antónio lobo
antunes diz que é um carpinteiro das
palavras – há qualquer coisa de mágico nesta frase – a palavra carpinteiro
devolve-me a um passado tranquilo – em catraio. lembro-me do meu pai chamar o
carpinteiro a nossa casa – na maior parte das vezes não era para coisa de
monta. corrigir um empeno numa porta. destravar uma gaveta encalhada. coisas da
humidade – a madeira inchava no inverno. recolhia-se no verão – a solução era
simples: tirar umas raspas. endireitar o mundo – as vezes surgia um trabalho
mais sério. carote. um bisegre para um canto esquecido da sala. exigia tábuas
bem trabalhada. mãos seguras. tempo – não havia máquinas. as mãos eram
tecnologia. ferramenta e arte – para chegar a artesão. o caminho começava cedo.
bem antes de a quarta classe terminar – a escola ensinava pouco mais do que
tirar medidas a olho – muitos largavam os estudos cedo. era preciso trabalhar.
ajudar em casa – não havia dinheiro fácil. a única solução era encontrar uma
profissão. começar a aprendê-la desde cedo. quase sempre pelo seu progenitor.
que lhe servia de mestre até ao fim dos seus dias – começava-se pelas tarefas
menores – vinham as reprimendas. os puxões de orelhas. ameaças de tareia. com o
tempo. o artista compunha – depois dos vinte e um. os mais persistentes
tornavam-se mais do que carpinteiros. eram marceneiros – era agora um pouco
mais do que carpinteiro: tornara-se marceneiro – era o topo da profissão. vinha
o orgulho. o salário melhorado. se seguida. o casamento. e o respeito – eram
mestres- faziam móveis. e formavam homens – em minha casa. a coisa
complicou-se. um canto da sala estava por preencher – a minha mãe não aguentava
mais – ouvia-a muitas vezes dizer
-- isto
assim não está nada bem. é urgente arranjar um novo móvel para aquele canto – é
uma vergonha receber visitas com esta sala – imagina o que irão dizer
dito isto. não havia escapatória –
o meu pai encomendava mais um móvel – lá aparecia o homem de bata cinza-triste.
enfeitada com aparas perfeitas. alinhados como decoração – a minha mãe
explicava. o mestre acenava. afirmando o seu bom gosto. em intervenções
cirúrgicas – e lá ia dizendo o homem das madeiras
-- a
senhora sabe o que quer. tem bom gosto – ainda o mês passado fiz um igual para
o dr. zenha – a senhora sabe quem é não sabe?
perante um silêncio prolongado.
acrescentava de imediato
-- tem
consultório em frente ao jardim santa bárbara. é um grande médico. um dentista
que estudou em coimbra – dizem que é um grande médico e muito boa pessoa. sem
querer desfazer
a minha mãe acenava – nunca soube
se a certeza – mas logo voltava ao essencial:
-- não
quero daquelas madeiras ordinárias. quero castanho. bem seco – se empenar. leva
tudo de volta – um móvel tem de durar. não é coisa para meia dúzia de dias
o meu trabalho é sério. tem a minha
palavra – o mestre garantia
-- se
alguma coisa não estiver ao gosto da senhora. basta chamar-me. resolvo na
hora
sempre que recebia-mos uma visita.
a minha mãe fazia questão de comunicar em tom grave:
-- é tudo
em castanho. até as forras das costas. não quis nada em tabopan
e continuava a sua dissertação
sobre a qualidade das madeiras. e o seu bom gosto:
-- foram
caros. mas valeu a pena. são móveis para toda a vida
não foi verdade. os móveis já se
foram. a minha mãe ainda cá está. mas nunca vi caruncho no castanho. aprendi
mais tarde que não era só cor. era a árvore. castanheiro – coitadas das
castanhas. mortas para móveis – estes homens. mestres. faziam tudo: mesas.
cadeiras. cómodas. camas. as camas tinham nomes de reis. d. josé. d. maria –
nunca percebi porque um rei dava nome a uma cama. mas quando vi a do d. josé.
percebi. era majestosa. bilros torneados à mão. o problema era o pó –
felizmente não meu – sempre que tínhamos uma visita lá ia a minha mãe mostrar
as mobílias. o meu pai dois passos atrás. e quando chegava ao quarto dizia:
-- é do
estilo d. josé. toda em carvalho. custou-nos uma fortuna
o meu pai acenava com a cabeça em
concordância – não podia ser de outra forma – uma mobília com aquele aparato de
curvas e contracurvas não podia ter sido inspirada num rei qualquer – o
problema era o pó. felizmente isso não era comigo – os mestres usavam bigodes fartos. cheios de
serrim. conferia-lhes o ar de artesões veteranos – na orelha. um lápis enorme.
geométrico. servia para tudo. mediam a olho. anotavam riscos indecifráveis –
escrita de talento – no fim. o nível. encostado à parede. um olho fechado.
outro aberto. suspiro indefinível. ninguém sabia se era sinal de desgraça ou de
aumento do preço final. franzia o sobrolho e murmurava entre os dentes
-- vai ser
o diabo
tudo era anotado em papel de
cartuxo. cinzento. com duas riscas azuis. o mesmo papel servia para os galos na
testa das crianças – água. compressa. espera. já não cresce mais
-- podes
tirar. já não cresce mais. agora estás pronto para outro trambolhão
tudo se curava com amor – ninguém era rico. não havia carros caros. nem marcas. nem fins de semana prolongados – descanso era domingo. missa. roupa lavada. peito aberto. bigode aparado. brilhantina. dignidade – ao lado da sua esposa. discreta. orgulhosa. não tinha só um homem. tinha um mestre – tenho saudades desse tempo. da juventude da minha mãe. do cuidado do meu pai – em minha casa a honra sentava-se à mesa e esse orgulho ainda hoje me acompanha
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