21/04/2021

eu. o meu pai. e o meu primeiro dia de trabalho - II

 




        2º dia de trabalho

 

fui oficialmente informado pelo administrador da empresa. o senhor meu pai. que ainda antes do nascer do dia viajaríamos para alcanena. cidade do distrito de santarém. conhecida pela capital da pele – esta pequena terra junto ao rio alviela possuía [ainda possui] uma importante indústria de curtumes. tratamento do couro cru com a finalidade de o preparar para a indústria transformadora: sapatos. vestuário de pele. carteiras e porta-moedas. bolsas de senhora. cintos e outras pequenas bugigangas – visitamos duas ou três empresas. deixamos encomendas para suprir as necessidades das vendas. umas dezenas de pacotes de pele em várias cores. solicitando máxima brevidade na entrega. havia rotura de stock. precisávamos quanto antes que a matéria-prima chegasse à cadeia produtiva – com as compras realizadas. iniciamos o regresso ao doce lar. estava ansioso. sempre adorei regressar a casa. ainda hoje adoro – em tempos viajei bastante. visitava feiras em vários países da europa. um ritual que se repetia duas vezes por ano: milão. florença. paris. madrid. barcelona. para ver tendências de moda. bolonha e frankfurt. para adquirir matéria-prima – logo nos primeiros dias de visita. depois de passar o entusiasmo de chegar a uma grande cidade do centro da europa. com centenas de anos e de história para descobrir e conhecer. com hábitos e costumes que em nada se assemelham com a afabilidade lusitana: nós caminhamos sempre a sorrir. com sol – com o cinzentismo destes estranhos. sempre a prometer mau tempo. com ar de arrependidos de qualquer coisa que nunca consegui descortinar. passado pouquíssimo tempo. começava a sentir-me deslocado numa terra que sabia não ser minha. sentia-me um estranho. faltava sol. brilho nos caminhantes… faltava-me conforto. nada de especial. apenas coisas simples: a minha cadeira. a minha cama. o meu lugar na mesa. aquele jeito especial de me sentar no sofá. o comando da TV. o telejornal da noite. a língua. há no que é nosso um bem-estar aconchegante e tranquilizador. em boa linguagem o que me faltava mesmo era a minha casa. tudo o que realmente era meu – o corpo com o tempo apropria-se das coisas mais incríveis. quando toma posse de alguns hábitos. por mais simples que sejam. incrusta-os na pele. uma espécie de artimanha para se sentir tranquilo – esta magia do lar permite-nos distender os músculos. purificar a alma. equilibrar-nos. ao fim de uns minutos compreendemos facilmente o que realmente é importante. e tudo isto assente em gestos impercetíveis ao resto do mundo: o modo de meter a chave na porta. o arrumar as chaves na cardência.  o equilíbrio dos móveis: um quadro ali. a porcelana acolá. os relógios parados em horas conhecidas. o cadeirão a olhar a janela. ao canto a lareira que arde continuamente sem se ver. em cima da lareira uma escultura africana. e atrás das costas. a certeza de que encontraremos o corredor. o quarto. o escritório. e neste conforto mágico. o controle absoluto sobre o que queremos fazer a cada momento: porque mantemos as pernas silenciosamente paradas e não as arrastamos de um lado para o outro. porque vemos TV e não rádio. porque lemos um livro e não um jornal. fazemos o que fazemos apenas porque assim dicidimos. e se o nosso escolhimento obrigar o corpo a abandonar a sala. vai-se como se não se saísse daquele equilíbrio absurdo. mudamos sem mudar. continuamos numa bem-aventurança tranquila. alma e corpo numa simbiose com o espaço-matéria – estes hábitos que se repetem dia após dia. ano após ano. ganham estatuto de norma. como se tudo em casa não passasse de um jogo de xadrez. todos se movimentam e ninguém embarra com ninguém. só vemos o que queremos ver. só ouvimos o que precisamos ouvir. mexemo-nos sempre em linha reta. as curvas e as diagonais ficam para o outro mundo. se não gostamos de alguma coisa jogamos um peão em nossa defesa. e se algo se complicar. movemos a rainha e pedimos-lhe um xeque-mate. a rainha resolve qualquer ataque mais virulento – às vezes é como se vivêssemos sozinhos tal é abstração de tudo o que nos rodeia. como se o sofá ou a cama se transformassem num elevador direto ao céu. o paraíso num apartamento – quando estamos num hotel não é assim. estamos ali porque não podemos ir para mais lado nenhum. aturamos aquelas pessoas porque não temos outras. vemos aquela TV e aquele programa como poderíamos ver outro que nos oferecesse o mesmo. tudo é um aborrecimento. um exponenciador do mau.  o elevador não sobe para lado nenhum. desce ao inferno. em descidas vertiginosas. falta-nos tudo o que realmente é nosso. o silêncio magoa. a solidão rebuliça-nos. a saudade mostra-nos em desespero o que é verdadeiramente importante. falta-nos a nossa casa com a sua infinitude – a minha casa sempre me permitiu criar uma bolha protetora. um refúgio à prova de desgraça. por pior que me corresse o dia. era [é] naquele espaço mágico que recuperava a alma – ao meter a chave na porta era outro homem. os sorrisos cresciam. era invadido pela certeza dos hábitos. cada coisa no seu lugar. as vozes todas reconhecidas. minhas. e eu a despir-me do que não tem valor. os miúdos apareciam numa pressa boa. os braços corriam para os abraços. e o lar. com a sua poderosa magia restabelecia as ligações sanguíneas: tocamos uns nos outros. às vezes só com o coração. os olhos recuperam o compromisso suave e apaixonado. finalmente no mundo dos afetos – agora. que o tempo dos desprendimentos já passou. torna-se mais fácil defender as coisas que realmente são importantes. aquelas que nos prendem à vida. que nos fazem sorrir: a família. com a sua honra. a sua liberdade. a sua independência perante os interesses do mundo moderno e caótico – temos que ter um código. um ethos. e a certeza de que tudo em que acreditamos está protegido no nosso castelo – creio que este gosto pelo doce lar herdei da minha mãe. enquanto o meu pai gostava de girar pelo mundo. se pudesse sair. não ficava em casa. a minha mãe era o oposto. se pudesse ficar em casa. não saía – um certo dia o meu pai chega a casa com uma proposta que acreditava ser irrecusável para a minha mãe. tirar umas férias e viajarem juntos para a moscovo. a antiga união soviética – queria ver com os seus olhos. se era verdade ou não. a pobreza miserável que se vivia nos países socialistas – depois de muita insistência. e muito empenho para convencer a minha mãe a acompanhá-lo. incluindo eu. que tudo fiz para que não deixasse o meu pai viajar sozinho. seria uma belíssima oportunidade para tirarem um tempo só para eles. e ninguém mais do que a minha mãe merecia aqueles dias – não adiantou nada a nossa teimosia. a resposta foi sempre não. não me apetece. é muito longe. é muito frio. sei lá o que mais. o remédio foi mesmo o meu pai meter-se no avião sozinho – regressou a casa feliz. com um gorro ushanka. uma garrafa de vodka original. umas quantas matriocas encaixadas umas nas outras. e a certeza absoluta de que o socialismo não interessava a ninguém – durante um mês não se falou de mais nada. o meu pai não se cansava de nos dizer como aquele povo vivia na miséria. nem queria ouvir falar nessa ideologia. deus nos livrasse de tal infortúnio – a sua única alegria era saber que tinha agora mais argumentos para rebater a narrativa comunista com os amigos – a minha mãe estava-se nas tintas para os comunistas. para ela o que era mesmo importante era como vivia a sua família. ficar perto dos filhos sempre foi a sua grande viagem. quer dizer. nos últimos anos era mais estar perto de mim. era o único que ainda dependia dos seus proveitos. e a viver na sua casa em comunhão de bens – os meus irmãos estavam casados e arrumados nas suas novas vidas – a sua grande preocupação era que o avião caísse e eu ficasse órfão. sem meios de sobrevivência e a depender da família e amigos – são estas lembranças doces que agora. passados tantos anos. me aquietam as recordações. este amor terno. os filhos estavam sempre em primeiro lugar. mesmo quando se tratava de aproveitar um miminho merecido – este lado da minha mãe ia muito além do amor. havia em si uma disciplina rígida de cuidados. sempre sustentada por situações catastróficas: não tens bicicleta porque pode vir um carro e atropelar-te. não vás por aquela rua. é muito escura e pode aparecer alguém perigoso. não saias que está muito frio e podes apanhar uma pneumonia. não faças isto ou aquilo porque o céu pode cair-te em cima da cabeça – os cuidados da minha mãe eram sempre dramáticos como numa tragédia grega. nunca partia uma perna ou tinha uma constipação. não. ia sempre direto à morgue – a minha mãe ligou-me para sempre aos afetos. não que fosse uma mãe superprotetora. mas nos momentos mais improváveis e complicados estava sempre presente. sempre pronta a abdicar do seu bem-estar. com o seu exemplo de amor-abnegado. de sacrifício. de perseverança. de força e resistência – trabalhou como ninguém. dando sempre o exemplo a quem dependia da sua liderança. ninguém fazia nada que ela também não o fizesse. seis dias por semana. antigamente não havia a semana-americana. trabalhava-se aos sábados – ligada à máquina de costura. a dar ao pedal. sem motor elétrico. que só apareceu anos mais tarde. sem tirar os olhos da ponta da agulha. ou nas mesas de montagem dando forma ao material. no controle da produtividade. nos acabamentos. era o coração da empresa. era a minha mãe que escorava. com a sua qualidade de trabalho e liderança. o sucesso da empresa. era a engrenagem principal de uma máquina que mantinha a família unida. e assegurava uma vida tranquila. nada nos faltava – o meu pai sabia disso. e também sabia que sem a sua companheira possivelmente nunca teria chegado ao que chegou – não posso permitir que os meus filhos não saibam que [também] o seu destino está conexo ao trabalho dos avós. todos nós. eu e os meus dois irmãos – houve um momento em que toda a família dependia dos resultados da fábrica. e por mais que tenhamos participado no seu crescimento.  dando-lhe um rumo de maior qualidade. com valor acrescentado. o que é certo. é que quando lá chegamos a empresa já existia – a nossa excelente qualidade de vida só foi possível porque em determinada altura da vida dos meus pais. tiveram coragem e determinação para concretizarem um sonho. e deste modo. permitir que os seus filhos. e também os netos. pudessem crescer com um pouco mais de conforto – resolveram criar uma digna unidade de produção familiar. e com grande esforço trouxeram-na até aos nossos dias. passando muitas dificuldades. suportando imenso – o seu exemplo é a sua maior herança. por mais que façam nunca os meus filhos conseguirão gastá-la. perdurará para sempre. até ao último dia da sua vida – quando cheguei à empresa. rapidamente percebi o destino que levariam os pacotes de pele que tínhamos comprado – chegados à fábrica. eram distribuídos pelos cortadores. homens especializados com muitos anos de experiência – uma arte que começava sempre por materiais menos nobres: forro. cartão. tela. espuma. matéria-prima mais barata e mais fácil de cortar – a pele era. e ainda é. um produto caríssimo. evitar desperdícios. encaixar os moldes de corte na perfeição. era só para os mais capazes. apenas estes chegavam à categoria de cortadores de pele de primeira – o resto da confeção estava a cargo apenas de mulheres. mesas de trabalho. máquinas de costura. e acabamentos – com o produto terminado seguia depois para o armazém e era distribuído por lojas da especialidade em todo o território nacional. incluindo as ilhas da madeira e açores – de uma forma simplificada era mais ou menos isto que a fábrica dos meus pais transformava: pele de animais tratada em bolsas de senhora. nada mais – era um produto muito caro pelo preço dos materiais e pela elevada incorporação de mão de obra especializada – comprar uma bolsa de pele. nesse tempo. não era fácil. ainda hoje é complicado. mas não creio que haja dúvida que passados quase quarenta anos tudo está mais facilitado. antigamente a pobreza era mesmo pobreza. era miserável e agonizante – ainda não havia quotas de emprego para as mulheres. poucas estavam no mercado de trabalho. e mais escasso era encontrar mulheres mais ou menos bem remuneradas. por isso a sua capacidade económica para comprar moda era reduzida – apenas um número muito pequeno de mulheres podia comprar uma bolsa de pele: professoras. funcionárias ligadas ao estado. ou camarárias. eram a exceção. tudo o resto andava com bolsas sintéticas ou de plástico comum – o país era muito rural. as cidades pequenas. quase todas as mulheres se vestiam de preto. lenço na cabeça. com saia até aos pés. com sapatos de tacão raso. muitas de chinelos. e não era raro vê-las descalças – não havia sistema de proteção social. não havia serviço nacional de saúde. uma grande parte da população era analfabeta ou apenas com a quarta classe – havia pouquíssimos milionários. quem tivesse cem contos era riquíssimo. e as casas reduzidas à simplicidade. tudo muito modesto e funcional: um rádio. cama. mesa e uns quantos bancos. e pouco mais – a televisão era um luxo raro. poucas famílias se permitiam a esse luxo – os automóveis eram ainda mais raros. lembro-me de que na nossa rua só o meu pai tinha automóvel à porta. tínhamos mais quatro ou cinco vizinhos com automóvel. mas estavam na garagem e só saíam para levar a família à missa dominical no santuário do sameiro – o tecido empresarial era também debilitado. a sua sobrevivência assentava em baixos salários e no sacrifício dos trabalhadores. eram os novos escravos da revolução industrial. trabalho indigno. mal remunerado. e pouco produtivo – as empresas com condições de trabalho insalubres. sem estratégia. maquinaria deficiente e ultrapassada. produtividade e capacidade competitiva nula. protegidos por leis do trabalho completamente obsoletas – o 25 de abril trouxe os sindicatos. completamente politizados e desajustados da realidade social. afetos aos delírios dos partidos de esquerda – toda esta amálgama de incoerências permitia tanto ao patronato. como aos trabalhadores. uma comodidade tática: não damos nada em troca. mas também não nos podem pedir nada – a classe patronal era igualmente maltratada pelo aparelho do estado. isso não mudou nada. hoje é igual. a máquina tributária alienava por completo a possibilidade de as empresas se modernizarem – as importações de matéria-prima eram praticamente proibidas. as autorizações para trazer produtos novos estavam vedadas. e por fim. um escudo que não era aceite em lado nenhum. viajávamos com moeda estrangeira na carteira. marcos. francos ou dólares. o nosso escudo não tinha cotação no mercado financeiro europeu. em nenhuma parte do mundo – o país esteve fechado ao exterior durante quase meio século. as mentes estavam impreparadas para aceitar mudanças. depois da revolução as transformações na sociedade começaram a acontecer rapidamente. nem sempre bem. nem sempre com juízo. governados por políticos incompetentes e corruptos. acabámos por chegar ao que somos hoje. pode não ser grande coisa. mas acreditem que é bem melhor do que há quarenta anos – por essa miséria tolerada e aceite é que a principal produção da fábrica assentava no sintético. era a sua base de faturação. talvez um pouco mais de noventa por cento. a pele era residual – foi nesta realidade que começou o meu segundo dia de trabalho. levantar cedíssimo. não havia as autoestradas de hoje. o caminho fazia-se vagarosamente pela nacional número um – era muito penoso e cansativo viajar naquele tempo. trezentos quilómetros de estrada precária. passar pelo interior das cidades e vilas era um martírio. filas intermináveis de camiões. sem possibilidade de ultrapassagens. os quilómetros eram feitos a passo de caracol – possivelmente foram os trezentos quilómetros mais longos da minha existência. o meu pai aproveitou o vagar da viagem para me dar a maior lição de vida – naquela conversa havia um misto de pai versus patrão. por isso não tive outra alternativa senão ouvir e calar – ao patrão podia passar-lhe alguma coisa pela cabeça e despedir-me. ao meu pai. como meu tutor. podia dar-me uma bofetada. acreditem que seria muito mais rápido que o despedimento – estava encurralado entre duas superpotências. ambos na posse dos códigos para lançar sobre mim um ataque arrasador – o meu pai começou por me relembrar que foi minha a iniciativa para terminar com os estudos. e apesar de não concordar. a única alternativa que tinha agora era tornar-me num homem adulto. exigindo-me um comportamento responsável.  empenho. desta vez não podia falhar – a fábrica era um assunto sério. com regras rígidas para cumprir. tinha o dever. por respeito à família. de me tornar um exemplo para os trabalhadores. para todos os efeitos. aos seus olhos. eu também era patrão – de um momento para o outro começa-se a abater sobre mim um vendaval terrível. não no céu. não na estrada. mas ali mesmo. no carro. o meu pai começa a debitar as regras que teria de cumprir e respeitar a partir daquele dia:

 

1º - tens que estar na fábrica antes dos funcionários. 7.40 a porta tem que estar aberta

2º - começas como cortador de forros e. à medida que fores dominando a arte. vamos-te confiando outros trabalhos com mais responsabilidade

3º - deves respeitar os teus irmãos que são mais velhos e têm muita mais experiência

4º - os encarregados [arlindo e zé meireles. este sindicalista da intersindical] são importantíssimos. tens obrigatoriamente que os respeitar como superiores. ouves o que eles dizem. e tenta aprender tudo o que puderes com a sua experiência. eles e a tua mãe são os mestres

5º - mantém o respeito com os funcionários e nada de muitos risos nem excesso de confiança. é preciso mão dura para os manter na linha [isto dito pelo meu pai só podia ser para gargalhar. ele que se desfazia em sorrisos… e confiança]

6º - se tudo correr bem entras para sócio da empresa com uma quota igual aos teus irmãos. o que eles ganham passas também a ganhar [os meus pais não se cansavam de repetir que para eles não havia diferenças entre os filhos]

 irás ganhar quatro contos e trezentos para começar. o ordenado mínimo. se correr tudo bem. se não criares problemas. se mostrares interesse. se aprenderes a arte. vamos-te aumentando o ordenado [o meu pai falava sempre no plural pois não fazia nada sem o consentimento da minha mãe]

8º - e sobretudo. sê digno da confiança que depositamos em ti


para o que entendia da arte até que não era muito mau o ordenado. recebia um pouco mais que o ordenado mínimo. enquanto os meus irmãos já recebiam quase vinte contos – o que eu não sabia. e foi uma grande surpresa. é que passei logo a receber o mesmo vencimento que os meus irmãos. em segredo a diferença era desviada para uma conta do montepio – com este dinheiro amealhado. um pouco antes dos dezanove anos. consegui comprar um carro novo. um talbot vermelho. pela módica quantia de quatrocentos e sessenta e quatro contos e trezentos escudos – naquele tempo ainda se fazia a rodagem aos motores. uma seca total. peguei em mais três amigos e arrancamos para paris. mas isto é outra história. muito louca. e muito excêntrica. um dia destes passá-la-ei a papel – lá fomos galgando quilómetros sempre a dar no ceguinho. o que me levou às primeiras interrogações: será que fiz bem em deixar de estudar? numa coisa o meu pai tinha razão. a decisão de abandonar os estudos foi minha. a solução era aguentar. não havia volta atrás – o que o meu pai não percebia era a minha vergonha em pedir-lhe a semanada ao domingo. os meus pais davam-me de bom agrado. mas eu não me sentia merecedor daqueles quinhentos escudos – o meu trabalho era estudar e eu não o fazia. era malandro. e essa malandrice fazia-me sentir um impostor diante da bondade dos meus pais – a minha consciência sempre foi o meu calcanhar de aquiles – esta foi a única razão. pelo menos a que mais me atormentava. porque deixei os estudos – não estava a conviver bem com o peso na consciência. acordava e deitava-me a pensar que não era correto o que fazia – não tinha necessidade nenhuma de deixar os estudos. os meus pais pagar-me-iam o que fosse necessário até que acabasse o curso superior. para eles o importante era mesmo tornar-me doutor – tive um amigo que foi tirar direito para coimbra aos dezoito anos. acabou já passava dos trinta. regressou a braga com mulher e filho – hoje anda aí com o curso debaixo do braço. feliz da vida. farto de ser doutor de leis. e ninguém quer saber se demorou seis. ou doze anos. se pediu dinheiro aos pais. se o estragou. se lhe pesou a consciência. se foi digno ou não. é doutor. e ponto final – eu podia ter feito igual. talvez até ter trazido mais do que uma mulher. e uma ranchada de filhos. a licenciatura para a minha mãe dava direito a quase tudo – não estou arrependido. nem gosto de pensar muito nisso. o que sei. é que se fosse para coimbra. não teria os filhos que a vida me deu. nem a maria joão. nem este amor que sinto por eles. e em boa verdade. seria impossível viver sem isso. são a razão porque escrevo a minha vida. sem eles desconheceria que o belo existe – a viagem foi dramática não só pela lição de moral. mas também pela falta de tabaco. fumava mais de dois maços por dia. sempre às escondidas. claro que o meu pai sabia desse meu vício maldito. ele foi o grande culpado. fumava tanto como eu – durante o período de racionamento. logo após o 25 de abril. encheu o guarda-vestidos com dezenas de volumes ritz – fumava ele e eu. surripiava-lhe um maço por dia. não ligava nenhum à sua contabilidade. fosse tabaco ou dinheiro. era-lhe indiferente – por causa dessa sua indiferença pelos bens materiais. quase todos os dias eu tinha um suplemento à semana. pela manhã a lurdes sempre que arrumava o quarto dos meus pais encontrava no chão umas quantas moedas. o meu pai á noite dobrava as calças pelas vincas. e ao colocá-las na cadeira os trocos espalhavam-se silenciosamente pela alcatifa. era um puto muito abastado para aquela época – com esse seu despreendimento. nunca deu fé de que estávamos a partilhar os cigarros – apanhou-me umas quantas vezes de cigarro na boca – naquele tempo os filhos só fumavam em frente aos pais a partir dos dezoitos anos. a maior idade dava passagem direta ao estatuto de adulto – foi muito duro. paramos para tomar café da parte da manhã e logo que pude corri para a casa de banho para tirar duas passitas. outra correria no fim do almoço. e assim me fiquei. meia dúzia de puxadas até chegar a casa ao fim do dia – agora é-me fácil confessar que no começo o trabalho não me correu muito bem. precisava de movimento. estava habituado a andar de um lado para o outro. aquela campainha maldita para pegar e largar a laboração deixava-me louco. era parecida com a campainha do liceu. só com uma diferença. nunca havia feriado. nunca havia falta de trabalho – estar parado em frente a uma mesa de corte. amolar a faca. acertar os moldes. deixava-me louco – tudo aquilo que tinha imaginado estava de pernas para o ar. começaram a brotar as primeiras gotas de sangue nas orelhas. tal era a tensão que me tomava – mas o impensável aconteceu. apaixonei-me pela indústria. pela moda. e principalmente pela sua criação – vivi esta paixão mais de vinte anos. como todas as paixões um dia acabam. umas por saturação. outras. porque nos abandonam – a minha não acabou. nem me abandonou. mas como tudo o que se ama excesso. acaba por nos ser tirada – foi roubada pelos políticos. foi moeda de troca com a china. a alemanha e frança passaram a vender os seus carros de luxo aos novos milionários chineses. em sentido inverso. começaram os chineses a vender o seu têxtil na europa. infelizmente incluía o meu ramo – uns anos antes os nossos políticos pediram-nos para nos modernizar. tínhamos que ser competitivos no mercado europeu. assim fizemos. dotamos a empresa com maquinaria de ponta. contratamos dezenas de pessoas. ultrapassamos a centena e muitos. éramos uma das maiores empresas. bonita. moderna. estávamos muito à frente da concorrência. lançamos novos produtos. cintos. artigo de viagem. marroquinaria. uma metalurgia preparada para responder às necessidades internas. uma secção com todo o tipo de banhos: ouro. prata. cobre e níquel. e de um momento para o outro tiraram-nos o tapete e ficamos a concorrer diretamente com os asiáticos – obviamente que era impossível – mas esta é outra história que nascerá mais lá para a frente – confesso que às vezes a ferida abre e revolta aparece – um dia. mais lá para diante. quando tiver um pouco mais de coragem. registarei em papel o fim do nosso modo de vida – entretanto o terceiro dia estava prestes a acontecer. e as surpresas também

 


20/04/2021

17 de abril de 2021

 



cinema paraíso é o filme da minha vida. uma história de amizade e amor entre duas personagens improváveis: totó e alfredo – revejo o filme com frequência. e todas as vezes sinto o mesmo que senti na primeira visualização: uma enorme emoção. diria. uma enorme perturbação boa na alma – a maria joão é a minha maior amiga. é como se o cinema paraíso estivesse em exibição contínua aqui em casa. e sempre que a olho. e não há dia nenhum que não o faça. sinto sempre uma perturbação boa. e interrogo-me: porque razão deus a colocou a meu lado? só pode ter sido para me amparar quando vacilo. para me estender a mão quando estou perdido. para me mostrar que a nossa vida ganha mais sentido com o passar dos aniversários – nesta nossa história de amizade. o amor trouxe-me os melhores presentes da vida: os meus filhos – todos os dias agradeço as manhãs que despertam em mim. é com elas que renasço para o meu mundo: a minha família. juntos. temos escrito uma bonita história. e logo logo. os amigos. se soubessem quanto amo os meus amigos. sem eles os dias não teriam o mesmo colorido – obrigado por darem luz. serenidade e paz ao meu tempo – sinto-me grato e muito feliz. tenho tudo o que realmente importa – o meu muito obrigado a todos os amigos que gentilmente se lembraram de mim

P.S. – claro que me fazem muita falta os que já não estão entre nós: o meu pai. a minha mãe. o meu sogro. e a minha cunhada zeza – se a sua ausência não pesasse tanto. este dia seria perfeito


09/04/2021

eu. o meu pai. e o meu primeiro dia de trabalho - I






 1.   último dia de liceu

 

corria o ano de 1979 – já se tinham vencido os primeiros cinco anos da revolução de abril. quando também eu senti a necessidade urgente de fazer uma revolução na minha vida – já no liceu d. maria II. o antigo liceu feminino. e a meio do segundo período de aulas do 9º ano. resolvi enfrentar o meu pai e dizer-lhe que queria deixar de estudar – são as duas únicas bofetadas que me faltaram na vida. e o mais caricato. aquelas de que ainda hoje sinto falta – apesar de raramente pegar num livro para estudar. talvez algumas horas no fim do terceiro período. altura do tudo ou nada. onde em esforço procurava o dez para passar com duas negativas: inglês e matemática – para estes cadeirões não havia salvação para quem preguiçou o ano inteiro – não creio que tivesse qualquer tipo de dificuldade em assimilar os conteúdos lecionados. o meu único problema era déficit de atenção. aliado a um estado de alegria hiperativo. queria estar sempre onde não estava. dominado por uma vontade devoradora de saber tudo do mundo. as paredes sufocavam-me – havia tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo. o país estava em roda livre. todos os dias eram novidade: manifestações. debates políticos. governos a cair. bombas a explodir. sedes de partidos incendiadas. confrontos. perseguições políticas. militares na rua. manifestações de apoio ao MFA [movimento das forças armadas]. saneamentos nas empresas. nas universidades. nas escolas. nas fábricas. novos partidos políticos. não havia limites para a distração de um jovem faminto de vida – as cidades encheram-se de novos barulhos. as ruas abriram-se à liberdade. ninguém descansava. o ritmo era alucinante. as pessoas transbordavam alegria. rodopiavam sem parar. sempre com os olhos no ar. como se procurassem algo que ainda faltava. acredito até que algumas voavam. tal era a leveza com que se viviam os dias – emergia do seu interior um estado de alma de bem-estar. uma euforia descontrolada. boa. o paraíso não podia ser mais belo – havia. não só para mim. mas para todos os portugueses. um mundo novo à nossa espera: havia futuro. esperança. as mensagens dos novos donos da política ofereciam credibilidade. ao contrário dos de hoje. o futuro parecia certo. haveria paz. pão. habitação. igualdade. fraternidade. justiça. e as paredes. outrora caiadas de branco. nasciam pelas manhãs pintadas de movimento revolucionário: fascismo nunca mais. o povo é quem mais ordena. 25 de abril sempre. o povo unido jamais será vencido. a terra a quem a trabalha. e a grândola sonhos para um novo mundo. e vila morena do zeca afonso a tocar interruptamente. como se as chaimites ainda rodassem  em revolução desde aquela madrugada de abril – o cravo vermelho na ponta da G3 disparava para um novo mundo. finalmente uma sociedade mais justa e fraterna – havia uma luz de bem-aventurança para os portugueses – para mim. adolescente que nada sabia sobre ditaduras. a única que conhecia era a do meu pai. o 25 de abril foi como se me dessem um lego gigante. montava e desmontava os dias. e tudo acabava com novas surpresas – abril ampliou o que já existia em mim: menos regras e mais liberdade – talvez a melhor comparação seja o que aconteceu ao país depois de ganhar o campeonato europeu de futebol. imaginem essa explosão de alegria a repetida todos os dias. durante pelo menos os primeiros seis anos da democracia – foi fantástico – a juntar a esta loucura coletiva. o fim da guerra do ultramar. o que permitiu que o meu irmão regressasse mais cedo a casa. estava deslocado no pior cenário de guerra: guiné-bissau – com o fim da guerra em angola. moçambique. e guiné. chega também a independência para os seus povos. o que provoca o regresso de milhares de retornados – estes portugueses ultramarinos regressavam à terra dos seus pais. muitos mais africanos. e poucas ou nenhumas raízes os ligavam ao território de chegada – empurrados por uma descolonização caótica. chegaram a portugal só com a roupa no corpo. sem recursos financeiros. sem habitação. sem trabalho. com apenas a vontade de recomeçar. alguns sem esperança de um recomeço pela idade avançada – a única ferramenta para sobreviver que traziam consigo era um dinamismo excecional. e um sentido de liberdade que nós desconhecíamos. com o seu empreendedorismo revolucionaram rapidamente toda a estrutura do mundo do trabalho. social e económico. foram a grande impulso para um novo país. eram diferentes. gente sem preconceitos e com a mente aberta ao mundo – o país do fado. fátima e futebol transformou-se radicalmente para melhor. foi restabelecido o direito à greve. às manifestações. vários sindicatos foram formados. acabou a censura. passamos a ter uma RTP livre. jornais a publicar livremente a verdade. os cinemas começaram a passar filmes interditos. os bares começaram a estar abertos até de madrugada. apareceram as salas de jogos. as mulheres deixaram cair as roupas pretas e embelezaram-se com cores e pinturas. as rotinas dos portugueses alteraram-se radicalmente – a revolução política chegou. com ela a dos costumes. e também a sexual dos jovens – lá ia rolando pela vida estudantil conforme queria e entendia. as notas andavam entre o quase dez e o dez e qualquer coisa. mas sempre com um sorriso nos lábios e mil coisas por fazer – reprovei uma única vez. a tragédia aconteceu no primeiro ano de liberdade – confesso que foi particularmente injusto. mesmo muito injusto – foi um ano muito difícil. com imensas greves estudantis. piquetes impediam a entrada dos alunos no estabelecimento de ensino. liceu sá de miranda. as reuniões gerais de alunos [RGA] eram consecutivas e extremamente violentas. o CDS e o MRPP confrontavam-se em grandes cenas de pancadaria – vivia-se um clima de muita instabilidade. o país estava em convulsão. a escola não era exceção. este jardim plantado à beira-mar estava a ferro e fogo – para pôr cobro a estes confrontos a reitoria [comissão de gestão] via-se obrigada a pedir a intervenção musculada da COPCON [comando militar criado pelo movimento das forças armadas]. invadiam o liceu aparatosamente em carros militares e emergiam de G3 por onde lhes apetecesse – era um temor permanente. ninguém podia garantir segurança alguma. havia no meio escolar medo e indefinição persistente – não se sabia se as escolas abririam portas. se havia greve geral. ou se os professores eram todos saneados. Uma situação que nos mantinha num estado de completo caos – no tempo da ditadura não havia este tipo de conflitos. os reitores eram respeitadíssimos e a única autoridade dentro das escolas. e se houvesse necessidade de uma intervenção mais enérgica. a PIDE resolvia o problema rapidamente. era tudo enjaulado – a única crise académica tinha acontecido em coimbra em 1969. um derivado do maio de 68 em frança. e apesar da convulsão social. salazar resolveu a crise à bastonada e mais umas quantas prisões – lembro-me de os militares entrarem no bar da escola. a confusão instalou-se. de um lado as forças da direita. do outro as da esquerda radical. todos tentavam fugir para algum lado. o problema é que só havia uma porta de saída. o remédio foi saltar da janela para a rua [stª margarida]. felizmente era um primeiro andar e tudo não passou de um susto – nesse ano quase não tivemos aulas. e as que tivemos foram uma total bandalheira. os professores em pânico optaram pelo facilitismo. a bola de neve acumulava conflitos. e dia após dia ficava maior e incontrolável. os problemas sucediam-se em cascata. começaram a surgir os primeiros casos de agressão. faltas a vermelho de mau comportamento eram às dúzias. e a matéria cada vez mais simplificada para evitar chumbos e convulsões estudantis – ninguém tinha mão nos alunos. reitoria. professores. auxiliares. todos tentavam sobreviver à incerteza política. estávamos com um pé na democracia. outro na ditadura comunista – as revoluções eram diárias. e o medo instalou-se não só nos liceus. mas de uma forma geral em toda a sociedade. ninguém estava certo do que poderia acontecer no dia seguinte – num desses dias de liberdade total louca. um grupo de alunos da minha turma decidiu sanear a professora de física e química. uma parvoíce só possível em período revolucionário. tínhamos todos acabado de entrar no liceu. crianças dos doze aos treze anos. putos sem juízo. sem nenhuma capacidade de avaliar os conteúdos lecionados. ainda a precisar de biberon. e do pé para a mão. só porque a professora não permitia abandalhamentos na sua sala de aulas. resolveram saneá-la – sempre fui contra o saneamento. sempre achei as acusações de fascista e sem mestria para lecionar uma autêntica barbaridade. uma ignominia – nenhuma revolução. por mais força que tivesse o seu movimento. me levaria a participar numa injustiça. não me podia permitir entrar num embuste. assinar uma petição falsa sobre uma professora que o único defeito era ser realmente professora. e não permitir que um grupo de alunos arruaceiros tornassem as aulas num circo. com faltas de educação gravíssimas – apesar de brincalhão e rufia. respeitar as pessoas mais velhas era algo sagrado na minha educação – fui muitas vezes posto na rua por brincadeiras. por falta de atenção. por diversas idiotices fruto da idade. mas nunca por faltar ao respeito a um professor – no fim do ano despedia-me dos professores ou com um beijo. ou com um cumprimento de mão. e todos eram unanimes em dizer que não se importavam de me ter no próximo ano. tinha era que me portar um pouco melhor. algo bastante difícil. ou mesmo impossível – os saneamentos não estavam na minha frágil convicção política. tornei-me então militante do CDS aderindo à juventude centrista. única oposição à esquerda marxista. o PS e PSD ainda não tinham implantação nos liceus – na época. nem sei se aderi ao CDS por acreditar na democracia cristã ou por pena dos seus dirigentes e militantes. era um partido atormentado. as sedes assaltadas. os seus militantes insultados e perseguidos. ser-se do CDS era um ato de resistência silenciosa. considerado um partido do antigo regime. onde estavam refugiados todos aqueles que colaboraram e ajudaram a perpetuar o estado novo durante quase meio século – ser do CDS era ser fascista. capitalista. aristocrata. a alta finança de um país empobrecido – ninguém da nossa família se enquadrava neste quadro de gente endinheirada. pelo contrário. foi com muito sacrifício que conseguiram construir um património que assentava exclusivamente numa fábrica. e as fábricas só tem valor quando tem trabalhadores e laboram. e os principais obreiros dessa criação eram os meu pais – estou quase certo que optei pelo CDS por ser o partido mais desditoso. sempre tive uma inclinação para me juntar aos mais desfavorecidos. os mais fracos. ou com menos possibilidade de se defenderem – os tempos da política em portugal escaldavam. estávamos a um passo da guerra civil. os confrontos físicos entre as várias tendências sucediam-se a um ritmo cada vez mais perigoso. e a linha limite da tolerância ultrapassada várias vezes – a liberdade alcançada com o 25 de abril não se aplicava à democracia cristã – eram tempos muito conturbados e perigosos. e por via de todas essas incertezas e violência. optei por manter uma posição discreta no liceu. não deixando que ninguém percebesse qual era o meu posicionamento político. e assim evitar males maiores não só para mim. mas também para a minha família. que sendo patrões eram considerados reacionários e capitalistas – o problema é que fui tão discreto que a professora não percebeu de que lado eu estava. pelo meu silêncio deve ter pensado que era um dos cérebros do movimento para a sanear – tal como eu também se manteve em silêncio. esperou pelo fim do ano para ajustar contas com os alunos. e sem contemplações escarrapachou-me na pauta uma negativa que me tirou o ano. mesmo tirando positiva nos dois testes do terceiro período – revoltei-me. apeteceu-me fazer-lhe tudo. mas era novo e resolvi seguir em frente. o que vale um ano na vida de um jovem. nada – a professora nunca compreendeu que eu fui dos poucos a votar a sua continuidade. sempre a defendi. é verdade que nunca me expus. nunca teve em mim um aliado. mas dentro do que me era possível fui alertando os meus colegas de turma para a injustiça que estávamos a cometer. não estávamos a ser íntegros. dignos. e podíamos arranjar problemas difíceis de solucionar com a sua substituição – nunca foi saneada. tenho a certeza de que foi decisiva a minha intervenção junto dos colegas mais frágeis – foi uma grande desilusão quando as notas chegaram à pauta. o vinte cinco de abril fez-me o seu primeiro estrago – se me perguntarem o nome de algum professor do liceu não sou capaz de dizer. nenhum me aprisionou pelo seu valor. pelo seu carisma. ou pela excecionalidade do seu método de ensino. nenhum me deixou uma marca positiva para recordar. com exceção desta senhora professora: isabel manta. fiquei com a cicatriz gravada em mim – foram umas férias complicadas. sentia-me responsável pelo insucesso. apesar de não ter tido grandes problemas com o chumbo. os meus pais atribuíram a culpa ao 25 de abril. era verdade. mas não era toda a verdade. podia ter feito muito mais. devia ter feito muito mais – vivia cada dia com uma intensidade estonteante. sentia-me empurrado pela vida e pelas pessoas que ia conhecendo. era assim como se andasse sempre no meio da turba. comprimido. empanturrado entre as diferenças. feliz. a querer ver tudo. a querer sentir o que cada uma daquelas almas sentia. e uma vontade de atracar em todas aquelas fantásticas luzes – os dias corriam velozmente sempre num estado de sofreguidão. procurava a felicidade nas coisas mais simples. que fossem fáceis de consumir. atolava-me nas oferendas da vida a cada instante. como se tudo não fosse mais que uma faísca. e em cada instante de luz. cegava-me por olhar para tanto lugar ao mesmo tempo – tudo faiscava. e todos os lugares olhavam para mim. num apelo misericordioso. enfeitiçando-me. dizendo-me: vem para aqui. é muito melhor do que aí – e lá ia eu. sem nunca me interrogar porque o fazia – o corpo recusava-se a parar. não sei se para fazer a vontade à alma. ou apenas pela inércia do movimento. vivia sem lei. sem regras. sem estratégia. o que a mente quer que aconteça. acontece. e quando não acontece é a providência de deus – deixei de controlar o destino. também não sei se era possível controlar. ia porque queria ir. porque o corpo pedia para ir. porque parado sentia-me a desaparecer – a multidão aumentava a cada dia. às tantas já não era uma multidão. mas o mundo todo a consumir-me.  deixei de andar. passei a flutuar nas nuvens. ia para onde o vento me levasse – embebedei-me com o mundo. que sem saber. pouco mais era do que a minha terra com todos os amigos que amava. e do cimo dessa multidão percebi que o que via não tinha fim. nem eu tinha fim. era imortal. e a boca sôfrega falava: para a frente é que é o caminho. os sonhos amarrados às costas em gritos de euforia – cada vez mais pesados – e as mãos vazias de quase tudo que lhe dessem sentido. Arrogantes. chamavam ao medo covarde – nunca imaginei que a vida fosse tão longa para quem não faz o que está certo na altura certa – corria tão depressa que rapidamente deixei de perceber que viver é também comtemplar. parar. refletir. preparar o corpo e alma para o desconhecido – só a noite me sossegava – era um mau aluno. principalmente por ser preguiçoso e entender que a vida fora dos espaços escolares era muito mais atrativa. tudo acontecia à velocidade da luz. não havia tempo a perder com manigâncias. a liberdade estava em marcha. o liceu esperaria por mim – o meu pai não fez grande esforço. ou nenhum para me demover do abandono escolar. talvez por lhe ter prometido que entraria no regime noturno e passaria a trabalhar de dia na empresa familiar – acredito que na base desta aceitação estaria o meu feitio imprevisível. senhor de um nariz empinado. de um saber que afinal não era coisa nenhuma. era loucura juvenil. irresponsabilidade. arrogância. petulância. e tudo isto com uma falta de humildade gritante – sempre entendi que apenas eu era dono do meu destino. e lembro-me [bem] de ter alguns conflitos com o meu pai por não acatar as suas demandas. tivemos momentos complicados – farto das guerras que foi tendo com o meu crescimento. optou por me deixar seguir o meu próprio destino – finalmente consegui ter paz interior na relação com o meu pai – mesmo assim estou certo que não foi de seu agrado – da minha mãe é que não foi mesmo. queria à força que eu fosse dentista. talvez porque na época havia poucos dentistas em braga. os que havia ganhavam muito dinheiro. e era muito difícil arranjar uma consulta. esperava-se meses para broquear um dente – realizou o seu desejo com um neto. o meu filho mais velho luís deu-lhe esse gosto. formou-se em dentária – no dia da sua formatura foi a minha mãe que lhe deu as pancadinhas na cartola. nunca a vi com tanto orgulho. foi muito saboroso ver aqueles olhos cheios de luz e orgulho – a minha mãe não me viu doutor. partiu com esse desgosto. mas viu-me homem. homem ressuscitado. homem de família. finalmente tinha chegado ao meu mundo: o mundo dos afetos – a família é a minha única missão nesta passagem terrena – retomando a história principal. vivíamos o período em que o partido comunista tinha uma grande implementação nacional. estava em curso as ocupações selvagens das empresas e das terras. saneamentos indiscriminados. e graves conflitos sociais por todo o país – o meu pai estava em pânico. em cada esquina morava um comunista de foice e martelo. daqueles que davam injeções aos velhinhos. pronto para o sanear. para lhe roubar a menina dos seus olhos. a fábrica era a razão da sua vida – resolveu então comprar uma caçadeira e umas quantas caixas de zagalotes. mais uma pistola de 9mm. armado até aos dentes. só lhe faltava o camuflado e as pinturas de guerra na face. jurava que se algum comunista lhe entrasse na empresa o carregava de chumbo – as notícias de ocupação das empresas eram diárias. o medo estava instalado na classe patronal. por isso quis acreditar que num momento tresloucado matasse mesmo um comunista. mais tarde percebi que seria impossível. o meu pai já tinha passado os cinquenta. estava a degustar pela primeira vez a vida. tinha passado por muitas dificuldades para erguer a empresa. queria paz. não tinha vocação para a arte da guerra. o mais certo seria saírem todos aos abraços. a cantar a internacional socialista – era um homem respeitado. principalmente pelos trabalhadores. todos gostavam dele. nunca dizia não a ninguém. o sr. lopes tinha um coração maior que o corpo – tenho tantas histórias fantásticas para contar do meu pai. era ele mesmo um contador de histórias. exímio. doce. humilde. justo. o seu grande prazer era estar rodeado de amigos – um dia até poderei escrever algumas das narrativas do meu pai. o que não sei. e não sei mesmo.  é se conseguirei impregná-las com a sua magia. a alegria com que as contava. a paz com que as embelezava. e a serenidade como aceitava o que lhe tinha corrido menos bem – cada história era uma lição de vida. um exemplo. um modo de nos dizer: a vida são dois dias. vivam. sejam felizes. preocupem-se apenas com o que não pode ser comprado – infelizmente só compreendi algumas dessas lições já depois de ter partido – fruto desses ensinamentos. tento evitar a todo o custo que aconteça aos meus filhos [e descendência] os erros que cometi com a minha surdez da juventude – confesso que não sou um homem sossegado pelas escolhas que fiz. apesar de sentir que a aceitação está cada vez mais perto. muita coisa aconteceu nesta minha caminhada que não aconteceria se tivesse optado por outro caminho. e isso também não gostaria de ter perdido – por isso o meu desígnio é agora escrever. e quem sabe. os meus descentes compreendam mais rapidamente o que são. e porque o são – há um fio condutor que atravessa todas as gerações de uma linhagem. e mais uma vez. se tivermos a cabeça no lugar. percebemos rapidamente que somos o que somos. não por obra do acaso. mas por obra de pertencermos a uma família ligada a esse fio. acredito que vai muito para além do DNA – esse fio que nos liga de geração em geração. através dos séculos. por mais que se tente não é possível quebrá-lo. diria mesmo que é feito da liga mais resistente do universo: linhagem – é essa resistência invisível que faz de nós o que somos. com defeitos e virtudes. altos ou baixos. bons ou maus. sorridentes ou sérios. com os olhos a brilhar ou apagados. com a vontade infinita de nunca vergar às adversidades. ou render-se à primeira dificuldade – nós lutamos. o meu pai lutou. eu lutei. os meus filhos à sua maneira irão lutar também – a glória está na forma como nunca desistimos de nada. e nunca no que conseguimos alcançar – talvez os meus filhos comecem agora a compreender melhor porque fui um pai exigentíssimo com a escola. com a sua formação para homens adultos. como diria a minha cunhada maria josé. são o meu sol. vê-los brilhar é saber que não falhei – um homem precisa sempre da ajuda do plural. quando se é novo é muito difícil ver e sentir o plural. fazer o certo ainda se torna mais complicado quando a sociedade valoriza sempre o que é mais brilhante e vistoso. mas o meu plural é a família. não sei onde começou. e também não sei quando acabará. mas sei. neste incrível momento. que os meus filhos podem descobrir mais rapidamente o porquê de serem o que são. e eu adoro aquilo que eles são – às vezes interrogo-me o que é um miúdo inteligente. pois bem. um miúdo inteligente é aquele que faz o que está certo no momento certo – eu não fiz – a juventude está cheia de armadilhas. saber priorizar o que realmente é importante é sinónimo de inteligência. na juventude diria que é talvez inteligência emocional – é essa inteligência que nos momentos mais complicados da vida nos leva a optar por fazer o que é mais correto – descobrir o caminho certo só está ao alcance dos mais iluminados – usei tardiamente essa inteligência emocional. mas felizmente a família deu-me um rumo. optei por ela. fazendo emergir dos destroços a capacidade de superação e perdão. não de esquecer o que me aconteceu de menos bom. mas projetando-me rapidamente para novos desafios. novos recomeços. aceitando o erro ou o destino como um processo de aprendizagem. um ensinamento para me tornar melhor e mais justo – agora que a idade já começa a colorir os dias com as cores outonais. resolvi aprender a queixar-me o menos possível. em boa verdade sou um afortunado. tudo o que é realmente importante tenho comigo. ao meu lado. ou na memória – assim foi. despedi-me do liceu aos dezasseis anos prometendo a mim mesmo que voltaria mais tarde. com outra postura para os livros – e fui para o mundo do trabalho. algo que nunca tinha experienciado. em boa verdade era o filho mimado da mamã. não fazia coisa nenhuma. o que necessitava a lurdes providenciava. nunca me faltou absolutamente nada. bem tratado. bem alimentado. bem vestido. bem calçado. e sempre com dinheiro no bolso. pela semanada que o meu pai me dava todos os santos domingos. que era tanto como alguns amigos recebiam num mês. alguns num ano – agora imaginem que o meu primeiro dia de trabalho é nada mais. nada menos. que o 1º de maio. dia do trabalhador e feriado nacional – pensei logo com os meus botões. isto vai correr bem. ainda não fiz nada e já tenho um dia ganho – era um dia de multidões. o PCP e a intersindical. com grande implantação e capacidade de mobilização. juntava milhares de trabalhadores em todas as cidades do país – apesar de ainda não ter tido um único dia de trabalho. na verdade. e oficialmente. era um trabalhador. e por via desse novo estatuto. não podia faltar à comemoração do meu dia. era importante estar no meio da minha classe. apesar de ser filho de patrão – ao meu segundo dia de profissional de moda. chego já cansado à nova labuta. participar nas manifestações do dia anterior deixou-me sem energia. mas motivação não me faltava

 


26/03/2021

eu. o meu pai e o abajur



foto - arquivo de família


I.

a entrada dos filhos na idade do armário. expressão que marca o início de uma nova etapa de crescimento: a puberdade ou adolescência. quase sempre traz consigo períodos de grande crispação. tanto ao nível escolar como familiar – a instabilidade. a impulsividade. as alterações de humor. as novas amizades. aliadas a novas e exigentes responsabilidades escolares. transformam o dia a dia dos pais num verdadeiro inferno – para os jovens irreverentes. estas dores de crescimento. indecifráveis pela imaturidade. aliadas a uma vontade desenfreada de crescer rapidamente. só se revelam desastrosas alguns anos mais tarde – já adultos. com o saber amadurecido. a consciência entra em convulsões e as imbecilidades passadas transformam-se em remorsos. nos casos mais graves. em vergonha – começam então as interrogações: como foi possível ser tão imbecil – às vezes não há resposta. é-se imbecil. ponto final – valha-nos a compreensão dos adultos. que tendo passado pelas mesmas mutações. encontram na tenra idade a justificação para todas as idiotices: ainda é uma criança. só tem corpo – pois bem. eu era um desses adolescentes imbecis. com uma cubicagem elevadíssima de imbecilidade – assim cresci atazanando a cabeça aos meus progenitores. não havia dia nenhum que não aprontasse alguma – acredito mesmo que os meus pais. em momentos de alguma crispação e desespero. se tenham arrependido daquela noite de amor – acabei por ter sorte. pois algumas dessas tontarias. que ainda não relatei. poderiam ter tido consequências bem mais complicadas – mas lá cresci. com empurrão daqui e dali. lá fui ganhando corpo e tino. felizmente. nada de muito grave me envergonha – não me envolvi com drogas. mas tive alguns amigos que se desgraçaram com esse vício maldito e acabaram perdidos no mundo das substâncias pesadas – para compensar. tornei-me fumador e. para mal dos meus pulmões. andei longos anos a contribuir para o sustento da tabaqueira – claro que tive milhentas peripécias que podiam ter corrido mal. mas por todas passei entre os pingos da chuva. umas vezes por sorte. outras. porque mesmo malandro que fosse. sempre coloquei a família em primeiro lugar – este valor da família acompanhou-me sempre. a família é o meu sustento. e a grande aventura da minha vida – hoje. sinto e sei que os meus filhos beberam essa poção mágica dos meus pais. também para eles a família é o seu alimento. e eu e a mãe. a sua grande aventura – confesso que fomos muito rígidos com a sua educação. às vezes até um bocadinho excessivos. felizmente. tudo correu bem e valeu a pena – o provérbio português filho és. pai serás. não vingou comigo. os meus filhos não seguiram o mesmo caminho – às vezes interrogo-me: que freio imerge na alma de um catraio para que. nos desafios da incerteza. acione o travão de emergência e evite o passo fatal para o submundo – sem ter certezas. porque não as há. a única resposta que encontro é a família: a bondade e a benevolência do meu pai. e a firmeza e competência da minha mãe – os dois eram a antítese um do outro. mas ao mesmo tempo a fórmula perfeita para um casal que. partilhava tudo. família e trabalho. e mesmo assim cumpriram o prometido perante deus: chegaram às bodas de ouro e só a morte os separou – o meu pai um excelente vendedor. sorridente. com uma facilidade enorme de comunicação e. principalmente. um homem de consensos. bom. sempre preocupado com os seus funcionários. a reivindicar aumentos para os seus vencimentos. entendia. e bem. que o que ganhavam não era digno. nem o suficiente para honrar a família – a minha mãe era o oposto. mais contida. com mão de ferro. sempre a gerir os excessos de generosidade do meu pai. sempre preocupada com o dia de amanhã – dirigia a produção da empresa não como patroa. mas como operária. competentíssima e implacável com os seus subordinados – foi esta simbiose que me fez optar sempre por eles. pela sua capacidade de entrega ao mundo das responsabilidades – agora posso confessar. já que não tenho os meus pais comigo. em criança. tinha mais orgulho no trabalho de operária fabril da minha mãe. do que propriamente nas viagens comerciais do meu pai – cresci dentro de uma fábrica. com cheiro a colas e pele. e nunca me lembro de ver a minha mãe sem que estivesse sacrificada ao trabalho. de pé ou amarrada a uma máquina de costura – era uma mulher dos diabos. uma operária dos diabos. fazia de tudo naquela empresa. quando uma colaboradora faltava. era sempre ela quem assumia o posto – fruto da canseira dos meus pais acabei a crescer sozinho e independente – pelos meus dez anos era completamente autónomo. desde que tenho memória que sempre decidi o que queria ou não fazer. sempre vivi em liberdade absoluta. todo o meu percurso de vida foi. exclusivamente. da minha responsabilidade – assim fui crescendo entre estados de espírito de alegria extasiante e momentos de solidão extrema – aprendi depressa a conquistar a noite. habituei-me a não dormir e a sentir o silêncio como o meu melhor amigo – passei a ler tudo o que me era possível – a banda desenhada o meu primeiro entretimento. depois os cinco. livros para crianças de mistério e aventura de enid blyton – entusiasmado com a leitura entrei diretamente nos clássicos da literatura portuguesa onde descobri a minha grande paixão: júlio dínis – lia compulsivamente. não conseguia parar de devorar páginas e de sonhar. ganhei as minhas primeiras noites de amor platónico. onde a honra. a verdade. e o amor triunfavam sempre – uma família inglesa. morgadinha dos canaviais. e os fidalgos da casa mourisca. acompanharam-me até aos dias de hoje. não os voltei a ler. mas estou certo que se o fizesse. reviveria a mesma paixão. incrustaram-se na alma. morrerei com aquele mundo idílico. que nunca encontrei em mais lado nenhum – foi o júlio o meu grande educador. bebi dele todo o romantismo da vida. do triunfo do bem sobre o mal. da honra. do carácter. foi com os seus livros que aprendi a chorar – quando o dia rompia era outro miúdo. com as mágoas curadas pela solidão da leitura. pelo silêncio. e pela noite – estava pronto a correr todos os riscos do mundo. era um rapaz-homem novo. com autoestima. destemido para a vida e para os sonhos – um miúdo com total liberdade. independente. e uma vontade enorme de fazer amigos e coisas o mais rapidamente possível – aprendi então a sorrir mesmo que a alma me ardesse. e muitas vezes ardia. quase sempre – entre pouco estudo. bola. tabaco. e amigos. estes. o maior vício. a vida corria sem ter fim – era “o maior da cantareira” – viver com poucas regras era a minha adrenalina – o 25 de abril ainda me trouxe mais o que já tinha em abundância: liberdade – hoje sei que fui das muitas crianças vítimas da revolução. não o digo para me desculpar de nada. mas por ser verdade. foi um período completamente louco e intensíssimo de emoções e experiências revolucionárias. até mesmo os adultos se perderam com aqueles novos e excêntricos tempos de mudança radical da nossa sociedade – viver a revolução de abril jovem foi uma experimentação única e fantástica. não posso dizer que não a trocaria por nada deste mundo. mas quase. hoje percebo que com mais um pedacinho de juízo poderia ter tido as duas coisas

 

II.

no meio de tanta tontaria e liberdade. uma única vez fui levado de gancho para a esquadra da polícia – confesso que foi uma experiência transformadora. e também uma grande lição para o resto da vida – estava a jogar flippers numa casa de jogo. que por sinal pertencia ao sporting clube de braga. quando uma rusga policial entrou de rompante pela casa adentro – de bastões e com mau aspeto. num piscar de olhos. já se tinham espalhado pelo salão de jogos. nem tempo tive para dizer ai – quando me apercebi tinha um PSP ao meu pé a mandar-me parar a jogatina – pediram-me o bilhete de identidade. e depois de meter as mãos em todos os bolsos uma dúzia de vezes. fui obrigado a dizer que não o tinha comigo – como não tinha identificação o remédio foi entrar na “ramona” e seguir para a esquadra para provar quem era aquele miúdo. e o que fazia – foi uma viagem que teve tanto de terrífica como de paródia – para os meus comparsas era uma alegria viajar às custas da PSP. mais parecia uma excursão de finalistas do liceu – aquelas máquinas deixavam-me completamente perdido de amores. só sonhava em carregar nos botõezinhos. fazer a bola girar. sentir o galope da pontuação. e ver os bónus a cair como orgasmos – foi o momento da vida em que acreditava ser possível fazer carreira a jogar flippers. na máquina dos dragões eu era o ronaldo lá do sítio. carregava o quadro de bónus até não aceitar mais. e cheguei a ganhar dinheiro de quem quisesse jogar ao meu lado – o problema foi que o responsável rapidamente se apercebeu de que estava a fazer mealheiro. e num ápice substituiu os dragões por uma outra mais tecnológica – lá se acabou o rendimento. passei também a meter a moedinha – mas como estava a dizer. fui levado para a ramona. estacionada em frente à porta do vício. em pleno centro da cidade – à porta uma multidão de curiosos excitadíssimos começou a formar-se. o acontecimento era raro para a época. o 25 de abril tinha tirado as polícias da rua e a gandulagem sentia que podia fazer o que queria – a multidão adensou-se e. depressa. percebi que a minha paz familiar podia terminar. o meu pai era muito conhecido na cidade. e como as notícias más correm sempre mais depressa do que as boas. comecei a temer que viesse a saber do que me estava a acontecer. não lhe passava pela cabeça que o filho frequentava casas de jogo

- ó senhor lopes. acabei de ver o seu filho engavetado pela PSP numa casa de jogo  

felizmente que naquele tempo não havia CMTV. mas mesmo assim não me livrei de ouvir uns quantos impropérios pouco abonatórios: vai trabalhar malandro. drogado. vadio. ladrões. ponham-nos a trabalhar. metam-nos dentro das grades… e mais umas quantas dissertações sobre a honra da minha mãe. coitada. tão inocente como o meu pai – entrei para a carrinha. enterrei-me no último banco com a cabeça entre as pernas. a vergonha escorria-me pela cara abaixo. só queria sair dali o mais depressa possível – num instante a carrinha estava à pinha de artistas do jogo. fomos obrigados a dividir os bancos para cabermos todos numa só fornada – quando ganhei coragem para erguer a cabeça apercebi-me que tinha a meu lado uma equipa de astros. meliantes com curso superior e com artigos científicos publicados no cadastro da PSP. mas lá chegamos à esquadra – meteram-nos todos numa sala enormíssima. com umas quantas secretárias equipadas com máquinas de escrever. e agentes altamente treinados para a dactilografia: um dedo em cada tecla. e cinco minutos para descobrir cada letra – enquanto esperava pela vez para ser identificado e provar que era mesmo bom rapaz. portador de um DNA de bom comportamento e cadastro limpo. os mais mafiosos prostraram-se em frente aos polícias numa algazarra desaforida – queriam ser os primeiros a prestar declarações. todos argumentavam estar com pressa. todos estavam de passagem. diziam ter entrado só para procurar um amigo. e que precisavam de regressar rapidamente aos seus negócios – pela aragem acredito que a maior parte seriam amigos do alheio. gente com habilidade para fanar – o engraçado é que só dei conta dos artistas na esquadra. na sala de jogo pareciam todos betinhos – a cabeça só vê o que realmente quer ver – eu. meio atarantado. com medo e acanhado. acabei por me enfiar a um canto. encutinhado. caladinho que nem um fuso. não queria chamar a atenção dos bófias. alimentava uma réstia de esperança de que se esquecessem de mim. ou aparecesse um amigo do meu pai e me safasse daquela humilhação – o tempo voou. mantive-me entretido com a inquisição dos senhores agentes aos meus parceiros de infortúnio. deu para confirmar que estava muito bem acompanhado. era tudo malta com rasgo para a vida noturna – a maior parte deles com largo cadastro. alguns já com tempo de prisão. processos em tribunal. e outras minudências no registo – lembro-me de um comparsa. morava num bairro mais abaixo da minha casa. que tinha sido preso por roubar gasolina com um isqueiro. teve azar. aquela gasolina era de incendiar. lá se foi a viatura – era malta com mãozinhas já agraciadas com várias estrelas michelin. desde pequenos roubos a tráfico de droga. brigas violentas. havia de tudo naquele convívio de amigos – lá chegou a minha vez. o PSP apesar de carrancudo era educado – comecei a responder ao inquérito: filiação. idade. morada. o que estava a fazer dentro do estabelecimento. e mais uma quantas questões para perceber se era. ou não. aprendiz de meliante – demorou mais do que com os meus camaradas porque tiveram que abrir ficha. era a minha primeira vez. acredito que ainda conste nos arquivos. mas em meu abono um passado irrepreensível – depois de explicar bem quem era o meu pai. tudo se tornou mais fácil. naquele tempo os agentes estavam habituados a passar pela fábrica dos meus pais. gostavam de artigos de pele. e também de umas borlas. coisa que o meu pai fazia sempre de bom grado – em boa verdade eu era um bom rapaz. um bocado acelerado. mas com um bom íntimo – tinha presença assídua na igreja. frequentava a congregação católica. ajudava à missa do carmo. era eu que fazia o peditório dominical na eucaristia das onze e trinta. e o mais importante. era filho de uma boa família cristã – esta minha passagem pela igreja dará outra bela história. mas tem que ser bem contada para não me envergonhar. corro o risco de arruinar a honra familiar – acabou tudo bem. voltei para a minha vida. o meu pai só muito mais tarde soube da minha visita à esquadra. felizmente que foi pela minha boca – mas adiante. a história principal não mete polícia. nem gringos. nem jogo. nem más companhias. a trama principal é a magia. diria. um grande feito de ilusionismo

 

III.

teria os meus doze. treze anos. já bem vividos. já tinha dado o meu primeiro beijo. fumava. e olhava para a sombra com desdém. nunca me tive em muita boa conta. mas não sei porque carga de água. ou de asneira. dou por mim em pânico a fugir do meu pai a sete pés – não me lembro ao certo o que tramei. mas devo ter feito algo de muito grave na fábrica. a solução. foi bater com as pernas no rabo e esconder-me em casa – devo ter ultrapassado todos os limites. o meu amado pai não era de grandes correrias. era mais de esperar por me apanhar a jeito. e então sim. fazia-me esticar as orelhas. e rematava sempre a conversa com a ameaça de que na próxima a coisa não ficaria só pelas orelhas – a ladainha do costume. acabei por me habituar. e depois de fazer as minhas contas de cabeça. percebi rapidamente que a prova dos nove dava sempre saldo positivo – as traquinices compensavam largamente os puxões de orelha. e nunca me pareceu que crescessem mais por uns esticões – mas o certo é que naquele dia a coisa era séria. mesmo muito séria. o meu pai surge-me pelo retrovisor em alta aceleração. de cabeça completamente perdida. a bracejar. e pensei cá para mim: vamos ter problemas. desta vez a coisa não se vai ficar pelas orelhas. prepara o corpinho que vai haver tortura – entrei em casa em modo supersónico. subi os degraus como o speedy gonzález. três de cada vez. e aflitíssimo procurei um bunker para me esconder – deparou-se-me um problema. onde me esconder? comecei a andar de um lado para o outro. aterrorizado. nenhum esconderijo me parecia seguro o  suficiente apesar do meu pai vir cego. ele conhecia os cantos à casa tão bem quanto eu – vou para um lado. depois para o outro. desesperado. todos os locais me pareciam maus. e para adensar a iminente tragédia. a lurdes não estava em casa para me acudir – o meu pai bate a porta de casa. ouço os passos agoniados pela escada acima. a fusão da matéria estava iminente. e como estava sem soluções para me eclipsar. encostei-me a um candeeiro e enfiei a cabeça num abajur vermelho escuro – era uma daquelas peças africanas em pau preto que o meu pai tinha trazido das províncias ultramarinas. numa das suas viagens de negócios – este abajur ocupava um canto de um pequeno aposento. tinha a seu lado um pequeno móvel lacado. qualquer coisa d. luís ou d. maria. a minha mãe tinha a mania dos estilos. onde se via uma coleção completa da história de portugal. e outra de lendas. já naquele tempo ficava bem uma casa de família ter uma estante com livros. dava aquele ar de malta culta – era um tipo de escritório. ou sala de estudo. montado especialmente para mim. os meus pais acreditavam que uma escrivaninha ajudava a estudar. mas nunca foi usada para esse fim. achava-me demasiado inteligente para perder tempo com essas mesquinhices. a bola tinha uma relação de amizade fortíssima comigo. e o resto do tempo era dedicado à cultura geral. os meus amigos mais velhos eram inteligentíssimos – a arquitetura da casa remontava aos anos cinquenta. quartos para a frente. a meio um corredor enorme dividia a casa em duas partes. e logo à entrada. dois quartos ligados: o dito escritório. e já no seu interior uma outra porta que dava para o quarto de passar a ferro. este com uma claraboia que permitia ter luz natural o dia todo – esta claridade fusca. fez com que o meu pai nem acendesse a luz do aposento. nunca ninguém acendia aquela luz. nem eu para estudar. talvez por isso é que ia sempre às escuras para os testes – era um quarto giro porque se ficava com a sensação de que a luz era divina. filtrada por vidros baços. criava um género de “microclima” luminoso. um entardecer no bosque. com os raios de luz a desfalecerem na imensidão da vegetação. com várias sombras e reflexos. um género de luz e contraluz – e eu ali. estático. quase sem respirar. em pensamento a prece ao meu deus. rogando-lhe que aceitasse o meu arrependimento e me perdoasse todos os pecados. jurando que se me salvasse do enxerto de porrada me tornaria seu discípulo para sempre – como a aflição era tanta ainda acrescentei mais um santo ao peditório. s. judas tadeu. o santo das causas impossíveis. ainda hoje mantenho uma relação próxima com este servo de deus – o meu pai passava de um lado para outro. sempre a rezar-me os améns. a bufar. a prometer-me o inferno. completamente desvairado. mais parecia um vendaval tal era a fúria com que varria a casa – passa por mim umas quantas vezes em direção ao quarto de passar a ferro. e por cada passagem as ofertas de porrada triplicavam. e eu hirto. com o coração suspenso. em orações contínuas. a prometer tudo o que podia. que não era grande coisa. mas felizmente naquele dia acabou por ser suficiente – debaixo do abajur só lhe via os pés desgovernados. em derrapagem. a chiar nas curvas. percebi pela furiosidade com que rodava que só o cansaço me poderia safar de ficar com o corpo marcado. diria mais. acabar com a carne desossada – o meu pai tinha feito quase a maratona. correu a casa toda não sei quantas vezes. vasculhou tudo o que era lugar – por graça do senhor e do meu santo a minha profecia bateu certa. acabou por desistir pelo esgotamento físico. mas não sem antes deixar um aviso em voz engrossada:

-- ao jantar acerto contas contigo – tu vais ver o que te espera

quando ouço bater a porta da rua deixo-me escorregar pelas pernas abaixo. também estava esgotado. e ali fiquei sentado. a ouvir o coração a lastimar-se de medo. amparado pelo meu salvador: o abajour – tinha ficado sem peta de sangue. boca seca. com as pernas em espasmos. tremiam como varas verdes. como se estivesse a ter um ataque de epilepsia – mas era jovem. com a vida toda pela frente. rapidamente me recompus e pensei: isto era coisa de mestre. um verdadeiro luís de matos. na época ainda não havia luís de matos. mas faz de conta. havia o harry houdini. fiz-me desaparecer dentro de um abajur africano – estava maravilhado comigo – passei num instante de uma hospitalização iminente para uma euforia parva. e disse cá com os botões: isto dá uma história fantástica. mais épica do que a viagem de bartolomeu dias. dobrar o cabo da boa esperança era coisa de meninos – transformei o meu pai em adamastor e construí uma epopeia para cantar os meus feitos pra lá de taprobana – se depressa pensei. mais depressa fui pelo meu mundo cantar a minha glória – o meu pai levou uma troça geral da família. e quando chegou a casa. já não teve coragem de acertar contas. apesar da cara de poucos amigos. e de nunca me encarar nos olhos – era o melhor pai do mundo. aquele coração não guardava mal nenhum mais de cinco minutos. e por mais que tentasse parecer zangado. não sabia mentir – tenho a certeza de que bem lá no íntimo se divertiu tanto como eu. acredito que ficou orgulhoso com o meu improviso. e pensado: este rapaz vai longe

 

IV.

os anos passaram. e nunca mais encontrei um abajur que me escondesse das asneiras que fui inventando pela vida – acabei por crescer sempre a correr atrás do que fui fazendo de menos bem. e percebi que o melhor era não me esconder de coisa nenhuma – desde então nunca mais parei de correr pelo mundo. e continuo sem parar

 

p.s. – já depois de escrever este pedaço de história da minha vida. a minha irmã confidenciou-me que ainda se lembra bem desta façanha. mas não se consegue lembrar que disparate fiz para irritar tanto o nosso pai – no entanto. veio em meu socorro. percebeu que pela furiosidade do pai lopes a coisa podia ficar mesmo muito feia – coisa de irmã mais velha  


18/03/2021

março é muito mais do que o [um] dia do pai




foto - arquivo de família


mil novecentos e noventa e oito. dez da manhã. uma voz desconhecida liga do hospital a dizer que tinhas subido ao céu – eu sabia que os dias estavam cada vez mais escassos para ti. o teu corpo já sofria há muito tempo. só o coração resistia – chorámos. todos – estranhei a palavra saudade. mas soube que regressares para junto de deus era o melhor para ti. não merecias essas dores medonhas que roubavam o sossego. nós também não – estou certo que foste bem recebido. eras especial. e não o eras por ser meu pai. mas por seres um ser humano excecional. bondoso. terno. um homem bom – vinte e três anos se passaram meu pai. anos contados a doer por dentro. e eu sempre a perguntar porque me encomendaste tão tarde? porque me roubaste tempo a teu lado. porque não me deixaste caminhar contigo. envelhecíamos os dois devagarinho – sempre fui novo a teu lado. nunca me viste crescido. nunca me viste a olhar o teu mundo – andei perdido no meu. nos sonhos da mocidade. a querer fazer coisas que afinal nunca passaram de nada – tu sabias o que era ser jovem. talvez por teres tido uma juventude tão amarga. nunca te importaste com a minha. acreditavas estar feliz. deixaste-me crescer da forma que eu imaginava ser a melhor. mas não era. nem para mim. nem para ti – sempre soubeste que o tempo da vida às vezes custa a passar – faz este mês que me cravaram março no corpo – foi este mês que me ensinou como a palavra saudade muda quando se perde o pai – aprendi a chorar. a olhar fotografias. a ouvir o bater da porta de casa. os teus passos pelas escadas. o prato na mesa. e aquele conforto tranquilo como olhavas a finitude da vida. como se tivesses agradecido ao mundo por te acolher – e nós todos de volta de ti. éramos imensos. uma casa cheia. uma família de sorrisos. de falas. e de esperança – outra foto… e lá vens tu. a descer a rua. sempre com aquele passo medido e certo. já tinhas aprendido que o mundo não se faz a correr – sabias tantas coisas – só não guardo as fotos onde tu. já não és tu. és doença. dor e desespero – um pai nunca parte. não interessam os anos de luz que perdeste ao meu lado. nem o silêncio onde te escondes. a tua voz nunca se calou. eu ouço-te. ouço-te como se vivesses num canto escorreito de mim. a olhar pelas minhas cicatrizes de março – temos tantas saudades. os teus netos ainda se lembram de ti. de os sentares ao teu colo… e têm tanto de ti. tanto do que nos ensinaste – às vezes ainda quero acreditar que há um céu para gente boa. e nos dias em que me apetece rezar. quando quero acreditar. quando tenho fé. peço a deus que me perdoe os meus pecados. e me leve para o teu pé. para o pé da mamã. da zeza. do meu sogro. do tio joão. e de mais dois ou três amigos que tenho por aí – mesmo que estejas perdido no reino do teu deus. eu saberei encontrar-te. saberei beijar-te e abraçar – guardo-te na memória com todas as forças que vou obrigando o corpo a manter – março será para sempre o mês em que te vi de olhos cerrados. em que senti os meus lábios gelados no último beijo que te dei – março é o mês da dor. tu morreste em dor. sofreste. foste crucificado a uma doença malvada – levei-te à tua última morada. era dia do pai. que injustiça. enterrar-te no nosso dia. o dia em que mais falta faz ter um pai. e aquele cheiro a terra de tanta gente. de tantos pais e filhos. revolvida sem critério. a pesar a escuridão. e o coveiro de pá na mão à tua espera. como se tu não fosses meu pai. a tapar vidas. e a deixar a minha exposta para sempre – precisavas de ir. deixei-te ir. apanhei um punhado de terra e cobri-te. bateu como um trovão. e a minha mão suja para sempre. para sempre. meu pai – perdoa-me por ter sido tão jovem – choramos os três. eu. a lolinha. e o zé alberto. choramos porque somos a tua multidão na terra que nos destes – mas março será sempre março. e será para sempre o meu mês. o mês do meu pai. o mês que me permite ser pai – deixa-me dizer-te: adoro ser pai. como tu – sei que um dia voltaremos a falar. e nem imaginas o que tenho para te contar. quantas aventuras tenho para te mostrar. sei que te vais divertir como sempre te divertiste com as minhas palermices – sabes. a vida passa tão rápido. bem me dizias tu. mas desta vez vamos sentar-nos com tempo. vamos falar até cansar. nenhum dos dois terá que trabalhar. e não estará a dar nenhum filme do chuck norris – vou-te arranjar o cabelo. endireitar-te a gola do casaco. segurar-te as mãos até me cansar de olhar – passou tanto tempo. tantos dias e noites. e nós com tanta falta de ti – um dia vou-te contar tudo o que perdeste de nós. tens que saber o que se passou na tua ausência. há tanto para te orgulhares

sabes – não te direi mais nada. o resto ficará para esse dia especial. o reencontro – digo-te apenas: tenho saudades. e amo-te ainda mais 



05/03/2021

eu. o colégio d. diogo de sousa e os padres



imagem google



            I. o cristo da parede e o silêncio do colégio

nesta história verdadeira e cruel não sei que idade teria ao certo. talvez uns dez ou onze anos. algo por aí. estaria no primeiro ano do antigo ciclo [5º ano]. a pouco mais de um ano de transitar para o liceu sá de miranda – por essa época andava em estudos no colégio d. diogo de sousa. em internato diurno. tinha aulas de manhã. almoçava na cantina. e depois seguia para as salas de estudo. onde o silêncio ecoava como castigo. e os livros zumbiam os mesmos cânticos das sereias de ulisses: pediam rua. liberdade. amizades verdadeiras – de manhã ainda se passava com uma perna às costas. vários professores. disciplinas diferentes. e muitos intervalos para cavaquear – depois do almoço. era uma tortura enfrentar aqueles “catrapaços” num salão de alunos tristes e combalidos. cabisbaixos. enterrados na solidão das matérias. escabelados entre contas e histórias de reis e poetas mortos – nunca me senti muito bem naquele ambiente sepulcral – em frente. amarrado à parede. o crucifixo com o meu cristo em agonia. com espinhos cravados na cabeça em dor. por culpa do pôncio pilatos reza a história da igreja. talvez por isso. a compartilhar o meu sofrimento. também eu carregava uma coroa de espinhos na cabeça: a matéria para memorizar – éramos ambos vítimas de homens poderosos. eu do meu pai. que me tinha internado o dia inteiro no colégio. e cristo de um governador romano – daí aquela frase de que deus é omnipotente. omnipresente e omnisciente fizesse sentido. não me largava um minuto – algumas décadas depois desapareceu da minha vida. e das paredes. foi substituído pela indiferença. não queria saber se existia. ou não. se foi crucificado. se não – sei que eu. tal como ele. ressuscitei para outro mundo – éramos vigiados por um homem de confiança da reitoria. um bufo ao estilo de capataz. fazia quilómetros numa vigia rude e atenta. ao menor ruído lá chegava o ameaço em voz de quem manda. pode: shhhhhhh. pouco barulho. e quando o burburinho subia de tom. também o ameaço subia para uma visitinha ao reitor – os seus olhos percorriam-nos a todos. um a um. e por cada passagem revistava minuciosamente o que tínhamos em cima da carteira. não fosse escondermos um qualquer almanaque de banda desenhada da disney – as regras eram para se cumprir sem qualquer tipo de exceção: cabeça enterrada até ao tampo da carteira. a matéria a um palmo dos olhos. e mesmo que o corpo vagueasse pelo infinito do mundo. era ali que ficaríamos até que o sino batesse à retirada

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     II. o silêncio da criança e o poder do padre

tudo era duríssimo. e cruel demais para miúdos de leite – este colégio estava ao nível do ensino monástico da idade média. com castigos físicos e emocionais implacáveis. não permitindo nenhuma forma de ligações interpessoais entre alunos e professores padres – era inexistente a relação de responsabilidade e confiança. todos os alunos eram tratados com um distanciamento frio. mecânico. sem nenhuma estratégia metodológica para as diferenças de aprendizagem entre crianças – não havia preocupação com a miudagem com menor capacidade para adquirir os conteúdos programáticos – para o colégio da diocese de braga tudo dependia do tempo de estudo. ou da atenção com que se estava nas aulas – não sabe… estuda mais – não sabe… presta mais atenção – não sabe… esforça-te mais – hoje. todos sabemos que as coisas já não se passam assim. há bons alunos que necessitam de muita ajuda e acompanhamento ao longo do seu percurso escolar – com o comportamento selvático de certos professores. não tenho dúvidas de que a minha saúde física e mental foi afetada. e o desenvolvimento biopsicossocial seriamente comprometido – levei muito tempo a reparar-me. para não falar na dignidade da criança humana que ficou irremediavelmente ferida – agora vivemos tempos diferentes. podemos falar de métodos pedagógicos à vontade. naquele tempo. não era assim. ninguém queria saber das monstruosidades praticadas nas salas de aula – a criança na escola não tinha direitos. nem legislação que a protegesse. o professor tinha sempre razão. e a sociedade aceitava estes desvios comportamentais dos educadores como educação positiva. de preparação para a vida adulta – infelizmente nos dias de hoje os extremos tocaram-se. o professor não tem qualquer direito. e está completamente desprotegido em termos de legislação. e os alunos fazem o que bem entendem – pobres dos alunos do antigamente. pobres dos professores dos nossos dias – para as crianças o melhor era o silêncio. porque o mais certo era ouvir que o professor devia ter tido alguma razão para dar a sova. e só se perdiam as que caíam por fora

 

 

     III. as orações do medo e o silêncio da memória - a vara. o pai e o perdão

nos dias em que tínhamos português. nenhum aluno fazia intervalo. ficávamos todos sentados nas carteiras a rezar em voz alta. todos. sem exceção. a implorar a deus que o senhor padre viesse bem-disposto. e não se fizesse acompanhar da sua temida vara – com os olhos pregados no crucifixo. completamente atemorizados. sem que conseguíssemos abrir a boca a não ser para suplicar a deus – era assim o intervalo – acreditem que era muito difícil uma criança ter vontade de frequentar aquela escola. digo criança porque vivíamos uma época em que a inocência era real. não havia instituições para nos proteger. não havia TV para denunciar os abusos dos professores. não havia internet para divulgar o terror que se passava dentro das instituições de ensino eclesiástico. e muitas vezes. não havia pai. nem mãe – se o reitor chamasse o pai. e teria que ser um caso muito grave. o castigo seria em dobro. apanhava-se do pai. diante do reitor. e do reitor. diante do pai – e ainda ficava com a recomendação para fazer o que fosse necessário. para o colocar no bom caminho – o importante era fazer dele um homem – o meu pai não se enquadrava de nenhuma forma neste perfil de homem rude. insensível e absolutista – agora como pai. sei muito melhor. que a autoridade de um progenitor é conquistada pela bondade e justiça interior – o meu pai. para a época. era na verdade especial. era um homem bom – mas mesmo tendo um pai compreensivo e justo. não tinha o à-vontade que os filhos têm nos dias de hoje – infelizmente os pais passaram a grandes amigos. a escravos dos filhos. esquecendo-se completamente que mais importante do que serem amigos é exercer a sua função paterna – é dessa figura que o filho necessita para crescer com uma saúde mental sadia. e um dia tornar-se também ele um excelente pai – chegar a casa. chamar o meu pai. e denunciar os maus tratos a que tinha sido submetido. não era fácil – tínhamos medo de tudo. o conhecimento dos pais era muito diminuto. e o respeito inabalável – se levássemos uma carga de porrada de um professor. por não ter feito bem o trabalho de casa. não vínhamos para casa com lamentações. ficávamos muito caladinhos e aguentávamos – a educação era muito rígida e raramente pedagógica – terei que ser justo. também havia professores que eram ternura pura. verdadeiros educadores. a maior parte mulheres. o problema estava mais nos homens. pouco dados a sorrisos e afetos. fruto de uma educação também ela deficiente em proximidade afetiva. mas grave grave. eram os senhores padres professores – a maior parte deles fora retirada das suas famílias em tenra idade. vinham na sua grande maioria das zonas mais recônditas do país. para seminários onde recebiam estudos e educação de homens. sem nenhum tipo de ambiente familiar. brutalizados por regras rigorosíssimas. e alguns nem no natal iam a casa por dificuldades financeiras – vivia-se muito mal naquela época. principalmente as pessoas do campo. sobreviviam com grande sacrifício. amarrados a um pedaço de terra que pouco lhes dava para fugir à pobreza e à miséria – grande parte dos seminaristas nunca tinham saído das suas aldeias. chegar ao seminário era a sua grande viagem. a primeira cidade que viam. a primeira casa com luz elétrica. com água canalizada. e a primeira cama só deles. ainda que partilhada numa camarata – os padres. num dia longínquo. também foram crianças. e também sofreram horrores ao serem arrancados das suas famílias. o único mundo que compreendiam – os seminários não criavam apenas ministros do evangelho. mas também inquisidores. determinados a acabar com os cábulas. com os meninos de bem. com aqueles que aos seus olhos tinham tudo para ter sucesso e não o aproveitavam – lembro-me perfeitamente dos seus nomes. como esquecer. mas não os transcreverei para papel. para a imortalidade de um texto. já faleceram. e se me mantive em silêncio até à construção desta missiva. não seria um homem de bem se divulgasse agora os seus nomes – passaram muitos anos e falando por mim. estão todos perdoados

 

 

      IV. o verbo que me calou

numa dessas aulas. o senhor padre. professor da disciplina de português. perguntou-me um verbo qualquer. para responder tinha que me pôr de pé ao lado da carteira. não fui capaz de abrir a boca. nem me lembro se o sabia ou não. mas o medo de errar era tanto que a mente simplesmente paralisava – como não respondi levei o primeiro estalo. e como continuava a não responder. acabei a percorrer a sala toda ao som de estalos. até fechar o círculo – não sei quantos estalos apanhei. sei que foram muitos. mas o que mais me custou foi a humilhação verbal que acompanhava o estalar das mãos. juntava os mais diversos comentários depreciativos. como: burro. anormal. menino de bem. e outros insultos sem fim. até não ter mais adjetivos. e sentir que já não restava mais nada de mim – banhado em lágrimas. a chorar compulsivamente. dorido. com o rosto marcado. mandou-me sentar. e disse-me com a maior das crueldades: amanhã tens que saber os verbos todos. se não souberes levas de novo. e o dobro. e assim será até que os saibas todos na ponta da língua – naquele dia já não almocei. não jantei. agoniei – logo a seguir ao jantar disse à minha mãe que não estava bem. tinha frio. possivelmente estaria a chocar uma gripe – pedi uma botija de água quente e fui para a cama dizendo que estava mal e que me doía o corpo todo – doía-me muito mais a alma do que o corpo – deram-me o termómetro. sorrateiramente encostei-o à botija de água quente até que a febre se transformasse numa preocupação – assim foi. fiquei a escaldar. metia dó. e os meus pais acreditaram na febre – tomei um qualquer antipirético. e assim passei a noite doente da alma. em pesadelos. e medo profundo – creio até que de noite ainda levei mais umas quantas bofetadas nos sonhos

 

 

  V. o dia em que a febre me salvou

pela manhã voltei a redobrar as queixas. mais febre e mais dores generalizadas. e voltei a receber o termómetro para comprovar o meu estado febril – como não tinha botija. a cama permanecia fria. e havia um aquecedor de barras no quarto. liguei-o. deixei-o incandescer. encostei o termómetro às barras incandescentes. mas calculei mal o tempo e acabou por se partir nas minhas mãos – pensei que estava entregue ao diabo do professor. comecei a antecipar os estalos. e a preparar-me para repetir a volta de humilhação – mas lá consegui enganar a minha mãe com mais queixas e um mal-estar generalizado. acabando por ter permissão para ficar o dia inteiro na cama – no entanto. insisti para que os meus pais ligassem ao colégio para informar o senhor padre da minha doença súbita – foi assim que me safei de levar mais uma carga de porrada e humilhação – recuperei rapidamente. e o dia acabaria por ser passado em paz. acreditando que a promessa do senhor padre professor caísse no esquecimento – de qualquer forma. tinha ganho mais uns dias para estudar os verbos. ganhava tempo. e esperança

 

 

VI. o dia em que o meu pai enfrentou deus

o problema é que os meus pais ficaram preocupados e partiram em busca dos cacos do termómetro nos lençóis. principalmente do mercúrio que era perigoso ao contacto com a pele – voltas e mais voltas e nada. estava tudo junto ao aquecedor. fui obrigado a contar o que realmente se passara – felizmente o meu pai tomou o meu partido. não gostou de saber que o filho tinha apanhado uma sova como ele próprio nunca fora capaz de dar – acabou tudo numa conversa azeda com o reitor do colégio. deixando-lhe um recado em jeito de ultimato: proibia. expressamente. o senhor padre de voltar a tocar-me – mais tarde soube que para além da proibição. também deixou bem claro que se me voltasse a tocar o partia em dois. foi mesmo com esta frase. que encerrou a conversa com o reitor – sendo um colégio privado nem sei como não nos puseram na porta da rua. possivelmente com medo do escândalo – só tive pena não o ter sabido na altura. teria posto o senhor padre a dançar o verdadeiro bailinho da madeira – mas na verdade nunca mais me tocou. o que foi uma mudança significativa na minha saúde mental. mas os meus colegas continuaram a sofrer torturas consecutivas. principalmente o zé das calças. um miúdo rural vindo do alto minho. que nunca caiu nas graças do senhor padre – não estou a exagerar. quando digo tortura. nem ninguém me contou. foi com os meus olhos que assisti aos meus camaradas de turma a serem varejados até que o sangue lhes escorresse pelas pernas. cabeças abertas. e muitos rebolões pelo chão com gemidos abafados de dor. e se o som subia. levavam ainda mais – já nem conto as bofetadas e varadas ocasionais. isso eram apontamentos para que a matéria ficasse mais rapidamente memorizada. o pai nosso de cada dia – toda esta brutalidade. porque crianças não sabiam uma lição qualquer

 


          VII. o amor também precisa do saber da idade

foram dois anos muito cruéis. senti-me como um prisioneiro de opinião. desterrado para um campo de concentração e tortura. algo quase idêntica ao tarrafal – foi um período muito complicado. muitas vezes questionei porque é que o meu pai me tinha colocado naquele inferno. já que tinha sido um belíssimo aluno na primária – acordar era muito custoso. pegar nos livros. a cruz que carregava todos os dias – lembro-me bem de. ao deitar. rezar para que deus me protegesse dos padres. principalmente do senhor padre de português. e me tirasse daquele colégio medieval – é verdade que estava habituado a afetos e mimos. não os que se dão hoje aos filhos. que os abraçamos e beijamos dúzias de vezes ao dia. mas afetos de uma família tranquila. com o meu pai a respeitar a minha mãe. a dialogar. a falarem sobre trabalho. isso era diário. vivia numa casa de família – naquele tempo a minha casa era já especial. a minha mãe era independente e com uma presença forte no seio familiar. emancipada e senhora do seu valor profissional – faz três anos em dezembro que a minha mãe faleceu. ainda não consegui escrever nada sobre ela. e tenho tanto para escrever e contar. foi uma mulher fantástica. a história da nossa família não se pode contar sem a enaltecer. foi a sua capacidade de trabalho e de sacrifício que garantiu o nosso equilíbrio familiar. uma mulher obstinada pela profissão. líder. era ela que. com pulso de ferro. coordenava toda a produção da empresa e fazia aquela máquina trabalhar – o meu pai amava-a. apesar do seu lado combativo. e de o obrigar constantemente a regressar à realidade crua de patrão. com algumas dezenas de colaboradores pouco habituados aos ritmos diabólicos de uma indústria nova na nossa cidade – mais tarde também eu pude provar dessa realidade difícil. não era fácil manter a ordem e a disciplina com funcionários tão pouco preparados. era preciso muito rigor e método no trabalho. e isso era responsabilidade da minha mãe – naquele tempo era tudo difícil e pobre. patrões e funcionários lutavam para levar uns tostões para casa – a minha mãe era o ponto de equilíbrio da balança. e a única capaz de tirar o meu pai do mundo dos afetos e sonhos. mas ele amava-a. talvez até por esse seu lado de guerreira – já adulto também eu questionei esse lado afetuoso do meu pai. e só muitos anos mais tarde. percebi que era ele que estava certo. esse lado era a sua essência. pedir-lhe que fosse diferente foi um erro. deixaria de ser meu pai. e eu também deixaria de ser o que sou – maldita juventude. leva-nos a fazer coisas terríveis – só o entendi muitos anos mais tarde. mas tive de crescer muito. muito mesmo. para compreender que o amor precisa [também] do saber da idade – o envelhecimento transformou-me. aos poucos aquilo que era importante deixou de ser. o que antes via como defeito. é afinal um direito de cada um seguir o caminho que entende ser o melhor para si. o seu modo de ser – o meu pai fez o dele e confesso que demorei muito tempo a compreendê-lo – comecei então a perceber que afinal quem estava errado era eu. ao priorizar o que na verdade não tinha valor – esse é. talvez. o meu maior arrependimento em relação ao meu pai – mas sim. éramos uma família de gente boa. o tempo acabou por me mostrar esse nosso lado. esse lado justo. de valorizar a vida. a família. e o trabalho – os bens materiais para o meu pai nunca foram uma prioridade – talvez por isso me custasse tanto a perceber como me tinha abandonado num colégio imundo. sem nenhum calor humano  

  

 

VIII. o colégio. as caldinhas e o pão com marmelada

um dia. para que todos percebam melhor o que era o colégio d. diogo de sousa. quando ganhar coragem. quando envelhecer um pouco mais. contarei algumas histórias que vivi com alguns colegas de turma – confesso que já tentei. mas acabo sempre por desistir. mesmo passadas quase cinco décadas. a ferida ainda não cicatrizou. recordar ainda dói – talvez fruto dessa revolta dei comigo a fazer algumas palermices em casa. que levaram o meu pai a ameaçar-me que me internava no colégio das caldinhas. em santo tirso – na época. um filho mais velho de um vizinho foi para esse colégio. em internato completo. só vinha a casa no natal e na páscoa – estavam lá enclausurados. os mais insurretos dos insurretos. o que me levava a pensar que se o d. diogo era mau. então esse colégio das caldinhas seria algo além da minha imaginação. de onde só se saía para o hospital ou morgue – ganhei coragem e disse ao meu pai que não tentasse. pois pegaria fogo ao colégio no primeiro dia que lá entrasse. e estou certo de que o faria. tal era a minha revolta – já em mim se formava uma das minhas marcas de personalidade: o que se promete tem que ser feito. as consequências resolvem-se mais tarde. mas a palavra de um homem é sagrada – acredito que o meu pai me tenha levado a sério. creio que percebeu que falava verdade. e também percebi que a minha mãe e a lurdes não permitiriam – o que me interrogo é que género de criança seria eu para levar o meu pai. um homem dócil. bom de nascença. com a tolerância de santo. a querer mandar-me para um colégio daqueles – não deveria ser flor que se cheirasse. mas era fruto de uma liberdade excecional. as portas de casa eram abertas e a rua a minha grande paixão – sei que a vida na época não foi fácil para os meus pais. trabalharam imenso. e lutavam por cada tostão que ganhavam com esforço. e muito desse dinheiro servia para pagar colégios caríssimos – sempre andei nas melhores instituições de ensino da minha cidade: pré-primária no colégio dublin. um convento de uma ordem religiosa fundada em 1655 – primeira classe na escola primária do bairro da misericórdia. esta foi a exceção. ensino público frequentado por alunos de um dos bairros mais problemáticos da cidade: as palhotas – todos os dias me roubavam o pão com marmelada que levava numa daquelas sacas de pano bordadas com o meu nome. mas ficava perto de casa. o que facilitava a vida aos meus pais – por fim. e como perceberam que a minha integração nunca aconteceu. e a pedido da professora. aconselhou a mudarem-me de escola – segundo ela. era demasiado frágil para estar no meio de miúdos oriundos de famílias com graves problemas sociais – mudaram-me então para a gulbenkian. onde fiz a segunda. terceira e quarta classe. sem nenhum tipo de dificuldade – frequentada pela elite da cidade de braga. senti-me rei. com as lições de sobrevivência aprendidas com os rufias das palhotas. os meus amigos eram presas fáceis. era eu que lhes comia o pão com marmelada. e o dono da bola no recreio – ouvi muitas vezes a minha mãe dizer que só me queria ver formado e casado – compreende-se. foi mãe já com mais de quarenta. a minha irmã era treze anos mais velha. e o meu irmão onze. tinha imenso medo de não conseguir dar um rumo à minha vida. já que os meus irmãos eram adultos. creio que até já casados. ou quase – hoje orgulho-me imenso dos pais que tive. foram fantásticos e completamente dedicados aos filhos. viveram para unir a família – mas naquela época senti-me muito sozinho. senti-me perdido. condicionou o meu crescimento durante muitos anos. nunca mais confiei nos homens da igreja – agora que envelheci um bom bocado olho para a religião com outros olhos. por vezes sou crente. quando estou menos revoltado com o destino. e descrente. quando me revolto com as injustiças no mundo – na maior parte das vezes só sou crente para continuar a acreditar que existe vida depois da morte. e assim reencontrar os meus pais