26/09/2025

5. eu no boom - 2ºdia

 




 

a felicidade é o presente. não é o regresso ao passado nem fuga para o futuro – não está num interruptor nem numa cartola mágica. pelo contrário. é superação das dificuldades. dos traumas. das noites sem dormir. dos objetivos cumpridos. e dos que ficaram por cumprir. dos amigos que perdemos. dos que chegaram. a felicidade é perda. mas também caminho – e é no caminho empedrado que muitas vezes nos encontramos despidos de ilusões – nesse instante deixamos cair as camadas que nos escondem – e sentimos o alívio de reconhecer quem somos – precisamos de soltar essas camadas. para que se dissolva a matéria que nos prende à forma – a felicidade acontece apenas porque caminhamos. porque tivemos coragem para procurar. às vezes não sabemos o que. como um tabuleiro de xadrez que pode ter todas as peças. mas se faltar um peão… já não há jogo –  o dia de hoje é o mais importante da nossa vida. porque fomos capazes de refazer o que somos quando o mais fácil era desistir – a sociedade exige muito de nós. é preciso fabricar homens de um sucesso global. para que possamos ser aceites: carro. casa. relógios. doutoramentos sem conhecimento. a lista seria interminável – levantar e caminhar é felicidade. isso é a única verdade. depois. estar onde queremos estar. respirar a divindade que entra em nós. e partilhar do vento que mantém as gaivotas no ar: liberdade – é obrigatório dar-nos ao agora. no boom não podemos estar noutro lugar – ali sentimos a consciência a saltar connosco. estamos todos interligados. um emaranhado de cordas. e essa interligação. talvez cósmica. faz de nós um pouco de cada ser. ligados pela consciência. vibrantes e cintilantes. e o planeta que se chama terra. um mero condutor. a esticar-nos pela gravidade. e pelo sim. sim. é esta gente o dínamo da terra – ligados por essa energia comum. percebemos que o mesmo magnetismo que nos une também nos desafia – a física diz que polos iguais repelem-se. mas nós ligámo-nos. existe dentro de nós uma porta que se abre ao desconhecido. ou é a própria energia do planeta que a abre. e as suas pessoas empurram-nos porta fora – mesmo que não compreendamos o mundo físico. é a nossa consciência. com os seus mecanismos ainda desconhecidos. que nos diz: este é o teu momento. despe-te de preconceito e vai. liberta o teu espírito. cumpre-te pelo chamamento. edifica-te nos desaires. liberta-te dos sucessos. recupera a estrada que deixaste marcada – dostoievski dizia: torna-te consciente de ti mesmo. mesmo que tenhas de enfrentar a tua verdade interior. mesmo que sofras – eu acredito que o gerador da felicidade é a dor. a desilusão. a perda. o medo. o fracasso. o trauma. a dúvida. o terror de não podermos voltar atrás e emendar o erro. é também a decisão de percorrer caminho. do movimento. e tal como um astro rodamos. e criamos o nosso próprio campo magnético. atraímos o que em nossa volta roda. num outro campo magnético. e sem que o corpo saiba trazemos para dentro de nós a consciência de alguém. a sua vontade de nos inundar com o que é seu – e quando superamos essas debilidades. somos felizes – bem sei que por pouco tempo. os desaires ficam para toda a vida. a felicidade é efémera – porque será que a felicidade é passageira? porque enquanto os desaires se contraem no corpo. e a nossa capacidade de armazenamento é quase ilimitada. a felicidade expande-se. não a conseguimos reter. esvai-se. como água com consciência – o corpo serve apenas para nos diferenciar uns dos outros. as pernas para saberem que chegamos. os braços para saberem que abraçamos. os olhos para saberem que reconhecemos. e a boca para gritar ao universo que nos devolva a luz – e vamos à procura de mais felicidade. e depois ainda mais. precisamos dela para sobreviver. e quando não a encontramos. na maior parte das vezes por nossa culpa. o trabalho cega-nos. as distrações dos amigos. a família consome-nos. e sem dar conta estamos perdidos no tempo. não do universo. esse não se perde. está em nós desde o nosso primeiro dia. mas de nós. passamos a ser o que na verdade não somos. vestimos a armadura de aço e resistimos. morremos de olhos abertos – e a felicidade logo ali. tão perto. tão simples. tudo se resolve com uma equação de três simples: despoja-te. liberta o peso. entrega-te ao desconhecido. acredita no invisível. entrega-te a ti. e vive inteiro – foi assim que cheguei ao boom – a minha consciência fundiu-se com outra. e com mais cem mil que tiveram o mesmo desejo que eu: ter uma nova experiência de vida. iluminar-me por conta dos seus astros. da estrela a que cada um pertence – com a minha idade pensei: vais sofrer. aquela malta vai-te trucidar – mas não. fui eu que me trucidei. abri a porta e as cordas partiram em debandada. interligaram-se. teletransportei-me para cada uma daquelas consciências. e todas. me entregaram o melhor de si – tornei-me o núcleo do universo. porque só quando somos muitos temos força suficiente para nos tornamos um núcleo. ligamo-nos como se juntam os átomos. talvez da água. e balançamos – depois subimos como bolinhas de sabão ao universo… e por ali ficamos. a ver-nos como somos. e na verdade. somos muito menos do que uma bolinha de sabão. inexplicavelmente perdida entre estrelas sem nome – e talvez bóreas. sentado numa galáxia distante. tenha percebido. quanto pode ser importante uma pequenina bolinha de sabão. e levantou um ventinho fininho. que me levou para o infinito de mim. e percebi que ainda hoje não sei onde termino. sou muito mais do que pensava. e muito menos do que uma bolinha de sabão – tirou-me a pele. e senti o frio de viver livre. dancei como os meus ancestrais dançavam. e tornei-me no peão que faltava no tabuleiro de xadrez. e o jogo começou. e compreendi que sem mim. sem peão. não haveria boom. mesmo invisível as cordas deram-me forma. tornei-me espírito. e saí do meu corpo sem medo de não voltar – isto é liberdade. isto é consciência. isto é dar a mão ao mundo. e tal como paulo de carvalho. cantor português. fiz uma fogueira dentro de mim. e dancei numa consciência coletiva – e fiquei com a certeza de que pelo menos uma estrela daquele céu era minha – eu estava no único lugar onde poderia estar e com as pessoas que deveria estar. a minha conexão era total. percorri mil vezes cada uma daquelas pessoas. e todas me visitaram mais de mil vezes. dei e recebi. e nenhuma teoria física seria capaz de resolver esta equação. só a consciência tem a fórmula – neste segundo dia vagueei pelo espaço – era tudo tão novo – às vezes parecia que durante o sono as fadas tinham mudado tudo. as pessoas tão diferentes e tão iguais. famílias com crianças. pais jovens. amigos em bando. solitários. velhos que pareciam novos. namorados apaixonados. todos a girar. como se fossem planetas. talvez caminhassem por si. ou pelo chamamento da consciência. talvez coletivo. ninguém levava mapas. não havia guias no chão. nem setas: olha ali uma tenda gigante. uma escultura. uma árvore. estas formas simbólicas. relembrando uma conexão profunda com o sagrado e o ritual. luminosas. às vezes abstratas. mas tão parecidas comigo. identificámo-nos com tudo. porque tudo é o que somos – para onde quer que se olhe os olhos giram. a consciência gira. e as luzes a cores pintam a nossa tela interior: era como se dissesse em silêncio: não me levem daqui. quero aqui ficar para sempre – a massa do corpo não altera com o lugar. mas aqui eu não me peso. a alma não pesa. a consciência não pesa. vive. sonha. ri. sossega. é feliz. sem dores e sem medo. afinal. talvez sejamos imortais. talvez só a carne apodreça. apenas viajamos. talvez o tempo seja relativo. talvez só aqui todos nós estejamos certos com o que somos – e assim andei. até deparar com uma projeção de imagens em vapor de água – no lago um repuxo enorme lançava água a dezenas de metros de altura. que no seu processo descendente. já em gotículas pequeníssimas. recebia a projeção de frames de várias imagens. que com a gravidade se deformavam aos poucos. até desaparecerem no espaço dos olhos. enquanto outra imagem se sobrepunha. e assim sucessivamente – sentei-me na relva com a minha maria joão. os meus amigos e desconhecidos – todos absorvidos. todos sugados para dentro da viagem animada de um preto e branco nostálgico – silêncio absoluto – apenas a água e a música de fundo – estávamos suspensos. entre vida e silêncio – deixei-me embalar pela magnificência daquele cinema em tela de água. e quando dei por mim chorava copiosamente. não sei quanto tempo chorei. sei que foi o suficiente para voltar ao passado e encerrar um momento da minha vida que sempre imaginei estar fechado – este é o único retalho da minha vida que partilho aqui. haveria muitos. mas cada um deve viver as suas viagens em solidão. ou então encontrar as pessoas certas para partilhar – há vinte e sete anos o meu pai faleceu. e a minha família. como uma outra qualquer. estava em pranto absoluto. devastados. eu era o mais novo. mas velho o suficiente para ser forte. tinha trinta e oito anos – eu sabia que era o mais resistente. quando somos novos pensamos ser sempre o que em verdade não somos – não deitei uma lágrima à frente da minha mãe. irmãos. esposa. e filhos – foram três dias de superação interior – pela noite. descia para a rua e entrava no carro. punha a cassete a tocar. charlie haden & pat metheny – spiritual. e chorava copiosamente. berrava até que os ouvidos serem só ruído. a dor era tão forte que dilacerava-me o corpo. a alma em pasta. retorcida. e assim estava horas aos murros ao volante. a insultar deus e o universo de tudo o que pudesse magoar. a água escorria-me dos olhos – corpo ensopado de mim – de raiva. de ira. de revolta e jurava nunca mais lhes perdoar – pois bem. naquele espaço mágico chorei as mesmas lágrimas. senti as mesmas dores. exatamente a mesma dor. a mesma raiva. tudo era tão real. tão daquele dia. o corpo sentiu a mesma vontade de morrer. de destruir o mundo. o mesmo sentimento de perda. o meu pai ali deitado. e eu de pé. sem que a dor pudesse mexer em mim um músculo. uma lágrima – quando acabei tinha enterrado definitivamente o meu pai. tinha cicatrizado uma ferida que não sabia que estava aberta. por fim. depois de tanto tempo. fiz as pazes desse dia – quando me levantei disse aos meus amigos que tinha que me recolher. estava cansado. estava completamente vazio. oco. não sentia nem o corpo. nem a mente. mas senti paz. senti que estava no meio do universo. sem peso. sem nada a reclamar de mim e do mundo – se tinha dúvidas foram todas dissipadas. se não fosse por mais nada a minha ida ao boom tinha sido recompensado com algo que nunca imaginei que fosse possível – fiz as pazes desse dia – é preciso acreditar na evolução do mundo. das pessoas. e da sua consciência – é preciso compreender a física – há cem anos a física explicava menos do que hoje. se não acreditarmos. só nos resta a teologia – foi isso que a física quântica nos trouxe. a oportunidade de trazer para dentro de si a consciência – nós somos alma. energia revestida por um corpo – estamos emaranhados num universo de energia – assim podemos sentir-nos ao mesmo tempo em vários lugares. dentro ou fora do corpo. as batidas marcam o ritmo das viagens. e os lugares ligam-se pela velocidade das vibrações – podemos viajar por vários lugares ao mesmo tempo. mas no boom aprendi a ficar onde estava feliz. se viajei. isso foi apenas porque as forças do universo me levaram. cintilante fiz-me estrela. iluminei os que comigo preferiram ficar ali. e todos nos ligamos ao universo por cordas que vibram em nós – e assim fechei mais um dia no boom – e abri mais uma estrada em mim – envelhecer tem a sua vantagem. o corpo mirra. mas a mente já não me trai – voa em viagens de reconhecimento. para um dia saber. qual a estrela que me pertence desde o nascimento

 


22/09/2025

4. eu no boom – 1ª dia

 





pois bem. depois de cerca de trezentos quilómetros de caravana e de muitas horas de expectativa para entrar na quinta da herdade – uma noite de espera e parte do dia – lá chegamos – eu. maria joão. minha companheira há quarenta e quatro anos. os amigos luís e mariana ainda a começar a contar os anos de ligação.  e maddy. minha amiga há quase vinte anos – uma vistoria rápida na entrada para garantir que cumpríamos as regras. zero tolerância para vidro. álcool e drogas. e lá nos indicaram o local onde estacionar. no topo do monte que protege a norte o espaço do boom – já era noite. e à nossa volta apenas eucaliptos. pó e o desconhecido pela frente – de noite todos os gatos são pardos – uma refeição rápida. um banho e toca a descer para a festa. a expectativa era imensa. perder a primeira noite não era opção – lá fomos. e seguimos a regra de quem viaja sem mapa. seguir quem já caminha com sentido – uma descida íngreme de quase dois quilómetros. e a meio já se ouviam as batidas. e ao longe uma constelação de luzes mágicas – com a aproximação ao recinto começamos a sentir a grandeza do espaço – o primeiro olhar colado ao rosto – o espanto na alma – a intuição instantânea de que ia ser feliz – confesso. a minha escrita não alcança. não chega. não toca o que me foi oferecido. era muita luz a invadir-me os sentidos. com cores e projeções que nunca tinha imaginado – diria que é a disney dos adultos –  era luz. era música. era cor. era tudo a acontecer de uma só vez – era tudo a acontecer em mim – para ser verdadeiramente feliz basta perder o preconceito e lançarmo-nos sem medo para cada apelo da alma – e havia muitos apelos. o problema era saber para onde olhar e caminhar – pela primeira vez senti-me verdadeiramente livre. ligado às pessoas. ligado à natureza. ligado às galáxias. fazia parte de um organismo uno que me recebia inteiro no ser. como se renascesse ali naquele instante – o corpo e a mente deixaram de magoar. e partimos à deriva para cada bolha artística. um oceano de luz. um oceano de música. um oceano de vibração. um oceano de vida. um oceano sem fim. ligado às pessoas. ligado à natureza. ligado às galáxias. ligado a tudo. e eu a navegar à bolina – preso e solto ao mesmo tempo – como se o ar fosse água. como se eu já não tivesse corpo. como se fosse apenas alma. apenas vibração – e as ninfas do lago em chamamentos para sair de onde estava. porque o outro lugar chamava mais forte – senti-me mágico. também eu tinha mordido a maçã do encantamento – a questão era quanto tempo ia durar o efeito – para minha surpresa dura. dura até hoje – revisitar o boom é apenas necessário fechar os olhos – em cada esquina um misto de estruturas iluminadas. algumas do tamanho do adamastor. talvez maiores – nenhuma cabia inteira na cabeça. nenhuma cabia inteira no peito. olhar para uma parte era deixar outra de fora – e eu a mergulhar nas luzes de cada escultura. algumas abstratas. cintilantes. que nos lançavam para o espaço sem nunca tirar os pés do sagrado – figuras antropomórficas que nos prendiam. nos sacudiam de todas as maldades do mundo – e em cada passo a sensação de já não caminhar. mas voar preso a cada feixe de luz – talvez peter pan. talvez um duende – uma alma transfigurada por um sentimento de felicidade que nunca tinha conhecido – e ainda hoje vibra – de seguida entramos nas tendas gigantes. eram três. separadas por um manto sagrado. apesar dos decibéis. nenhuma batida fugia para outra tenda. como se houvesse um muro invisível. uma mão que separasse as notas de música. e dentro delas milhares de jovens e não jovens a baloiçar os corpos. iguais aos de beach party by nova era. o corpo para um lado. e o cardume inteiro em movimento. todos em transe. e a cada batida uma perna para a frente. logo outra para trás. ninguém sai do sítio. e todos caminham pela imensidão do espaço sideral – e eu ali. a caminhar com eles. primeiro a medo. depois já no cardume. deixei-me apanhar pela música. deixei que ela me levasse para onde o meu espírito se encontrasse com o que sou verdadeiramente. sem medo. sem preconceitos. nunca deixei de ser quem sou. mas passei a ser mais. mais do que sabia. mais do que pensava. mais do que sonhava ser. e completei-me. trouxe dos outros o que pude. e em vez de me sentir cheio. senti-me vazio do que pensava ser essencial. e passei eu mesmo a ser um ser tribal. feito de batidas e sentimentos que desconhecia – as gavetas abriram-se. as janelas abriram-se. as portas abriram-se. tudo se abriu. eu também me abri. e fiquei apenas água. a ondular. a amar tudo o que me rodeava. e a certeza mais uma vez de que havia escolhido a mulher certa para a vida – estávamos felizes. estávamos os dois livres. e livres. nunca nos conseguimos separar. voamos para o luar. iluminamos o caminho que escolhemos. e brilhamos como dois pirilampos. como duas centelhas no escuro. como dois sóis a nascer – beijamo-nos como adolescentes. e dissemos: os nossos filhos deveriam um dia experimentar esta liberdade – por fim. cansados. já depois das cinco da manhã partimos à procura do descanso. subimos em direção ao céu. e dormimos como anjos – tínhamos a certeza de que tínhamos feito a opção certa. estar no boom fez-nos bem. aproximou-nos. e fez-nos recordar o que de melhor trouxe a nossa união: os filhos. nossos deuses. nossa glória. nossa virtude. nossa eternidade. nossa razão de ser. nosso infinito. nosso além-túmulo dentro de nós



20/09/2025

3. o que é o festival boom

 




esta terceira parte será preenchida com uma das maiores experiências da minha vida. o festival boom. bienal. em idanha-a-nova. herdade da granja – não será fácil descrever esta minha participação no boom. para ser honesto nem sei bem por onde começar. mas vou com coragem. vou com tudo – o que é o boom? bem. o boom é muito mais do que música. arte e cultura: é uma experiência internacional. um evento de carácter único e transformador. celebrado como um dos maiores e mais originais da europa – centrado na trance psicadélica goa. acabou por evoluir para um festival multidisciplinar que abraça música eletrónica. artes visuais. performances. workshops. conferências. cinema. manifestações culturais diversas. meditação e práticas espirituais. oferecendo uma experiência holística e sensorial – a organização do boom não aceita patrocínios. talvez por isso seja tão pouco divulgado nos nossos canais de informação – todos sabemos que as companhias de telecomunicações. todas juntas. faturaram no último verão mais de sessenta milhões de euros. estamos a falar de um negócio muito lucrativo. e obviamente. com o seu ramo poderosíssimo junto das estações de TV. tudo fazem para não ser divulgado. e quando é. acaba quase sempre por ser por motivos pouco nobres – o boom promove a consciência ambiental. a sustentabilidade. a multiculturalidade. a espiritualidade. a liberdade. e a diversidade artística – eu. no meu trabalho estou ligado ao ambiente. e sinceramente. fiquei muito satisfeito com o seu compromisso ecológico: energia solar. energia eólica. sanitas ecológicas. reciclagem. tratamento de águas. tudo está pensado em favor da natureza – o boom reuniu participantes de 220 países. sendo os festivaleiros estrangeiros a grande maioria. cerca de 85%. com diferentes faixas etárias. famílias. crianças. todos em harmonia. como se o tempo nestes oito dias parasse de existir – junta mais de cem mil pessoas. os bilhetes esgotam rapidamente. mas podia ter o dobro ou o triplo de participantes. não o permitem apenas porque. no seu entender. o espaço. 225 hectares de terra deserta. apenas ocupada pela natureza. seria seriamente afetada pelo excesso de gente – pode chegar ao boom apenas com um cobertor. acampar. ou se preferir estar mais cómodo chegar de caravana. e não se preocupe com comida. há tendas com todo o tipo de pratos. de todas as partes do mundo. e se for vegan ou vegetariano. também encontra – se entender criar as suas próprias refeições. há também um supermercado para o ajudar e locais próprios para cozinhar – vidro e fogões de campismo a gás são proibidos – há um hospital de campanha. com primeiros socorros em permanência. médicos e enfermeiros vinte e quatro horas por dia. e uma tenda especial para testar drogas. a prioridade é a sua segurança. saber o que consome é fundamental para que a sua experiência seja uma boa recordação – o boom é um universo vivo de cultura e partilha. onde cada experiência abre caminhos de transformação interior. no qual os laços humanos se entrelaçam e a terra é celebrada com consciência – o boom acontece sempre no final de julho ou início de agosto. durante a lua cheia. com o luar a servir de holofote. junto a um lago refletido no deserto da beira baixa. a dar brilho aos corpos em transe. como se o céu descesse para dançar – os bilhetes geralmente são postos à venda no fim do ano que precede o festival. e a sugestão que deixo. é se quiser participar neste grande evento. incluído entre os dez melhores festivais do mundo. e considerado o melhor da europa. esteja atento. e corra. pode mesmo assim não chegar a tempo – o boom não é apenas um festival a que se vai. é um lugar dentro de nós a que se regressa sempre – mas por mais que se fale do boom. nada se compara a estar lá – e é isso que vou partilhar a seguir. mostrar-vos que o boom é uma arca de noé erguida sob a lua cheia. onde as pessoas se encontram consigo mesmas: para dançar. meditar e contemplar a diversidade do mundo e. por fim. para acolher cada uma dessas partes como sua. sem preconceito. sem temor. sem medo do amanhã e das suas diferenças

 


16/09/2025

2. – a preparação do corpo e da alma

 




há pouco mais de um ano. mais propriamente em 28 de junho de 2024. um amigo. luís silva. convidou-me para ir a um festival de música eletrónica. beach party by nova era. em leça da palmeira. na praia do aterro. a sua empresa hoteleira era um dos patrocinadores. e deste modo. tínhamos acesso aos lugares VIP – não era o meu tipo de música. muito longe disso. mas quando um amigo convida. é nossa obrigação dizer presente – uma coisa é certa. não o acompanhava pela música. mas sim pela companhia. ainda para mais sou avesso a multidões – em local privilegiado. pensava eu. em cima de um palanque com vista direta para DJs. e ali ficamos um pouco a beber uma cerveja – algo de que também não morro de amores – sem perceber muito bem a ligação daquela juventude. ligada a ritmos sincronizados das batidas. entreguei-me em consciência – e interroguei-me. o que faz esta malta vibrar com estes graves barulhentos? de um momento para o outro. o meu amigo sugere que fossemos para o meio dos festivaleiros. e assim fizemos. descemos as escadas. o medo também. e misturámo-nos na multidão – eu nas massas sinto-me sempre despido. prensado. e fico sem saber o que fazer comigo – ao princípio estranhei. depois entranhei. estava preocupado com a minha presença. pensei: vou desarrumar esta malta. todos tão jovens. e eu. sénior. ali metido no meio deles – aos poucos fui-me sentido mais tranquilo. e comecei a dar a minha atenção à música. mais especialmente ao movimento dos jovens. aos seus comportamentos. à forma como se agitavam. particularmente tentar perceber se os seus movimentos estavam ligados de alguma forma ao ritmo das batidas – ali fiquei em busca da razão destes juvenis. deixei cair o preconceito e pensei: se esta massa humana está toda a vibrar e são milhares. tem que haver uma razão sólida e válida para esta agitação. e  para que mundialmente haja cada vez mais adeptos deste tipo de música. não pode ser apenas a juventude a influenciar este movimento – e no meio daquelas batidas loucas. com as luzes psicadélicas a fermentarem a minha íris. como se os olhos fossem depósitos de cores em agitação. senti os graves. ligados entre si por uma cadência ritmada. envolvente. ao ponto de criar uma ondulação. também ela com ritmo. dentro do corpo. que como todos sabem é setenta e cinco por cento água – ao fim de algum tempo percebi que os festivaleiros moviam-se todos eles de uma forma sincronizada. quando tombavam para a direita. todos tombavam. se atiravam o corpo para a esquerda. mais uma vez todos tombavam para esquerda. e a cabeça em oposição sempre a contrariar o corpo. como se quisessem deixar os pensamentos fora do desequilíbrio. talvez o que tivessem em mente não pudesse ser abanado. talvez tivessem medo de perder a felicidade. talvez com medo de voltarem para as azafamas do mundo – ser jovem nem sempre é fácil – no meu tempo era mais fácil – ao fim de algum tempo criei uma analogia. eram cardumes invisíveis. ondas de carne e respiração em geometria perfeita. possivelmente para enganarem os predadores. moviam-se como se todos fizessem parte de um bailado de rudolf nureyev. talvez marguerite and armand criando um movimento sincronizado. belo. que no seu limite. criava ilusão de segurança. ou de fuga para um outro planeta – talvez estes jovens. com os seus movimentos ordenados. criem esse tipo cardume. todos fazem parte de um todo. um organismo uno celular. e assim capaz de se defenderem deste mundo desengonçado. um mundo onde todos somos desconhecidos uns dos outros – foi uma grande experiência. e durante muito tempo deixou-me a pensar: porque não fui eu capaz de entender esta malta radical? a resposta é simples. por preconceito. por ter envelhecido. e por achar que esta música era para os jovens. e que eu. adulto envelhecido. já não tinha direito a invadir o seu espaço – o que aprendi. e hoje sei o bem que me fez. é que música é música. tal como um livro é um livro. não podemos dizer que não se gosta sem pelo menos tentar compreendê-la. sem lhe dar uma oportunidade de nos ocupar – o mundo só é perfeito pela sua diversidade. de outra forma não haveria evolução. ainda estaríamos  a fazer fogo com duas pedras – este festival viria mais tarde a proporcionar-me um dos momentos mais fantásticos da vida – eu mereci-o. derrubei os meus próprios muros. e encontrei um novo mundo. encontrei a liberdade inteira. sem preconceito. a baloiçar o meu corpo de água – e por fim. estou grato ao meu amigo por me oferecer uma parte do seu conhecimento. da sua vida – é essa coragem que todos nós precisamos em algum momento da nossa existência. nada mais fantástico do que chegar por alguém que me conhece bem – é nesse transe de palavras que vou contar como a música me encontrou. e como me levou ao boom. festival em idanha-a-nova


13/09/2025

eu no festival boom – antes de leres. sente

 




nota introdutória

 

nos próximos dias vou partilhar convosco seis capítulos de um mesmo texto – eu no boom festival – não é apenas o relato de um evento de música – é a história de uma viagem interior – onde cada batida. cada encontro. cada silêncio. se transformaram numa das experiências mais marcantes da minha vida – escrevi para que se leia como quem ouve música – no ritmo das palavras. no compasso das pausas. no fluxo das emoções – espero que encontrem nestas páginas não só a descrição de um festival único. mas também ecos de liberdade. de pertença. e de descoberta – convido-vos a acompanhar esta aventura comigo – que a leitura vos seja tão intensa quanto foi a vivência – e que de algum modo vos inspire a procurar os vossos próprios caminhos de vibração e consciência 

 

 

1.   1. ler é sentir

não uso vírgulas – os pontos tomam-lhes o lugar e seguem o compasso do que escrevo – também não uso pontos finais – são os travessões que me servem de pausa – algumas mais longas outras mais breves. mas sempre abertas como o tempo – deixo ao leitor a liberdade do ritmo – é ele quem dita a cadência da leitura – como numa peça de música clássica onde as notas se soltam conforme a emoção de quem ouve – e de quem sente – escrevo para que me leiam como se ouvissem uma balada – se será triste ou luminosa não me diz respeito – a escolha é de quem lê – o meu papel é oferecer-lhe o caminho – um caminho feito de palavras que vibram. assim partiram de mim – não uso maiúsculas – essas guardo para os nobel e para os que precisam de gritar para serem ouvidos – prefiro o sussurro – o sussurro que entra pelos olhos e acorda a água que vive dentro de nós – escrevo para essa água. os 75% do nosso corpo. para que se mova e liberte serotonina. e devolva ao leitor aquilo que o corpo mais pede: bem-estar – também não separo os parágrafos. porque a vida não se separa em blocos – a vida é fluxo. contínuo – mesmo quando estamos parados ela avança. e o texto deve acompanhar esse fluxo – como um rio onde não se repete margem – apenas corrente – escrevo com essa corrente – ora mais prosa ora mais poesia – sem lhe dar nome – apenas som – a minha escrita nasce do mesmo lugar onde nasceu a música dos nossos ancestrais. quando ainda não havia letra nem palavra – só ritmo – só pancadas – só batimentos – uma música psicadélica-transe tribal – feita de pulsações constantes – de movimentos hipnóticos – de vibração que se ouve com o corpo antes da mente – é essa música que procuro recriar com as palavras – um transe silencioso que se lê – e que ecoa no interior de quem ousa escutá-lo – e porque tudo o que escrevo nasce do ritmo. todos os textos são acompanhados de áudio – é no som que se completa o que ofereço – por isso sugiro sempre que se ouça pelo menos uma criação – para que quem lê compreenda não só o que lê. mas o que sente – para que a nossa água ondule. vibre. e leve ao cérebro outra parte do invisível que vive connosco – para que entenda o gesto que lhe é dado. um gesto de escuta – um abraço invisível feito de palavras em vibração

 

 

06/09/2025

recomeço

 



ao fim de quarenta e um anos voltaremos a ser novamente dois. eu e maria joão – este sábado. o meu filho mais novo. joão antónio. vai desposar a minha nora sofia direito – será um dia perfeito para eles e para nós – nunca pensei. nem desejei que os filhos fossem pertença dos seus progenitores. sempre sonhei em filhos livres e independentes dos seus pais – a nossa tarefa essencial era dar-lhes condições para que. um dia. pudessem abandonar a casa sem medo do futuro – nunca. eu ou a mãe interferimos no seu percurso de vida – sempre o vimos como algo sagrado – o seu caminho foi e será sempre o que escolhem – a nossa interferência resumia-se apenas aos seus estudos – foi a única preocupação. terem um percurso de aprendizagem dedicado ao conhecimento. não lhes pedia estudo pela obrigação. mas conhecimento pela vida – porque o conhecimento já carrega dentro de si estudo. dedicação. e afirmação da sua personalidade – outro ponto em que nos focámos na sua educação. para além dos seus estudos. era prepará-los para também. um dia. serem pais – ser pai é a função que mais enobrece um homem – a felicidade não está em possuir. mas em libertar – assim foi com os meus três filhos. e também nós pusemos de parte a nossa vida para que nada lhes faltasse. vivemos a escolaridade deles com muito sacrifício. mas também com muito orgulho pelo que alcançaram – merecemos a nossa família. honrámo-la tanto quanto nos foi possível. e hoje. vivemos este último matrimónio com a sensação de dever cumprido – cedo percebi que o meu desígnio nesta minha passagem terrena era ser pai. adoro ser pai. e tenho a certeza de que será a minha única obra que permanecerá para além do túmulo – hoje já quase não os consigo recordá-los. primeiro como recém-nascidos. depois crianças e adolescentes – a memória controla-nos os desejos. e se o meu foi que eles nunca dependessem de nós. ela castigou-me. resumiu tudo a duas linhas. e o que guarda agora são os homens que criei: bons. honrados. trabalhadores. e para dois filhos. excelentes pais e maridos – assim se cumprirá com o joão antónio – durante este último ano fartei-me de brincar com o meu filho dizendo-lhe que já faltava pouco para sair de casa. ou para que finalmente voltássemos a ter sossego. paz – mas a verdade. é que é este casamento que mais me está a custar viver. não será fácil entrar em casa e saber que ninguém nos espera. que não haverá mais ninguém a fazer-nos companhia no descanso. ou mesmo poder chamar pelo seu nome e ouvir: dá-me cinco minutos – eu e a mãe estamos um pouco perdidos. agachados um no outro. sabendo agora que só nos teremos a nós os dois – bem sei que os filhos são para toda a vida. e os medos que aprendemos a silenciar. continuarão silenciados. mas presentes. estão encrostados na carne. saber que está tudo bem é e será sempre a nossa paz – por isso estamos felizes com a sua felicidade. pois apenas assim faz sentido. sem a sua felicidade. dos três filhos. a nossa vida não faria sentido – três irmãos que se adoram. respeitam as diferenças. amigos. cúmplices. com três noras que os completam. e tudo isto numa harmonia celestial. quando juntos a nossa casa parece um conto de fadas – construímos este lar com muito sacrifício. com muitas noites sem dormir. em terror e em lágrimas. que eu e a mãe segurámos um ao outro. mas se voltássemos atrás. se o mundo tivesse marcha-atrás. faríamos tudo na mesma. colocaríamos cada pedra no mesmo lugar – nós estaremos sempre aqui. no lugar onde os críamos. viveremos as suas alegrias. e pediremos ao universo que lhes dê tudo o que merecem – essa será a nossa maior recompensa – nós recomeçaremos de novo. viveremos agora um para outro. sabendo que as noites encontrarão silêncio mais cedo. e que as únicas falas serão as nossas – também não será difícil. os meus filhos sabem que amo a sua mãe. desde os seus quinze anos. eles não poderiam ter uma mãe mais bonita. que sempre foi a deusa encantada dos filhos e. agora. dos netos – não há forma de não gostarem da minha maria joão – mérito meu que soube escolher. talvez o meu maior feito – foi assim que começou a minha epopeia – o que peço ao meu filho é que ame a sua mulher até a exaustão. e que nos dias mais encobertos que nunca desista da sua companheira. que fale sem nunca se calar. que nunca durma uma única noite ofendido sem a perdoar. ou sem se perdoar. que adormeça de mão dada. e mesmo quando dormir. que lhe diga ao ouvido que é o amor da sua vida – o casamento é uma estrada. e só o casal a pode construir. colocar todos os dias uma pedra. pequena ou grande. mesmo sem sentir no momento que cresce. um dia. quando olhar para trás. não verá o princípio. mas saberá que é a sua estrada. e em cada pedra verá um ato de amor. de partilha. de comunhão. de companheirismo. e poderá também ele dizer. esta é a minha única obra. a que me honrará. a que permanecerá para além do túmulo – espero que o dia seja abençoado. sagrado. para sempre. nós somos homens de uma única mulher. assim foi com os vossos avós. assim foi com os vossos pais. e sei. que assim continuará – gostava muito que o avô e a avó estivessem presentes. quem sabe os desígnios do universo – de alguma forma estarão. levaremos dentro de nós o estandarte da família. que agora será apenas vosso

 

bênção

filho meu – hoje deixas a nossa casa para construir a tua – não partimos contigo mas caminhamos ao teu lado – o teu caminho é sagrado e só a ti e à tua companheira pertence – ser pai foi a minha maior obra – e agora a minha herança é ver-te marido – peço-te apenas que ames a tua mulher até à exaustão – que nunca te deites ofendido sem perdoar ou ser perdoado – que adormeças de mão dada – que mesmo dormindo lhe digas ao ouvido: és o amor da minha vida – o casamento é uma estrada – pedra a pedra se constrói – cada gesto pequeno é amor – cada partilha é comunhão – quando olhares para trás não verás o princípio – mas reconhecerás a vossa obra – e ela será eterna – somos homens de uma única mulher – assim foram os teus avós – assim fomos nós – assim serás tu – que o universo vos abençoe – hoje e sempre

 

29/08/2025

eu. os colecionadores. e os calendários de bolso

 




cerca de quarenta anos. era eu um jovem promissor no setor industrial que. no começo de cada ano novo. encomendava a empresas de publicidade pequenos brindes para oferecer aos clientes – eram coisas simples. esferográficas. lápis. agendas. calendários de parede. de secretária. e os de bolso. objetos que hoje despertam pouco interesse. tornaram-se obsoletos com o avanço das novas tecnologias. principalmente com o surgimento dos primeiros computadores. seguidos pelos telemóveis – mas havia um brinde muito procurado e amplamente distribuído: os pequenos calendários – encomendava-os com o logótipo da empresa. bem sei que hoje isso possa parecer ridículo. estamos habituados a consultar tudo no telemóvel. mas naquela época acreditem que ter um calendário de bolso era extremamente útil. diria indispensável. isso e uma “short list” com os contactos telefónicos mais importantes. apesar de sermos obrigados a decorar muitos números. nomeadamente os dos familiares e amigos mais próximos – guardávamos também datas de aniversário das pessoas mais chegadas. tudo transportado na nossa carteira de pele. onde cabiam cheques. bilhete de identidade. cartão de saúde. cartão de sócio do clube. e vários outros documentos essenciais – sim. sei. com as novas ferramentas de hoje parecemos pré-históricos. mas. não. para a época éramos já surpreendentemente desenvolvidos – nesses tempos. diferentes dos de hoje. havia alguns adultos estranhos. agora também existem. até talvez com mais maradas. mas é diferente. a sociedade está mais recetiva a novos padrões de vida – naquele tempo éramos quase todos iguais. com rituais e rotinas muito semelhantes. as noites eram sempre mais longas. apenas uma televisão nacional. dois cinemas. teatro de circo. a sala nobre da nossa cidade. cine-teatro são geraldo. e mais tarde surgiu o acil – diversões poucas. bilhares. matrecos e as primeiras máquinas de flippers – era um tempo contido – e estávamos a dar os primeiros passos em liberdade – estes indivíduos adultos. pais de família. que à primeira vista pareciam personagens normais. tinham um vício. colecionavam obsessivamente – tal como agora há viciados em jogos online. raspadinhas e redes sociais. na altura o colecionismo reduzia-se a uma caderneta de jogadores de futebol. coleção de chávenas de café. esferográficas. calendários de bolso. todos com as respetivas marcas impressas das empresas – assim. a cada novo ano. os colecionadores voltavam à porta a solicitar calendários e esferográficos. eram mesmo habituais. cheguei até a reconhecê-los – bem sei que isto pode parecer um pouco antiquado. para os mais novos será mesmo difícil perceber. mas era normal ter na nossa carteira um destes pequenos calendários. e uma mini-lista de contactos telefónicos – quem não tivesse mostrava que a sua vida não tinha nada de interessante para registar ou ninguém relevante com quem falar. e havia muita gente que não tinha telefone em casa. sem luz elétrica. sem saneamento básico. sem água canalizada. eram tempos difíceis – os pobres eram mesmo pobres. e os recursos analógicos pouco acessíveis ao comum trabalhador – a televisão a cores em portugal foi inaugurada a 7 de março de 1980. com a transmissão do festival da canção desse ano. e lembro-me perfeitamente de o meu pai chegar a casa com uma televisão a cores – foi uma noite em grande – as cores saltavam do ecrã como se a sala tivesse aberto uma janela para outro mundo – não saímos do pé da TV – a luz pintava-nos a pele e até o silêncio parecia ter outra cor – tínhamos agora a verdadeira caixa mágica em casa – e recordo-me bem: nesse dia. creio. que nenhum dos meus amigos próximos teve a mesma sorte. o dinheiro era raro e valioso – mas voltando aos brindes. passavam pela empresa uns quantos sujeitos. alguns bem maduros e chefes de família a pedirem calendários de bolso. dizendo apenas que eram colecionadores – eu achava aquilo inacreditável. e interrogava-me: o que leva homens feitos a andar de porta em porta em busca de calendários? nunca encontrei uma resposta clara para os compreender. via-os como adultos presos ao mundo do peter pan. ou. talvez. vítimas de um curto-circuito na massa encefálica – mas. agora. passados tantas décadas. envelhecido e depois de muito ter aprendido com o tempo. finalmente. compreendo o que os movia – arrogância da juventude é um mal que tende a passar com o envelhecimento – tal como eu escrevo crónicas quase todos os dias. poemas apenas para espairecer. esta arte. mesmo sendo rara. faz de mim um desses colecionadores dos calendários – guardo frases como quem guarda um calendário com um erro de impressão – raro e inútil para muitos – mas para mim um tesouro – de página em página mergulho nos dicionários. antigamente de papel. agora digitais. a suplicar por palavras para a minha coleção de crónicas – e assim capitulei. porque. tal como eles. também a minha coleção tem pouco valor. e mais uma vez. sendo cada vez mais parecido com esses adultos de quem eu troçava. sigo diariamente a implorar mais – mantenho a crença. que o importante não é o valor da coleção. mas o esforço que vamos repetindo todos os dias para que a nossa coleção fique mais completa – hoje. depois de várias décadas. talvez aí uns trinta. já não avalio o caminho alheio. e como diz mia couto. cada ser humano é uma raça. e eu acrescento. com o seu caminho. único. com a sua verdade. e sem que ninguém tenha o direito de a questionar – não gosto de envelhecer. nunca gostei. nem sei se alguém gosta. mas às vezes sinto-me feliz por ter envelhecido o suficiente para me reconhecer como um ser mais inteiro – cada um tem os seus sapatos – e o caminho que percorre pertence apenas a eles – tal como aqueles homens feitos a pedir calendários – hoje percebo que não pediam datas – pediam um pedaço de si mesmos para guardar no bolso



27/07/2025

amigo: o peso de o ser

 



1.     a urgência de nos bastarmos

às vezes dedicamo-nos em demasia aos amigos. deixem-me dizer isto em voz alta. bem sei que um amigo verdadeiro deve ter sempre o nosso tempo por inteiro. mas o problema. está na forma como os categorizamos. e alguns não merecem estar à nossa frente. não merecem que paremos de viver para sofrer-lhes a vida. nem merecem que lhes demos aquilo que tantas vezes nos falta a nós mesmos – a amizade. hoje. parece estar sempre em liquidação. todos gostam de estar bem com todos. e cada um cria os seus círculos de amizades: são amigos de cem personagens por causa de um clube. mais mil pelos matrecos. e porque hoje só existe quem se faz rodear. tem-se então mais dez mil. que são os que gostam das noites. e mais cem mil. os que querem ser palhaços. que servem para os dias mais tristes. para logo de seguida surgirem aqueles que apenas servem para os dias sem um grupo definido. impossíveis de contar – a minha interrogação é se devo continuar integrado nestes grupos. ou a permitir que continuem a considerar-me amigo. se não devo dizer basta. ser frontal e afirmar: eu sou esses todos e ainda mais uns quantos que. por olharem apenas para fora. ainda não se deram conta de que estou em todos os grupos. não poderei estar apenas num. sou feito de todos – sem essa mistura. os dias pesam. e os amigos. tornam-se cópias – um dia acordo. e digo. preciso de um tempo que seja só meu. inteiro. talvez o dia todo. sem barulho. apenas eu. num silêncio que. para além dos medos e interrogações. me traga tolerância e compreensão pelo que me é diferente – com tanto barulho por dentro e por fora. ninguém se encontra. nos dias mais complicados temos mesmo que ajudar a nascer o que pensamos. como um parto. e por vezes só com ferros conseguimos trazer à luz o que nos vai mais fundo. que é o mesmo que dizer o que sentimos. o que nos magoa – o que é gerado por nós. no que há de mais íntimo. tem que ser ouvido. respeitado. primeiro por nós. porque se não formos nós os primeiros. então ninguém mais ouvirá. depois por aqueles que consideramos nossos amigos. ou nos são chegados. um tipo assim de quase-amigos. estão na lista de aferição. em testes de afinidade e compatibilidade: avaliar a ética. a bondade. a tolerância. a capacidade de dar. quando casal a forma como se tratam. como se respeitam e protegem. como educam os seus filhos. o exemplo que transmitem. e depois. somar tudo. e colocar em letras gordas: aprovado – muitas vezes queremos mesmo ser amigo de determinada pessoa. esforçámo-nos. admitimos a evolução da relação. acreditamos que seremos exemplo. à nossa medida. que nos ouvirão. respeitarão. e não raras vezes tentamos nós adaptar-nos ao seu modo de ser. alongar a nossa tolerância. mas depois de todas as manobras para nos moldarmos. não adianta. é aquilo para eles. é a sua essência. está ali. são as suas fundações e. tal como diz clarice lispector: "não sei que viga me sustenta – se eu mudar de posição. desmorono." para nós. a sua sustentabilidade é o que é. e mais nada poderemos fazer a não ser partir. aceitá-los no seu mundo. seguir o nosso. sem culpa. sem rancor. e sorrir – este fim-de-semana ouvi uma expressão de um amigo que me deixou a rir durante muito tempo: podem beber whisky. mas arrotarão sempre a bagaço – é uma grande verdade. por isso. seguimos em trânsito. finalmente. chegou a hora de nos bastarmos

 

2.   às vezes. é só isso: presença

juntamos todos os amigos no mesmo saco – e depois. ingenuamente. esperamos que todos nasçam iguais. no mesmo dia. com o mesmo rosto – claro que não pode correr bem. hoje as amizades constroem-se com base num naipe enorme de interesses – uns querem-nos engraçados. porreiros. são os palhaços. que estejamos sempre prontos para as borgas. para as aventuras. vivem como se estivessem num filme de ação. sempre a mil. sempre com sede de mais – outros. analisam-nos pelo que temos para oferecer. são os interesseiros. a forma como podemos gerar sinergias positivas. principalmente se trouxer economia financeira. isso é fantástico. particularmente se também criar amizades tipo pontes: se conhecer aquele gajo é porreiro porque ele conhece o gajo que me interessa – depois temos os anónimos. querem-nos apenas em determinados contextos. quanto mais discreta for a nossa ligação. melhor para eles. acreditam que já estamos um pouco “démodé”. e não encaixamos com a linha moderna dos móveis de sua casa. ou dos seus amigos – portanto passas a ser importante consoante o local. de quem está presente. do estatuto financeiro. e da idade. não da que aparentas. mas a que tens no cartão único – depois temos o confidente. só nos procuram para desabafar. duas horas de telefone e estamos livres para meses. o que nem sempre é mau. o problema é que quando voltam já não gastam duas horas. às vezes. são dois dias – mas os amigos são mesmo para quando são precisos – também temos o conselheiro. procuram-nos para perguntar como estará o tempo na próxima semana. e mesmo sabendo que não tenho uma estação meteorológica. respondo-lhes que o mais certo é estar sol. mas pelo sim. e pelo não. o melhor é levarem guarda-chuva – por fim acabam a perguntar: se for ao casino. aposto no vermelho ou no preto? a minha resposta é sempre a mesma. se fores obrigado a ir a jogo aposta nas duas cores. se não. volta para casa – e termino dizendo-lhe: às vezes tento adivinhar o meu próprio futuro. mas falho sempre – e em grande quantidade temos o digital. não o conhecemos pessoalmente. mas está sempre presente. enchem-nos de likes e corações. sempre aos montes. sem pedir nada em troca. esporadicamente pede-nos unicamente que demonstremos que não somos um computador. e é quando lhe enviamos um like via expresso. e o assunto fica arrumado por uns tempos – no entanto. se os enumerasses. estes estariam no pódio. os mentalistas. são aqueles que. quando lhes digo que não gosto de hienas. concordam. sempre com o seu ar sério. não perdem uma palavra. ouvem tudo sem pestanejar. como se fossem os gurus do universo. mas. por trás. dizem com a certeza que nos conhecem melhor que nós: ai não gosto. gosta. e gosta muito. se pudesse. até as levava a passear na rua. pensa que nos leva na pandeireta. conhecemos bem a sua laia – acreditem. não há nada que possamos fazer. estão tão traumatizados pelas pessoas que lhe surgiram na vida. para eles. apenas a sua própria voz merece crédito – mas o que gosto mais é da amizade dos inteligentes. são aqueles que se acham crânios. dito melhor. génios. são os melhores em tudo. no seu emprego o patrão não subsistia se eles não existissem. se são patrões o mundo sem eles era miséria. acham-se o centro do universo. dominam a política nacional e internacional. embora vivam alheios às páginas que contam o mundo e aos ecrãs que lhe dão voz. são catedráticos das redes sociais. doutorados em quase tudo. só não sabem cozinhar ou coser meias – com estes sabichões não há nada mais a fazer. a solução é ficar em silêncio e abanar a cabeça. fingirmo-nos de burros. ou mortos. e esperar que se cansem – a questão é que envelhecemos. e na maior parte das vezes já não desejamos este tipo de diferenciação. precisamos das pessoas pelo seu todo. simplesmente as melhores. aquelas que sendo inteligentes. se resguardam na simplicidade. sendo ricas cultivam discrição. aquelas que mesmo podendo afastar-se. permanecem por perto. com afetos. com atenção. com cuidado pelos outros. aquelas que perguntam. e ficam para ouvir. não queremos pontes. nem grandes. nem pequenas. só queremos as pessoas como são. sem máscaras. sem adereços. só pedimos respeito. tempo para escutarem. porque o que nos falta nos outros. é só o bem que nos possam oferecer – não pretendemos saber se são ricas ou pobres. se são altas ou baixas. se são bonitas ou feias. pretendemos simplesmente que se expressem com sinceridade. e principalmente. que não desperdicem as suas palavras com pessoas que não lhes interessam – não precisamos de elogios. eu. por exemplo. nunca sei onde os pôr quando mos dão. e acabam quase sempre por pesar mais do que deviam. de tudo o que me possam dizer. o que mais me toca é isto:  és boa pessoa – ser boa pessoa é das poucas coisas leves que ainda vale muito. e mesmo que um dia nos caia o estado de graça. podemos sempre voltar a tê-lo. ser humano é também erro. não preciso que me digam que sou mágico com uma chave inglesa. ou que falo truques com o pensamento. ou sei lá que mais. coisas. inúmeras. a amizade. às vezes. é só isso: presença. estar ali. nada mais. ali – todos gostamos de ser valorizados. mas para fazer efeito. tem de ser na medida certa. senão é como nos darem umas calças uns números acima. caem-nos pernas abaixo – recuso ser avaliado por rótulos de importância. porque isso raramente exige verdadeiro sacrifício ao amigo. não me avaliem nem pela casa. nem pelo carro. bem sei que agora tenho um carro novo. mas é unicamente porque o último partiu o motor. se assim não fosse ainda continuava com o meu ferro-velho. e este. também irá envelhecer. e depois. como estarei eu? novamente esfarrapado? para alguns sei que sim. o sucesso é a ostentação – confesso-vos com humildade. eu tenho pouca coisa que se recomende nesse mundo de aparências. a única obra que considero um feito. a minha maior obra-prima. é a minha família. e ainda não está terminada. creio até que nunca estará. é ali que mora a amizade verdadeira. quando a construímos no seu seio com solidez. torna-se muito mais fácil levá-la aos outros

 

 

2.     quando os amigos calam

os amigos de hoje parecem a suiça. sempre neutros. nunca dão opiniões. nunca se posicionam. nunca questionam. o que eles querem mesmo é darem-se com todos. como se isso fosse possível. como se os valores essenciais da existência pudessem ser neutros. e depois vem aquela velha história: fez-lhe a ele. mas eu sou diferente. a mim não me faria – pois bem. eu já estou naquela fase das avaliações objetivas. e também já percebi que. “vemos nas costas dos outros as pancadas que devíamos ver nas nossas” – em tempos tive um amigo que me fez uma sacanice. foi de tal maneira grave que quase me atirou para a miséria. podia ter acabado completamente com a minha vida. a vida dos meus filhos teria mudado drasticamente. teriam saído das escolas privadas. possivelmente passariam por graves problemas financeiros. a minha casa teria implodido. eu com ela – resistimos porque as suas fundações tinham sido erguidas com lealdade e amor – mas o ser humano é surpresa. e quase sempre. infelizmente. para pior. e este… nem sei muito bem o que lhe chamar. este homem doente. se me tivesse feito a sacanice porque precisava de sustentar a sua família. ou o seu negócio estivesse a correr mal e precisasse de o salvar. ou qualquer outra coisa mais mortal. salvar a vida de alguém. ainda poderia tentar compreender. mas não. não foi nada disso. um tipo rico. que cresceu comigo. vizinho de infância. frequentava a sua casa sempre que havia celebrações. casamentos. batizados. aniversários. com um lugar de topo numa empresa camarária. a ganhar imensamente bem. casa na praia. barco. carros de alta gama. viagens sem fim. férias várias vezes ao ano. não lhe faltava nada. exceto algo que. para ele. era imensamente valioso: ter mais dinheiro que os seus amigos – mesmo tendo tudo. ainda não era suficiente rico para os acompanhar – aqui volto ao texto que escrevi recentemente. em que falei de invejosos com esta definição: “um invejoso vive em permanente desassossego. um ressentimento constante. e ao fim do dia descansa no inferno ao lado de satanás – se o amigo ou vizinho faz aviõezinhos de papel. é porque quer ser astronauta; se joga o euromilhões. é porque quer comprar o iate do abramovich e estacioná-lo na rotunda mais próxima; se assopra preservativos. é porque quer ser balonista; se abre os braços. é porque quer ser gaivota – um invejoso é uma alma extraviada. doente. vê nos outros o que realmente medra dentro de si – na vida de um invejoso só há ambição desmedida. doentia e perigosa – a cobiça medíocre de um invejoso nasce da sua vaidade”. in a inveja é um visa vencido”. então. para ele. a solução seria acabar com a minha atividade. obrigar-me a fechar portas. para que um dos seus parceiros de negócios pudesse comprá-lo por tuta e meia. e como era diretor de uma empresa com fundos públicos. adjudicar-lhe o trabalho e ter direito a milhões de subornos e comissões – não é fácil perder dez anos de uma vida que já não é nova. mas foi o que me aconteceu. zanguei-me. perdi-me na raiva e denunciei tudo ao ministério público. toda a trafulhice. e aqui continuo sentado. à espera que se faça justiça. mesmo acreditando que é aqui na nossa passagem terrena que tudo se paga – precisava mais do que justiça divina. precisava da justiça dos tribunais. mas o meu país é assim: quem rouba uma carteira vai logo preso. mas quem rouba o estado… espera sentado – o ódio cresceu e viveu dentro de mim durante muitos anos. partilhar este caso não me liberta a alma. custou-me imenso arrancá-lo de dentro de mim. adormeci muitas vezes com raiva. magoei-me até à exaustão. persegui-me quase até à morte. senti vontade de o agredir. de o crucificar em praça pública – confesso. nunca foi julgamento fácil. eu conhecia os filhos. a esposa. praticamente toda a sua família. mas uma coisa sei. os filhos não têm culpa de ter um pai assim. nenhum filho merece um pai sem escrúpulos. um bandido – com o tempo a passar fui percebendo que carregá-lo era demasiado pesado. eu não merecia. a minha família ainda menos. e por isso. aos poucos. fui desfazendo na máquina de cortar papel as resmas de raiva que lhe guardava. ainda não o tracei todo. mas já falta pouco. mais umas folhas. e tudo terminará – preciso da secretária limpa – a minha família. principalmente os netos. não podem crescer com o seu avô enleado em ódios. não é isso que nos une como família. é preciso libertar a mente para o amanhã. o corpo para o sol. todos os dias há um novo amanhecer. e um dia diferente à nossa espera. é obrigatório seguir em frente. e que o exemplo do perdão perdure. para os que de mim cresceram – mas o motivo por que vos entreguei este “amigo”. por que o escrevi para vós. é que hoje. o que mais me preocupa. não é o que ele fez. é o que os amigos em comum deixaram por fazer – e o que fizeram?

 

 

3.     quando a neutralidade nos trai

começo como terminei o último capítulo. o que mais me preocupa não é o que ele fez. é o que os amigos em comum deixaram por fazer – e o que fizeram? coisa nenhuma – ficaram calados. imóveis. nem uma pergunta. nem um gesto. e ele pôde continuar a andar por aí. como se nada tivesse acontecido. e obviamente com caminho livre para continuar a fazer o mesmo a outros – não houve censura. preocuparem-se comigo? nem pensar. como se a minha ruína não contasse para nada. nem foi importante saber o que teria acontecido se me tivesse destruído. já não digo a mim. mas à minha família. não me disseram coisa nenhuma. nem se preocuparam em saber se estava bem? nem como te estás a aguentar? fizemos do silêncio a nossa trincheira. foi com a família que segurámos tudo – à volta. uma cerca. para resistir. e resistimos heroicamente – o que cada vez me convenço mais. é que a maior parte dos meus amigos. não teriam o mesmo comportamento se um desgraçado roubasse um saco de cimento. os que são patrões não hesitariam em pô-lo na rua. e os que não são. aplicavam-lhe a xaria. apedrejavam-no em público – por isso. hoje. analiso ao detalhe cada novo amigo. e como escrevi há pouco tempo. não quero perder amigos. mas também já não me esforço por os ter. se tiverem de sair da minha vida. eu próprio lhes abro a porta. sem remorsos – não voltarei a ser amigo de alguém que me catalogue. isto é. sou amigo para ir à bola. mas já não sirvo para o cinema. é um bom amigo para jantar com a maria. mas com o manuel já não dá – que se danem esses pseudos amigos. todos. o meu castelo continua firme. e eu continuo a resistir. a estar todos os dias melhor. e continuando a citar a marisa. “sei que o melhor de mim está pra chegar” – os amigos que se tornarem neutros a partir de hoje. só o serão um dia. não terei mais paciência. nem espaço para desculpa. se alguém me prejudicar. for incorreto. não levar em conta quem sou e o modo como vivo. educado. tolerante. a tentar juntar-me. pedaço a pedaço. de forma mais inteira – estou a aproveitar cada dia para me reconciliar com a verdade que carrego. não tenho que ser igual a ninguém. mas também não permitirei mais que me magoem ou desvalorizem – aos amigos de hoje direi. quem quiser ficar. tem de escolher. não há mais dois lados para mim. não se conseguirão esconder no silêncio. nem na mentira. terão que escolher um lado. mesmo que seja o lado das coisas fáceis. instantâneas. ou o lado do bem que exige esforço. preocupação. camaradagem –  os meus amigos de hoje têm que escolher. ou me querem por inteiro. ou por partes já não estou disponível. não lhes posso dar o melhor de mim à sexta. e depois ao sábado já não dá. porque para mim. domingo vem sempre depois de sábado. não separo os dias como separo pessoas. se não sirvo para umas coisas. então não sirvo para nada. se não me defendem. então. não me servem. nem como presença. nem como ausência – se não me ouvem. então para que falar com eles. se só se lembram de mim para dizerem que não estão esquecidos. então esqueçam-me de vez. não me falem. ignorem-me. aceito a vossa decisão. e até darei valor à vossa coragem – porque é a coragem que nos guia para o certo. e a neutralidade apenas prolonga o erro no tempo

 

 

4.     o que ainda guardo em mim

eu sei que o tempo passou por mim. e a paciência ficou mais curta. não quero à minha volta quem só sabe medir a amizade com régua de interesse. sei que não posso ser amigo de toda a gente. chegou a altura das escolhas. cada um sabe o lugar que ocupa. não tenho casa na riviera francesa. castelo? nem no portugal dos pequeninos. não tenho nenhum navio porque onde vivo não há mar. muito menos foguetão. e se tivesse. iria para onde? o que levo comigo está cá dentro. e chega. chega bem. e cada vez tenho menos espaço para acolher as novas vivências que me vão surgindo. e também confesso que. às vezes. para guardar o novo. tenho de deixar ir memórias que me eram queridas – por isso peço: se sentirem que estão em mim sem merecer vão. libertem-me. libertem-se. só quero viver leve. sem sobras do que ficou para trás – há quem diga. como nietzsche. que a amizade é uma força que nos desafia. e é disso que preciso – e é exatamente o que espero dos amigos. que me ajudem a sarar o passado. e que estejam no meu futuro. limpo. sem peso. com verdade

 

12/07/2025

lições silenciosas de um pai e de um filho

 




tinha eu os meus 18 anos. mais coisa. menos coisa. quando conheci o meu amigo josé luís medeiros – na altura. começava a aproximar-se da irmã de um amigo… mas isso já é noutra história – esse amigo acabou por tornar-se meu cunhado. mas foi ele quem me abriu as portas daquela família – com o zé luís veio também a sua gente: irmãs. irmãos. e os pais – eram uma família de gente boa. respeitada. o pai. um verdadeiro cavalheiro. e a mãe. de uma simpatia desarmante – sempre me receberam muitíssimo bem. com calor humano. respeitando sempre a minha juventude. e a falta de saber – árvore boa não dá fruto mau. é isso mesmo. só que na altura eu acreditava que todas as árvores davam gente honrada e digna. o tempo trouxe as desilusões – o que vos quero contar ficou comigo para sempre. está na minha gaveta de ensinamentos. foi algo que me ajudou a ser o que sou hoje – o sr. medeiros. de vez em enquanto. convidava os filhos para tomar um café. eu como amigo também os acompanhava. e lá íamos no seu carro de seis lugares. um ford taunus 15M de cor vermelha. todos como se fôssemos para uma festa – nós éramos a festa. a juventude tem destas coisas. sem preocupações e sem medo do dia de amanhã – o problema. é que o sr. medeiros. nos últimos anos. talvez com a reforma. abusava um pouco da bebida. um homem quando perde o relógio biológico fica à deriva no tempo. às vezes é o trabalho que nos completa – fomos então todos para o bom jesus. ao comando do volante o sr. medeiros. seguia um pouco aos esses. por vezes demasiado mesmo. naquele tempo o julgamento popular era suave. o álcool era aceite. era uma droga boa. a polícia era pouca. e que eu me lembre. não havia bafômetro. o que pediam era a carta de condução e o livrete – quando estávamos a chegar ao santuário do bom jesus. já de noite. não distinguiu bem a estrada e entrou por um atalho em terra que quase nos fazia cair numa estrada mais abaixo – o filho em pânico gritou trava. cuidado. para. e o sr. medeiros. meteu os pés a tempo do desastre – e é aqui que começa verdadeiramente a história. quando se esperava um ralhete do seu filho. ou até que se sentisse envergonhado pelos seus amigos. não. tratou o pai com uma meiguice. com um carinho. não o reprendeu. nem lhe disse nada que o magoasse. pelo contrário. acalmou-o. à saída do carro ficou ao seu pé. e fomos então tomar o nosso café – os filhos não foram capazes de lhe dizer nada. trataram-no como se deve tratar um pai com fragilidades. afinal. com todos os seus defeitos. ou problemas. o álcool é muitas vezes uma doença. foi ele que lhes deu vida – foi talvez um dos gestos mais bonitos que a vida me ofereceu. e logo de um amigo – fiquei para sempre grato por esse dia. o zé luís ainda hoje é um homem de bem. e eu não acredito que homens assim apareçam por acaso. é preciso ter por detrás uma família também excelente. sem esse suporte ninguém envelhece a sorrir – gosto de escrever memórias. mas esta crónica não é só passado. é também presente. é gratificação por ter estado no lado certo no meu crescimento. estar bem rodeado é fundamental para envelhecer com esperança. e é também uma forma de mostrar aos meus filhos que o critério para se guardar os amigos não pode ser só festas e sorrisos – a nossa vida seguiu caminhos diferentes. mas o rasto da gente boa nunca se apagou e hoje. já envelhecido por fora. percebo que são estes bons exemplos que nos fazem crescer mais perto do bem. do céu se existir. ou do universo – também me faz lembrar o meu pai. era também ele um homem bom. o melhor que conheci na minha vida. e sei hoje que os meus filhos são também especiais. são homens bons. amáveis. carinhosos. preocupados sempre com os seus pais – apesar de todas as amarguras que a vida me trouxe. continuo a esperançar para o que vem amanhã


27/06/2025

não fiques parado

 




não fiques parado

se não souberes correr

caminha

se não souberes caminhar

rasteja

se não souberes rastejar

sonha

mas não pares

ainda que não saibas como

segue inteiro

grava-te no tempo

escreve-te no mundo

sonha

 

vai

vai sem partires

e volta sem chegares

 

não fiques parado

se o medo te sufocar

ou a timidez te silenciar

lembra-te:

um dia o corpo falecerá

o teu nome será pó

e os sonhos esquecidos

por isso vive

caminha. erra. sonha

o resto nasce de ti

 

vai

vai sem partires

e volta sem chegares

 

confronta-te por dentro

remexe-te

enraivece-te

enfrenta-te com coragem

e quem sabe

um dia

os medos cedem

as pernas aprendem a correr

os sonhos começam a voar

 

vai

vai sem partires

e volta sem chegares

 

e tu. humano nobre

alma livre

serás lembrado

não pelo erro

não pela glória

mas por viveres sem temor

 

vai

vai. mesmo sem partires

volta. mesmo sem chegares

vai

 


09/06/2025

um único dia certo

 



tal como simone de beauvoir. “a impressão que tenho é de não ter envelhecido”. mas ao contrário dela. eu ainda não me instalei na velhice. apenas envelheci. por fora. talvez um pouco. mas por dentro estou parado num dia. no dia em que ainda vivo – às vezes. quando estou mais ousado. viajo ao verão de um dia quente da juventude. e interrogo-me: o que trouxe desse dia para o presente? e a resposta é: este único dia que me habita – pelo meio. nada. nada porque estou a lembrar o agora. porque o agora é o único momento que reconheço como real. nele sou jovem. o espelho mostra apenas o que foi preciso atravessar para aqui chegar – ao único dia em que me dou como vivo. este em que escrevo. e continuo jovem. porque sei que em mim reside a soma de todos os momentos – sou o que construí e ninguém viu. a família que formei. as contradições. os amigos conquistados. os que perdi. o que aprendi. e o que deixei de aprender por não ter tido tempo. ou por leviandade – não se pode aprender muito num dia de vida. é tudo tão difícil. somar é apenas juntar. e o que sou com esta soma? sou este dia em que vivo – sou também um vazio que por ser isso mesmo. ainda nenhum dia conseguiu preencher – nada se vê do que guardei em mim. por isso é que os que ainda não fizeram as contas do tempo. acham que envelheci. mas não. eu apenas vivi o que somei para dentro de mim – eu nunca envelheci – ainda me movo com a leveza de outrora. só que hoje. tudo acontece num único dia. e se no passado sonhava dia e noite. agora sonho só quando tenho a certeza de que nenhum sonho se prolongará para amanhã – por fora sou apenas o que ninguém vê. tentam ler-me por sinais que não compreendem. e medem os meus dias a partir do dia em que vivo – eu apenas sei que este momento que estou a viver é o único que dou como certo – vivo. tudo o resto. não sei. às vezes foi um sonho. outras um pesadelo. e a única prova de que vivi. é este instante que é meu – está quase noite. e vou ter que fechar os olhos. e por certo tenho as estrelas. mesmo que não as veja. estarão num lugar onde nunca fui. tal como o dia de amanhã. também nunca lá foi. mas se para as estrelas sorrio e aceno. para amanhã. aplaudo e agradeço. porque se lá chegar. será o único dia certo. aquele que me pertenceu por inteiro. porque o futuro. está na minha pele. nas rugas. e nas cicatrizes. mas dentro eu sei que a qualquer instante o dia seguinte se perderá. e eu ficarei para sempre num único dia. onde vivi e deixei de acrescentar aquilo que os outros me dão – recolher-me-ei entre sombras. e nesse descanso. serei para sempre inteiro em mim. e tudo o que alcancei ficará ali. naquele fim. e acredito. por ser um humano do universo. que será naquele microssegundo que fundirei a alma com a liberdade para sempre – e foi este mundo que construí. e nele deixei tudo o que era meu de verdade. almas minhas que como eu nunca envelhecerão. o que vem de nós não envelhece – nunca as libertei por mais que partissem – ninguém consegue desligar-se de parte de si sem se magoar. ou perder-se em procuras desencontradas – se um dia me instalar na velhice. o que não creio aos meus olhos. em mim tudo será ausência do que sou. porque pela noite. as estrelas por lá continuarão. e eu. se não souber voar. sonharei. e cubro-me com a certeza do dia que vai chegar – sou apenas este dia. não tenho idade. tenho um único dia para me afirmar vivo – e assim fiz-me gaivota. e o vento fez-se em mim poesia. tudo o resto perde-se no tempo. e todos. mesmo aqueles que ainda não somaram o tempo. vivem um único dia. aquele que estão a viver – tal como comecei esta crónica. termino também com um pensamento de simone beauvoir: “a pessoa não é nada além do que faz de si mesma”



28/05/2025

deambulações noturnas LXVIII




vicent van gogh


depressão lenta. tão lenta que já não é depressão. é apenas repressão violenta para que o sol não nasça


 

24/05/2025

quando os melhores partem cedo

 

 

1. código invisível

sei que cheguei ao dia de hoje. mas. na verdade. não sei se chegarei ao amanhã. a vida é uma tômbola. com prémios valiosos e ingratos. e fico a pensar: somos nós que escolhemos o prémio. ou será o prémio que nos escolhe? às vezes quero acreditar que o nosso destino já vem acertado com a hora de nascimento: nascemos. e na primeira golfada de ar recebemos um número em código de barras. como se. naquele instante. o percurso ficasse definido. e nos marcasse para sempre – a partir daquele momento já não podemos fazer mais nada. as virtudes e os defeitos estão inscritos no DNA do código – não há livre arbítrio. somos o que somos. e por mais que tentemos ser diferentes. não mais será possível – noutras ocasiões. acredito que somos nós a escolher o caminho. não todos. mas aqueles que já vêm associados aos nossos pais. afinal nós somos o somatório dos dois. por vezes somamos o melhor deles e acabamos por nos acrescentar. somos um pouco melhor do que a soma das partes. outras. somamos as partes piores e acabamos por apanhar uma ruela em vez de uma avenida. e os pais dizem: não sei a quem sai este miúdo – claro que para isso vai contribuir muito as opções que fazemos durante a vida. o meu lema é sempre este: faz o que está certo no momento certo. mais cedo ou mais tarde serás recompensado – é verdade que há quem faça asneiras a vida inteira e nada lhes aconteça. é o tal fator que não controlamos. às vezes é sorte. outras é um acaso cruel – ter o tempo a nosso favor nos momentos certos é muitas vezes a razão de estarmos vivos. vamos ao dentista por causa de uma cárie. e ele descobre um cancro ainda numa fase inicial. seis meses mais tarde estaríamos irremediavelmente mortos – a sorte é o pêndulo que faz com que o nosso coração bata certo mais tempo – mas muitas vezes interrogo-me. por que raio é que quem realmente merece viver parte sempre primeiro. enquanto os trastes ficam? nos dias em que estou no melhor de mim. como canta a marisa. acredito que é apenas por terem menos sorte. outras vezes. prefiro acreditar que essa gente menor consegue ludibriar o azar. e até passá-lo aos melhores. ladrões de sorte. que se alimentam da dos outros – lembro-me perfeitamente do meu tio joão. cinquenta anos. uma alma boa. inteligentíssimo. com uma paciência de santo para me aturar. tinha eu os meus vinte e poucos anos. revestido de sabedoria. vaidoso. arrogante. dono do mundo. e ele. sentado num sofá. sustentava toda a minha soberba com o seu shot de whisky. e gole a gole. lá me ia ouvindo no meio do meu ruído. aturando-me. como se já soubesse que a parvalhice da juventude passa com o tempo – e. de um dia para o outro. partiu. sem uma palavra. ficámos sem saber o que fazer. sem perguntas. sem respostas. só ficou o silêncio – gostamos sempre de dizer que deus o quis levar para junto de si. como se ele lhe desse atenção. era um homem livre. da esquerda marxista. e os afazeres de deus não eram coisa que o preocupasse – não sei se foi ter com ele. mas a família perdeu-o e eu senti a sua falta – depois. não haveria forma de escrever esta crónica sem o mencionar. o meu pai. um homem generoso. bondoso. digo. verdadeiramente bom. com uma capacidade única de empatia com quem quer que fosse. sempre com uma palavra gentil para oferecer. genuinamente preocupado com a sua família. com os seus colaboradores. honestíssimo. mesmo quando lhe custava caro. nunca se desviava do que era justo. presente para os mais vulneráveis. com uma ligação natural para compreender os mais novos. especialmente o seu filho. a seu lado não havia tristeza. ele era paz. era luz. morreu já com alguma idade. porque ninguém é novo aos setenta e três anos. mas para nós. já se despedira quatro anos antes. e nesses quatro anos. foi submetido ao impensável. agonizou até deixar de ser ele. e passou a ser apenas dor – foi muito difícil acompanhá-lo nesse período. confesso-vos. muitas vezes quis pôr fim àquela dor – não merecia – a doença foi tão cruel que nunca mais envelheci com elegância. envelheço com medo – mas há pouquíssimo dias uma pessoa que conheci recentemente. não posso dizer que era chegado. mas já tínhamos jantado juntos na companhia de amigos. com cinquenta anos. deitou-se e o coração pregou-lhe uma partida. parou – não fumava. não bebia. atleta. elegante. praticava desporto. tinha um comportamento exemplar. e por comportamento exemplar quero dizer: viver segundo as regras de uma vida saudável – só não sabia que precisava de ter mais cuidado com a própria sorte. talvez mais análises. mais exames. daquelas que os que prevaricam fazem sem que os justos saibam. e assim. talvez. ganhar mais tempo – ninguém merece morrer com cinquenta anos. principalmente quando um homem deixa uma filha menor. não há justiça. como se deixa uma mãe sozinha para acompanhar o crescimento de uma filha? quem lhe vai segurar a mão quando ela subir ao altar? quem a vai ver crescer? quem a vai proteger? nunca poderá ser o pai. nunca mais poderá dar um conselho. receber um último beijo. ou ouvir um 'gosto de ti'. não terá direito a uma despedida. nem mesmo a um 'até já' – neste mundo não basta fazer tudo certo. às vezes desperdiça-se o valor silencioso de cada dia. e os mais sensatos. por vezes. não têm tempo de perceber que algo não está certo

 

2. carolina e as ausências

eu não sou um homem crente. às vezes tento. mas não consigo. porque haveria deus de me dar atenção? porque haveria de eu ser diferente dos outros? se por cá ando é apenas por uma questão de sorte. ou pelo código de barras. ou talvez o meu lugar no nível seguinte ainda me esteja barrado. não ganhei os anéis douradas necessários. não sou o famoso ouriço azul. o sonic. ou não terminei a minha missão. algo que ainda falta cumprir. não sei. nem quero saber. não tenho a mala feita. ainda quero dar mais alguns abraços. cumprir a minha prova de vida com a minha família. com a minha nova neta carolina. nome de minha mãe. levar-lhe a minha voz. a pele. mostrar-lhe o sorriso. falar-lhe dos bisavós. de nós. do sentido da nossa família. mostrar-lhe o meu mundo. os lugares onde fui. e os que me faltaram ir por falta de tempo. trepar a uma amendoeira em flor e apontar-lhe as estrelas. uma é dela. gravei-a com um S grande. S de sorte. de saber. de sentido de responsabilidade. de sensibilidade. de sacrifício pelo que é certo. um S grande de sol. luz. porque todo o caminho tem de ser trilhado com luz – por isso não entendo porque leva deus as almas justas mais cedo. se deus nos ama. se nos perdoa tudo. se aos seus olhos nenhum vale mais do que outro. então qual será a razão para nos fazer sofrer tanto. porque deixa órfãos. filhos condenados a viver para sempre com a ausência inesperada dos seus protetores – crente ou não. o que peço é que a carolina cresça sempre resguardada e amparada pelos seus pais. que sejam o seu farol. iluminando-lhes o caminho com saber e ternura. e que assim a ajudem a tornar-se numa mulher adulta. feliz e realizada


 3. a flor que deixamos

e aqui cheguei. hoje. perdido em interrogações. cansado de procurar respostas em sítios onde só crescem dúvidas. mas há momentos. principalmente nos dias em que sou um bocadinho crente. quero acreditar que a nossa vida é um jogo. tipo o sonic. e que durante a vida vamos apanhando anéis. e quando atingimos uma certa quantidade. passamos para outro nível. é como se. ao nascer. entrássemos noutra etapa de existência. isto é. quando tivermos cumprido o percurso com distinção: ética firme. moral íntegra. fomos justos nas escolhas. generosos nos gestos. leais nas intenções. e amámos com verdade. com entrega. com tudo o que sabíamos dar. então. deus. ou o universo. ou no que acreditarmos. chama-nos para uma outra etapa – e partimos. ficamos saudade. fazemo-nos fotografia para sempre. calamos os gestos. os sorrisos. os abraços. e se tivermos vivido com inteireza. em certos momentos. voltamos à vida nas lágrimas – a recordação é a única lápide que não se apaga – depois. fico a pensar. mas há exceções. como a teresa de calcutá. mahatma gandhi ou chico xavier. e interrogo-me... por que razão permanecem essas pessoas mais tempo entre nós? não sei. ninguém sabe ao certo. mas quero acreditar que essas almas são… um tipo de pastores. que conduzem as ovelhas pelos prados. dão-lhe um propósito. protegem-nas dos perigos. e juntam-nas para que. unidas. se tornem mais fortes. que não se tresmalhem. que não se percam por caminhos erráticos – são estes guias de bondade na terra que nos conduzem. sem nos forçar ao lado certo das coisas – são eles que nos ajudam a encontrar a sorte mais facilmente. a corrigir caminhos. e muitas vezes. são também eles que nos ajudam a encontrar os companheiros certos para a nossa jornada de evolução na terra – sem as pessoas certas nunca seríamos quem somos. nunca deixaríamos saudades. ninguém sentiria a nossa falta na hora da despedida. ninguém choraria por nós – nós chegamos a este mundo como semente. e semente deixámos. o que levamos connosco é o sentimento profundo de que um dia fizemos uma flor sorrir. às vezes um jardim – nada mais

 


16/05/2025

a inveja é um visa vencido

 

 


um invejoso nasce amargurado. cresce frustrado. e envelhece depressivo. para mais fácil compreensão. como li há uns dias numa publicação do facebook. diria que é um transocial: nasceu com alma de rico num corpo de pobre – haverá mal pior do que estar encarcerado num corpo sem um cartão visa? para o invejoso esse castigo é a mãe de todos os castigos – resta-lhe a mentira. a desculpa repetida. o azar constante. o casamento trágico. e mais uns quantos dissabores. com amigos. vizinhos e colegas de trabalho – o mundo é uma treta. sobeja apenas energia para não fazer nada. para encontrar um duende que não resolva a vontade de prosperar. mas a fuga para o futuro num sofá – felizes daqueles que nascem pobres num corpo igualmente pobre. como a maior parte dos humanos – este pobre. frequentemente ignorado e incompreendido. tem apenas um cartão de débito. e o hábito de ver o saldo todos os dias. não vá um vírus roubar-lhe a dignidade para o mês – com a barba por fazer. pelos crescidos e ensarilhados. tal como os dias. pele desbotada. pálpebras caídas. cabelo esgadelhado e a pedir chuva. resiste com a sua cruz – sorriso apagado em meia dúzia de dentes soltos ao único céu que conhece. falta de colgate? pouco importa. já não encontra necessidade de sorrir. a vida é apenas temor – calças esfarrapadas. mas na moda. sapatos cambados a fazer pandã com uma camisola tingida num amarelo desmaiado. como a sua pele. e um número estampado à frente: 176-671. parecida com aquelas que usavam os irmãos metralha nos antigos almanaques da disney – afirmaria com toda a amplitude da palavra: um homem amarrotado. por dentro e por fora – desanimado com a existência miserável que o cartão de plástico lhe oferece. quase sempre sem saldo mesmo trabalhando sol a sol. por onde passa o alarme ecoa sempre. como uma sirene a anunciar perigo. e quem se cruza com o pobre amarrotado. rapidamente deita a mão aos haveres. não vá o desgraçado sofrer do mal da mãozinha leve – bem podia ser um foragido da cadeia de vale de judeus. e nada ficaria a dever a uma noite de halloween. tudo nele é terror e medo – mas não. é apenas um dos muitos homens que trabalham duro. para poderem dar apenas mais um pouco aos filhos do que os seus pais foram capazes de lhe dar – mais um escravo da industrialização. da economia global. e agora da IA – o seu maior defeito é não ser invejoso. se fosse. possivelmente. já teria um visa dourado na mão – nada como ser invejoso. esta espécie sobrevive à custa do desenrasque.  da aldrabice. e da chico-espertice – um invejoso vive em permanente desassossego. numa raiva constante. e ao fim do dia descansa no inferno ao lado de satanás – se o amigo ou vizinho faz aviõezinhos de papel. é porque quer ser astronauta; se joga o euromilhões. é porque quer comprar o iate do abramovich e estacioná-lo na rotunda mais próxima; se assopra preservativos. é porque quer ser balonista; se abre os braços. é porque quer ser gaivota – um invejoso é uma alma extraviada. doente. vê nos outros o que realmente medra dentro de si – na vida de um invejoso só há ambição desmedida. doentia e perigosa – a cobiça medíocre de um invejoso nasce da sua vaidade – temam os invejosos. mas não se deixem desumanizar. é preciso viver. acreditar na solução da raça humana. e nos entretantos. proteger os bons do mau-olhado. um dente de alho pendurado ao pescoço e rezas ao zé pelintra – porque enquanto houver quem resista. haverá sempre um futuro possível

 


11/05/2025

deambulações noturnas LXVI



pintura - google

 

o escritor é um comunicador silencioso. um hermafrodita grávido de si no tempo – escrevo para que não desista de ser feliz. mas mais do que ser feliz. escrevo para existir além do tempo – só as palavras o encontrarão no futuro