o cadáver
acontece – sem palavra. insignificante. inofensivo. imóvel. inocente. indiferente – tudo agora está escuro
– onde não há palavra não há ruído – as mãos deixaram de escrever. estão
cruzadas. a imaginação suspendeu-se. fixou-se num ponto inventado. o verbo é agora
pretérito perfeito misturado com silêncio – no fato preto. a cor de toda a
minha vida – os olhos fechados. não sei a cor da gravata. nem quem a escolheu.
pode ter sido tirada à sorte daquela última gaveta do guarda-vestidos. sei que
o nó é grosso. sufocante. estranho. falta-me o ar. talvez seja das tábuas.
estão tão juntas aos cotovelos – a boca fechada. presa nos lábios. a cola –
colaram-me os lábios. obrigaram-me ao silêncio. agora nunca mais posso dizer:
olá. como estás – sem palavra não sirvo para nada. não sou vento. nem gaivota.
nem desespero. nem lágrima. sem palavras não se fazem lágrimas – será que
alguém teve medo que eu dissesse alguma coisa desagradável. talvez um amigo
amedrontado. sabem que há palavras que matam mais do que a própria morte – passei
a vida a dizer que não sabia falar. mas assim. fechada? com cola? não era
preciso – nunca imaginei que a morte assentasse na falta de palavra – falava
com gestos. sempre foi assim. os braços para trás e para a frente. a correrem
como loucos. os olhos caídos no chão como piões rodavam entre as pernas também
elas desconsoladas por nunca saberem o caminho do corpo. e a boca sempre ali. morta
por dizer o que nunca sabia dizer. só na cabeça as palavras faziam sentido. e
dentro. a língua. as papilas gustativas. sempre a salivar por um verbo de amor
– só com o meu amor os beijos eram
palavras. podia dizer amo-te sem gastar uma única palavra – que faço sem boca?
que faço vestido de preto? que faço ao corpo velho. enrugado. triste. como
sempre foi. perdido. escondido em projetos. em
esboços. viagens – nunca saía de dentro do meu corpo – abram-me a boca. deixem
entrar o ar mesmo que esteja frio. mesmo que nos côncavos olhos já não veja os
lugares onde me sentei a sorrir. aquela rocha voltada para o mar. na póvoa do
varzim. onde pela primeira vez falei com as gaivotas – que dia: o céu cinza. o
mar cinza. as gaivotas cinzas. tudo estava cinza. os pescadores em terra cosiam
as redes em roupa cinza. e as ondas de agosto abafavam o ruído das pessoas no
passeio alegre – e eu ali. com um agosto jovem. sem nada saber de oceanos. só
mais tarde descobri que o mar lava a alma. mas também a afoga – sozinho. nem ninfa.
apenas as gaivotas. voavam-me em círculos sobre mim. como abutres. já sabiam que mais tarde ou mais cedo a boca
seria a minha morte – não é uma questão de falar convosco. aqui já nada me
resta a dizer. mas para onde vou. donde venho. o que fiz. ou o que gostaria de
ter feito – pensando bem também não sei donde venho. nem o que fiz. ou o que
gostaria de ter feito – há tantas coisas em mim que nunca soube escolher. hoje
queria uma coisa. amanhã outra – talvez não precise da boca. talvez tenha dito
tudo que é permitido a um homem preso a um corpo que nunca para de estar quieto
– não sei falar – mesmo com a boca fechada não tenho silêncio dentro de mim.
nunca tive. há sempre barulho. alguém a querer dizer: tu não és tu – se nunca
sou eu. para que serve viver? – não há forma de manter o corpo dentro da cabeça
e rebolar até aos pés dos que me percebem – preciso de silêncio – ser cadáver
em vida é uma complicação sem nome – quero desaparecer sem que ninguém repare
26/01/2012
a boca fechada
20/01/2012
então até já
tempo moderno. no homem a máquina e na
máquina o homem – os antepassados não compreenderiam. eu. também passado. ou
quase. compreendo porque ouço vozes a dizer: está tudo bem. correu tudo bem. a
pedra foi dinamitada – raios de pedra. implodiu dentro de mim. onde moram
outros eus: a família. os amigos. os abraços. os cumprimentos. e aqueles que
transformam um simples bom dia numa viagem ao tempo dos bisavós – antigamente. bom
dia era unicamente educação – pum. momentaneamente deitamos as mãos aos
ouvidos. a implosão é sempre uma explosão para os tímpanos – ouvi dizer que os
ouvidos estão presos ao coração por lágrimas que ainda não foram choradas – mas
não. o barulho era enganador. traumas do que ouvimos noutras vidas – aqui. é
festa. é garrafa de dom pérignon. explodiu de alegria enquanto do céu caiam mil
confeitos. mil cores. há quem diga que
são lágrimas secas. outros. com mais fé. dizem que são sorrisos de quem o
espera no passeio da foz – ainda há mar para ver. e um rim finalmente em
descanso
19/01/2012
vasco graça moura - nó cego. o regresso
vasco graça moura
11/01/2012
o senhor do pulmão único
o mar traz
no cimo das ondas gaivotas enlouquecidas. até aquela cinzenta que vive dentro
do meu único pulmão. a única capaz de transformar o caos em confiança – este
pulmão comprei-o a um fidalgo que vagueia dentro de mim – foi com ele que percebi
um sofrimento em mim que nunca iria compreender – é um homem distinto. alto. elegante.
usa cartola. luvas de pelica e um lenço branco. delicadamente recortado. que escapa
do bolso do casaco negro de caxemira. combina com a camisa branca. engomada e
de seda pura. na extremidade das mangas uns botões de punho em ouro com
caveiras encastradas. no dedo anelar. um anel idêntico. enorme. com a mesma
caveira em alto relevo. sela as cartas confidenciais com o lacre da sua própria
vida. que se consome a cada palavra escrita – nunca percebi para quem escreve.
talvez para um familiar perdido em algum canto remoto de mim e que ainda
desconheça – caminha preso à bengala que marca os passos. sempre exatos.
ritmados. como se seguisse uma partitura invisível. talvez marcha militar. nem
depressa. nem devagar. as pernas andam apenas porque andam. move-se apenas para
nunca estar parado. talvez não goste de nenhuma parte do corpo que lhe dá
guarida. ou então. precisa de movimento para manter as costas direitas. sempre
perpendiculares ao sentido de tudo que me passa pela cabeça. como os pêndulos
dos relógios. que oscilam em paredes vazias. marcando um tempo que avança mesmo
sem ponteiros – os sapatos. ah. os sapatos de atacadores brilham. não sei se
são novos ou apenas bem engraxados. mas brilham. brilham como nada mais em mim brilha.
como os olhos dos meus amigos. como as mãos que me cumprimentam. brilham como
os castiçais que seguram velas insistentes em alumiar o que já se apagou. brilham
como as palavras escritas nas paredes em que me encosto para descansar os pés
que me suportam – este cavalheiro. importante. continuo a pensar eu. anda
sempre de um lado para o outro. um dia aqui. outro ali. sempre sugando o ar. indiferente.
que lhe invade a boca em gritos – este “gentlemen”. creio que deve ser de
descendência britânica. nunca se atrasa. àquela hora ali está. batendo ritmadamente
a sua bengala num órgão qualquer – agora percebo que a dor não me pertence. nem
a vida – um dia faço algo que o desagrade. e zás. pancada final – acredito que
é para isso que vive dentro do meu único pulmão – até que um dia. impaciente. simplesmente
diz: acabou-se o tempo
20/12/2011
natal 2011
jacopo bassano
brevemente partirei para dentro da minha família.
amigos e companheiros da arte da literatura – esta é uma quadra de recolha.
meditação e agradecimento pela vivência de tantas coisas belas que a vida
graciosamente me permitiu apreciar – sendo assim. feliz natal. voltarei em 2012.
com a esperança renovada de que o novo ano será ainda melhor para mim e para
todos aqueles que estimo
aos
meus amigos e leitores desejo-lhes um feliz natal e um ano novo cheio de
sucessos pessoais
14/12/2011
cadáver procura-se
as mãos. outrora fortes. crentes na
imortalidade atrofiaram. enroscaram-se nos pulsos – são agora escadas em
caracol para o inferno – subiram. degrau a degrau. até que um dia. envelhecidas
pelo tempo. suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas
mãos assim. maldito belzebu. maldita língua – se ao menos soubesses dizer o meu
nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça noutro corpo – aproveitava
os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maçãs à porta da
loja. da espiga vermelha. do casaco aos retalhos. dos sapatos de verniz com
aquela fivela dourada. do pente que arrastava o cabelo para trás do nada. do
old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo. menos o coração – era então
outro – sempre disse que este coração me levaria à morte
13/12/2011
o meu corpo é um lugar de silêncio
é no mar que
submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia
entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que. por viver tão fundo. nunca soube
o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou
cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia
dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco sem fundo.
onde outros corpos entram porque têm de entrar e depois saem porque têm de sair
– acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como
caixeiros viajantes – um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para repor
energias e. ao amanhecer. com as primeiras nesgas de luz. arrumam a mala e partem
– muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num
qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às
vezes imagino coisas que não lembram ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a
sair – estranho. entram e saem sem uma palavra – nunca percebi porque
atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam como
os patos selvagens que cruzam o céu à procura de terras-refúgio. terras
quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem uma
seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes
corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se
acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos.
mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o
meu corpo nunca foi grande. sempre me senti acanhado
dentro dele – imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias
que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em
cada velharia havia vida. o conhecimento. assente em pequenos lingotes de tempo.
partia de boca em boca. de terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico.
ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado
puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para
o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que
a sua robustez de nação secular advém do acreditar – a força vem das dificuldades.
quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões.
marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas
trariam corpos com vozes para dentro de mim – mentira – ninguém ouve o silêncio
– o silêncio traz sempre mais silêncio – silêncio dor. faca. mutilação. até que
um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos.
todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que. na hora da
morte. não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho.
como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e no entanto. quero ainda
saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa
lugar é a maior mentira que inventaram até hoje – uma mentira de um aldrabão. de
um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar
caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas: dos
calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e
dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da
geada que cobria os campos – das memórias – com os pés encostados a uma botija
de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas
que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão.
respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. não faltaria à
catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava
sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite. que partisse
sem pecado e. no paraíso. me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a
idade não para de avançar. e o coração já não encontra espaço para bater com
precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a
passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio – já arrastam os
pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar
passar pelo meu corpo. sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre
foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e. entre mim e eles. há apenas
tempo – tempo feito a relógio – passam uns dias mais devagar. outros mais
depressa – e eu sem nunca saber o que fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão
costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo –
a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas d’os
lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler: adamastor – talvez estes corpos sejam
adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida
12/12/2011
de nihilo nihil
compreender
estas sombras não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor.
saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão.
bondade. resignação – tudo se devora da carne da minha carne – e os olhos calam-se
*de nihilo nihil – nada vem do
nada – nada foi tirado de nada. isto é. nada foi criado. pois tudo o que existe
sempre existiu; este aforismo resume a filosofia de lucrécio e de epicuro
11/12/2011
Sabes, Pai - jorge reis-sá
jorge reis-sá
sabes, pai
o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol
ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada
nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava
10/12/2011
08/12/2011
notícia de última hora
a notícia
presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha.
acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem.
com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber
virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico
imperfeito. perfeito só o seu crânio
circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo.
tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas
elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram
pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular.
contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na
horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as
bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas
orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo.
transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem
geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o
vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali:
editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página
virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia.
sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem
princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda
assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos
violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta
– revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se
em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na
intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns
olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro
deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o
prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só
que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes –
talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são
verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os
que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca
tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo.
aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida
dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados
no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor.
sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados
do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano
– bom dia. o jornal notícias
e a bola
– são dois euros por favor
* citação de fernando pessoa
07/12/2011
retalhos – número de série 07122011s(r)ego01
um dia destes. quando o sol nascer do
outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que vejo – há um
descompasso de meio dia dentro do meu meio corpo: meio coração. meio batimento
cardíaco. meio litro de sangue e meia lata de lágrimas guardadas para um aperto
afetivo. um pé-de-meia de quem sabe que a vida se faz de meias verdades –
talvez seja um problema giratório – meio. meio-dia. e uma multidão horrorizada
abala do meio-dia que albergo para outro meio que ainda não sei onde fica –
ouço bach – só a música traz a vida por inteiro até ao meu meio corpo – e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma por
inteiro – escreverei até descobrir
06/12/2011
cinema paraíso
hoje estou assim. há em mim um abraço ainda por dar a todos
aqueles de quem gosto – gosto como o filme da minha vida me ensinou a gostar:
cinema paraíso – gosto como gosto das flores. do sol. dos carros que passam guiados
por desconhecidos. da mãe que empurra o carrinho do bebé. da avó que corre
atrás do neto. do esfarrapado que teima em vestir a roupa limpa. gosto das
bolas de sabão que se perdem das mãos de uma criança. das nuvens. do mar. das
minhas gaivotas livres. enfeitadas pelo sal da vida – gosto. sem saber muito do
quê. num dia como o de hoje – gosto da amizade – é desta varanda que escolho o
que quero ver. e hoje. quero ver todos aqueles que me fazem acreditar que a
vida tem momentos que são um paraíso
05/12/2011
esotérico
dentro
de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não
existo. já não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre
que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez
os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus
olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito –
epilepsia emocional. espasmos. contração involuntária dos músculos. dos olhos.
da boca. da mente. resta o ADN – o ADN tem uma particularidade única. reproduz
com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente
– predominam os tiques. a boca a pender
para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois
aquela maneira de inclinar o corpo. como quem vacila. talvez até morrer – e os
outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria que os
olhos fechassem. ou a língua sossegar – gosto dos músculos da face exaltados e do
corpo firme. tão firme como as árvores que se perpetuam no chão com raízes de
séculos – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio.
pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância. entremeio
com duas dúzias de palavrões. e digo:
prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque
ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas
de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que
já não é. das crianças com fome de um pão com marmelada. com sapatos desfeitos
de subirem sempre a mesma rua esfomeados. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos
infelizes. de todos os infelizes deste mundo cruel – tudo isto é uma sala de
espelhos onde o corpo gira com o retorno das imagens. umas vezes sou alto.
outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há
aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lado esquerdo a cabeça. e
do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os
espelhos possuem-me. não há forma de descobrir a verdade do corpo sem os
estilhaçar. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não
tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou
o mais certo era partir o espelho onde o corpo guarda a memória – estilhaçado.
perco tudo. os nomes de que gosto e os de que não gosto. as vozes que me
adormecem e as que amarram à noite aos fantasmas. ao vento que corre pelas
brechas mais exíguas do que sou. e até a minha gaivota cinzenta perderia o voo.
não haveria dentro de mim espaço para asas abertas – talvez um dia possa fazer
dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos
02/12/2011
poema numa esquina de paris - antónio gedeão
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.
27/11/2011
o outono e as sombras
van gogh
uma porta
aberta e o outono a soprar vento – não estou aqui. nem eu. nem aquele outro que
mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento –
tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é um tapete de
trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro.
idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras
continuam a dançar nas paredes da caverna
24/11/2011
Saramago - Definição de filho
"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".
19/11/2011
ruy belo - os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
08/11/2011
perfume
gastas o tempo a não ser. dizes: são
palavras senhores – nem atena foi feliz e tu. perdida no saber do que nunca
foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever? foste barriga
prenha – és cruz para quem caiu do meio das tuas pernas – parir é dor. criar é
amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz
tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo –
aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na tua face. os primeiros
sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade
perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas
que se perderam. búzio com o primeiro choro
– és mulher. ainda – e mãe?
[e
tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabaste de
perder a tua única vida]















