22/05/2011

o outono não acaba







nunca acaba. as mãos nunca acabam. elas escrevem como sempre. com o mesmo cheiro a mar. com a mesma gaivota a voar em círculos. bem sei que os círculos estão cada vez mais fechados. mas não fiques triste. estão assim porque aprenderam a  acalmar os ventos. mesmo aqueles que se fazem a norte dos olhos. lá para os lados do desalento. do fim do mundo –  nesses dias. amiga. nesses dias os olhos procuram sempre o fim do mundo. muitas vezes perdidos. desnorteados. confundidos. amedrontados pelo que ouvem aqui e acolá – mas sabes. amiga. eu sei que sabes. sei tanto de ti que posso dizê-lo com toda a certeza: tu sabes que o fim do mundo fica para lá do horizonte. é o que vejo todos os dias ao entardecer. quando o sol cai e a escuridão rompe pelas palavras como um farol dos que escrevem com a noite – este farol. minha amiga. cuida de mim. não. cuida de todos aqueles que se atrevem a escrever com o corpo encrespado. como tu amiga. como eu que sou teu amigo – procuramos tudo dentro do corpo. até as palavras – muitas vezes. sem o corpo compreender. a carne cansa. desiste do belo. enruga. começa a cair aos pedaços. como se de lepra se tratasse – sabes amiga. descobri que as letras também caem. caem porque é outono no corpo. e no outono as folhas cobrem sempre o  chão em silêncio. o sol encolhido amarra-se às árvores com a luz que sobrou dos dias grandes. segura pequenas primaveras – também nós seguramos primaveras. e ficamos ainda mais belos quando não temos palavras um para outro. belos porque sabemos existir em silêncio – mas minha amiga. as letras não enganam o sol. o vento frio anuncia as primeiras geadas nas mãos onde ainda cabe tudo. mãos que apertam as janelas contra o peito – mas a vontade ainda é silêncio. a vontade ainda é outono.  ainda há folhas por cair. ainda há outono no ar. outono dentro da janela – lá fora. do outro lado da janela que me segura. as árvores vivem agora despidas – no chão as folhas. nos ramos demoram-se os últimos sorrisos. como é possível sorrir. amiga. quando o corpo está nu e o vento é um mundo desconhecido – ainda ontem era verde. ainda ontem o mundo era verde. verde esperança. ainda o tenho à frente dos olhos. dentro das mãos. dentro da janela. dentro do hoje que quero falar contigo em silêncio verde. com palavras fortes. verdes. capazes de resistir ao vento que teima em correr entre os dedos também – hoje amiga. hoje minha querida amiga. que o dia está com um sol que só apanha metade da janela onde estou todo. e tu. a todo o momento podes aparecer em silêncio. e em silêncio dizes-me: dizes-me silêncio. porque as folhas continuam a cair em silêncio. o mundo não acaba com os silêncios enquanto houver árvores. e há tantas árvores despidas como eu. como tu. despidas pelo outono. despidas porque gostam de meter as mãos por dentro de si para aquecer os gestos que querem deixar partir com as folhas de outono. folhas das árvores abertas ao tempo. e são tantas – sabes amiga. são tantas. conto uma. duas. três. quatro. cinco e mais. e cada vez mais mundo. e o tempo a passar entre elas em forma de vento – hoje. minha amiga. é outono. é outono porque me despi para ti com palavras feitas de folhas. é um outono bonito. mesmo estando eu deste lado da janela e as folhas do outro lado. mas estou feliz. estou tão feliz que estou a fazer de conta que sou o vento. amarro-me nas folhas que fazem o outono e sopro para ti. sopro para o teu fim do mundo. sopro com o peito cheio de palavras que ficaram por dizer. mas se vires folhas no ar. belas. harmoniosas. livres. sorridentes. não tenhas medo. é o meu outono a fazer primavera na tua vida



15/05/2011

quando o simples não basta







hoje o dia está bonito. tenho tantas palavras simples para vos dizer - tenho só medo de que tão simples nenhum de vocês perceba como o dia. aqui. está bonito -  tenho que arranjar uma maneira bonita de vos dizer que se pode chorar em dias bonitos. com palavras simples. palavras molhadas pelo tempo bonito que descobri atrás dos meus olhos


13/05/2011

filomena




                                                             foto - sampaio rego


bom dia filomena!

bem sei que ainda é manhã cedo. mas o sol que nasce para lá da janela já despontou. já abriu vida dentro dos teus olhos. talvez tu e o sol tenham um acordo secreto para acordar: tu abres os olhos e o sol descobre a vida para ti – é manhã. e todas as manhãs abrem como se abrem as tulipas presas a moinhos de vento. arrancadas à força da terra para poderem espalhar cor pelo ar. e conquistar nas feições palavras de confiança que inventas para fazeres o mundo feliz – hoje. na minha janela só há sol porque tu acordaste a ler – se tu soubesses como as palavras são capazes de fazer sol – talvez saibas – eu é que nunca soube que as palavras podem sempre ser mais bonitas quando ditas como flores: com cor. com aroma. com alegria de quem sabe que apenas nasceram para dar sorrisos aos dias – filomena quer dizer amiga da música. dizem os livros que foram os gregos que inventaram o teu nome. acredito porque sempre ouves os sons escondidos nas letras que deixo em papel comum. acredito porque já te ouvi trautear palavras que apenas eu conheço. acredito porque sempre me falas com a harmonia dos sentidos. às vezes as palavras são música. ouço. outras. a música é todas as palavras que guardo para mais tarde fazer escrita. sorrio – não sei se tens alguma ilha com o teu nome. um mar. uma estrela. um quadro. um caminho. não sei. e também já não me interessa. agora tens estas palavras. chamam-se: filomena



09/05/2011

dualismo em oposição







podem pensar que estou louco por escrever isto. não estou. estou apenas cansado de me falar – nunca me respondo – o outro. o que vive comigo. nada me diz. calou-se de cansado com o meu tempo – pensa que estou desmiolado e. sempre que quero dizer coisas estranhas. vira-me as costas. pensa que são coisas inúteis. ocas. fúteis. sem futuro. sem terra. sem braços entrelaçados – estou cansado – habitamos dentro do mesmo corpo. partilhamos os lençóis. os cristais presos aos aros das janelas. a luz do teto. os ponteiros de um relógio ausente. os pesadelos que sobrevivem agarrados à almofada. a cadeira onde escrevo. preta. alta. gasta pelo roçar das dores que fazem a escrita. partilhamos tudo. tudo menos os sorrisos. estes são sempre no outro que me olha com desdém.  decompõe a face enquanto as feições tomam a forma de troça – no fundo. bem lá pelo fundo. somos tempo. somos contraposição silenciosa: não sou. não vivo. não falo. não respiro. estamos no mesmo tempo. vivemos. respiramos. falamos. e olhamos para coisas diferentes com olhos iguais – um dia sonho eu. outro. sonha ele. um dia tenho mau dormir. outro. dorme ele mal. nunca temos uma noite inteira. estamos sempre desacertados. nascemos desacertados. um quer trazer os sonhos para dentro de si. o outro quer levar o que sonha para a vida – não nos entendemos – não há forma de resolver isto. não há. não há tempo. há apenas um tempo para o mesmo olhar – escrevo. escrevo para não estar só. sempre que estou só. escrevo - o outro olha-me a escrever. sabe que estou a escrever. sabe que não estou só. nem com ele. sabe que escrevo para não estar só. e para não estar com ele 




07/05/2011

aos domingos






com a máquina o meu pai - o dia. com o passar do tempo. parece-me parado. como a fotografia - a minha irmã continua com as mesmas feições. o meu irmão continua a fechar os olhos para o sol. a lurdes. segunda mãe. continua a rir amarrada à sua fé. e até a minha mãe. hoje ainda mais bonita aos 86 anos. continua a segurar em mim com o dobro da preocupação – dar movimento à foto é fácil. basta escutar a voz do meu pai a dizer: agora não se mexam. não se mexam. já está – de seguida. uma gargalhada invade o sossego da família – é um pai a viver como todos os pais deveriam viver – tenho a certeza que era domingo. nesse tempo havia sempre mais família aos domingos



29/04/2011

conversas ocasionais






ontem. gostava de me ter dado por acabado. gostava de me  ter posto um fim. gostava de me ter posto um “the end” – não é possível. ainda tenho uma cidade. uma multidão de olhos que me reconhece e que. com lábios afogueados. me diz:

·         bom dia;

·         que bom rever-te;

·         não envelheces;

·         estás na mesma;

·         sempre jovem;

·         os anos não passam por ti;

·         qual é o segredo;

·         quando foi a última vez que falámos;

·         estou feliz por voltar a ver-te;

·         estás sempre igual;

·         tinha saudades tuas;

·         bons tempos aqueles;

·         parece que foi ontem;

·         foste importante;

·         nem imaginas a alegria;

·         eras bom rapaz;

·         malandrote;

·         vi-te no facebook;

·         não tens desculpa

há um espaço de tempo aberto no cimento. ainda há quem reconheça o rosto. ainda há saudade. ainda há as férias grandes. ainda há liceu. ainda há  namoradas. ainda há carros. ainda há noitadas. ainda há palavras ditas. ainda há palavras guardadas. ainda há abraços. ainda há juras eternas. ainda há esperança. ainda há tempo dentro do tempo todo  – ainda há. há. e há. ainda há tanta coisa – quero uma cidade vazia. uma cidade onde não haja ninguém - não quero. o dia seguinte. igual ao de hoje. não quero – quero um mar. com gaivotas. com vento norte. quero uma sarronca a dizer que o sol vai desaparecer – ainda estou aqui. só me resta o sonho – sonho com uma cidade desigual. indiferente aos nomes. uma cadeira virada a sul. abrigada do vento norte e. no ombro. a minha gaivota cinza – um dia partiremos os dois com o mesmo vento. sorrindo para o tempo que deixou de ser tempo



16/04/2011

num abril e fechar do tempo






meio-dia. metade de um dia ganho ao tempo  - doze horas. setecentos e vinte minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de microespaços de tempo – ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações. intuições de aguarela e a boca resmunga  – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos aos ponteiros de relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos. rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias galgam abril. mais um abril. outro abril e os neutrões sempre a crescer. a crescer. e o ar a desaparecer – meio-dia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor 




14/04/2011

à volta do meu eixo






a terra gira sobre um eixo imaginário – gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite. gira num eixo que não existe. é imaginário. como todas as coisas que escrevo à volta do meu eixo. imaginário. também. imaginário porque é feito de palavras que ainda não escrevi 



09/04/2011

poeta: às vezes. nem sempre. nunca






vivo. respiro. sonho ser poeta – acredito que um poeta é aquele que veste o silêncio com palavras. são palavras que se agigantam aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco e. nas mãos o cheiro de palavras por escrever. e eu. sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde. vou decapitar as mãos – encerrá-las numa caixa forte junto com a vontade de escrever – quando morrem as mãos. morre o sonho do poeta



04/04/2011

tudo vem da noite






a noite. a noite é tudo. tudo o que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando digo às estrelas que a noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite. amo-te




02/04/2011

quando o futuro é passado





acordei a saber que afinal existo – aquele que. com ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é apenas uma cópia de mim – o meu corpo tem futuro – o futuro são palavras que me chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado – de ti meu novo amigo. que vieste do futuro de tudo o que ainda quero escrever. deixo-te um abraço – vamos. com toda a certeza. um dia ser ambos felizes. sei que somos dois. mas as dores são apenas de um



01/04/2011

fotolitografia: a imagem do tempo







nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida

 

a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu. estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus. estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas. estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários. clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só. livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado. para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas. e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir. gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado. deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem. todos os domingos pertencem a de deus. mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres. anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do que o meu próprio tempo



28/03/2011

somos palavras. somos memória







– não minha amiga –

afastei-me apenas da claridade desnecessária. aquela que. em vez de aclarar. acaba por cegar com luz sobre o vazio – o teu amigo continua dentro das palavras. mesmo naquelas que. por momentos. te possam confundir com uma outra qualquer personagem. que um dia partiu sem te dizer adeus  - acredita que estou sempre aqui. sempre. e. quando não estou a escrever. estou deitado a descansar nas linhas em branco que deixo sempre entre o fim de uma história e o começo de outra – leio-te sempre. e em cada palavra tua. encontro algo novo para aprender. principalmente com as viagens ao interior dos teus olhos. que são o teu mundo – e eu sempre aqui. sentado a ver-te pintar o mundo com palavras. com orações subordinadas ao teu universo. que é tantas vezes meu também - eu sou eu. sou pouco mais do que nada. serei sempre este grão de poeira no tempo – há dias que apenas sou o que consigo ler. são as tuas palavras que me aliviam a dor de não saber escrever – nesses dias de caos. ainda sou mais teu amigo. estou mais aí. mais perto do que és. do que somos com palavras – afinal. somos palavras que se escrevem umas nas outras. construindo quem somos a cada linha partilhada



19/03/2011

pai





hoje é o meu dia - sou pai. sou pai com sorrisos. com abraços. com beijos. com carinho. com amizade – é bom ser pai - um dia. mais tarde. muito mais tarde. no meu sofá. trémulo no olhar e nas mãos. vou contar uma história. construída no tempo desta família que guiei até ao meu outono – vou dizer aos meus netos que os meus filhos também são pais. bons pais. porque o meu pai era um grande pai - estou feliz. recordo o meu pai em março. recordo a sua bondade com o mundo. com os homens. a tolerância. a amizade. a alma com que dizia as coisas simples. eu tão novo as complicava tudo. jovem. mas filho sempre – estou feliz. estou feliz porque ainda tenho memória. sei agora que sou também eu fruto desse tempo das palavras segredadas com afeto. com amor. com saber. com caminho – sou pai hoje. sou pai para sempre. serei pai mesmo depois do sol cair. adoro ser pai. foi o melhor da vida  – dia feliz meu pai onde quer que estejas. hoje um teu neto trouxe-me moletinhos de s. josé. como eu fazia no passado. estão em cima da mesa. e tu também estás cá para sempre



16/03/2011

é março







1.

continuo a esconder os olhos ao futuro. estas vestes negras não me largam. trapos carregados de memórias dolorosas – o corpo traja luto. as mãos permanecem doentes. definham – a torre bate a defunto – bate forte. bate sem tempo – o corpo no badalo vai e vem – as pombas brancas voam em círculo sobre a terra que engoliu a oliveira – já não há esperança de um novo mundo para os vivos – corre a morte. corre silenciosa. como o rio para o mar corre – é março. e em março o silêncio magoa antes da primavera – ainda te vejo dentro dos olhos: deitado. sem sofrimento. sem gemidos. sem lamentos. sem sorrisos. dormes. dormes como sempre. em paz – é março e as tuas mãos continuam cruzadas no meu olhar  

 

2.

à tua volta as flores. em coroas. uma dor de primavera. castiçais dourados suportam círios mudos. iluminam a noite onde me encontro. ardem. ardem com pressa. consomem o tempo que era todo nosso – o salão está frio. nenhum corpo consegue aquecer a vida parada. a saudade já faz medo. está aí. espreita nas sombras imóveis das paredes e o tempo sempre a correr. sempre a fugir da luz – pela espera dentro. o entra e sai da vida. chamam-me pelo nome. roubam-me a calmaria que descansa a teu lado. já tenho pouco tempo para te dizer que o silêncio chegará em pranto. não vamos poder estar juntos quando o sol abrir os dias grandes. bem sei que ao teu lado todos os dias eram grandes. havia sempre mais dia do que noite. sempre mais esperança do que temor. estavas sempre certo nas tuas certezas. sentia-me tão confortável quando dizias: tudo vai correr bem. era um tudo que me deixava a olhar a eternidade. sem fim. só sabia ser feliz. tudo estava nas tuas palavras – mas a vida não para. as caras continuam a entrar. querem dizer adeus. abraçam-me – os meus sentimentos – mas eu já não sei o que são sentimentos. perdi-os quando gritavas pela morte. e eu ainda via vida. sempre te vi vida. mesmo naqueles momentos em que não te olhava nos olhos. não queria sofrer. queria ver vida. sempre vi vida a teu lado – lamento muito a sua perda – qual perda? jamais serás uma perda. queria tanto ser como tu. queria tanto fazer coisas para ti. queria o teu abraço de orgulho. entregar-te o que sou. por ter crescido a teu lado a ouvir-te dizer que a família era a tua vida. e eu sempre dentro dela. na tua graça. sempre teu filho – abraçam-me. muita coragem – qual coragem? tu que partiste sem boca. sem memória. sem braços para acenar por socorro. sem olhos para pedires que te ajudassem a encontrar a luz. abraçam-me. coragem – coragem é teu nome. só tu sabes falar de dor. só tu gritaste com os olhos. só tu viveste no inferno enquanto a vida ruía – abraçam-me. agora está junto aos santos – como assim? os santos estão escondidos nas sombras. têm vergonha do que te fizeram. nunca te valeram. se fossem realmente santos. tinham-te levado mais cedo para as nuvens. tu merecias. merecias porque toda a vida me ensinaste a viver de mãos entrelaçadas – eles não te merecem à direita do pai. talvez me revolte. talvez. mas será que eles veem o que te fizeram? já é tarde. já não tens dores. agora já só resta o som dentro dos meus ouvidos. ouço-te todos os dias. a todas as horas. ouço-te como carne da tua carne. ouço-te como ouço o mar nos búzios – mas não me zango. tu não eras nada de zangas. resolvias tudo a falar. gostavas tanto de falar. mesmo quando a doença te tirou a boca tu continuavas a falar. bem sei que muitas vezes não te entendia. tu ficavas irritado. ah como eu fui estúpido. podia  ter fingido. podia muito bem mentir à tua dor. à tua luta para nunca desistir de falar. a boca era agora pequena e já não aguentava o sofrimento. ainda assim sorrias sempre que fazias meias palavras. fazias tantas meias palavras. e eu achava sempre pouco. queria-te como no passado. queria-te outra vez de mão dada a correr nas procissões da semana santa – o escuro é agora cada vez mais escuro. nunca tinha tido um escuro tão sereno. tão iluminado por dentro. sempre que repouso os olhos em ti. vejo luz. muita luz. o tempo passa e a luz continua acesa – amanhã é dia do pai. como é possível tu partires no teu dia. neste dia deverias estar comigo para me dizeres que as derrotas fazem parte da vida do homem. mesmo quando esse homem é o teu filho. queria tanto que me pudesses dizer que um dia também tu não foste capaz de terminar o teu trabalho. queria que me desses a mão e me levasses ao teu mundo. ao mundo da tua meninice. aquele rio que agora não é rio e que tu mergulhavas para crescer. aquela bicicleta que fazia de ti um rapaz com brilhantina no cabelo. ou aquela fotografia em que tu. homem de chapéu. montavas um cavalo como os artistas de hollywood. e eu encostado à vida choro por não saber como dizer-te adeus – não te sei dizer adeus. sei que estás sem dores. estás sem carne. estás finalmente livre. mas não te sei dizer adeus. sei de tudo isso. mas o adeus ainda me foge da boca. não me peças para aceitar a tua partida no teu dia.  terás que  ser tu a soltar o último calor do corpo. sei que estás a ficar gelado. mas no teu rosto ainda é possível haver mais um dia. dormes tão sossegado. o teu sono ainda tem rios. chuva. ruas alagadas. campos. campos de girassóis e vozes. muitas vozes de crianças que ajudaste a crescer – nos teus olhos fechados a vida continua. ainda me vejo dentro deles a correr

 

3.

chorei tudo. deixei as lágrimas nas noites em que a dor te comia a carne. eu escondia os ouvidos na indiferença para não sofrer – um dia um dos teus netos disse-me que não suportava mais ouvir-te. fiquei destroçado. afinal até eles sabiam que estavas de partida – hoje ainda se lembra dos dias em que o sentavas ao colo e lhe dizias que a vida era bela. eras um homem feliz. aquele teu filho tinha-te dado outro filho. outra esperança para construir uma família cada vez mais ao teu jeito. uma família com muitas pessoas. com palavras ditas aos abraços – a minha vida murmura despedida. por momentos quero acreditar que tu ainda dormes. sem dor. embalado por anjos que vieram do começo do tempo. onde tu corrias para mudar o destino dos que viviam ao teu lado. e eu sempre feliz. descobria ruas. chutava bolas. inventava futuros de que não gostavas. mas eu era teimoso. era feito de ti. feito desse mundo que me oferecias com o teu trabalho. e eu sempre a andar. andava mais depressa do que as tuas palavras. a juventude não nos deu descanso. e tu sempre a falar. sempre a entender-me que a vida também se faz com erros – agora estás aí. pronto a partir. e sou eu que insisto: ainda há tempo para ficar. não podes simplesmente partir assim. não assim – bem sei que se acordares as dores voltam. e também voltará a minha dor. bem sei. mas quero tanto que fiques por aqui só mais um pouco. mesmo que fiques assim deitado. de olhos fechados. de boca fechada. de mãos atadas e com os ossos partidos. quero-te assim. quero-te para sempre assim. mesmo que bem lá no fundo tu tenhas partido. sei que partiste. nós sabíamos que já tinhas partido há muito tempo. os teus olhos eram buracos e a tua língua tinha caído para o outro lado. já não havia meias palavras. já não havia esperança nos teus gestos. restava apenas um pequeno braseiro nas tuas mãos fracas. cada vez mais fracas. trémulas. já incapazes de dizer adeus. já não me abraçavas mais. nunca mais me abraçarás. nunca mais. nunca mais – hoje é dia do pai. é agora também o meu dia. o dia dos meus filhos. dos teus netos. da tua família. da nossa força para existir. somos como ramos de uma árvore que continua a crescer mesmo depois de perder a raiz. para lutar. para contar as tuas histórias. nós somos a tua história. tu ainda corres dentro dos meus olhos e eu dentro dos teus. nós corremos. sempre. sempre até que as oliveiras tragam um novo mundo



sempre março









retratos
retratos guardados
…………………………………memórias
………………………………………………….cores
…………………………………………………………..perfumes
………………………………..agora
preto
…………….branco
………………………………..preto
………………………………………………….branco
rompem-se folhas
………………………………..cinza
………………………………………………….marfim
cai a vida
……………….os abraços
………………………………….as palavras
……………………………………………………….os beijos
e o cheiro ao mar
…………………………………sempre a sorrir
…………………………………………………………………sempre a ir e a vir
sempre
sempre
até que o sal cristalize
………………………………………….os olhos
…………………………………………………………..os lábios
o cheiro das flores
……………………………...…….as coroas
………………………………………………….os ramos verdes
palavras escritas
………………………………...saudades eternas
…………………………………………………………………lágrimas
a terra
…………………escura
………………………………….escura como a noite
dobram-se as pestanas
………………………………….as costas
……………………………………………………….os joelhos
………………………………………………………………………………o beijo
………………………………………………………………………………………………gélido
terra
……………..terra
………………………………terra
……………………………………....sem terra
…….............................................................…...escura como a noite

mas as mãos teimam
…………………………………………..teimam em escrever
a tua voz
…………………..o teu cabelo
…………………………………………….o teu gesto
………………………………………………………………………o teu sorriso
a generosidade
………………………..do teu
……………………………………….olhar
………………………..do teu
…………………..............................abraço quente
………………………..do teu
……………………………………….até logo

voltaremos a falar

voltaremos a falar
sem retrato
.........................sem sombra
.............................................sem tempo
…………………………………………sem terra




-17 de março 1998-



05/03/2011

ainda te abraço





ainda gosto de tanta gente – parto pelos retratos. uns aqui. outros antigos. uns bonitos. outros irritados. uns preto e branco. outros em tom de esperança. uns dor. outros sorrisos. uns arte. outros abecedário. retratos que fazem a minha vida no tempo – neste relógio cresci. e todos os dias sou maior. os braços abraçam tanto. abraçam tudo ao mesmo tempo – nos cabelos brancos a saudade. a memória já não agradece. só enaltece o que a juventude não vê – ainda gosto de tanta gente – hoje escrevo para o meu amigo zé antunes – o tempo separou-nos. tempo injusto. mas ainda estás nos meus retratos. ainda é o meu grande amigo. ainda te abraço