16/02/2012

o tempo será então saudade



                                                         jean-michel basquiat, cavalgando com a morte



não sei. esta coisa de escrever a vida muitas vezes não dá certo – não sei. não sei mesmo. encontro sempre dúvidas nas palavras. são sempre tão imprecisas. incertas. inconstantes – e a morte está sempre tão presente que os verbos nunca multiplicam futuro. o tempo-esperança é sempre tão frio. como inverno. gelo. cadáver – se fosse um sorvete. seria verão. calor. família. doçura. mel. amigos – aonde estou se aqui não me encontro? para onde vou. se nunca daqui saí? um dia serei odor. defunto. choro em faces comprimidas – diluído nas lágrimas a parte que tinha de bom. na oração. a solução para todos os erros. e por fim. uma mão cheia de água benta para dizer: vai com deus – depois. virão as memórias misturadas com silêncio para os que ficam – o tempo será então saudade

 

14/02/2012

manifesto



                                             foto de samuel aranda vencedora do “world press photo" 2011



não me peçam para esquecer que hoje é sábado – não. não me peçam para esquecer as centenas de camionetas-gente que marcham pela estrada. protestando contra o desemprego. a noite a roubar o último lamento de calor ao sem-abrigo. o desespero do filho da nação a gritar por um dia de trabalho – não. não me peçam para esquecer o pai envergonhado que não sabe explicar ao filho a falta de pão. o homem-desalento que. debaixo de um cobertor de lã. chora sem conseguir cobrir o silêncio-vergonha. aquele que. em desespero. se despediu da vida. convencido que era ele o mal do mundo – não. não me peçam para esquecer o operário sentado à porta da fábricar. ouvindo o silêncio das máquinas. o campo esquecido do lenço preto na cabeça da ceifeira. o pescador enfurecido por não saber do seu mare nostrum. ou o trespasse das ruas vazias colado a vidros cobertos de pó – não. não me peçam para esquecer o zeca afonso. o cravo de abril que pariu a grândola vila morena. a utopia de uma esquerda vencida pelo tempo. a direita da autorregulação fabricada pelo político sofista. a ganância do banqueiro-cimento – não. não me peçam para esquecer o desespero da mãe que perdeu o filho numa guerra de conveniência. o corpo retorcido do velho que morreu esquecido no frio da cidade. o marginalizado pela diferença. a doença do serviço nacional de saúde. o acesso sem acesso ao conhecimento. a justiça desigual entre o rico e o pobre – não. não me peçam para esquecer gandhi. mandela. martin luther king. a fé no homem. gedeão e “o sonho comanda a vida”. a liberdade-vento tomada com sangue ao totalitarismo. a caminhada-sacrifício da humanidade ao longo da linha do tempo – não. não me peçam para esquecer que a vida é trabalho-honra. descanso-paz. palavra-arte que gira com o movimento da terra. desde que o homem descobriu o fogo – não. não me peçam para esquecer o berço da europa: solidariedade-grega. sim. dos sem terra. de áfrica. do buraco do ozono. do animal perdido para sempre – não. não me peçam para esquecer que amanhã é domingo – não. não me peçam para esquecer que de nada me serve ser homem se não sou humano – não me posso esquecer – não me vou esquecer 



11/02/2012

vânia lopez - o silêncio




 
 
 
o silencio ousa ser mais alto que os gritos...




tem cabelos negros macios
olhos verdes como o céu
estatura alta
estava usando jeans escuro
e uma camiseta branca
levava uma mochila
com todos nossos dias de chuva
foi visto pela última vez
indo pelas ruas dentro de mim
por volta das quatro horas de ontem
com o silêncio que consegue
ser mais alto que meus gritos...



(baseado em fatos reais)


09/02/2012

alberto caeiro - se eu morrer novo




 
fernando pessoa




Se Eu Morrer Novo



Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.





Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa



08/02/2012

a berma do fim



ron mueck



não há caminho diferente – a escolha foi feita no tempo em que as palavras usavam calções – o tempo andou – agora. agora resta-me escolher por que berma seguir – a esperança é para outras vidas. noutro espaço – há dias em que caminho contra os carros. outros dias. quando a ilusão é doença. caminho a favor dos carros – alguns levam pessoas em silêncio. noutros dias. só o rádio sufoca as faces-pedra. conformadas – caminho – sempre me disseram que a vida se faz a caminhar – então caminho –  ainda é possível acreditar na estrada? não – não acredito em estradas onde uns vão para lá e outros vêm para cá – se só há um fim. como pode haver dois sentidos? fim é morte. morte é descanso – quero acreditar que o fim é mais fácil por este caminho. por este lado da rua. sigo atrás deste carro preto. com gente aos berros – vou por aqui. sei que o precipício é maior e o corpo voa antes de dizer uma única palavra de salvação – não há arrependimento – sempre quis voar – desde sempre soube que o faria

 

mário quintana – inscrição para um portão de cemitério



                                                                    mário quintana



INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!”



07/02/2012

assim assim




                                                                      rembrandt



não estou

[escusam de me procurar]

parti

parti assim assim

fui-me em silêncio

 

esqueci tudo

deixei-me ir

cansado do tempo

abandonei

o corpo

assim assim

 

bem

quer dizer

não sei

talvez tenha morrido

morrido assim assim

 

quem sabe

este meu assim assim

seja um erro na linha do tempo

um momento vazio

um segundo eterno

mas não é

agora já não é

o tempo

o tempo consumi-o todo

num corpo assim assim

 

os chinelos esquecidos

parados. sem pés

guardam o espectro

de um tempo suspenso

assim assim

 

perdido

nas paredes. os gritos

sufocados pela cor da tinta

branco assim assim

e o corpo

perdido

em busca de outro corpo

e o laço da corda

baloiça assim assim

 

onde estou se não estou aqui?

para onde fui

se de mim não sou?

nem assim

nem assim assim

 

diz-me tu

que escreves assim

sou o que não sou

sombra assim assim

 

se um dia o sol morrer

mesmo que seja assim assim

a sombra será eterna

nesta dor de ser assim

 

inventei-me todos os dias

numa história

era uma vez

depois…

depois não sei

foi tudo assim assim

 

dentro do tempo

o corpo assim assim

perdida nas paredes

a vida assim assim

a cabeça assim assim

e aos pés

decapitados pela razão

os olhos caídos

assim. mortos. em pó



amélie nothomb




amélie nothomb


“ Aqueles que, de uma maneira ou de outra conheceram a morte demasiado de perto e lhe escaparam tem em si a sua própria Eurídice; sabem que há neles qualquer coisa que se recorda demasiado bem da morte e que é melhor não olhar de frente. É que, como uma toca, como um quarto de cortinas cerradas, como a solidão, a morte é, simultaneamente, horrível e tentadora. Achamos que poderíamos sentir-nos bem nela. Bastaria deixarmo-nos arrastar para chegarmos a essa hibernação interior. Eurídice é tão sedutora que temos tendência a esquecermo-nos do motivo por que é preciso resistir-lhe.”  
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.
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amélie nothomb - metafísica dos tubos



04/02/2012

il mangiatore di fagioli



annibale carracci - il mangiatore di fagioli


pergunto-me: para onde estará a olhar o homem? não sei. não é possível saber. o artista esqueceu-se de o deixar anotado – era tão fácil. uma nota de rodapé bastava para que este meu dia nunca tivesse acontecido – agora estou aqui. perdido em conjeturas que nunca terão valor académico – sinto-me também um quadro: sem lógica. irracional. sem cores. linhas. contornos. sombras. dobras. estilo. iluminação. sem nada. vazio. perdido no branco da tela ainda virgem –  nunca serei um rococó – sou imaginação e a imaginação não é nada aos olhos do desconhecido – olho. olho e volto a olhar a pintura e não sei o que vejo naqueles olhos negros – sei apenas o que o pintor quis revelar: um homem do povo. chapéu de palha. unhas sujas dentro de mãos rudes. um corpo que sobrevive do que faz – o que teria levado carraci a pintar um homem do povo? o que escondia este homem dentro de si de tão importante que obrigasse um artista a pegar nos pincéis e a dizer: tu viajarás comigo para a eternidade. habitarás os salões das mansões e compartilharás da companhia dos nobres. dos condes. das baronesas. dos príncipes. das rainhas. da arcádia e suas paisagens ideais –  serás para sempre o meu homem. o comedor de feijões – o pão amarrado à mão. preso pela força do pulso como se dissesse: este é meu. trabalhei por ele. tenho direito a ele. todo o homem que trabalha tem direito ao seu pão – toalha branca. camisa branca e a jarra de vinho em tons pastel. rasgada por uns traços finos de quem. um dia. quer ser cor forte – na mesa a fé. o pão diz-me: estou aqui. não se esqueçam de que eu e o vinho fazemos a ceia do senhor – havia esperança no cimo daquela mesa. havia futuro – às vezes gosto de imaginar que este homem é uma fraude. uma invenção do pintor. não é um jornaleiro. não é um trabalhador do campo substituindo a carne por um prato de leguminosas – não. este homem é um amigo veneziano seu. comerciante rico. encomendou-lhe o trabalho apenas para divertimento do seu excêntrico ego – talvez naquele tempo já houvesse uma espécie de carnaval veneziano e o seu amigo gostasse de se vestir como um carrejão das docas – quem sabe. talvez fosse um nobre descendente dos fundadores do condado de bolonha. ganancioso como quase todos os ricos e poderosos. o prazer vinha-lhe dos longos passeios de revista pelas suas terras. terras estas que se perdiam de vista. muito para além do rio pó. e entregues aos cuidados de gente que trabalhava de sol a sol. gente da terra – jornada sempre cansativa. não estava habituado a grandes esforços. parava para almoçar num dos seus muitos caseiros – em frente dele a família que o acolhia observava atentamente o seu amo enquanto comia – a um canto da sala. um casal; da cinta ao solo de terra batida. a certeza de que os campos continuarão a florir. meia dúzia de filhos. alinhados pelo tempo de espera. escutam em silêncio o barulho da boca a sorver os feijões. talvez quentes. talvez frios. digo eu –  só o barulho da lenha. a queimar a panela de ferro negro. competia com o ranger das mãos a rasgar o pão – aquele olhar arrasta de dentro de si um silêncio de medo – dentro daqueles pequenos olhos pretos quero ler: por que estais aí especados a olhar-me se apenas estou a comer a minha comida? gosto de imaginar o encontro dos olhos. os que o artista pintou para me afligir no comedor de feijões. e aqueles que quero alcançar. e que o pintor plantou dentro da minha imaginação – imagino então. sabendo que nada no quadro mudará com a minha imaginação.  mesmo que dentro dos meus olhos veja os olhos de uma família humilde. honrada pelo trabalho. parada no canto da sala. deprecada em clemência silenciosa. enquanto dentro do seu corpo cintilava o orgulho e honra por ter na sua casa o homem mais poderoso da região – gosto de imaginar: o que seria de um escritor sem imaginação? por isso é que quero ainda poder ver a mulher do jornaleiro parada em frente à mesa. olhos no chão. à espera. imóvel. que o seu senhor termine a refeição – ou ainda. uns olhos acabados já no tempo do romantismo. imagino o comedor de feijões. a meter a colher à boca. quando. num súbito bater de asas. um passarinho entra pela porta e. de bicada em bicada. apanha as últimas migalhas de um dia que talvez fosse especial para aquele lar. e o homem. assustado pela aparição do belo. não conseguiu esconder o espanto dos olhos – também eu pinto. não era minha intenção substituir o carracci nesta vontade de dar cor à minha folha de papel – para ser franco. não sei exatamente o que quero imaginar. às vezes quero apenas inventar novas tintas – misturo-as. volto a misturar. e vejo uma nova cor – agora estou a ver a jarra pintada de lilás triste – na minha cabeça. quero apenas criar quadros como no iluminismo. um movimento de ideias capaz de reformular conceitos erradamente predeterminados. os mesmos que trouxeram este mundo até aqui – pintar um jornaleiro na época não era normal. talvez o artista quisesse ser diferente e dar um murro na mesa das elites – ou então. carregado de dívidas. com os impostos em atraso. com o subsídio de férias e de natal cortados e em graves dificuldades económicas. tenha vendido a sua alma ao poder do capital – carracci sabia que este homem. disfarçado de tragédia. era apenas uma manobra de marketing de um dos senhores poderosos da região. quis mostrar que a vida estava má para todos. que era necessário fazer sacrifícios. cortar custos. reduzir despesas. tornar tudo mais competitivo neste mundo que agora começa a ser global – quem sabe. o pobre jornaleiro. aquele que não aparece no quadro. tenha sido despedido. extinção do posto de trabalho – a esperança está naquele naco de luz que o pintor deixou penetrar no tempo daquela gurita pendurada ao ombro do jornaleiro. protegida por uma cruz de quem sabe que a vida é sofrimento – o tempo nada trouxe de novo. para quem trabalha. nada mudou. tudo se repete – para a história fica apenas o pintor e o seu comedor de feijões 



26/01/2012

a boca fechada



 annibale carracci


o cadáver acontece – sem palavra. insignificante. inofensivo. imóvel.  inocente. indiferente – tudo agora está escuro – onde não há palavra não há ruído – as mãos deixaram de escrever. estão cruzadas. a imaginação suspendeu-se. fixou-se num ponto inventado. o verbo é agora pretérito perfeito misturado com silêncio – no fato preto. a cor de toda a minha vida – os olhos fechados. não sei a cor da gravata. nem quem a escolheu. pode ter sido tirada à sorte daquela última gaveta do guarda-vestidos. sei que o nó é grosso. sufocante. estranho. falta-me o ar. talvez seja das tábuas. estão tão juntas aos cotovelos – a boca fechada. presa nos lábios. a cola – colaram-me os lábios. obrigaram-me ao silêncio. agora nunca mais posso dizer: olá. como estás – sem palavra não sirvo para nada. não sou vento. nem gaivota. nem desespero. nem lágrima. sem palavras não se fazem lágrimas – será que alguém teve medo que eu dissesse alguma coisa desagradável. talvez um amigo amedrontado. sabem que há palavras que matam mais do que a própria morte – passei a vida a dizer que não sabia falar. mas assim. fechada? com cola? não era preciso – nunca imaginei que a morte assentasse na falta de palavra – falava com gestos. sempre foi assim. os braços para trás e para a frente. a correrem como loucos. os olhos caídos no chão como piões rodavam entre as pernas também elas desconsoladas por nunca saberem o caminho do corpo. e a boca sempre ali. morta por dizer o que nunca sabia dizer. só na cabeça as palavras faziam sentido. e dentro. a língua. as papilas gustativas. sempre a salivar por um verbo de amor –  só com o meu amor os beijos eram palavras. podia dizer amo-te sem gastar uma única palavra – que faço sem boca? que faço vestido de preto? que faço ao corpo velho. enrugado. triste. como sempre foi. perdido. escondido em projetos. em esboços. viagens – nunca saía de dentro do meu corpo – abram-me a boca. deixem entrar o ar mesmo que esteja frio. mesmo que nos côncavos olhos já não veja os lugares onde me sentei a sorrir. aquela rocha voltada para o mar. na póvoa do varzim. onde pela primeira vez falei com as gaivotas – que dia: o céu cinza. o mar cinza. as gaivotas cinzas. tudo estava cinza. os pescadores em terra cosiam as redes em roupa cinza. e as ondas de agosto abafavam o ruído das pessoas no passeio alegre – e eu ali. com um agosto jovem. sem nada saber de oceanos. só mais tarde descobri que o mar lava a alma. mas também a afoga – sozinho. nem ninfa. apenas as gaivotas. voavam-me em círculos sobre mim. como abutres.  já sabiam que mais tarde ou mais cedo a boca seria a minha morte – não é uma questão de falar convosco. aqui já nada me resta a dizer. mas para onde vou. donde venho. o que fiz. ou o que gostaria de ter feito – pensando bem também não sei donde venho. nem o que fiz. ou o que gostaria de ter feito – há tantas coisas em mim que nunca soube escolher. hoje queria uma coisa. amanhã outra – talvez não precise da boca. talvez tenha dito tudo que é permitido a um homem preso a um corpo que nunca para de estar quieto – não sei falar – mesmo com a boca fechada não tenho silêncio dentro de mim. nunca tive. há sempre barulho. alguém a querer dizer: tu não és tu – se nunca sou eu. para que serve viver? – não há forma de manter o corpo dentro da cabeça e rebolar até aos pés dos que me percebem – preciso de silêncio – ser cadáver em vida é uma complicação sem nome – quero desaparecer sem que ninguém repare




20/01/2012

então até já



van gogh


tempo moderno. no homem a máquina e na máquina o homem – os antepassados não compreenderiam. eu. também passado. ou quase. compreendo porque ouço vozes a dizer: está tudo bem. correu tudo bem. a pedra foi dinamitada – raios de pedra. implodiu dentro de mim. onde moram outros eus: a família. os amigos. os abraços. os cumprimentos. e aqueles que transformam um simples bom dia numa viagem ao tempo dos bisavós – antigamente. bom dia era unicamente educação – pum. momentaneamente deitamos as mãos aos ouvidos. a implosão é sempre uma explosão para os tímpanos – ouvi dizer que os ouvidos estão presos ao coração por lágrimas que ainda não foram choradas – mas não. o barulho era enganador. traumas do que ouvimos noutras vidas – aqui. é festa. é garrafa de dom pérignon. explodiu de alegria enquanto do céu caiam mil confeitos. mil  cores. há quem diga que são lágrimas secas. outros. com mais fé. dizem que são sorrisos de quem o espera no passeio da foz – ainda há mar para ver. e um rim finalmente em descanso

 


19/01/2012

vasco graça moura - nó cego. o regresso



                                                                    vasco graça moura



nó cego, o regresso

(...)
 

XVII

como meter o mundo
num poema? traduzir-lhe
a áspera realidade, a doçura
intranquila?


como meter o trabalho
dos homens, os seus dias,
nessas escassas linhas,
seus ócios, seus espelhos,


seus desvarios, suas
catástrofes de amor?
como meter a morte
nas palavras?


só que uma coisa bela
é para sempre uma alegria inquieta.

(...)



11/01/2012

o senhor do pulmão único



théodore géricault



o mar traz no cimo das ondas gaivotas enlouquecidas. até aquela cinzenta que vive dentro do meu único pulmão. a única capaz de transformar o caos em confiança – este pulmão comprei-o a um fidalgo que vagueia dentro de mim – foi com ele que percebi um sofrimento em mim que nunca iria compreender – é um homem distinto. alto. elegante. usa cartola. luvas de pelica e um lenço branco. delicadamente recortado. que escapa do bolso do casaco negro de caxemira. combina com a camisa branca. engomada e de seda pura. na extremidade das mangas uns botões de punho em ouro com caveiras encastradas. no dedo anelar. um anel idêntico. enorme. com a mesma caveira em alto relevo. sela as cartas confidenciais com o lacre da sua própria vida. que se consome a cada palavra escrita – nunca percebi para quem escreve. talvez para um familiar perdido em algum canto remoto de mim e que ainda desconheça – caminha preso à bengala que marca os passos. sempre exatos. ritmados. como se seguisse uma partitura invisível. talvez marcha militar. nem depressa. nem devagar. as pernas andam apenas porque andam. move-se apenas para nunca estar parado. talvez não goste de nenhuma parte do corpo que lhe dá guarida. ou então. precisa de movimento para manter as costas direitas. sempre perpendiculares ao sentido de tudo que me passa pela cabeça. como os pêndulos dos relógios. que oscilam em paredes vazias. marcando um tempo que avança mesmo sem ponteiros – os sapatos. ah. os sapatos de atacadores brilham. não sei se são novos ou apenas bem engraxados. mas brilham. brilham como nada mais em mim brilha. como os olhos dos meus amigos. como as mãos que me cumprimentam. brilham como os castiçais que seguram velas insistentes em alumiar o que já se apagou. brilham como as palavras escritas nas paredes em que me encosto para descansar os pés que me suportam – este cavalheiro. importante. continuo a pensar eu. anda sempre de um lado para o outro. um dia aqui. outro ali. sempre sugando o ar. indiferente. que lhe invade a boca em gritos – este “gentlemen”. creio que deve ser de descendência britânica. nunca se atrasa. àquela hora ali está. batendo ritmadamente a sua bengala num órgão qualquer – agora percebo que a dor não me pertence. nem a vida – um dia faço algo que o desagrade. e zás. pancada final – acredito que é para isso que vive dentro do meu único pulmão – até que um dia. impaciente. simplesmente diz: acabou-se o tempo

 


20/12/2011

natal 2011





                                                                     jacopo bassano




brevemente partirei para dentro da minha família. amigos e companheiros da arte da literatura – esta é uma quadra de recolha. meditação e agradecimento pela vivência de tantas coisas belas que a vida graciosamente me permitiu apreciar – sendo assim. feliz natal. voltarei em 2012. com a esperança renovada de que o novo ano será ainda melhor para mim e para todos aqueles que estimo

 

aos meus amigos e leitores desejo-lhes um feliz natal e um ano novo cheio de sucessos pessoais



14/12/2011

cadáver procura-se





jackie k. seo



as mãos. outrora fortes. crentes na imortalidade atrofiaram. enroscaram-se nos pulsos – são agora escadas em caracol para o inferno – subiram. degrau a degrau. até que um dia. envelhecidas pelo tempo. suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas mãos assim. maldito belzebu. maldita língua – se ao menos soubesses dizer o meu nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça noutro corpo – aproveitava os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maçãs à porta da loja. da espiga vermelha. do casaco aos retalhos. dos sapatos de verniz com aquela fivela dourada. do pente que arrastava o cabelo para trás do nada. do old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo. menos o coração – era então outro – sempre disse que este coração me levaria à morte



13/12/2011

o meu corpo é um lugar de silêncio





lucian freud



é no mar que submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que. por viver tão fundo. nunca soube o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco sem fundo. onde outros corpos entram porque têm de entrar e depois saem porque têm de sair – acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como caixeiros viajantes – um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para repor energias e. ao amanhecer. com as primeiras nesgas de luz. arrumam a mala e partem – muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às vezes imagino coisas que não lembram ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a sair – estranho. entram e saem sem uma palavra – nunca percebi porque atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam como os patos selvagens que cruzam o céu à procura de terras-refúgio. terras quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem uma seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos. mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o meu  corpo  nunca foi grande. sempre me senti acanhado dentro dele – imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em cada velharia havia vida. o conhecimento. assente em pequenos lingotes de tempo. partia de boca em boca. de terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico. ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que a sua robustez de nação secular advém do acreditar – a força vem das dificuldades. quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões. marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas trariam corpos com vozes para dentro de mim – mentira – ninguém ouve o silêncio – o silêncio traz sempre mais silêncio – silêncio dor. faca. mutilação. até que um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos. todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que. na hora da morte. não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho. como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e no entanto. quero ainda saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa lugar é a maior mentira que inventaram até hoje – uma mentira de um aldrabão. de um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas: dos calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da geada que cobria os campos – das memórias – com os pés encostados a uma botija de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão. respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. não faltaria à catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite. que partisse sem pecado e. no paraíso. me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a idade não para de avançar. e o coração já não encontra espaço para bater com precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio – já arrastam os pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar passar pelo meu corpo. sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e. entre mim e eles. há apenas tempo – tempo feito a relógio – passam uns dias mais devagar. outros mais depressa – e eu sem nunca saber o que  fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo – a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas d’os lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler: adamastor – talvez estes corpos sejam adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida



12/12/2011

de nihilo nihil





                                                  peter paul rubens – ressurreição



compreender estas sombras não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor. saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão. bondade. resignação – tudo se devora da carne da minha carne – e os olhos calam-se

 

*de nihilo nihil – nada vem do nada – nada foi tirado de nada. isto é. nada foi criado. pois tudo o que existe sempre existiu; este aforismo resume a filosofia de lucrécio e de epicuro



11/12/2011

Sabes, Pai - jorge reis-sá





                                                                        jorge reis-sá



sabes, pai

o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol


ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada


nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava




08/12/2011

notícia de última hora




maluda



a notícia presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha. acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem. com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico imperfeito. perfeito só o seu  crânio circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo. tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular. contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo. transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali: editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia. sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta – revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes – talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo. aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor. sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano

– bom dia. o jornal notícias e a bola

– são dois euros por favor

 perdoem-me. mas… “eu não escrevo em português. escrevo eu mesmo”*



* citação de fernando pessoa