as pernas revolvem a areia que ainda não chegou ao mar – nesta areia branca. pura como estas memórias. enterrei os meus sonhos – hoje ando por aqui. recordo quem fui e o que sou agora. como falava. com ele aprendi a falar. como sorria. com ele aprendi a sorrir. como sonhava. com ele aprendi a sonhar. como amava. com ele aprendi a amar. como era amigo. foi com ele que aprendi a ser pai – hoje ando por aqui. penso. porque é que o mundo não anda para trás. devia andar. tenho tantas saudades do homem fada que vendia língua da sogra




14/02/2011

porquê







não me venham dizer que afinal nunca estive ali. estive ali e aqui – estive dentro de um milhão de perguntas que nunca tiveram resposta. sem uma casa para se abrigarem. sem sol na eira e chuva no nabal. sem guerra que leve à paz. sem nada – talvez seja culpa minha. talvez esteja louco e não saiba quem sou. e. não sabendo quem sou. não posso compreender as palavras. nem o que significam – talvez eu também não saiba o caminho para casa. talvez viva num manicómio. talvez tenha nascido morto por dentro. talvez tenha incorporado uma gaivota cinzenta. talvez hoje chova e a água que cai do céu seja apenas para regar os jardins escondidos sob os guarda-chuvas – cada vez estou com mais dúvidas. talvez o problema resida nas perguntas que faço. possivelmente não têm resposta. talvez ainda não tenha crescido o suficiente – as crianças são sempre puras. mas ingénuas. para cada resposta encontram sempre mais um porquê – porque deus me fez assim. porque deus não vive na porta ao lado. porque deus não tem um carro desportivo. anda tão devagar. demora tanto tempo a chegar. e na maior parte das vezes nem aparece – talvez esteja velhinho. talvez não tenha carta de condução. talvez esteja cansado de ser deus – vou inventar um deus. um que ainda ninguém adore. um que esteja pregado numa cruz. um que morra aos trinta e três anos. um que suba ao reino dos céus e se sente à direita do pai. um que ressuscite lázaro. um que saiba andar em cima da água. um que saiba o meu nome. um que viva não na minha porta ao lado. um que viva no limite do meu mundo. um que seja de carne e osso – talvez. eu seja mesmo louco – talvez

 

 



12/02/2011

nunca só



graciela silva rivas.



caminho por aqui. triste. mas nunca só – trago na memória uma mão cheia de pessoas que sempre me acompanham – tenho saudades. muitas saudades de as sentir no abraço


04/02/2011

17 de abril









ainda tudo me corre nas mãos
noite
.......dia
..........noite
................dia
....................a morte 
.................................cada vez mais ali
................mais aqui
a palavra
.............esta que fala por mim
.............................................sobrevive
entre as noites
............................um dia
apenas um dia
.................de abril



09/01/2011

lakshmi









um destes dias
……………………….voltarei a falar-te
sei que parti sem avisar
foi amor
………………amor
sabes?
o peito sente a distância
……………..amor
queria estalar
……………………como cristal
penso
o coração não ama
……………………………..se amasse
não batia dor
………………………em silêncio
devolvia
…………….pancadas
…………………………….ao pensamento
um destes dias
...........................voltarei a falar-te
onde
………existes
………………….apenas tu

………………………quando te alcanço
nos braços
…………………………………..quando te aperto
nas palavras
…………………………………………………quando te amo
na cama
………………………………………………………………quando te faço minha
seda
……….seda pura
………………………….da índia
…………………………………………..lakshmi
um destes dias
……………………....voltarei a falar-te
acredita
………………amor
estou a escrever
…………………………quero ser um eugénio
só para ti
………………………..quero que vejas peixes verdes
…………………………………………………………………………….nos meus olhos
nos teus
………………o mar
………………………….dos meus peixes
um destes dias
……………………….voltarei a falar-te
amor

voltarei a falar-te



07/01/2011

murmuro








hoje trago-te apenas palavras. sei bem que é pouco. mas ainda assim. são palavras – guardei-as toda a vida para dias como este. dias assim. de tempestade nos teus olhos