09/10/2026

se duvido. acrescento

 




tratem-me por sampaio – eu sou o que penso. e tudo o que penso torno em dúvida – mas se duvido. acrescento – isso é certo. digo eu sem certezas – às vezes virtude. outras terror – peneiro a mente. e na rede fica a insatisfação – que consolo procuro na certeza se a vida é ela também incerta? procurar até que o nada exista – é a única palavra que me deixa descansar – se não sou nada. então não vale a pena pensar em mais nada – mas depois interrogo-me: para onde vai o nada? o nada é um buraco negro no cérebro que suga tudo – noites em branco. braços esticados para fora do lençol. as pernas dobradas. e no teto escuro o sonho pendurado num fio de luz imaginário – insisto no nada. insisto até que o corpo faleça de procurar uma certeza – de manhã levanto-me. encontro-me no espelho. deixo a água correr pelo rosto. corto a barba. sempre contra o que sai de mim. arreguilo os olhos. um vê o que o outro não vê. o vapor da água escorre pelo espelho. e quando dou conta desapareço – sou outra vez nada – os anos passam. o espelho sempre a envelhecer. e eu por dentro igual. não envelheci – amanhã estarei vivo? tenho dúvidas. todos os dias morrem milhares de pessoas. porque não eu – calço os sapatos. às vezes ao contrário para teimar com a dúvida. e interrogo-me: doem-me os pés? o mais certo é ter calçado os sapatos ao contrário – possivelmente não é dor. é cisma – e logo acrescento: a cisma é pior do que uma doença – e acrescento outra vez: é a vida – saio à rua – talvez procure nos outros uma resposta que não encontro em mim. mas ninguém parece preocupado com a minha dúvida – passam carros. pessoas atravessam a rua. alguém leva um saco de pão. um cão cheira um poste como se soubesse exatamente ao que veio – e eu ali. espantado com a facilidade com que o mundo continua – talvez a vida seja isto. não precisar de saber para continuar – caminho um pouco. sem destino. depois volto para casa. não trouxe nenhuma certeza comigo – rapo de um cobertor imaginário e enrolo-me. preciso de aconchego – nada substitui um cobertor para nos fazer sentir invisíveis. é quando digo para mim: sou sampaio. o que posso fazer para deixar de ser o que sou? nada. porque se deixasse de ser esta dúvida. não me chamaria sampaio – sou o que sou. é assim que tenho de gostar de mim

 


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