08/08/2011

recado do tempo




monstro do tempo - jacek yerka


o tempo é meu. é teu. é nosso - o meu tempo é só meu – o teu tempo é só teu – o tempo deles é só deles – todo o tempo é feito do tempo de todos – para mim. o meu é sumptuoso. mas para os outros. o seu tempo será sempre importante – o meu tempo acrescenta-me idade e nela encontro o conhecimento de tempos novos – o tempo ocupa espaço. mas só quando há corpos para o guardar – sozinhos não necessitamos de tempo – o tempo existe sempre. mas só faz sentido quando há alguém para o partilhar – não temos ninguém a quem ensinar com o nosso tempo – não há tempo importante. há tempo com pessoas que ocupam espaço. às vezes é importante. outras vezes. é uma perda de tempo – o tempo. por si só. não é importante. o que lhe dá valor são as pessoas que o ocupam – umas acrescentam. outras desperdiçam – muitas vezes há pessoas que ficam sempre no meu espaço. ocupam o meu espaço. sumptuoso. gosto delas – todo o tempo coexiste dentro de outro tempo – saber dar tempo ao tempo que não é nosso não é inteligência. é um dever para com o tempo dos outros 



04/08/2011

bem te quero - vânia




edward hopper


não sejas assim. tu sabes que tenho o meu tempo. não sou como tu. sei que escreves em ebulição – as palavras nas tuas mãos não queimam. não ardem. não dizem que a pressa é inimiga do bom – eu. amiga. fico sem saber escrever quando me questionas. bem quero. bem procuro o verbo mais sincero. o substantivo menos comum. tu não és uma mulher comum. e as palavras são sempre desajustadas quando quero vestir-te com uma frase particular. uma metáfora que faça desaparecer para sempre as hipérboles que vivem junto aos teus cabelos - não vou deixar de escrever. não vou deixar de dizer que preciso saber se gostas desta forma louca como digo as coisas. assim como quem não diz nada. e quer dizer tudo - há um horizonte que separa o mar da nossa escrita. há um ir e voltar de palavras. e o futuro tão perto. e tão longe. e a vida sempre a acontecer – há um abraço feito de palavras. feito de um tempo que ainda não entendemos. porque nada pode matar uma palavra bonita

02/08/2011

vou partir




Vladimir Kush


fecho a porta – dentro ficam mãos à procura do corpo – vou partir – deste lado fora. o corpo procura as horas que correm rápidas. mas sem barulho – o corpo. mais morto do que vivo. procura dar corda aos sapatos. veste t-shirts. calções pelo joelho. barba por fazer. cabelo a tombar para a frente. e uma vontade enorme de desaparecer do mundo das pessoas reais – noitadas. tabaco. cerveja. introspeção alcoólica. e a noite estraga estrelas que se apagam  a cada manhã – voltarei a casa. há tempo para tudo. estas mãos nunca sobreviveriam sem corpo. e sem vocês muito menos  



01/08/2011

escadas: memórias de uma geração em migalhas




jeremy geddes


neste agosto rezarei uma ave maria - bem sei que a fé dos tempos de calções curtos. dos sapatos de couro esburacados pela força dos chutos na bola. do suor das correrias. do tempo que não era tempo. do descanso sentado no beiral de um qualquer passeio voltado para uma rua sem carros. de caricas. de amigos de peito. de raparigas com cabelo entrançado e meia branca até ao joelho. tudo terminou – entretanto cresci. e já não vejo homens como eu. com fé. com esperança. os prédios ganharam altura. as ruas tornaram-se reféns dos carros. a polícia apanha ladrões. e até as árvores caíram. não pela força dos ventos. mas pelas mãos de quem teme tempestades. e é assim que. na roda da vida. a liberdade se apaga pouco a pouco – eu também tenho medo. não das tempestades. mas da incivilidade de quem nos aprisiona no presente – e nós. eu e os amigos de peito. uns já mortos. outros vivem a morrer. e eu assisto a tudo. parado. peço a deus que tenha piedade de mim. e deles também - depois. lembro-me que deixei de acreditar em deus. e já nem pai tenho para pedir proteção. é a morte antecipada de uma geração que nunca soube dizer basta – deixamos que nos impingissem tudo. somos assim. às vezes parvos. outras ingénuos. e de palavra em palavra. de lágrima em lágrima. de crença em crença. deixamos os anos correr. como se fossem semanas. e afinal foi só uma migalha de tempo. que um passarinho levou para alimentar um ninho repleto de asas. repleto de sonhos 



31/07/2011

cadáver





lucian freud





quando escrevo fico assim: sem alma. sem sorriso. sem olhar. sem saliva. só tenho ouvidos para  johann sebastian bach [orchestral suite no. 3]. a música antecipa a morte das palavras – sei que palavras morrem quando as separo do corpo que as guarda – escrevo como andorinhas fazem ninhos. uma palhinha daqui. uma folhinha dali. uma gotinha. um pedacinho de chuvinha. uma varanda protegida do vento norte e por fim o verão a dizer que tudo terminará com o outono – partem como palavras ao encontro de calor. de tempo. que se repete num outro lugar. uma outra varanda. um novo abrigo – a mesma forma de voar – na terra o mesmo jornaleiro. cava-a sem saber se planta uma semente ou a morte – encontrar palavras é dor – descobrir a palavra que é mais palavra deixa a boca sem ar. os dedos envelhecem. suspiram. suam. gritam. pedem clemência [não sou escritor]. agonizam. vomitam. depois caem as unhas. de seguida o cabelo. os olhos. a carne  e por fim surge um esqueleto que não conheço – sou eu nu. complemente nu e vocês a verem tudo em mim – eu sou como palavras mortas –



25/07/2011

doença mental e a cura pela palavra




                                                              a extração da pedra da loucura
                                                                               hieronymus bosch


arte – arte de escrever. escrever arte – com a minha arte de escrever quero dizer: estou cansado da arte que não é feita por homens que comigo partilham todas as palavras. estou farto. [ilustre casa de ramires] – a minha arte só precisa de papel. é minha. nasce da vida que vivi e do que colhi de quem passou por mim – escrever é. no fundo. dizer coisas. algumas dessas coisas encontro dentro do corpo. mas. em pânico. deixo-as cair em papel – confesso que não sou dono desta vontade de escrever. vem de dentro para fora. sem controle. sem filtros e sem limites – escrever é uma purgação. a minha forma de evitar o suicídio coletivo dos dedos. dos ouvidos. dos olhos. dos aromas. e até da boca. possuída pela força do vómito. que fala sem que ninguém a entenda – escrever é um estado maníaco-depressivo. faz sobreviver. dá sentido às palavras esquizofrénicas de um corpo são com uma mente louca – escrevo para me salvar. então parto como os cruzados no tempo das cruzadas. também quero conquistar o paraíso. mas sei. mesmo com pouca lucidez. que nunca terei setenta e duas virgens à espera no fim do texto - escrevo porque preciso de escrever. estou doente. diariamente injeto palavras libertadas de mim. daquilo que sobrevive em mim. na revolta. na amargura. na dor. na vontade. na expiação dos demónios que criei – escrevo palavras desprendidas. não das mãos. mas do meu inferno. uma vontade de expiação que incendeia as mãos. e quando o mundo arde. eu fico em paz – mas a cabeça já não está igual. sinto-me esburacado. desfigurado. amargurado. e os amigos perguntam: ele escreve o quê?  mas para os corvos. eu sou apenas alguém que sabe juntar as letras do abecedário. e gargalham – bem queria saber escrever arte. mas o que sinto dentro desta cabeça é confusão. o sujeito em luta com o predicado – saudável. penso nos momentos em que sou capaz de dizer: não escrevas mais – mas não adianta. este cancro cresce. não consigo estripá-lo. talvez um dia me mate. ou talvez me espere um colete de forças. paredes brancas. e seringas a baloiçar. entre cair e não cair. e a salvação venha de um homem vestido de branco a dizer: tome tudo de uma golada. ou corte o fio de uma seringa. e nunca mais reconhecerá as letras. nem a vida. nem os amigos – no fim. restará apenas a esperança de morrer voltado para o mar. olhando uma gaivota cinzenta a cortar o vento de norte para sul – sou louco por palavras que significam tudo e nada ao mesmo tempo. talvez esteja doente. talvez maníaco-depressivo. mas nos textos encontro a única salvação possível: um mundo onde a arte de escrever me salva do meu próprio silêncio – não quero parar de escrever. quanto mais textos escrevo. mais me liberto. menos pessoas sabem que. no interior desta doença. sobrevive o egoísmo – escrevo por mim. para mim. escrevo para ser feliz. para estar longe dos outros e da arte vazia dos que me dizem: bom dia. como se isso bastasse para curar a alma – quero raiva para dizer tudo o que me faz doente. quero raiva para sobreviver ao pesadelo de uma morte que se repete diariamente dentro de mim. do funeral das palavras. da sua cremação. e das cinzas lançadas ao mar no meio de gargalhadas – escrevo. não como vosso escravo. nem vosso dono. escrevo porque estou no abismo. e sempre que estou no abismo. sou feliz. não há nada para pensar nos abismos. a não ser escrever o que escorre nas mãos – todos os que gostam de escrever sabem que só no silêncio se é feliz. não há palavras. há ideias silenciosas. não há pessoas. há apenas luar e estrelas – e um dia. o homem da barca chegará. e eu. com os meus escritos na boca. farei embarcar uma parte de mim. a outra ficará aqui. a falar com as palavras – talvez hoje eu esteja lúcido. e as palavras não morram de loucura  


23/07/2011

josé saramago e pilar del rio



                                                                       josé saramago 


tal como saramago não tenho medo da morte - tenho medo do que deixo por fazer. do que não fui capaz de escrever. e das folhas que deixei em branco - tal como ele. quero ainda mais tempo. mais vida - quero falar o que não sei escrever. ou escrever o que não sei falar 

 

* josé e pilar - os dias de josé saramago e pilar del rio num filme de josé gonçalves mendes

 

18/07/2011

morto por o complemento direto e indireto



                                                           foto do euleuterio ramos


tenho vontade de matar complementos diretos e indiretos. atrapalham o andar pelo tamanho que ocupam – no bolso uma vida agarrada a palavras que nunca usei – palavras que não servem para nada. nem como pedras que se podem arremessar – o embaraço é o de não saber desenvencilhar-me dos complementos. entulham-me os bolsos. sem utilidade. nunca encontram uma preposição: a ou ao. ficam sempre no eu – mas a vida não para – mascarados de probabilidade tornam-se complementos relevantes. influenciam a forma como equilibro a serenidade do que antevejo como negativo. e do sentimento que produz em mim por antecipação – fico aborrecido. impertinente. irritado. obrigado a fazer uso de um juízo que produzo cada vez menos. mas que ainda preservo. permitindo controlar os impulsos irracionais – mas a vida está cheia de complementos que não complementam nada – ah! complementos que não complementam. ninguém escreve uma expressão destas num texto que quer falar de complementos diretos e indiretos. que existem sem valor literário para quem ouve. mas. infelizmente. gritam dentro de mim. às vezes dentro das palavras. como sinos a tocar a defunto. até fazer sangrar mãos e ouvidos. de quem como eu conhece a dor de não ser ouvido – não tenho coragem para dizer o quê? ou quem? mesmo que os verbos assim o exijam – o que sei. é que ainda escrevo há muito pouco tempo. e a gramática é tão extensa e confusa. por mais livros que leia. há sempre mais um complemento oblíquo. um modificador verbal. e quando damos por ele. temos o sujeito e o predicado à luta. cada um com a sua razão. a vozeirar e gesticular que cada um deles é mais importante. é então que o vocativo entra: ó. meus amigos! são os dois importantes. basta que se dirijam à pessoa certa. basta alterar o modificador moral. e dizerem: somos dois tolos. lutamos hoje. mas não o voltaremos a fazer – quando crescemos mudamos a voz. fica mais grave. mais indiferente ao sentimento. eu não mudei de voz. mudei de ouvidos. é assim que cresço – quero ouvir-me na boca dos outros – muitas vezes não é fácil entender a construção gramatical. talvez seja defeito meu. burro velho não aprende línguas. mas que posso fazer? é penalizador sentir as palavras na boca sem energia. e nos lábios o medo. deixámo-las partir como se atirassem de um precipício. e esperamos pelo som do impacto – às vezes morremos com as palavras e pensamos: não escrevo mais – todas as palavras querem a sonoridade correta. o sentido certo. e também orgulho e honra no que transmitem – não podem ser estranhas aos ouvidos de quem as ouve – sou um estranho aos ouvidos de quem ouve. as palavras. sem arte e trabalho. mais cedo ou mais tarde. ficam em silêncio para sempre – começo a tentar acreditar que estes complementos talvez façam parte de mim. talvez tenham crescido com as pernas. com os bolsos dos calções com suspensórios. talvez por não acreditar na vida depois da morte. e saber que só a escrita me perpetuará – mas se não for capaz de entender a arte de escrever. talvez a solução seja cortar-me pela cintura. deixar as pernas levar os bolsos e com eles todas as palavras que guardei no seu interior – o tronco. mãos e cabeça descansariam então em forma de busto. cinzelado em granito preto. pousado num prado verde. em paz e com a inscrição gravada: aqui jaz um homem que queria ser escritor e foi morto pelo complemento direto e indireto – paz à sua alma – os bustos não falam e também não têm bolsos 



11/07/2011

o peso do mar e da memória






1.

sem forças. preso ao destino. conto o tempo. o cheiro a mar envolve-me do lado direito. e à esquerda. na montanha. as casas caem em cascata – nascem as primeiras luzes. dentro das janelas a solidão desvanece com o nascer do dia. e as suas gentes olham para o mar. interrogando-se porque que razão é tão grande se eles são tão pequenos – também o meu pensamento cria memórias em cascata. a diferença é que não estão viradas para o mar. mas para mim – dentro do corpo. a realidade persiste. é dentro dele que confio a minha sanidade mental. enquanto pertencer ao que lá guardo. existo – quando pego no sono. a consciência fala-me ao ouvido: sampaio. o mar está no olhar. tal como as memórias que guardaste – hoje. abro memórias tão grandes quanto o mar que se vê das casas. não em extensão. mas em ausência. carregadas de saudade – o dia levanta-se e a noite cai. eu levanto-me pela manhã. e caio pela noite. e pergunto-me no escuro: onde tenho as mãos? porque não sou capaz de abraçar o que vejo às escuras? tenho imenso nestas mãos. até os dias que me trouxeram até ao dia de hoje. que é como quem diz: só existo porque os outros me fizeram existir. mas no mar sou pequeno. insignificante. e o que valho para além de mim? só a vontade de escrever. escrever o que se fez saudade. o que te faz cair na dor sempre que escurece – só as palavras saberão dizer o tamanho da dor que guardo nos olhos – o mar em mim representa tudo: a família. os amigos. o medo. a dor. a saudade. até as palavras que gostaria de escrever e não saem de dentro de mim. talvez seja pelas casas caírem em cascata. talvez porque nasci assim e não posso ser outra coisa – nos dias de calmaria. fico com medo. tudo em mim é confusão. as mãos no ar. a cabeça também. e até as palavras são folhas de outono. caem sem destino certo. entregues ao vento. levadas para onde já não as posso encontrar – silêncio em terra. tempestade no meu interior. foi assim que me acostumei a viver – mas hoje. eu caio por mim como as casas caem em cascata. estou rodeado de um silêncio que é mesmo silêncio. e quando o silêncio se esconde dentro de si. eu sou obrigado a escrever todas as palavras que nasceram de beijos e abraços. e também aquelas que me obrigavam a dizer: gosto de ti – nasci sem boca. estas mãos que me caem contra o papel não foram feitas para escrever – mas insistem – repito tantas vezes: sampaio. os dedos são grossos. e os lápis são sempre tão frágeis. porque insistes? para sobreviver ao silêncio das noites – malditos lápis. partem-se sempre que procuro uma outra palavra mais difícil. ou apenas para alguém especial. e que não sei dizer com a boca que tenho – que vergonha nascer sem boca. que vergonha não ter forma de pronunciar palavras que bem podiam ser abraços – quando quero falar. choro. e quando choro. quero esconder-me dentro do mar. que penso ser meu por usucapião – nunca saberemos viver um sem o outro

 

2.

aqui estou. parado. a olhar para os anos nos olhos de quem me gosta. e gostam há tantos anos – como é possível gostar de alguém como eu durante tanto tempo? dizem que é amor. dizem que gostam de mim com um amor incondicional. e eu fico a olhar o mar e as casas com luzes. com gente dentro que nunca vi – saio de dentro das luzes e fico apenas com o belo: o meu mar – olho apenas com os olhos: quase redondos. quase castanhos. quase transparentes. quase pêndulos num corpo que não cai. nem no mar. nem dentro do que sou – estes olhos são um castigo de deus. nunca estão em silêncio. engolem o futuro. dobram-me o corpo em dor para um tempo que ainda não chegou. tornam o futuro presente – silêncio. eu e o mar. anulamos o barulho um do outro. as bocas fechadas guardam as últimas palavras. apenas os olhos falam. é preciso enganar o tempo.  enganar as pálpebras. enganar as noites que ainda faltam chegar. hoje é o dia perfeito para se ouvir tudo. até o silêncio do mar – ouço o meu primeiro choro. a primeira palavra. o primeiro passo. o primeiro medo. a primeira oração. a primeira reprimenda. a primeira bênção. e o tempo sempre a ir e a vir com mais memórias. tal como as marés – dentro deste ir e vir do tempo nada do que está feito pode ser refeito. nada do que foi dito pode ser silenciado. nada do que me trouxe aqui desaparecerá no mar para voltar a nascer – sou feito de água. sal e esperança – um dia. estes meus olhos castanhos. hão de encontrar sossego. uma ilha rodeada de certezas – tal como um corsário do passado. roubo lugares para procurar tesouros que nunca encontrei – balanço dentro de mim. e interrogo-me: caio para que lado? não sei. talvez para os dois lados. para me equilibrar – estou completamente perdido dentro de tudo o que os olhos veem – e eu aqui. preso a um corpo que não para de crescer. sem parar de querer o que nunca vai ter – sou o que abril me deu

 

3.

amarro as mãos e sinto o coração a bater. e eu ali a olhar para os anos. anos que gostei. anos de orgulho. e eu ali. apenas filho. de mão dada. a equilibrar-me para não cair. como se estivesse a dar os primeiros passos – mergulho ainda mais fundo no tempo. o passado acontece como se sobrevivesse apenas para aquele instante – ao lado. sentado. o meu pai sorri. só lhe faltam as palavras. está ali. tudo o que gostava dele está ali. a tombar para o meu lado. só o braço deixou de acenar. aquela maleita quase te levou. e até o sorriso continua perfeito. pendurado no bigode que mais não é do que uma linha que separa a boca do corpo magoado – apetece-me ficar aqui para sempre. tenho aqui tudo. até o que pensava ter perdido – não souberam que o tempo também se acaba – tudo acaba. agora sei que tudo acaba. e o meu momento vai acabar – aperto as mãos com força. as mesmas que me acarinharam nos primeiros dias da vida – um dia acordei e não as vi mais. tinham fugido para sempre. e eu sem saber parti também com elas – nasci para não ser quase nada. apenas mais um menino que falava sem querer ser ouvido. demasiado novo. e para te zangar não queria dizer: sou teu filho porque fiz isto. a minha obra vai para além do que os teus olhos alcançam – mentira. não tinha nada para mostrar. nada para dizer que te orgulhasses. só tinha o teu sorriso guardado em mim. invisível para os outros – sabes. mãe. tu que me viste ficar sem pai. este nosso coração está sempre a doer – dói pela perda do pai. noutro dia dói porque preciso de lembrar que eu sou carne da vossa carne. e não suportaria perder esta dor – há ainda outros dias em que dói pelos teus netos. agora também pelos bisnetos. é a nossa família mãe. somos nós – perdoa-me mãe. mas não sou capaz. não fui capaz de aprender o que tu aprendeste. o que tu fizeste. o que tu sempre me tentaste ensinar. nasci diferente. ando por aqui ainda sem saber como ser filho. bem sei que para ti não é importante. sempre irás encontrar uma razão para dizeres: é meu filho e eu gosto dele assim – mas mãe. há os meus filhos. e estes precisam de saber que o teu filho não soube levar-te à boca tudo o que tu merecias. precisam de saber que os avós são a única razão para hoje terem o vosso nome – prometo-te que um dia saberão dizer: chamo-me assim porque os meus avós se chamavam assim. e os pais dos meus avós também se chamavam assim. e nós nos chamamos assim porque somos uma família – mas a tua carne já não resiste como antigamente. já não é igual. está cansada pelo tempo. está ali apenas para te proteger os ossos que já não são ossos. são raízes amarradas ao ar que respiramos – não quero que descubras que o tempo se faz das batidas do coração. quero sentir as tuas mãos. quero amarrar-te para sempre dentro destas mãos que estiveram tanto tempo sozinhas. quero afagar a tua pele que é também a minha. e ver no teu olhar que as dores que dizem que estás a envelhecer não existem quando as minhas mãos amarram-se às tuas – não desistas mãe. não expulses o tempo. ainda quero dizer-te tantas coisas. coisas que ainda não consegui dizer. preciso de envelhecer um pouco mais. ficar mais sábio. mais tranquilo. e entre tanto. tu também ficas mais bonita – não compreendo. parece que um filho só aprende a falar quando o coração deixa de bater – encosto a cabeça no teu ombro e ouço o nosso sangue a correr como se houvesse festa. e ouço: deixa cá ver um beijo meu filho – ainda tens tempo para me ensinares a dizer todas as palavras que mereces – foram tantos anos mãe e eu sempre imaginei que os corpos não partiam. e as palavras não faltariam. e o tempo resistiria. mas é tudo mentira minha mãe. a vida mentiu-me. eu também estou a envelhecer. e eu. desesperado. com medo de não chegar a tempo – e foi assim que disseste: quando deus me levar. quando estiver de partida para o céu. vou pensar que estou a voar. a andar de avião – eu também minha mãe 




04/07/2011

eugénio de andrade : poema à mãe



                                                                   eugénio de andrade



No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



29/06/2011

a arte de sobreviver




                                                                tarsila do amaral - abaporu


não consigo estar – sinto-me cansado. triste. desanimado – gosto de estar com tudo. mas não estou. estou com quase nada – deve ser do tempo. seco e sem humidade. as palavras fizeram-se catos – sobreviver no tempo é arte dos catos – eu também sobreviverei com a minha arte




26/06/2011

sándor márai



                                                                      sándor márai



“ … Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quando já se sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com a exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objectivo da vida indefinido, gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou saber alguma coisa, e sabes que um dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão fatalmente importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois morre. Compreende os fenómenos e a razão das acções humanas. A linguagem simbólica do inconsciente… porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já reparaste?...”  


livro -  As velas ardem até ao fim

23/06/2011

o tempo que se repete




laurie lipton
"here comes the boogeyman" 1999


tem dias que só assim escrevo - as memórias não me largam e o tempo repete o tempo sem que eu consiga perceber o quanto envelheci - e as pessoas voltam e falam. olham e dizem coisas que me fazem lacrimar – as lágrimas aparecem porque estão aqui. bem a meu lado. como estão neste preciso momento – o tempo sempre a correr para trás. onde ainda permanecemos todos juntos – e eu quase inocente. quase. não sei escolher o caminho. se soubesse. era um homem. mas não. sou apenas eu a crescer. sem paredes capazes de me guardar para o dia certo. o dia sem vento. onde a voz dos grandes falasse de joelhos. para mim. só para mim - talvez não lacrimejasse. talvez não escrevesse

                                                     

18/06/2011

cinemateca






cinema – tenho os olhos fixos na tela. as imagens desabam como pedras – do som nada sei. talvez seja um filme mudo. ou as bocas são barro cosido em tempo de silêncio fino – e o meu corpo ali. sentado. via tudo o que havia para ver – de frente vê-se sempre tudo. já não há passado. tudo está para a frente – não sei se há silêncio. só sei que há gente com os olhos postos lá à frente – nenhum corpo brilha. apagaram-se com as lâmpadas quando o filme deu cor à tela que momentos antes era branca – nada havia naquela tela. não havia vida. não havia esperança ou dor. havia branco. apenas um branco de pureza – naquela tela só há tempo para o futuro – rompe a fita. os corpos sentados desequilibram-se: uns tombam para a direita. outros para a esquerda. mas nenhum para a frente ou para trás. isso nunca. tudo o que está para trás já passou e para a frente ainda não chegou – o maquinista. sempre atento à vida dentro das fitas. sabe desde há muito tempo quais os momentos críticos de uma cena – emenda. corta de um lado um segundo e dois segundos do lado oposto. remenda. inventa um novo momento. um momento imperfeito para um filme que deveria ser sempre igual – mas o filme nunca mais será como antes – que são três segundos na vida de uma fita de cinema? os corpos voltam-se a centrar nas cadeiras. respiram fundo. e tudo volta ao normal – também é assim que unimos a vida quando não estamos no cinema. remendamos e seguimos. seguimos em frente. só assim se chega ao futuro – toda a gente olha em frente. silêncio – há agora na vida um milésimo de segundo que não encaixa noutro milésimo. um degrau quase impercetível – nunca ninguém caiu num degrau que nunca chegou a ser degrau – ninguém quer saber nada se nunca passou do nada. ou se é degrau e se tropeça. ou então não se é nada. como uma tela de cinema branca. um vazio absoluto – perdi-me. já não sei se falo da vida ou do filme. não parece importante. afinal todas as vidas são feitas de cortes e emendas – tudo prossegue. tudo passa. e neste corte imagino como tudo podia ser diferente se o corpo não nascesse com nome. não era preciso ouvir. ninguém dizia: sampaio estou aqui. sampaio como vai a tua vida. esta gente obrigatoriamente tinha de falar de boca aberta. e eu respondia também de boca aberta: está tudo mais ou menos. tenho uma pedra num rim. podia ser pior – já sabes o que aconteceu ao hernâni. deu-lhe o nó na tripa e foi desta para a melhor – dizem que era um cheiro que não se aguentava à sua beira. e não era falta de banho. que o joaquim cangalheiro nisso não falha. respeita os finados e a profissão. é muito melhor que o pai – estava todo apanhado por dentro com um malezinho – mas não. todos temos nome e neste filme até os artistas têm nome. as legendas passam levando nomes aparatosos. amorosos. apaixonados. percebe-se tudo pelos rostos e na forma como andam sempre para a frente – os gestos parecem desenhados. só gente apaixonada sabe dizer tanto sem abrir a boca. ou então é o mundo que está em silêncio e já todos falam de boca fechada – os corações suspiram e quando tudo parece perdido aparece o artista a ocupar a tela de lés a lés. não se vê branco. nenhum pedaço vazio de tela. só há artista – é um momento solene. dobra-se o silêncio em dois. tudo indica que desta vez só o som é capaz de resolver o mistério do amor. vai ter de falar. os segundos parecem horas e os olhos cada vez mais perto da plateia. estão enormes. todo o cinema é agora aqueles olhos. já não há espaço nem para dizer um olá – sem mexer um único músculo facial. agarra a apaixonada pela cintura e. sem que a inquietação pudesse surpreender os olhos arregalados da pobre rapariga. prega-lhe um beijo. daqueles que selam o silêncio para sempre – depois. sem que o tempo tenha tempo para continuar. a vida aparece: the end – há gestos que se repetem. os corpos contorcem-se como se fossem feitos de amor. queriam mais. queriam o som da voz a dizer: amo-te. amo-te para sempre. até que a morte nos separe – acabou – só os olhos disseram paixão. os olhos de um e de outro fecharam-se para sempre com o beijo – estou conformado. sempre foi assim. nos momentos mais belos os homens fecham os olhos e ficam em silêncio – depois. já com os corpos desenganados chegam as luzes. as lâmpadas ganham formas. e a vida corre na esperança de encontrar um beijo que também a obrigue a fechar os olhos para sempre – saem os cegos. os coxos. os manetas e os loucos. e todos aqueles que perdem a cabeça a cuidar de filmes onde os artistas mudos se repetem na vida sem tela. vida que consome o tempo presente dia após dia – ainda há lugares nas frisas com faces paradas. mas os rostos estão cada vez mais longe dos corpos – estou demasiado distante para entender o que as bocas dizem. mexem os lábios de uma forma descoordenada. os corpos vão para um lado e a voz fica ali sozinha à espera que algum corpo a queira ouvir – até queria ouvir. mas estou longe e não trouxe os ouvidos – é no cinema que gosto de passar despercebido – aqui nunca se fala





08/06/2011

clarice lispector









"Estou adiando o meu silêncio. A vida toda adiei o silêncio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa voltar a falar"




Clarice Lispector - A Paixão Segundo G. H.



07/06/2011

as palavras que o silêncio guardou




  fernando montes - boliviano
   o pintor do silêncio


um silêncio que vive dentro de tudo o que penso – a boca serve para mastigar a fúria das palavras que não digo – nos dias em que o contrário de satisfeito me encontra. baixo a cabeça – por detrás do reflexo. a sopa. cada vez mais fria. cada vez mais incapaz de aquecer as palavras. sempre mornas – revolvo – há um vai e vem entre a moela que trabalha com grãos de sensatez e o céu que não encontro à boca – há um inferno – ainda tenho palavras para dizer – escrevo – um dia hei de morrer sufocado neste meu silêncio – há quem pense que digo tudo. não digo. o silêncio é sempre mais forte. e os homens sem ouvidos foram sempre muitos – talvez não saiba contar. talvez nem todos fossem homens – talvez – estou a apagar-me. quero apagar-me. os dentes. estes. aqueles. não mastigam o suficiente para acabar com o silêncio dos homens que invadem os dias. agora os dentes já não são apenas estes ou aqueles. são todos - há um passado com homens. tinham horas. minutos e até segundos. eram homens de todos os meus dias – há ainda um silêncio vivo. mas já não é aquele. nem este. é tudo. é tudo silêncio – ainda – um dia serão palavras

 

02/06/2011

o carpinteiro e o pássaro com rodas





crónica da pomba branca
quarto livro de crónicas


“ … Ignoro se sabem o que faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor Doutor e quem me trate por Sr. António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um carpinteiro…”

 

I.

não quero ser escritor – quero escrever. escrever como um carpinteiro – quero ser carpinteiro como diz o lobo antunes. quero escrever palavras com cheiro à resina. às colas. às pancadas do martelo. do serrote que vai e vem. do lápis que agarra à orelha todos os barulhos das palavras que aperfeiçoam o silêncio quando lidas – depois. depois deixo partir a arte de quem faz coisas com as mãos. onde compete o belo e o monstro – desta vez. talvez por encanto fugiu-me um pássaro pelos dedos. um pássaro gigantesco. com um bico pintado de sossego. no lugar dos olhos um arco-íris com mais de mil cores. as asas são tão grandes que nem lhes sei escrever o tamanho. sei apenas que estão presas a rodas e nunca param de esbracejar – são umas asas diferentes. esbracejam em silêncio sobre rodas que só andam para a frente – são mesmo diferentes estas asas. deixam-me confuso. nunca vi asas correrem ou voarem com rodas. não sei. não sei mesmo. nunca as vi voar só esbracejam. mas também não me parece que seja importante para o pássaro voar. nem para o carpinteiro vê-lo voar. há ali um acordo escondido que faz desta uma história diferente – as palavras continuam-me a cair em silêncio. largo-as do mais alto que as mãos alcançam. talvez não seja assim muito alto. penso eu que também sinto falta. quero acreditar que seja um pouco mais alto do que imagino. quero ouvi-las a cair aos pés. aos meus pés. mas não. não. pelo caminho transformam-se em água e no chão. onde mantenho os pés firmes. sorriem agora apenas lágrimas – nunca nenhuma palavra nascida dentro de mim fará barulho. quebrará este silêncio pedra. este silêncio dor. este silêncio que não voa. um silêncio que. por ser silêncio. ninguém ouve – percebo então que o pássaro que fugiu dos dedos. quando corre ou tenta voar procura apenas um novo silêncio. outro silêncio . um silêncio que nunca tenha sido magoado 

 

II.

este pássaro não sossega. para trás e para a frente. e a vida do carpinteiro parada. parada em silêncio – este pássaro é maluco. doido. idiota. tem asas. mas não quer voar. corre. como se correr significasse voar. nem lhe era necessário voar muito alto. bastava que voasse por cima de um livro. uma cadeira desocupada pelo momento. ou um quadro pendurado numa parede sem cor definida. geometricamente dividido. falo da tela. do sorriso da mona lisa feito por um artista que não podia morrer à fome. talvez eu também sinta falta de quem sorri. e quem sabe. digo eu ainda a pensar como se fosse um artista – depois de limpar os pincéis. atirou-se de uma ponte famosa de onde se atiravam artistas desiludidos – mas este pássaro não voava. talvez tivesse medo das alturas. e correr talvez o fizesse rir depois – não deixa de correr. corre preso àquelas rodas como se fosse livre da terra que o segura. talvez acredite na liberdade do homem-carpinteiro que o deixou escapar por entre os dedos – este carpinteiro é um homem com asas presas a rodas. dá vida à madeira. mas nunca consegue soltar-se dela. o pássaro que lhe fugiu das mãos é apenas um reflexo daquilo que ele próprio não consegue ser: livre. corre. esbraceja. mas nunca voa. tal como ele dá vida à madeira. entende de madeiras. madeiras simples de pinho. daquele que se encontra em qualquer lugar de madeira. podia perceber de pau-santo. sucupira ou outra qualquer madeira nobre. mas não. só conhece o pinho – tem uma bouça com giestas. silvas. amoras. azevinhos. cogumelos e pinheiros bravos. muitos pinheiros bravos. alguns mais antigos do que ele. do tempo em que os animais falavam e as fadas apareciam a quem vive num silêncio magoado – este homem. este carpinteiro. quando não lhe apetece trabalhar é aqui que passa os dias. procura o pinheiro certo para uma ideia que ainda não apareceu. sabe que junto das suas mãos. em silêncio e sem a pressa do tempo. mais tarde ou mais cedo. sempre haverá um pássaro a fugir por entre os dedos. é por isso que gosta de ser carpinteiro. as mãos sempre fazem coisas que nunca imaginava possíveis – desta vez foi um pássaro gigantesco. diferente de todos os pássaros que já lhe voaram das mãos. este gosta de correr. só a correr é capaz de bater as asas – e lá vai ele. corre. corre. as asas sempre a bater vida. vida em silêncio. asa para cima. asa para baixo. como se acenassem. talvez esta seja a sua própria forma de voar: acenar. dizer adeus. sem nunca sair da oficina de sonhos do seu criador – e o carpinteiro preso às rodas da sua arte. e a vida a correr como se também ele se transformasse num pássaro e as asas para cima e para baixo. cada vez com mais força. há alturas em que é capaz de jurar que vai levantar voo com o seu pássaro – não. nunca deixará a terra que o segura. nasceu amarrado a ela e é nela que se sente bem. afinal de contas é carpinteiro e os carpinteiros não voam



31/05/2011

não estou louco. só sou cruel






«Sabiamente, Henry James aconselhava os escritores a não escolher um louco para personagem principal de uma narração, pois não sendo o louco moralmente responsável, não haveria verdadeira história para contar.» Gore Vidal - in Delírio, Laura Restrepo



mas tu estás louco? não. nunca saberia compor uma loucura com palavras. se fosse música. talvez - a loucura de um homem depende sempre da companhia de quem o escuta – na maior parte das vezes estou só. penso só. ouço o que digo. o ego precisa de silêncio – mas é nesse silêncio que percebo a crueldade com o que não gosto. por isso digo: não estou louco. estou é cruel com o que não gosto. e muitas vezes não gosto do que penso. parece-me isso um pouco louco – outras vezes não gosto da companhia. é nestas alturas que fico quase louco – seria trágico trazer-vos para a companhia de alguém como eu: alguém cruel



24/05/2011

agora sei que sei






outras mãos tomaram conta de mim. mas as tuas. com tantos anos. com tantas rugas. com tanto tempo. são as únicas que reconheço quando as sinto no que resta de mim – sei que são minhas mãe – agora sei que sei – agora



23/05/2011

calmamente por entre os dedos dos pés e as asas




                                                                       jorge reis-sá



o mar é o meu refúgio , nele
me largo aos dias que me restam

tu, única gota que
deixei um dia entrar no meu coração




jorge reis-sá - a palavra no cimo das águas