o
tempo é meu. é teu. é
nosso - o meu tempo é só meu – o teu tempo é só teu – o tempo deles é só deles –
todo o tempo é feito do tempo de todos – para mim. o meu é sumptuoso. mas para
os outros. o seu tempo será sempre importante – o meu tempo acrescenta-me idade
e nela encontro o conhecimento de tempos novos – o tempo ocupa espaço. mas só
quando há corpos para o guardar – sozinhos não necessitamos de tempo – o tempo
existe sempre. mas só faz sentido quando há alguém para o partilhar – não temos
ninguém a quem ensinar com o nosso tempo – não há tempo importante. há tempo
com pessoas que ocupam espaço. às vezes é importante. outras vezes. é uma perda
de tempo – o tempo. por si só. não é importante. o que lhe dá valor são as
pessoas que o ocupam – umas acrescentam. outras desperdiçam – muitas vezes há
pessoas que ficam sempre no meu espaço. ocupam o meu espaço. sumptuoso. gosto
delas – todo o tempo coexiste dentro de outro tempo – saber dar tempo ao tempo
que não é nosso não é inteligência. é um dever para com o tempo dos outros
08/08/2011
recado do tempo
04/08/2011
bem te quero - vânia
02/08/2011
vou partir
fecho a porta – dentro ficam mãos à procura do corpo – vou partir – deste lado fora. o corpo procura as horas que correm rápidas. mas sem barulho – o corpo. mais morto do que vivo. procura dar corda aos sapatos. veste t-shirts. calções pelo joelho. barba por fazer. cabelo a tombar para a frente. e uma vontade enorme de desaparecer do mundo das pessoas reais – noitadas. tabaco. cerveja. introspeção alcoólica. e a noite estraga estrelas que se apagam a cada manhã – voltarei a casa. há tempo para tudo. estas mãos nunca sobreviveriam sem corpo. e sem vocês muito menos
01/08/2011
escadas: memórias de uma geração em migalhas
neste agosto rezarei uma ave maria - bem sei que a fé dos tempos de calções curtos. dos sapatos de couro esburacados pela força dos chutos na bola. do suor das correrias. do tempo que não era tempo. do descanso sentado no beiral de um qualquer passeio voltado para uma rua sem carros. de caricas. de amigos de peito. de raparigas com cabelo entrançado e meia branca até ao joelho. tudo terminou – entretanto cresci. e já não vejo homens como eu. com fé. com esperança. os prédios ganharam altura. as ruas tornaram-se reféns dos carros. a polícia apanha ladrões. e até as árvores caíram. não pela força dos ventos. mas pelas mãos de quem teme tempestades. e é assim que. na roda da vida. a liberdade se apaga pouco a pouco – eu também tenho medo. não das tempestades. mas da incivilidade de quem nos aprisiona no presente – e nós. eu e os amigos de peito. uns já mortos. outros vivem a morrer. e eu assisto a tudo. parado. peço a deus que tenha piedade de mim. e deles também - depois. lembro-me que deixei de acreditar em deus. e já nem pai tenho para pedir proteção. é a morte antecipada de uma geração que nunca soube dizer basta – deixamos que nos impingissem tudo. somos assim. às vezes parvos. outras ingénuos. e de palavra em palavra. de lágrima em lágrima. de crença em crença. deixamos os anos correr. como se fossem semanas. e afinal foi só uma migalha de tempo. que um passarinho levou para alimentar um ninho repleto de asas. repleto de sonhos
31/07/2011
cadáver
25/07/2011
doença mental e a cura pela palavra
hieronymus bosch
arte – arte
de escrever. escrever arte – com a minha arte de escrever quero dizer: estou cansado
da arte que não é feita por homens que comigo partilham todas as palavras.
estou farto. [ilustre casa de ramires] – a minha arte só precisa de papel. é
minha. nasce da vida que vivi e do que colhi de quem passou por mim – escrever
é. no fundo. dizer coisas. algumas dessas coisas encontro dentro do corpo. mas.
em pânico. deixo-as cair em papel – confesso que não sou dono desta vontade de
escrever. vem de dentro para fora. sem controle. sem filtros e sem limites –
escrever é uma purgação. a minha forma de evitar o suicídio coletivo dos dedos.
dos ouvidos. dos olhos. dos aromas. e até da boca. possuída pela força do
vómito. que fala sem que ninguém a entenda – escrever é um estado maníaco-depressivo.
faz sobreviver. dá sentido às palavras esquizofrénicas de um corpo são com uma mente
louca – escrevo para me salvar. então parto como os cruzados no tempo das
cruzadas. também quero conquistar o paraíso. mas sei. mesmo com pouca lucidez. que
nunca terei setenta e duas virgens à espera no fim do texto - escrevo porque preciso
de escrever. estou doente. diariamente injeto palavras libertadas de mim. daquilo
que sobrevive em mim. na revolta. na amargura. na dor. na vontade. na expiação
dos demónios que criei – escrevo palavras desprendidas. não das mãos. mas do
meu inferno. uma vontade de expiação que incendeia as mãos. e quando o mundo arde.
eu fico em paz – mas a cabeça já não está igual. sinto-me esburacado.
desfigurado. amargurado. e os amigos perguntam: ele escreve o quê? mas para os corvos. eu sou apenas alguém que
sabe juntar as letras do abecedário. e gargalham – bem queria saber escrever arte.
mas o que sinto dentro desta cabeça é confusão. o sujeito em luta com o
predicado – saudável. penso nos momentos em que sou capaz de dizer: não
escrevas mais – mas não adianta. este cancro cresce. não consigo estripá-lo.
talvez um dia me mate. ou talvez me espere um colete de forças. paredes brancas.
e seringas a baloiçar. entre cair e não cair. e a salvação venha de um homem
vestido de branco a dizer: tome tudo de uma golada. ou corte o fio de uma
seringa. e nunca mais reconhecerá as letras. nem a vida. nem os amigos – no fim.
restará apenas a esperança de morrer voltado para o mar. olhando uma gaivota
cinzenta a cortar o vento de norte para sul – sou louco por palavras que
significam tudo e nada ao mesmo tempo. talvez esteja doente. talvez
maníaco-depressivo. mas nos textos encontro a única salvação possível: um mundo
onde a arte de escrever me salva do meu próprio silêncio – não quero parar de
escrever. quanto mais textos escrevo. mais me liberto. menos pessoas sabem que.
no interior desta doença. sobrevive o egoísmo – escrevo por mim. para mim.
escrevo para ser feliz. para estar longe dos outros e da arte vazia dos que me
dizem: bom dia. como se isso bastasse para curar a alma – quero raiva para
dizer tudo o que me faz doente. quero raiva para sobreviver ao pesadelo de uma
morte que se repete diariamente dentro de mim. do funeral das palavras. da sua cremação.
e das cinzas lançadas ao mar no meio de gargalhadas – escrevo. não como vosso
escravo. nem vosso dono. escrevo porque estou no abismo. e sempre que estou no abismo.
sou feliz. não há nada para pensar nos abismos. a não ser escrever o que escorre
nas mãos – todos os que gostam de escrever sabem que só no silêncio se é feliz.
não há palavras. há ideias silenciosas. não há pessoas. há apenas luar e
estrelas – e um dia. o homem da barca chegará. e eu. com os meus escritos na
boca. farei embarcar uma parte de mim. a outra ficará aqui. a falar com as
palavras – talvez hoje eu esteja lúcido. e as palavras não morram de loucura
23/07/2011
josé saramago e pilar del rio
josé saramago
tal como saramago não tenho medo da morte
- tenho medo do que deixo por fazer. do que não fui capaz de escrever. e das
folhas que deixei em branco - tal como ele. quero ainda mais tempo. mais vida -
quero falar o que não sei escrever. ou escrever o que não sei falar
* josé
e pilar - os dias de josé saramago e pilar del rio num filme de josé gonçalves
mendes
18/07/2011
morto por o complemento direto e indireto
foto do euleuterio ramos
tenho vontade de matar complementos diretos
e indiretos. atrapalham o andar pelo tamanho que ocupam – no bolso uma vida agarrada
a palavras que nunca usei – palavras que não servem para nada. nem como pedras
que se podem arremessar – o embaraço é o de não saber desenvencilhar-me dos
complementos. entulham-me os bolsos. sem utilidade. nunca encontram uma
preposição: a ou ao. ficam sempre no eu – mas a vida não para – mascarados de
probabilidade tornam-se complementos relevantes. influenciam a forma como equilibro
a serenidade do que antevejo como negativo. e do sentimento que produz em mim
por antecipação – fico aborrecido. impertinente. irritado. obrigado a fazer uso
de um juízo que produzo cada vez menos. mas que ainda preservo. permitindo controlar
os impulsos irracionais – mas a vida está cheia de complementos que não
complementam nada – ah! complementos que não complementam. ninguém escreve uma
expressão destas num texto que quer falar de complementos diretos e indiretos.
que existem sem valor literário para quem ouve. mas. infelizmente. gritam
dentro de mim. às vezes dentro das palavras. como sinos a tocar a defunto. até
fazer sangrar mãos e ouvidos. de quem como eu conhece a dor de não ser ouvido –
não tenho coragem para dizer o quê? ou quem? mesmo que os verbos assim o exijam
– o que sei. é que ainda escrevo há muito pouco tempo. e a gramática é tão
extensa e confusa. por mais livros que leia. há sempre mais um complemento oblíquo.
um modificador verbal. e quando damos por ele. temos o sujeito e o predicado à
luta. cada um com a sua razão. a vozeirar e gesticular que cada um deles é mais
importante. é então que o vocativo entra: ó. meus amigos! são os dois
importantes. basta que se dirijam à pessoa certa. basta alterar o modificador
moral. e dizerem: somos dois tolos. lutamos hoje. mas não o voltaremos a fazer –
quando crescemos mudamos a voz. fica mais grave. mais indiferente ao sentimento.
eu não mudei de voz. mudei de ouvidos. é assim que cresço – quero ouvir-me na
boca dos outros – muitas vezes não é fácil entender a construção gramatical. talvez
seja defeito meu. burro velho não aprende línguas. mas que posso fazer? é penalizador
sentir as palavras na boca sem energia. e nos lábios o medo. deixámo-las partir
como se atirassem de um precipício. e esperamos pelo som do impacto – às vezes
morremos com as palavras e pensamos: não escrevo mais – todas as palavras
querem a sonoridade correta. o sentido certo. e também orgulho e honra no que
transmitem – não podem ser estranhas aos ouvidos de quem as ouve – sou um estranho
aos ouvidos de quem ouve. as palavras. sem arte e trabalho. mais cedo ou mais tarde.
ficam em silêncio para sempre – começo a tentar acreditar que estes
complementos talvez façam parte de mim. talvez tenham crescido com as pernas. com
os bolsos dos calções com suspensórios. talvez por não acreditar na vida depois
da morte. e saber que só a escrita me perpetuará – mas se não for capaz de
entender a arte de escrever. talvez a solução seja cortar-me pela cintura. deixar
as pernas levar os bolsos e com eles todas as palavras que guardei no seu
interior – o tronco. mãos e cabeça descansariam então em forma de busto.
cinzelado em granito preto. pousado num prado verde. em paz e com a inscrição
gravada: aqui jaz um homem que queria ser escritor e foi morto pelo complemento
direto e indireto – paz à sua alma – os bustos não falam e também não têm
bolsos
11/07/2011
o peso do mar e da memória
1.
sem forças.
preso ao destino. conto o tempo. o cheiro a mar envolve-me do lado direito. e à
esquerda. na montanha. as casas caem em cascata – nascem as primeiras luzes. dentro
das janelas a solidão desvanece com o nascer do dia. e as suas gentes olham
para o mar. interrogando-se porque que razão é tão grande se eles são tão
pequenos – também o meu pensamento cria memórias em cascata. a diferença é que
não estão viradas para o mar. mas para mim – dentro do corpo. a realidade
persiste. é dentro dele que confio a minha sanidade mental. enquanto pertencer
ao que lá guardo. existo – quando pego no sono. a consciência fala-me ao ouvido:
sampaio. o mar está no olhar. tal como as memórias que guardaste – hoje. abro
memórias tão grandes quanto o mar que se vê das casas. não em extensão. mas em
ausência. carregadas de saudade – o dia levanta-se e a noite cai. eu levanto-me
pela manhã. e caio pela noite. e pergunto-me no escuro: onde tenho as mãos?
porque não sou capaz de abraçar o que vejo às escuras? tenho imenso nestas
mãos. até os dias que me trouxeram até ao dia de hoje. que é como quem diz: só
existo porque os outros me fizeram existir. mas no mar sou pequeno.
insignificante. e o que valho para além de mim? só a vontade de escrever.
escrever o que se fez saudade. o que te faz cair na dor sempre que escurece – só
as palavras saberão dizer o tamanho da dor que guardo nos olhos – o mar em mim
representa tudo: a família. os amigos. o medo. a dor. a saudade. até as
palavras que gostaria de escrever e não saem de dentro de mim. talvez seja
pelas casas caírem em cascata. talvez porque nasci assim e não posso ser outra
coisa – nos dias de calmaria. fico com medo. tudo em mim é confusão. as mãos no
ar. a cabeça também. e até as palavras são folhas de outono. caem sem destino
certo. entregues ao vento. levadas para onde já não as posso encontrar – silêncio
em terra. tempestade no meu interior. foi assim que me acostumei a viver – mas
hoje. eu caio por mim como as casas caem em cascata. estou rodeado de um
silêncio que é mesmo silêncio. e quando o silêncio se esconde dentro de si. eu
sou obrigado a escrever todas as palavras que nasceram de beijos e abraços. e
também aquelas que me obrigavam a dizer: gosto de ti – nasci sem boca. estas
mãos que me caem contra o papel não foram feitas para escrever – mas insistem –
repito tantas vezes: sampaio. os dedos são grossos. e os lápis são sempre tão
frágeis. porque insistes? para sobreviver ao silêncio das noites – malditos
lápis. partem-se sempre que procuro uma outra palavra mais difícil. ou apenas para
alguém especial. e que não sei dizer com a boca que tenho – que vergonha nascer
sem boca. que vergonha não ter forma de pronunciar palavras que bem podiam ser
abraços – quando quero falar. choro. e quando choro. quero esconder-me dentro
do mar. que penso ser meu por usucapião – nunca saberemos viver um sem o outro
2.
aqui estou.
parado. a olhar para os anos nos olhos de quem me gosta. e gostam há tantos
anos – como é possível gostar de alguém como eu durante tanto tempo? dizem que
é amor. dizem que gostam de mim com um amor incondicional. e eu fico a olhar o
mar e as casas com luzes. com gente dentro que nunca vi – saio de dentro das
luzes e fico apenas com o belo: o meu mar – olho apenas com os olhos: quase
redondos. quase castanhos. quase transparentes. quase pêndulos num corpo que
não cai. nem no mar. nem dentro do que sou – estes olhos são um castigo de deus. nunca
estão em silêncio. engolem o futuro. dobram-me o corpo em dor para um tempo que
ainda não chegou. tornam o futuro presente – silêncio. eu e o mar. anulamos o
barulho um do outro. as bocas fechadas guardam as últimas palavras. apenas os
olhos falam. é preciso enganar o tempo. enganar
as pálpebras. enganar as noites que ainda faltam chegar. hoje é o dia perfeito
para se ouvir tudo. até o silêncio do mar – ouço o meu primeiro choro. a primeira
palavra. o primeiro passo. o primeiro medo. a primeira oração. a primeira
reprimenda. a primeira bênção. e o tempo sempre a ir e a vir com mais memórias.
tal como as marés – dentro deste ir e vir do tempo nada do que está feito pode
ser refeito. nada do que foi dito pode ser silenciado. nada do que me trouxe
aqui desaparecerá no mar para voltar a nascer – sou feito de água. sal e esperança
– um dia. estes meus olhos castanhos. hão de encontrar sossego. uma ilha
rodeada de certezas – tal como um corsário do passado. roubo lugares para
procurar tesouros que nunca encontrei – balanço dentro de mim. e interrogo-me:
caio para que lado? não sei. talvez para os dois lados. para me equilibrar –
estou completamente perdido dentro de tudo o que os olhos veem – e eu aqui. preso
a um corpo que não para de crescer. sem parar de querer o que nunca vai ter – sou
o que abril me deu
3.
amarro as
mãos e sinto o coração a bater. e eu ali a olhar para os anos. anos que gostei.
anos de orgulho. e eu ali. apenas filho. de mão dada. a equilibrar-me para não
cair. como se estivesse a dar os primeiros passos – mergulho ainda mais fundo
no tempo. o passado acontece como se sobrevivesse apenas para aquele instante –
ao lado. sentado. o meu pai sorri. só lhe faltam as palavras. está ali. tudo o que gostava
dele está ali. a tombar para o meu lado. só o braço deixou de acenar. aquela
maleita quase te levou. e até o sorriso continua perfeito. pendurado no bigode que
mais não é do que uma linha que separa a boca do corpo magoado – apetece-me ficar
aqui para sempre. tenho aqui tudo. até o que pensava ter perdido – não souberam
que o tempo também se acaba – tudo acaba. agora sei que tudo acaba. e o meu
momento vai acabar – aperto as mãos com força. as mesmas que me acarinharam nos
primeiros dias da vida – um dia acordei e não as vi mais. tinham fugido para
sempre. e eu sem saber parti também com elas – nasci para não ser quase nada. apenas
mais um menino que falava sem querer ser ouvido. demasiado novo. e para te
zangar não queria dizer: sou teu filho porque fiz isto. a minha obra vai para
além do que os teus olhos alcançam – mentira. não tinha nada para mostrar. nada
para dizer que te orgulhasses. só tinha o teu sorriso guardado em mim.
invisível para os outros – sabes. mãe. tu que me viste ficar sem pai. este nosso
coração está sempre a doer – dói pela perda do pai. noutro dia dói porque preciso de
lembrar que eu sou carne da vossa carne. e não suportaria perder esta dor – há ainda
outros dias em que dói pelos teus netos. agora também pelos bisnetos. é a nossa
família mãe.
somos nós – perdoa-me mãe. mas
não sou capaz. não fui capaz de aprender o que tu aprendeste. o que tu fizeste.
o que tu sempre me tentaste ensinar. nasci diferente. ando por aqui ainda sem
saber como ser filho. bem sei que para ti não é importante. sempre irás
encontrar uma razão para dizeres: é meu filho e eu gosto dele assim – mas mãe. há os
meus filhos. e estes precisam de saber que o teu filho não soube levar-te à
boca tudo o que tu merecias. precisam de saber que os avós são a única razão
para hoje terem o vosso nome – prometo-te que um dia saberão dizer: chamo-me
assim porque os meus avós se chamavam assim. e os pais dos meus avós também se
chamavam assim. e nós nos chamamos assim porque somos uma família – mas a tua carne
já não resiste como antigamente. já não é igual. está cansada pelo tempo. está ali
apenas para te proteger os ossos que já não são ossos. são raízes amarradas ao
ar que respiramos – não quero que descubras que o tempo se faz das batidas do
coração. quero sentir as tuas mãos. quero amarrar-te para sempre dentro destas mãos
que estiveram tanto tempo sozinhas. quero afagar a tua pele que é também a
minha. e ver no teu olhar que as dores que dizem que estás a envelhecer não
existem quando as minhas mãos amarram-se às tuas – não desistas mãe. não expulses
o tempo. ainda quero dizer-te tantas coisas. coisas que ainda não consegui dizer.
preciso de envelhecer um pouco mais. ficar mais sábio. mais tranquilo. e entre
tanto. tu também ficas mais bonita – não compreendo. parece que um filho só aprende
a falar quando o coração deixa de bater – encosto a cabeça no teu ombro e ouço
o nosso sangue a correr como se houvesse festa. e ouço: deixa cá ver um beijo
meu filho – ainda tens tempo para me ensinares a dizer todas as palavras que
mereces – foram tantos anos mãe e eu sempre imaginei que os corpos não partiam.
e as palavras não faltariam. e o tempo resistiria. mas é tudo mentira minha mãe.
a vida mentiu-me. eu também estou a envelhecer. e eu. desesperado. com medo de
não chegar a tempo – e foi assim que disseste: quando deus me levar. quando estiver
de partida para o céu. vou pensar que estou a voar. a andar de avião – eu
também minha mãe
04/07/2011
eugénio de andrade : poema à mãe
eugénio de andrade
29/06/2011
a arte de sobreviver
tarsila do amaral - abaporu
não consigo
estar – sinto-me cansado. triste. desanimado – gosto de estar com tudo. mas não
estou. estou com quase nada – deve ser do tempo. seco e sem humidade. as
palavras fizeram-se catos – sobreviver no tempo é arte dos catos – eu também
sobreviverei com a minha arte
26/06/2011
sándor márai
sándor márai
23/06/2011
o tempo que se repete
laurie lipton
"here comes the boogeyman" 1999
tem dias que só assim escrevo - as memórias
não me largam e o tempo repete o tempo sem que eu consiga perceber o quanto
envelheci - e as pessoas voltam e falam. olham e dizem coisas que me fazem lacrimar
– as lágrimas aparecem porque estão aqui. bem a meu lado. como estão neste
preciso momento – o tempo sempre a correr para trás. onde ainda permanecemos todos
juntos – e eu quase inocente. quase. não sei escolher o caminho. se soubesse.
era um homem. mas não. sou apenas eu a crescer. sem paredes capazes de me
guardar para o dia certo. o dia sem vento. onde a voz dos grandes falasse de
joelhos. para mim. só para mim - talvez não lacrimejasse. talvez não escrevesse
18/06/2011
cinemateca
cinema –
tenho os olhos fixos na tela. as imagens desabam como pedras – do som nada sei.
talvez seja um filme mudo. ou as bocas são barro cosido em tempo de silêncio
fino – e o meu corpo ali. sentado. via tudo o que havia para ver – de frente
vê-se sempre tudo. já não há passado. tudo está para a frente – não sei se há
silêncio. só sei que há gente com os olhos postos lá à frente – nenhum corpo
brilha. apagaram-se com as lâmpadas quando o filme deu cor à tela que momentos
antes era branca – nada havia naquela tela. não havia vida. não havia esperança
ou dor. havia branco. apenas um branco de pureza – naquela tela só há tempo
para o futuro – rompe a fita. os corpos sentados desequilibram-se: uns tombam para
a direita. outros para a esquerda. mas nenhum para a frente ou para trás. isso
nunca. tudo o que está para trás já passou e para a frente ainda não chegou – o
maquinista. sempre atento à vida dentro das fitas. sabe desde há muito tempo
quais os momentos críticos de uma cena – emenda. corta de um lado um segundo e
dois segundos do lado oposto. remenda. inventa um novo momento. um momento imperfeito
para um filme que deveria ser sempre igual – mas o filme nunca mais será como
antes – que são três segundos na vida de uma fita de cinema? os corpos
voltam-se a centrar nas cadeiras. respiram fundo. e tudo volta ao normal –
também é assim que unimos a vida quando não estamos no cinema. remendamos e
seguimos. seguimos em frente. só assim se chega ao futuro – toda a gente olha
em frente. silêncio – há agora na vida um milésimo de segundo que não encaixa
noutro milésimo. um degrau quase impercetível – nunca ninguém caiu num degrau
que nunca chegou a ser degrau – ninguém quer saber nada se nunca passou do
nada. ou se é degrau e se tropeça. ou então não se é nada. como uma tela de
cinema branca. um vazio absoluto – perdi-me. já não sei se falo da vida ou do
filme. não parece importante. afinal todas as vidas são feitas de cortes e
emendas – tudo prossegue. tudo passa. e neste corte imagino como tudo podia ser
diferente se o corpo não nascesse com nome. não era preciso ouvir. ninguém
dizia: sampaio estou aqui. sampaio como vai a tua vida. esta gente
obrigatoriamente tinha de falar de boca aberta. e eu respondia também de boca
aberta: está tudo mais ou menos. tenho uma pedra num rim. podia ser pior – já
sabes o que aconteceu ao hernâni. deu-lhe o nó na tripa e foi desta para a
melhor – dizem que era um cheiro que não se aguentava à sua beira. e não era
falta de banho. que o joaquim cangalheiro nisso não falha. respeita os finados
e a profissão. é muito melhor que o pai – estava todo apanhado por dentro com
um malezinho – mas não. todos temos nome e neste filme até os artistas têm
nome. as legendas passam levando nomes aparatosos. amorosos. apaixonados.
percebe-se tudo pelos rostos e na forma como andam sempre para a frente – os
gestos parecem desenhados. só gente apaixonada sabe dizer tanto sem abrir a
boca. ou então é o mundo que está em silêncio e já todos falam de boca fechada –
os corações suspiram e quando tudo parece perdido aparece o artista a ocupar a
tela de lés a lés. não se vê branco. nenhum pedaço vazio de tela. só há artista
– é um momento solene. dobra-se o silêncio em dois. tudo indica que desta vez
só o som é capaz de resolver o mistério do amor. vai ter de falar. os segundos
parecem horas e os olhos cada vez mais perto da plateia. estão enormes. todo o
cinema é agora aqueles olhos. já não há espaço nem para dizer um olá – sem
mexer um único músculo facial. agarra a apaixonada pela cintura e. sem que a inquietação
pudesse surpreender os olhos arregalados da pobre rapariga. prega-lhe um beijo.
daqueles que selam o silêncio para sempre – depois. sem que o tempo tenha tempo
para continuar. a vida aparece: the end – há gestos que se repetem. os corpos
contorcem-se como se fossem feitos de amor. queriam mais. queriam o som da voz
a dizer: amo-te. amo-te para sempre. até que a morte nos separe – acabou – só
os olhos disseram paixão. os olhos de um e de outro fecharam-se para sempre com
o beijo – estou conformado. sempre foi assim. nos momentos mais belos os homens
fecham os olhos e ficam em silêncio – depois. já com os corpos desenganados
chegam as luzes. as lâmpadas ganham formas. e a vida corre na esperança de
encontrar um beijo que também a obrigue a fechar os olhos para sempre – saem os
cegos. os coxos. os manetas e os loucos. e todos aqueles que perdem a cabeça a
cuidar de filmes onde os artistas mudos se repetem na vida sem tela. vida que
consome o tempo presente dia após dia – ainda há lugares nas frisas com faces
paradas. mas os rostos estão cada vez mais longe dos corpos – estou demasiado
distante para entender o que as bocas dizem. mexem os lábios de uma forma
descoordenada. os corpos vão para um lado e a voz fica ali sozinha à espera que
algum corpo a queira ouvir – até queria ouvir. mas estou longe e não trouxe os
ouvidos – é no cinema que gosto de passar despercebido – aqui nunca se fala
08/06/2011
clarice lispector
"Estou adiando o meu silêncio. A vida toda adiei o silêncio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa voltar a falar"
Clarice Lispector - A Paixão Segundo G. H.
07/06/2011
as palavras que o silêncio guardou
há um silêncio
que vive dentro de tudo o que penso – a boca serve para mastigar a fúria das
palavras que não digo – nos dias em que o contrário de satisfeito me encontra. baixo
a cabeça – por detrás do reflexo. a sopa. cada vez mais fria. cada vez mais
incapaz de aquecer as palavras. sempre mornas – revolvo – há um vai e vem entre
a moela que trabalha com grãos de sensatez e o céu que não encontro à boca – há
um inferno – ainda tenho palavras para dizer – escrevo – um dia hei de morrer
sufocado neste meu silêncio – há quem pense que digo tudo. não digo. o silêncio
é sempre mais forte. e os homens sem ouvidos foram sempre muitos – talvez não
saiba contar. talvez nem todos fossem homens – talvez – estou a apagar-me. quero
apagar-me. os dentes. estes. aqueles. não mastigam o suficiente para acabar com
o silêncio dos homens que invadem os dias. agora os dentes já não são apenas estes
ou aqueles. são todos - há um passado com homens. tinham horas. minutos e até
segundos. eram homens de todos os meus dias – há ainda um silêncio vivo. mas já
não é aquele. nem este. é tudo. é tudo silêncio – ainda – um dia serão palavras
02/06/2011
o carpinteiro e o pássaro com rodas
“ … Ignoro se sabem o que
faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor Doutor e quem
me trate por Sr. António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um
carpinteiro…”
I.
não quero ser escritor – quero escrever. escrever como um carpinteiro – quero ser carpinteiro como diz o lobo antunes. quero escrever palavras com cheiro à resina. às colas. às pancadas do martelo. do serrote que vai e vem. do lápis que agarra à orelha todos os barulhos das palavras que aperfeiçoam o silêncio quando lidas – depois. depois deixo partir a arte de quem faz coisas com as mãos. onde compete o belo e o monstro – desta vez. talvez por encanto fugiu-me um pássaro pelos dedos. um pássaro gigantesco. com um bico pintado de sossego. no lugar dos olhos um arco-íris com mais de mil cores. as asas são tão grandes que nem lhes sei escrever o tamanho. sei apenas que estão presas a rodas e nunca param de esbracejar – são umas asas diferentes. esbracejam em silêncio sobre rodas que só andam para a frente – são mesmo diferentes estas asas. deixam-me confuso. nunca vi asas correrem ou voarem com rodas. não sei. não sei mesmo. nunca as vi voar só esbracejam. mas também não me parece que seja importante para o pássaro voar. nem para o carpinteiro vê-lo voar. há ali um acordo escondido que faz desta uma história diferente – as palavras continuam-me a cair em silêncio. largo-as do mais alto que as mãos alcançam. talvez não seja assim muito alto. penso eu que também sinto falta. quero acreditar que seja um pouco mais alto do que imagino. quero ouvi-las a cair aos pés. aos meus pés. mas não. não. pelo caminho transformam-se em água e no chão. onde mantenho os pés firmes. sorriem agora apenas lágrimas – nunca nenhuma palavra nascida dentro de mim fará barulho. quebrará este silêncio pedra. este silêncio dor. este silêncio que não voa. um silêncio que. por ser silêncio. ninguém ouve – percebo então que o pássaro que fugiu dos dedos. quando corre ou tenta voar procura apenas um novo silêncio. outro silêncio . um silêncio que nunca tenha sido magoado
II.
este pássaro não sossega.
para trás e para a frente. e a vida do carpinteiro parada. parada em silêncio –
este pássaro é maluco. doido. idiota. tem asas. mas não quer voar. corre. como
se correr significasse voar. nem lhe era necessário voar muito alto. bastava
que voasse por cima de um livro. uma cadeira desocupada pelo momento. ou um
quadro pendurado numa parede sem cor definida. geometricamente dividido. falo
da tela. do sorriso da mona lisa feito por um artista que não podia morrer à
fome. talvez eu também sinta falta de quem sorri. e quem sabe. digo eu ainda a
pensar como se fosse um artista – depois de limpar os pincéis. atirou-se de uma
ponte famosa de onde se atiravam artistas desiludidos – mas este pássaro não
voava. talvez tivesse medo das alturas. e correr talvez o fizesse rir depois –
não deixa de correr. corre preso àquelas rodas como se fosse livre da terra que
o segura. talvez acredite na liberdade do homem-carpinteiro que o deixou
escapar por entre os dedos – este carpinteiro é um homem com asas presas a
rodas. dá vida à madeira. mas nunca consegue soltar-se dela. o pássaro que lhe
fugiu das mãos é apenas um reflexo daquilo que ele próprio não consegue ser:
livre. corre. esbraceja. mas nunca voa. tal como ele dá vida à madeira. entende
de madeiras. madeiras simples de pinho. daquele que se encontra em qualquer
lugar de madeira. podia perceber de pau-santo. sucupira ou outra qualquer
madeira nobre. mas não. só conhece o pinho – tem uma bouça com giestas. silvas.
amoras. azevinhos. cogumelos e pinheiros bravos. muitos pinheiros bravos.
alguns mais antigos do que ele. do tempo em que os animais falavam e as fadas
apareciam a quem vive num silêncio magoado – este homem. este carpinteiro.
quando não lhe apetece trabalhar é aqui que passa os dias. procura o pinheiro
certo para uma ideia que ainda não apareceu. sabe que junto das suas mãos. em
silêncio e sem a pressa do tempo. mais tarde ou mais cedo. sempre haverá um
pássaro a fugir por entre os dedos. é por isso que gosta de ser carpinteiro. as
mãos sempre fazem coisas que nunca imaginava possíveis – desta vez foi um
pássaro gigantesco. diferente de todos os pássaros que já lhe voaram das mãos.
este gosta de correr. só a correr é capaz de bater as asas – e lá vai ele. corre.
corre. as asas sempre a bater vida. vida em silêncio. asa para cima. asa para
baixo. como se acenassem. talvez esta seja a sua própria forma de voar: acenar.
dizer adeus. sem nunca sair da oficina de sonhos do seu criador – e o
carpinteiro preso às rodas da sua arte. e a vida a correr como se também ele se
transformasse num pássaro e as asas para cima e para baixo. cada vez com mais
força. há alturas em que é capaz de jurar que vai levantar voo com o seu
pássaro – não. nunca deixará a terra que o segura. nasceu amarrado a ela e é
nela que se sente bem. afinal de contas é carpinteiro e os carpinteiros não
voam
31/05/2011
não estou louco. só sou cruel
mas tu estás
louco? não. nunca saberia compor uma loucura com palavras. se fosse música.
talvez - a loucura de um homem depende sempre da companhia de quem o escuta –
na maior parte das vezes estou só. penso só. ouço o que digo. o ego precisa de
silêncio – mas é nesse silêncio que percebo a crueldade com o que não gosto.
por isso digo: não estou louco. estou é cruel com o que não gosto. e muitas
vezes não gosto do que penso. parece-me isso um pouco louco – outras vezes não
gosto da companhia. é nestas alturas que fico quase louco – seria trágico
trazer-vos para a companhia de alguém como eu: alguém cruel
24/05/2011
agora sei que sei

23/05/2011
calmamente por entre os dedos dos pés e as asas
jorge reis-sá

















