tratem-me por sampaio – eu sou o que penso. e
tudo o que penso torno em dúvida – mas se duvido. acrescento – isso é certo.
digo eu sem certezas – às vezes virtude. outras terror – peneiro a mente. e na
rede fica a insatisfação – que consolo procuro na certeza se a vida é ela
também incerta? procurar até que o nada exista – é a única palavra que me deixa
descansar – se não sou nada. então não vale a pena pensar em mais nada – mas
depois interrogo-me: para onde vai o nada? o nada é um buraco negro no cérebro
que suga tudo – noites em branco. braços esticados para fora do lençol. as
pernas dobradas. e no teto escuro o sonho pendurado num fio de luz imaginário –
insisto no nada. insisto até que o corpo faleça de procurar uma certeza – de
manhã levanto-me. encontro-me no espelho. deixo a água correr pelo rosto. corto
a barba. sempre contra o que sai de mim. arreguilo os olhos. um vê o que o
outro não vê. o vapor da água escorre pelo espelho. e quando dou conta
desapareço – sou outra vez nada – os anos passam. o espelho sempre a
envelhecer. e eu por dentro igual. não envelheci – amanhã estarei vivo? tenho
dúvidas. todos os dias morrem milhares de pessoas. porque não eu – calço os
sapatos. às vezes ao contrário para teimar com a dúvida. e interrogo-me:
doem-me os pés? o mais certo é ter calçado os sapatos ao contrário –
possivelmente não é dor. é cisma – e logo acrescento: a cisma é pior do que uma
doença – e acrescento outra vez: é a vida – saio à rua – talvez procure nos
outros uma resposta que não encontro em mim. mas ninguém parece preocupado com
a minha dúvida – passam carros. pessoas atravessam a rua. alguém leva um saco
de pão. um cão cheira um poste como se soubesse exatamente ao que veio – e eu
ali. espantado com a facilidade com que o mundo continua – talvez a vida seja
isto. não precisar de saber para continuar – caminho um pouco. sem destino.
depois volto para casa. não trouxe nenhuma certeza comigo – rapo de um cobertor
imaginário e enrolo-me. preciso de aconchego – nada substitui um cobertor para
nos fazer sentir invisíveis. é quando digo para mim: sou sampaio. o que posso
fazer para deixar de ser o que sou? nada. porque se deixasse de ser esta
dúvida. não me chamaria sampaio – sou o que sou. é assim que tenho de gostar de
mim
Sem comentários:
Enviar um comentário