hoje é sábado – o pior do sábado é chegar antes do
domingo – às vezes pergunto-me: fizeste tudo o que podias fazer? depois
desisto. não dá para mudar o passado. nem os sábados que passaram – resta-me
este – levo-me em paz. já não me sento no banco dos réus. aceito este sábado
tal como ele é. talvez seja a forma que encontrei de me aceitar também – às
vezes só tenho motivos para não mostrar os dentes. mas depois penso: é sábado.
que culpa têm as pessoas da minha vida? nasci livre. e cada caminho foi escolha
minha. ninguém me empurrou. ninguém me enganou – tatuei uma gaivota no braço
para que todos saibam que ainda não morri – eu voo. às vezes baixinho. mas voo
– o sábado é o dia em que filhos. noras. e netos se juntam à volta da minha
mesa – olho para eles. e percebo porque o mundo é redondo – não tem começo. nem
fim este amor – gosto mais de mim quando tenho os meus por perto – talvez
porque já não tenha medo do que chega. o que é realmente meu ninguém me
consegue tirar – não falo da casa. do carro. do anel que foi do meu pai. do
ouro que juntei. dos relógios que amo. dos livros que li. e dos que não li por
falta de tempo – tudo. mesmo tudo. ou se perderá. ou mudará de mãos – não me
preocupa – preocupa-me outra casa – aquela que não tem escritura. nem portas.
nem paredes – esta mesa cheia de gente. as conversas todas ao mesmo tempo. uma
gargalhada de um lado. alguém que se levanta do outro. e o tempo sem pressa a
tecer a vida. os netos a crescer. e nós ali. ainda todos – às vezes pergunto-me
o que ficará daquela outra casa quando eu já não estiver – a que fui
construindo dentro deles sem saber se fazia tudo certo – talvez seja essa a
única herança que me preocupa – saber se quando já não estiver à mesa. alguma
coisa de mim continuará sentada no meu lugar – é tarde – a casa começa a
esvaziar-se – um beijo. um abraço. até para a semana – a porta abre e fecha.
abre e fecha – e eu fico a olhar para a mesa como quem acabou de assistir à
vida – depois procuro a minha companheira – afinal é sábado. vamos cantar.
vamos dançar. ainda estamos aqui – há coisas que envelhecem. o nosso primeiro
beijo ainda não
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