nunca acaba.
as mãos nunca acabam. elas escrevem como sempre. com o mesmo cheiro a mar. com
a mesma gaivota a voar em círculos. bem sei que os círculos estão cada vez mais
fechados. mas não fiques triste. estão assim porque aprenderam a acalmar os ventos. mesmo aqueles que se fazem
a norte dos olhos. lá para os lados do desalento. do fim do mundo – nesses dias. amiga. nesses dias os olhos
procuram sempre o fim do mundo. muitas vezes perdidos. desnorteados.
confundidos. amedrontados pelo que ouvem aqui e acolá – mas sabes. amiga. eu
sei que sabes. sei tanto de ti que posso dizê-lo com toda a certeza: tu sabes
que o fim do mundo fica para lá do horizonte. é o que vejo todos os dias ao
entardecer. quando o sol cai e a escuridão rompe pelas palavras como um farol dos
que escrevem com a noite – este farol. minha amiga. cuida de mim. não. cuida de
todos aqueles que se atrevem a escrever com o corpo encrespado. como tu amiga.
como eu que sou teu amigo – procuramos tudo dentro do corpo. até as palavras – muitas
vezes. sem o corpo compreender. a carne cansa. desiste do belo. enruga. começa
a cair aos pedaços. como se de lepra se tratasse – sabes amiga. descobri que as
letras também caem. caem porque é outono no corpo. e no outono as folhas cobrem
sempre o chão em silêncio. o sol encolhido
amarra-se às árvores com a luz que sobrou dos dias grandes. segura pequenas
primaveras – também nós seguramos primaveras. e ficamos ainda mais belos quando
não temos palavras um para outro. belos porque sabemos existir em silêncio – mas
minha amiga. as letras não enganam o sol. o vento frio anuncia as primeiras
geadas nas mãos onde ainda cabe tudo. mãos que apertam as janelas contra o peito
– mas a vontade ainda é silêncio. a vontade ainda é outono. ainda há folhas por cair. ainda há outono no
ar. outono dentro da janela – lá fora. do outro lado da janela que me segura.
as árvores vivem agora despidas – no chão as folhas. nos ramos demoram-se os
últimos sorrisos. como é possível sorrir. amiga. quando o corpo está nu e o
vento é um mundo desconhecido – ainda ontem era verde. ainda ontem o mundo era
verde. verde esperança. ainda o tenho à frente dos olhos. dentro das mãos.
dentro da janela. dentro do hoje que quero falar contigo em silêncio verde. com
palavras fortes. verdes. capazes de resistir ao vento que teima em correr entre
os dedos também – hoje amiga. hoje minha querida amiga. que o dia está com um sol
que só apanha metade da janela onde estou todo. e tu. a todo o momento podes
aparecer em silêncio. e em silêncio dizes-me: dizes-me silêncio. porque as
folhas continuam a cair em silêncio. o mundo não acaba com os silêncios
enquanto houver árvores. e há tantas árvores despidas como eu. como tu. despidas
pelo outono. despidas porque gostam de meter as mãos por dentro de si para
aquecer os gestos que querem deixar partir com as folhas de outono. folhas das árvores
abertas ao tempo. e são tantas – sabes amiga. são tantas. conto uma. duas. três.
quatro. cinco e mais. e cada vez mais mundo. e o tempo a passar entre elas em
forma de vento – hoje. minha amiga. é outono. é outono porque me despi para ti
com palavras feitas de folhas. é um outono bonito. mesmo estando eu deste lado
da janela e as folhas do outro lado. mas estou feliz. estou tão feliz que estou
a fazer de conta que sou o vento. amarro-me nas folhas que fazem o outono e
sopro para ti. sopro para o teu fim do mundo. sopro com o peito cheio de
palavras que ficaram por dizer. mas se vires folhas no ar. belas. harmoniosas.
livres. sorridentes. não tenhas medo. é o meu outono a fazer primavera na tua
vida
22/05/2011
o outono não acaba
15/05/2011
quando o simples não basta
hoje o dia está bonito. tenho tantas palavras simples para vos dizer - tenho só medo de que tão simples nenhum de vocês perceba como o dia. aqui. está bonito - tenho que arranjar uma maneira bonita de vos dizer que se pode chorar em dias bonitos. com palavras simples. palavras molhadas pelo tempo bonito que descobri atrás dos meus olhos
13/05/2011
filomena
foto - sampaio rego
bom dia filomena!
bem sei que ainda é manhã cedo.
mas o sol que nasce para lá da janela já despontou. já abriu vida dentro dos
teus olhos. talvez tu e o sol tenham um acordo secreto para acordar: tu abres
os olhos e o sol descobre a vida para ti – é manhã. e todas as manhãs abrem
como se abrem as tulipas presas a moinhos de vento. arrancadas à força da terra
para poderem espalhar cor pelo ar. e conquistar nas feições palavras de confiança
que inventas para fazeres o mundo feliz – hoje. na minha janela só há sol
porque tu acordaste a ler – se tu soubesses como as palavras são capazes de fazer
sol – talvez saibas – eu é que nunca soube que as palavras podem sempre ser
mais bonitas quando ditas como flores: com cor. com aroma. com alegria de quem
sabe que apenas nasceram para dar sorrisos aos dias – filomena quer dizer amiga
da música. dizem os livros que foram os gregos que inventaram o teu nome. acredito
porque sempre ouves os sons escondidos nas letras que deixo em papel comum.
acredito porque já te ouvi trautear palavras que apenas eu conheço. acredito
porque sempre me falas com a harmonia dos sentidos. às vezes as palavras são
música. ouço. outras. a música é todas as palavras que guardo para mais tarde
fazer escrita. sorrio – não sei se tens alguma ilha com o teu nome. um mar. uma
estrela. um quadro. um caminho. não sei. e também já não me interessa. agora
tens estas palavras. chamam-se: filomena
09/05/2011
dualismo em oposição
podem pensar
que estou louco por escrever isto. não estou. estou apenas cansado de me falar
– nunca me respondo – o outro. o que vive comigo. nada me diz. calou-se de cansado
com o meu tempo – pensa que estou desmiolado e. sempre que quero dizer coisas
estranhas. vira-me as costas. pensa que são coisas inúteis. ocas. fúteis. sem
futuro. sem terra. sem braços entrelaçados – estou cansado – habitamos dentro
do mesmo corpo. partilhamos os lençóis. os cristais presos aos aros das
janelas. a luz do teto. os ponteiros de um relógio ausente. os pesadelos que
sobrevivem agarrados à almofada. a cadeira onde escrevo. preta. alta. gasta
pelo roçar das dores que fazem a escrita. partilhamos tudo. tudo menos os
sorrisos. estes são sempre no outro que me olha com desdém. decompõe a face enquanto as feições tomam a
forma de troça – no fundo. bem lá pelo fundo. somos tempo. somos contraposição
silenciosa: não sou. não vivo. não falo. não respiro. estamos no mesmo tempo. vivemos.
respiramos. falamos. e olhamos para coisas diferentes com olhos iguais – um dia
sonho eu. outro. sonha ele. um dia tenho mau dormir. outro. dorme ele mal.
nunca temos uma noite inteira. estamos sempre desacertados. nascemos desacertados.
um quer trazer os sonhos para dentro de si. o outro quer levar o que sonha para
a vida – não nos entendemos – não há forma de resolver isto. não há. não há
tempo. há apenas um tempo para o mesmo olhar – escrevo. escrevo para não estar
só. sempre que estou só. escrevo - o outro olha-me a escrever. sabe que estou a
escrever. sabe que não estou só. nem com ele. sabe que escrevo para não estar
só. e para não estar com ele
07/05/2011
aos domingos
com a máquina o meu pai - o dia. com o passar do tempo.
parece-me parado. como a fotografia - a minha irmã continua com as mesmas
feições. o meu irmão continua a fechar os olhos para o sol. a lurdes. segunda mãe. continua
a rir amarrada à sua fé. e até a minha mãe. hoje ainda mais bonita aos 86 anos.
continua a segurar em mim com o dobro da preocupação – dar movimento à foto é
fácil. basta escutar a voz do meu pai a dizer: agora não se mexam. não se
mexam. já está – de seguida. uma gargalhada invade o sossego da família – é um pai a viver
como todos os pais deveriam viver – tenho a certeza que era domingo. nesse
tempo havia sempre mais família aos domingos
29/04/2011
conversas ocasionais
ontem. gostava de me ter dado por acabado. gostava
de me ter posto um fim. gostava de me ter
posto um “the end” – não é possível. ainda tenho uma cidade. uma multidão de
olhos que me reconhece e que. com lábios afogueados. me diz:
·
bom dia;
·
que bom rever-te;
·
não envelheces;
·
estás na mesma;
·
sempre jovem;
·
os anos não passam por ti;
·
qual é o segredo;
·
quando foi a última vez que falámos;
·
estou feliz por voltar a ver-te;
·
estás sempre igual;
·
tinha saudades tuas;
·
bons tempos aqueles;
·
parece que foi ontem;
·
foste importante;
·
nem imaginas a alegria;
·
eras bom rapaz;
·
malandrote;
·
vi-te no facebook;
·
não tens desculpa
há um espaço de tempo aberto
no cimento. ainda há quem reconheça o rosto. ainda há saudade. ainda há as
férias grandes. ainda há liceu. ainda há namoradas. ainda há carros. ainda há noitadas.
ainda há palavras ditas. ainda há palavras guardadas. ainda há abraços. ainda
há juras eternas. ainda há esperança. ainda há tempo dentro do tempo todo – ainda há. há. e há. ainda há tanta coisa – quero
uma cidade vazia. uma cidade onde não haja ninguém - não quero. o dia seguinte.
igual ao de hoje. não quero – quero um mar. com gaivotas. com vento norte.
quero uma sarronca a dizer que o sol vai desaparecer – ainda estou aqui. só me
resta o sonho – sonho com uma cidade desigual. indiferente aos nomes. uma
cadeira virada a sul. abrigada do vento norte e. no ombro. a minha gaivota
cinza – um dia partiremos os dois com o mesmo vento. sorrindo para o tempo que deixou
de ser tempo
27/04/2011
entre o farol e o nada
há dias em que sou farol. outros tempestade. outros. e mais grave. não sou nada
16/04/2011
num abril e fechar do tempo
meio-dia. metade de um dia ganho ao
tempo - doze horas. setecentos e vinte
minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de microespaços de tempo
– ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas
pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em
bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações.
intuições de aguarela e a boca resmunga – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos
que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os
sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos aos ponteiros de
relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há
tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à
velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de
um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as
mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança
a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater
marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos.
rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias galgam
abril. mais um abril. outro abril e os neutrões sempre a crescer. a crescer. e
o ar a desaparecer – meio-dia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em
abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor
14/04/2011
à volta do meu eixo
a terra gira sobre
um eixo imaginário – gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite.
gira num eixo que não existe. é imaginário. como todas as coisas que escrevo à
volta do meu eixo. imaginário. também. imaginário porque é feito de palavras
que ainda não escrevi
09/04/2011
poeta: às vezes. nem sempre. nunca
vivo. respiro. sonho ser poeta – acredito que um
poeta é aquele que veste o silêncio com palavras. são palavras que se agigantam
aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco e. nas mãos o cheiro de palavras
por escrever. e eu. sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde. vou
decapitar as mãos – encerrá-las numa caixa forte junto com a vontade de
escrever – quando morrem as mãos. morre o sonho do poeta
04/04/2011
tudo vem da noite
a noite.
a noite é tudo. tudo o que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando
arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando digo às estrelas que a
noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite.
amo-te
02/04/2011
quando o futuro é passado
acordei a saber que afinal existo – aquele que. com
ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é
apenas uma cópia de mim – o meu corpo tem futuro – o futuro são palavras que me
chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado – de ti meu
novo amigo. que vieste do futuro de tudo o que ainda quero escrever. deixo-te
um abraço – vamos. com toda a certeza. um dia ser ambos felizes. sei que somos
dois. mas as dores são apenas de um
01/04/2011
fotolitografia: a imagem do tempo
nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples
estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida
a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo
diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu.
estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos
olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao
umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus.
estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os
dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca
no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas.
estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários.
clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve
separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só.
livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de
papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só
a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há
muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de
ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser
livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um
ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que
farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado.
para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas
pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da
forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho
tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto
peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as
coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além
da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos
vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes
nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não
me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não
chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo
dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho
tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas.
e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir.
gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é
assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho
ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado.
deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que
vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas
entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol
que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num
emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima
as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à
janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado
do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de
austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado
de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia
pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas
e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam
pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há
noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar
de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio
dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em
definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso
ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem.
todos os domingos pertencem a de deus.
mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode
ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia
da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres.
anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que
brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu
caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do
que o meu próprio tempo
28/03/2011
somos palavras. somos memória
– não minha amiga –
afastei-me apenas da claridade desnecessária. aquela
que. em vez de aclarar. acaba por cegar com luz sobre o vazio – o teu amigo
continua dentro das palavras. mesmo naquelas que. por momentos. te possam
confundir com uma outra qualquer personagem. que um dia partiu sem te dizer
adeus - acredita que estou sempre aqui.
sempre. e. quando não estou a escrever. estou deitado a descansar nas linhas em
branco que deixo sempre entre o fim de uma história e o começo de outra – leio-te
sempre. e em cada palavra tua. encontro algo novo para aprender. principalmente
com as viagens ao interior dos teus olhos. que são o teu mundo – e eu sempre
aqui. sentado a ver-te pintar o mundo com palavras. com orações subordinadas ao
teu universo. que é tantas vezes meu também - eu sou eu. sou pouco mais do que
nada. serei sempre este grão de poeira no tempo – há dias que apenas sou o que
consigo ler. são as tuas palavras que me aliviam a dor de não saber escrever –
nesses dias de caos. ainda sou mais teu amigo. estou mais aí. mais perto do que
és. do que somos com palavras – afinal. somos palavras que se escrevem umas nas
outras. construindo quem somos a cada linha partilhada
27/03/2011
19/03/2011
pai

hoje é o meu dia - sou pai.
sou pai com sorrisos. com abraços. com beijos. com carinho. com amizade – é bom
ser pai - um dia. mais tarde. muito mais tarde. no meu sofá. trémulo no olhar e
nas mãos. vou contar uma história. construída no tempo desta família que guiei
até ao meu outono – vou dizer aos meus netos que os meus filhos também são
pais. bons pais. porque o meu pai era um grande pai - estou feliz. recordo o
meu pai em março. recordo a sua bondade com o mundo. com os homens. a
tolerância. a amizade. a alma com que dizia as coisas simples. eu tão novo as complicava
tudo. jovem. mas filho sempre – estou feliz. estou feliz porque ainda tenho
memória. sei agora que sou também eu fruto desse tempo das palavras segredadas com
afeto. com amor. com saber. com caminho – sou pai hoje. sou pai para sempre.
serei pai mesmo depois do sol cair. adoro ser pai. foi o melhor da vida – dia feliz meu pai onde quer que estejas. hoje
um teu neto trouxe-me moletinhos de s. josé. como eu fazia no passado. estão em
cima da mesa. e tu também estás cá para sempre
18/03/2011
16/03/2011
é março
1.
continuo a esconder os olhos ao
futuro. estas vestes negras não me largam. trapos carregados de memórias dolorosas
– o corpo traja luto. as mãos permanecem doentes. definham – a torre bate a
defunto – bate forte. bate sem tempo – o corpo no badalo vai e vem – as pombas
brancas voam em círculo sobre a terra que engoliu a oliveira – já não há esperança
de um novo mundo para os vivos – corre a morte. corre silenciosa. como o rio
para o mar corre – é março. e em março o silêncio magoa antes da primavera –
ainda te vejo dentro dos olhos: deitado. sem sofrimento. sem gemidos. sem
lamentos. sem sorrisos. dormes. dormes como sempre. em paz – é março e as tuas
mãos continuam cruzadas no meu olhar
2.
à tua volta as flores. em coroas.
uma dor de primavera. castiçais dourados suportam círios mudos. iluminam a
noite onde me encontro. ardem. ardem com pressa. consomem o tempo que era todo
nosso – o salão está frio. nenhum corpo consegue aquecer a vida parada. a
saudade já faz medo. está aí. espreita nas sombras imóveis das paredes e o
tempo sempre a correr. sempre a fugir da luz – pela espera dentro. o entra e
sai da vida. chamam-me pelo nome. roubam-me a calmaria que descansa a teu lado.
já tenho pouco tempo para te dizer que o silêncio chegará em pranto. não vamos
poder estar juntos quando o sol abrir os dias grandes. bem sei que ao teu lado
todos os dias eram grandes. havia sempre mais dia do que noite. sempre mais
esperança do que temor. estavas sempre certo nas tuas certezas. sentia-me tão
confortável quando dizias: tudo vai correr bem. era um tudo que me deixava a
olhar a eternidade. sem fim. só sabia ser feliz. tudo estava nas tuas palavras
– mas a vida não para. as caras continuam a entrar. querem dizer adeus.
abraçam-me – os meus sentimentos – mas eu já não sei o que são sentimentos. perdi-os
quando gritavas pela morte. e eu ainda via vida. sempre te vi vida. mesmo
naqueles momentos em que não te olhava nos olhos. não queria sofrer. queria ver
vida. sempre vi vida a teu lado – lamento muito a sua perda – qual perda? jamais
serás uma perda. queria tanto ser como tu. queria tanto fazer coisas para ti.
queria o teu abraço de orgulho. entregar-te o que sou. por ter crescido a teu
lado a ouvir-te dizer que a família era a tua vida. e eu sempre dentro dela. na
tua graça. sempre teu filho – abraçam-me. muita coragem – qual coragem? tu que
partiste sem boca. sem memória. sem braços para acenar por socorro. sem olhos
para pedires que te ajudassem a encontrar a luz. abraçam-me. coragem – coragem
é teu nome. só tu sabes falar de dor. só tu gritaste com os olhos. só tu
viveste no inferno enquanto a vida ruía – abraçam-me. agora está junto aos
santos – como assim? os santos estão escondidos nas sombras. têm vergonha do
que te fizeram. nunca te valeram. se fossem realmente santos. tinham-te levado
mais cedo para as nuvens. tu merecias. merecias porque toda a vida me ensinaste
a viver de mãos entrelaçadas – eles não te merecem à direita do pai. talvez me revolte. talvez. mas
será que eles veem o que te fizeram? já é tarde. já não tens dores. agora já só
resta o som dentro dos meus ouvidos. ouço-te todos os dias. a todas as horas.
ouço-te como carne da tua carne. ouço-te como ouço o mar nos búzios – mas não
me zango. tu não eras nada de zangas. resolvias tudo a falar. gostavas tanto de
falar. mesmo quando a doença te tirou a boca tu continuavas a falar. bem sei
que muitas vezes não te entendia. tu ficavas irritado. ah como eu fui estúpido.
podia ter fingido. podia muito bem
mentir à tua dor. à tua luta para nunca desistir de falar. a boca era agora
pequena e já não aguentava o sofrimento. ainda assim sorrias sempre que fazias
meias palavras. fazias tantas meias palavras. e eu achava sempre pouco. queria-te
como no passado. queria-te outra vez de mão dada a correr nas procissões da
semana santa – o escuro é agora cada vez mais escuro. nunca tinha tido um escuro
tão sereno. tão iluminado por dentro. sempre que repouso os olhos em ti. vejo
luz. muita luz. o tempo passa e a luz continua acesa – amanhã é dia do pai. como é possível tu partires no
teu dia. neste dia deverias estar comigo para me dizeres que as derrotas fazem
parte da vida do homem. mesmo quando esse homem é o teu filho. queria tanto que
me pudesses dizer que um dia também tu não foste capaz de terminar o teu
trabalho. queria que me desses a mão e me levasses ao teu mundo. ao mundo da
tua meninice. aquele rio que agora não é rio e que tu mergulhavas para crescer.
aquela bicicleta que fazia de ti um rapaz com brilhantina no cabelo. ou aquela
fotografia em que tu. homem de chapéu. montavas um cavalo como os artistas de
hollywood. e eu encostado à vida choro por não saber como dizer-te adeus – não te
sei dizer adeus. sei que estás sem dores. estás sem carne. estás finalmente
livre. mas não te sei dizer adeus. sei de tudo isso. mas o adeus ainda me foge
da boca. não me peças para aceitar a tua partida no teu dia. terás que
ser tu a soltar o último calor do corpo. sei que estás a ficar gelado.
mas no teu rosto ainda é possível haver mais um dia. dormes tão sossegado. o
teu sono ainda tem rios. chuva. ruas alagadas. campos. campos de girassóis e
vozes. muitas vozes de crianças que ajudaste a crescer – nos teus olhos fechados
a vida continua. ainda me vejo dentro deles a correr
3.
já chorei tudo. deixei as lágrimas nas noites em que a
dor te comia a carne. eu escondia os ouvidos na indiferença para não sofrer –
um dia um dos teus netos disse-me que não suportava mais ouvir-te. fiquei
destroçado. afinal até eles sabiam que estavas de partida – hoje ainda se
lembra dos dias em que o sentavas ao colo e lhe dizias que a vida era bela. eras
um homem feliz. aquele teu filho tinha-te dado outro filho. outra esperança
para construir uma família cada vez mais ao teu jeito. uma família com muitas
pessoas. com palavras ditas aos abraços – a minha vida murmura despedida. por
momentos quero acreditar que tu ainda dormes. sem dor. embalado por anjos que
vieram do começo do tempo. onde tu corrias para mudar o destino dos que viviam
ao teu lado. e eu sempre feliz. descobria ruas. chutava bolas. inventava
futuros de que não gostavas. mas eu era teimoso. era feito de ti. feito desse
mundo que me oferecias com o teu trabalho. e eu sempre a andar. andava mais
depressa do que as tuas palavras. a juventude não nos deu descanso. e tu sempre
a falar. sempre a entender-me que a vida também se faz com erros – agora estás
aí. pronto a partir. e sou eu que insisto: ainda há tempo para ficar. não podes
simplesmente partir assim. não assim – bem sei que se acordares as dores
voltam. e também voltará a minha dor. bem sei. mas quero tanto que fiques por
aqui só mais um pouco. mesmo que fiques assim deitado. de olhos fechados. de
boca fechada. de mãos atadas e com os ossos partidos. quero-te assim. quero-te
para sempre assim. mesmo que bem lá no fundo tu tenhas partido. sei que partiste.
nós sabíamos que já tinhas partido há muito tempo. os teus olhos eram buracos e
a tua língua tinha caído para o outro lado. já não havia meias palavras. já não
havia esperança nos teus gestos. restava apenas um pequeno braseiro nas tuas mãos
fracas. cada vez mais fracas. trémulas. já incapazes de dizer adeus. já não me
abraçavas mais. nunca mais me abraçarás. nunca mais. nunca mais – hoje é dia do
pai. é agora também o meu dia. o dia dos meus filhos. dos teus netos. da tua
família. da nossa força para existir. somos como ramos de uma árvore que
continua a crescer mesmo depois de perder a raiz. para lutar. para contar as
tuas histórias. nós somos a tua história. tu ainda corres dentro dos meus olhos
e eu dentro dos teus. nós corremos. sempre. sempre até que as oliveiras tragam
um novo mundo
sempre março
retratos
retratos guardados
…………………………………memórias
………………………………………………….cores
…………………………………………………………..perfumes
………………………………..agora
preto
…………….branco
………………………………..preto
………………………………………………….branco
rompem-se folhas
………………………………..cinza
………………………………………………….marfim
cai a vida
……………….os abraços
………………………………….as palavras
……………………………………………………….os beijos
e o cheiro ao mar
…………………………………sempre a sorrir
…………………………………………………………………sempre a ir e a vir
sempre
sempre
até que o sal cristalize
………………………………………….os olhos
…………………………………………………………..os lábios
o cheiro das flores
……………………………...…….as coroas
………………………………………………….os ramos verdes
palavras escritas
………………………………...saudades eternas
…………………………………………………………………lágrimas
a terra
…………………escura
………………………………….escura como a noite
dobram-se as pestanas
………………………………….as costas
……………………………………………………….os joelhos
………………………………………………………………………………o beijo
………………………………………………………………………………………………gélido
terra
……………..terra
………………………………terra
……………………………………....sem terra
…………………………………………..teimam em escrever
a tua voz
…………………..o teu cabelo
…………………………………………….o teu gesto
………………………………………………………………………o teu sorriso
a generosidade
………………………..do teu
……………………………………….olhar
………………………..do teu
…………………..............................abraço quente
………………………..do teu
……………………………………….até logo
voltaremos a falar
voltaremos a falar
sem retrato
.............................................sem tempo
…………………………………………sem terra
-17 de março 1998-
05/03/2011
ainda te abraço
ainda
gosto de tanta gente – parto pelos retratos. uns aqui. outros antigos. uns
bonitos. outros irritados. uns preto e branco. outros em tom de esperança. uns dor.
outros sorrisos. uns arte. outros abecedário. retratos que fazem a minha vida
no tempo – neste relógio cresci. e todos os dias sou maior. os braços abraçam
tanto. abraçam tudo ao mesmo tempo – nos cabelos brancos a saudade. a memória
já não agradece. só enaltece o que a juventude não vê – ainda gosto de tanta
gente – hoje escrevo para o meu amigo zé antunes – o tempo separou-nos. tempo
injusto. mas ainda estás nos meus retratos. ainda é o meu grande amigo. ainda
te abraço















