19/02/2021

uma letra minúscula


pintura - gustave caillebotte


o padre lorenzo milani disse: “enquanto houver uma pessoa que sabe 2000 palavras e outra sabe 200. esta será oprimida pela primeira – só a palavra nos torna iguais” – é por isso que me amarro a cada palavra que aprendo. para me deixar de sentir oprimido. para me libertar do cativeiro da incerteza. e do medo que guardo do mundo dos pensadores – penso como seria diferente se soubesse ainda mais palavras. como me sentiria mais livre ao escolhê-las. ao torná-las mais minhas – mas não me escondo atrás do que não sei. olho o mundo e escrevo o que me escorre pela encosta do tino – depois. deixo as palavras fazerem o sentido contrário. regressa tudo ao pensamento. não com a singeleza com que as levei ao papel. mas mais lúcidas. mais equilibradas. mais informadas. a dizerem mais coisas. coisas que nunca imaginei que pudessem dizer. e interrogo-me: são minhas as palavras. ou de outra entidade desconhecida? foram contaminas no novo mundo? ou apenas amadureceram? ganharam capacidade de se reproduzir? por contágio? não importa o que penso que sei. ou não sei. nem porque as escrevo assim. ou de outro modo. se são cultas. ou iletradas. o que importa mesmo é perceber que a arte nem sempre se compreende. a arte é a procura do belo – é o meu belo que procuro levar-vos quando escrevo – toda a cultura é humanista. e eu. enquanto “sarrabiscador”. gosto de um humanismo universalista. gosto de manter a minha janela aberta ao mundo de todos – eu estou no centro do mundo. e tudo contribuiu para o que escrevo – termino com uma máxima do escritor e pensador mário cobos: “Nada acima do ser humano. nenhum humano abaixo de outro” – eu digo: nada acima do pensamento – nenhum pensamento abaixo de outro – o que me chegar por bem. no bem guardarei. e ao papel entregarei – é isto que sou. uma letra minúscula no mundo da escrita

 


15/02/2021

deambulações noturnas LXVI



pintura - antónio dacosta

  

sei bem que gostaria de enaltecer um gesto de carinho. sim. gostaria – mas não ficarei muito mais tempo a olhar a espera – não. não ficarei – escrever é um gesto de amizade. sim. sempre foi

 

12/02/2021

chocolate quente



foto google


 

esta semana na RTP1. no programa entrevistas “na primeira pessoa”. a jornalista fátima campos ferreira teve como seu convidado o herman josé krippahi – o herman josé é um artista prodigioso. humorista. entertainer. músico e compositor. considerado o pai do humor em portugal – entrevistar alguém com as capacidades cognitivas e sensibilidade artística do herman. com uma narrativa de vida ímpar. é para qualquer jornalista um marco relevante na sua carreira profissional. e uma excelente oportunidade de proporcionar aos espectadores a descoberta de um lado íntimo e pessoal do entrevistado que. geralmente. nos é ocultado enquanto artista – óscar wilde dizia que um homem culto é aquele que sabe encontrar um significado bonito para as coisas bonitas – o herman nesta entrevista mostrou-me isso mesmo – a certa altura da conversa a fátima faz uma referência ao seu pai. perguntando-lhe como tinha vivido a morte do pai – depois de uns breves segundos de reflexão. responde: “as memórias do meu pai são um chocolate quente de inverno” – fiquei maravilhado com a expressão. e percebi de imediato que é esse mesmo chocolate quente que bebo com as memórias do meu pai – apesar de o ter perdido há vinte e quatro anos. as suas recordações são hoje para mim. um chocolate quente. delicioso e aconchegante – a sua saudade continua a marcar o meu tempo. e de uma forma geral. o de toda a família – continua a ser a figura máxima de uma linhagem que não o esquece. e a guiar-nos com o seu exemplo de amor. tolerância. bondade. perdão e serenidade – o seu legado somos nós: filhos. netos. e bisnetos – apesar das suas memórias serem um maravilhoso chocolate quente. a saudade de o abraçar nunca arrefece 


08/02/2021

eu. o meu primo toni e o meu pai



fotos google



tinha acabado de saber que o meu pai e a minha mãe iriam viajar. no dia seguinte. para estremoz – nessa bonita terra alentejana. havia um daqueles curandeiros com mãos milagrosas. corria pelo país dos doentes. que com mezinhas e pancadinhas punha as colunas mais rijas do que as dóricas do partenon – a viagem na época não era fácil. não havia autoestradas. e os quatrocentos quilómetros eram feitos no vagar da preguiça. devagar. devagarinho. e quase parados – a coluna da minha mãe. maltratada pelo trabalho. já não dava para grandes estiradas [pensava eu]. a opção era pernoitar pelas redondezas. descansar. e regressar pela manhã do dia seguinte – para mim era uma grande notícia. em boa verdade. o curandeiro podia até ficar nos montes urais. quanto mais longe. mais quilómetros de liberdade. com carro e casa só para mim… só podia mesmo ser dádiva do céu – não ficava bem sozinho. ficava com a lurdes. governanta da casa e do meu equilíbrio económico. era ela que aumentava significativamente o meu pecúlio semanal. ao desviar uns trocos do orçamento que sustentava a casa nutrida – nos dias de hoje seria acusada de peculato e abuso de confiança – mas para ela o crime compensava. afinal eu era o seu menino d’ouro. e como a cozinha era farta. menos uma mão cheia de feijão não conduzia a nenhum tipo de racionamento. e permitia-me manter o nível de vida abastado – mas isto de conduzir sozinho era um aborrecimento. na adolescência precisamos sempre de um compincha. uma testemunha viva e credível. alguém que pudesse confirmar. sob palavra de honra. a destreza e coragem dos feitos. e para isso. nada melhor do que o meu primo toni – o toni tinha menos um ano do que eu. mas muito mais ajuizado – creio que estaria por volta das catorze primaveras. um companheiro fantástico. bom. às vezes temos medo de dizer certas palavras. mas o toni era um rapaz excecionalmente bom. educado. nada malandro. sossegado. gordinho. cara redondinha. uma falha nos dois dentes do tamanho do arco da porta nova de braga. sempre a escorrer água. inverno e verão gotas de suor caíam-lhe em bica pela face. como se estivesse permanentemente em exercício físico – era uma joia de rapaz. ainda o é. ainda há poucos meses tive oportunidade de o rever e gargalhar com algumas das nossas malandrices [com tempo contarei outras façanhas nossas] – foi muito bom aquele encontro. fez-me bem. lavou-me a alma. uma prova de vida e de memória – mas como ia dizendo. o meu primo era muito sossegadinho. mas quando estava comigo alinhava em tudo. era o compincha ideal para a minha intrínseca necessidade de movimento e ação – bem. adiante… os meus pais saíram e o meu primo veio para minha casa. e por lá nos mantivemos num reboliço saudável e nada perigoso durante todo a hora de laboração da fábrica [os meus pais tinham uma pequena fabrica de artigos de pele] – naquele dia as horas teimavam em manter-se atrasadas. a noite aproximava-se persistentemente lenta. e enquanto a empresa não encerrasse não havia carro. este estava alocado a serviço externo e sempre em movimento – jantamos cedo o que era hábito em minha casa. e logo logo saímos porta fora com a chave da 4L na mão: depósito cheio. e prontos para fazer quilómetros – dois putos. menores de idade. sem carta e sem noção da gravidade das suas ações. e pior. motivados para perigosas infrações ao código da estrada. para piões. derrapagens. para não falar no excesso de velocidade – a juventude dos rapazes tem destas coisas. precisam de adrenalina para crescer. para se fazerem homens – a minha sorte é que a lurdes era. ainda é. pegada aos santos e ofícios da igreja. uma devota de cristo. e as suas preces começavam sempre com um pedido expresso de proteção à família e. em particular. ao seu menino – e para que não houvesse esquecimentos. e como agradecimento ao sagrado. oferecia umas missas de ação de graças. e velas de luz e fé – “quem vive a sua fé brilha como a luz” [cristo]. a lurdes vivia a sua fé e brilhava como mais ninguém – com a devoção da lurdes tenho a certeza de que andava comigo sempre um anjo da guarda. ela e o santíssimo era tu cá. tu lá – bons tempos – a primeira paragem foi no café luso-brasileiro com uma entrada triunfal de cernelha. em grande estilo. com o corpo a bambolear de um lado para o outro. pernas arcadas. em estilo forcado aldo lima: “oi. oi. oi. ei amigos lindos”. e em vez de levar as mãos à cinta. levava a chave de ignição em exibição pindérica – era muito gajo àquela hora da noite. bem-trajado. com estilo. com carro. só nos faltava mesmo duas miúdas giras para arrasar. a inveja dos meus amigos escorria como óleo pelo chão da casa de pasto – era uma época diferente dos dias de hoje. os carros eram escassos. e os que havia. na sua maior parte. eram de gente com algumas posses. ou então de trabalho. a grande maioria das famílias não tinha carro. tempos verdadeiramente difíceis e de sacrifício – o café fechou. como sempre fechava. pelas 23 horas. e resolvemos. antes de recolher à cama. dar mais uma curva pelas redondezas com passagem pelo bom jesus. sameiro e falperra. o triangulo turístico da minha cidade – tudo corria na perfeição. maravilhosamente bem. e os meus dotes de condutor estavam mais do que certificados – quando chego à minha rua. já soavam as badaladas da uma da manhã na torre da igreja do carmo. qual não é o meu espanto. vejo o carro do meu pai estacionado em frente a casa – primeiro senti uma passagem de corrente trifásica pelo corpo. e de seguida. um friozinho pela espinha. e o coração numa aceleração de um motor V6 desgorvenado. e pensei: estás metido num bom sarilho. vais levar poucas. vais – o meu primo toni ficou em transe. e se já era normal suar. a partir daquele momento começou a arfar num silêncio medroso. a arrastar a voz para o pânico. a água que lhe corria pela cara era tanta que parecia um fontanário – bem. a questão que se colocava é como iria resolver o problema. como é que iria enfrentar o meu pai sem que levasse um bom par de estalos. e pior ainda. levar o sermão da praxe e a missa cantada. que doía mais que a pancada – foi quando tive a brilhante ideia de entrar pela porta do terraço nas traseiras da casa – não era coisa fácil. mas valia a pena tentar. a porta costumava ficar aberta. entravamos à socapa. e pé ante pé.  enfiávamo-nos na cama com o complô santificado da lurdes. e quando o meu pai viesse [novamente] ao meu quarto. fingíamos que estávamos a dormir – no dia seguinte tudo seria diferente.  ao meu pai tudo lhe passava com um bom soninho. o despertar traria um novo dia. a tolerância passava do vermelho ao amarelo vivo. e o mais certo. era a coisa resolver-se com uma reprimenda com a promessa de que na próxima façanha apanharia a dobrar – entre a minha casa e o começo da rua havia quatro casas – a primeira fazia esquina com a praça do comércio. era um bloco com lojas no rés-do-chão e dois andares de habitação – na esquina a mercearia do sr. joaquim e da dona inês. mas era mais conhecida pela mercearia do “lakota”. [um dia irei escrever sobre o zeca. filho mais velho do proprietário e meu amigo] e já no começo da rua a saparia ferreira. do senhor ferreira. que não importava as vezes que eu passasse à sua porta. olhava-me sempre para os sapatos. seguindo-se uma saudação gentil. deformação profissional. seguiam-se as casas do doutor lemos. médico de família. e da dona aninhas. mãe do conceituado piloto de rally bracarense rui lages. por último. a do senhor meu pai – é agora que verdadeiramente começa a história – subimos ao segundo andar da primeira casa onde havia uma escada que dava acesso ao telhado. tínhamos que subir ao parapeito do corredor e dar um impulso para o vazio até atingirmos a escada. não era coisa fácil. se falhássemos eram apenas três andares. íamos diretos à cave. mas com a graça do senhor e do meu anjo da guarda lá subimos sem derrapagens – assim foi. começamos a atravessar os telhados. pelo caminho umas telhas partidas. a noite estava escura como breu. não dava sequer para perceber onde púnhamos os pés – o meu primo toni estava em pânico. estava tão branco que se via no escuro. mais parecia um fantasma sem lençol – bem. lá fomos indo com o credo na boca. e quando demos conta estávamos no terraço – estaria tudo bem e resolvido se a porta da cozinha não estivesse fechada. ficava aberta todo o ano. mas naquela noite estava fechada a trinco e ferrolho – só podia ser gozação do meu anjo – agora é que estávamos metidos numa grande alhada – comecei a forçar a porta. mas depressa a luz se acendeu. pensei: é a lurdes. tinha sono de passarinho e ao mínimo barulho acordava – soube mais tarde que era o meu pai – mas pelos visto ninguém dormia naquela casa. a minha mãe sentada na cama em ais de aflição. a lurdes em orações à santíssima trindade. e o meu pai. que já sabia do que a casa gastava. a prometer fazer de mim um saco de boxe. a brincadeira estava perigosa e em roda livre – escondemo-nos num canto e esperamos que a luz se apagasse. a solução era fazer-me homem. entrar pela porta da frente a cantar a portuguesa e resistir até que a voz doesse – não demorou nem cinco minutos e ouvimos o carro do meu pai a zarpar em alta velocidade. tinha ido à minha procura. de cabeça perdida. a rogar pragas e coriscos. confesso que com razão – depois de uma viagem cansativa. com a minha mãe aos ais e lamentos de sorte. chegar a casa de noite. esgotado. e não poder descansar porque o filho taralhouco se lembrou de dar umas voltas com o carro da empresa. ninguém merece ter um filho assim – mal ouvimos o carro a arrancar voltamos a subir ao telhado. atravessamos outra vez os telhados. desta vez como íamos em passo de corrida quebramos as telhas que faltaram com a primeira passagem. descemos o mais rápido que era possível. e plantamo-nos em frente à porta de casa – o objetivo estava cumprido. chegar a casa antes do meu pai – abro a porta. e com as costas hirtas. o queixo erguido em modo de coragem. enfrento as escadas como se fosse para o cadafalso. tinha valido a pena. foi uma grande noite de piões e acelerações – o meu primo toni estava um farrapo. completamente branco e desfigurado. não sei se tinha anjo protetor. mas estava a precisar de amparo espiritual. as pernas entraram-lhe em fraqueza. parecia que estava a subir o everest com pedras no bolso – coitado podia ter morrido naquela noite. aquele coração já não era um motor V6. pelo barulho era mais um V36 com as vielas partidas – a lurdes de plantão ao cimo das escadas. em camisa de dormir. com cara de padeira de aljubarrota.  dizia só:

-- o menino não tem juízo. valha-nos nosso senhor. os seus pais preocupados. valha-nos nosso senhor. e acenava a cabeça com tanta força que até fazia corrente de ar 

mal se acabava de subir as escadas tínhamos o hall com a sala de visitas à esquerda e o quarto dos meus pais à direita – a luz do quarto estava acesa. abeiro-me da porta com cautelas. da maneira como corria a eletricidade naquela casa. nunca se sabia se os sapatos ganhavam asas. felizmente que não. estava apenas a minha mãe sentada na cama. não sei se pelas costas. se por mim. mas pela cara o prenúncio não era bom.  o pior podia muito bem estar para chegar – perguntou-me aonde é que andava. não sei o que lhe disse. mas com certeza alguma parvoíce. ma desculpa qualquer esfarrapada. e diz-me uma frase que guardei para a vida

-- o teu pai vai-te matar

o meu primo entrou em colapso. já não abanava. quebrou. ficou mudo e só voltou a articular palavras com tino no dia seguinte. deve ter pensado que se o meu pai tinha coragem para me matar. a ele. então. seria morto e esquartejado – fomos rapidamente para o quarto e é quando eu tenho mais uma brilhante ideia. e digo ao toni: mete-te na cama rapidamente. cobre-te. enrola-te nos cobertores. não deixes nem a ponta do nariz de fora.  o meu pai quando está zangado fica de cabeça perdida. quando começa a dar porrada as mãos só param quando lhe fogem as forças. para te partir um braço é com duas palheiras – assim fez o meu primo. enrosca-se nos cobertores. não se via nadinha daquele corpo redondinho. apenas uma lomba nos cobertores. parecia uma trouxa de roupa. e eu a seu lado também coberto até às orelhas. mas com uma pequeníssima abertura para o lado do meu primo – não podia perder ponta da história – quando o meu pai entra casa digo ao meu primo toni: não te mexas. mesmo que apanhes alguns tabefes não te mexas. é muito pior. e nem te ponhas com lamechices. não abras a boca. se te mexeres ou gemeres irritas muito mais o meu pai. e é menino para te partir os dois braços – e assim foi. o que ele não sabia é que o tinha deitado no meu lugar. era mesmo um bandido da pior espécie – o meu pai entra pelo quarto dentro. encosta-lhe a boca à suposta minha cabeça. e com a voz muito alterada. de cabeça completamente perdida. diz a berrar umas quantas ameaças e juras de que no dia seguinte a coisa não ia ficar assim – nem sabia se o meu primo estava morto ou vivo. creio que deixou de respirar só para não se mexer. coitado. podia ter morrido do coração [era a segunda vez no mesmo dia] – eu. bandido mesmo. debaixo dos cobertores divertia-me à brava e só esperava pelo primeiro safanão para dar cor a uma noite inesquecível. a cereja no topo da travessura – o toni entrou em paragem cardiorrespiratória. mas felizmente. recuperou. não foi fácil. a taquicardia era aguda – eu sabia perfeitamente que no dia seguinte já não haveria consequências de maior. tudo se resumiria a uma conversa e mais umas quantas ameaças – o meu pai era um homem bom. com uma tolerância de anjo. sabia como ninguém o que é ser jovem. era um ser de luz. não conheço ninguém que não gostasse dele – para o meu pai tudo se resolvia com uma conversa.  fiz-lhe coisas que não lembra ao diabo. era um pequeno terrorista – nunca conheci ninguém com uma alma tão gentil como a do meu pai – hoje. percebo o seu sofrimento. deus me livre de um dos meus filhos me ter feito algo deste género. confesso que não sei se teria a mesma bondade do meu pai. os tempos também são outros – mas não creio que tenha sido um mau filho. era apenas um jovem com uma vontade enorme de crescer e fazer coisas – ainda hoje mantenho essa energia e esse espírito


05/02/2021

aurora. sem manual de instruções



foto google



enquanto a noite teima em mirrar. a teimosia teima em desabrolhar – as estrelas abalam delicadamente para norte. marte apaga-se. e a lua toma a china com o seu luzente luar – e eu em hostilidades com a deusa rosada do alvorecer. pergunto-lhe: porque me trazes o sol se só me encontro no escuro – porque me mostras o mundo. se quando caminho por ele me perco – e é nesta luta de sombras e luz que me esfarrapo por encontrar uma palavra especial. para um escrito que se quer também especial – mas. infelizmente para mim. a perseverança confunde-se com a ausência de arte. ou de vocabulário – é assim a vida de quem peneira palavras em rio seco – como não estava a ter arte nem sucesso nesta busca doentia. fui assolado por um pensamento: porque raio de sorte. é que quando nascemos não trazemos um manual de instruções – facilitaria imenso a nossa vida – ajudava a montar o destino: seguíamos as etapas da nossa criação em folheto. e no final… eis: igualzinho a mais mil da linha de montagem – sabias pela mecânica da montagem o que te estava destinado: não serás escritor. não serás cientista. não serás condutor de ambulâncias. não serás livreiro. nem aquele polícia de barriga e bigode farfalhudo – serás parvo – mas não um qualquer. um modelo de luxo. edição limitada. com tecnologia de ponta e extras raros: fígado destilador de whiskys velhos. pulmões com filtro para qualquer fumaça. olhos que veem tudo a cores. mãos que não servem para nada. uma criação de catálogo. com garantia. código de barras e número de série – se algo corresse mal. vinha um técnico da marca e ajustava o destino. ou então. sucata. e seguia-se com outro modelo mais fiável – na cabeça dois olhos que enxergam tudo a cores. com focagem automática do rico e do pobre. do roto e do nu. da virtude e da aldrabice. do escritor e do rabiscador. e quando não quiser ver… fecha os olhos. e tudo fica menos mau – duas mãos que não sabem escrever. nem apertar parafusos. nem moldar o gesso. pintar. dar cartas. ou roubar carteiras. em boa verdade. duas mãos inúteis – duas pernas prontas para fugir. para jogar à bola. à macaca. e ao esconde. esconde. e ao corre que a vida vai-te apanhar –seria um gajo de outro mundo. talvez até alien. ou mesmo criação dos deuses. com tecnologia de ponta. coisa digna de spot publicitário – bem sei que tinha que mudar hábitos. e em vez de rezar a um deus poderoso e omnipresente. orava aos técnicos de software – era como se nascesses com o destino certificado. com garantia. código de barras. e número de série – se alguma coisa corresse mal reclamava-se à detentora dos direitos de produção. que logo enviaria um técnico especializado para reparar o desvio no destino traçado. e se a coisa fosse grave: sucata com o podre. e substituía-se a máquina por um modelo mais recente. fiável. menos sentimental – e a vida voltaria ao percurso talhado – aurora. aurora. deusa dos dedos rosados. como lhe chamava homero. porque me iluminas estas mãos inúteis. se é na escuridão que as sinto – e assim estou. com voltas e mais voltas. e a interrogação persiste: porque raio me meti por este atalho? possivelmente. por culpa de algum fusível no lóbulo central. ou curto-circuito nos neurónios. talvez tenham apanhado humidade. gosto de sonhar com gaivotas. com o mar. de uma forma geral – o salitre corroeu as ligações – ou sabotagem: a parteira em vez de me dar uma sapatada no rabo deu-me um murro nos circuitos – ando para aqui em voltas com palavras que não me levam a lado nenhum – por este andamento nem como parvo me qualifico – mas se não há livro de instruções porque raio é que a janela não me mostra o futuro? porque raio é que plantaram à minha frente uma cordilheira que chega ao céu – porque raio é que não tive direito a um jardim de magnólias. e no seu meio um portal para viajar no tempo. ou um banco feito de esperança para poder colher o verão – estou nu. com os fios descarnados. tão nu que nem as vogais querem nada comigo: chamo-me smp rg – eu corrijo-me. acreditem. tentarei sempre corrigir-me. apago as consoantes. antes me quero invisível. a parvo nas bocas do mundo – todo o homem precisa de um pedaço de terra para viver. a minha terra são as palavras. os meus sonhos as raízes. a minha força a família

 

p.s. – a minha irmã chama-se aurora. é também uma deusa e mais velha do que eu treze anos. e ainda esta semana lhe dizia que uma das minhas mágoas persistentes foi não ter os nossos pais mais novos. gostava de ter brincado com eles. de viver um pouco a sua juventude. de os ter mais perto de mim. menos adultos. menos responsáveis. menos preocupados – mas não lhe disse tudo. também gostava de a ter tido a ela mais nova. adolescente. menos senhora. menos aperaltada. sei lá. podíamos ter ido à discoteca. e ser eu a tomar conta dela. em vez de ser ela a tomar conta de mim – a vida é o que é. e nada pode ser alterado. só as palavras é que podem ser diferentes. é isso que faço. escrevo para tornar tudo diferente. porque em boa verdade. o que amo mesmo neste mundo. é a minha família. que para mim. começou nos nossos pais


27/01/2021

negacionistas e exibicionistas



ilustração - bruno carbinat



percebi que o problema dos negacionistas e exibicionista é a falta de atenção. é gente carente. que em algum momento da sua frugal existência [ou todos] foram excluídos. rejeitados. pouco amados. com poucos valores de família. ou mesmo sem ela – é por isso que continuamos a testemunhar. dia. após dia. as maiores crueldades nas redes sociais – raio de redes sociais que dão palco a tudo o que é roto e desmiolado – mas. é para mim de fácil perceção. que o problema dessa malta porreira não é a covid19. o problema é a fome de likes que alimenta o seu ego maltratado – necessitam de visibilidade. de se fazerem existir incansavelmente todos os dias. sentem-se sós. perdidos na carapaça de modernos e destemidos – quase sempre incompreendidos na sua pujança económica. portadores de um DNA certificado. de linhagem pura. rara e cara: o / a self-made man / woman - tuga – são assim um género de sem-abrigo de luxo. excêntricos da internet. vagueiam pela rede desde a alvorada à procura de almas virtuais. e adormecem esgotados debaixo de um alpendre agarrados a um papelão – são os vampiros do mundo moderno que. ao contrário dos antigos vampiros. intolerantes à luz solar e à exposição mediática. encontravam as suas presas a coberto da noite – esta nova linhagem de vampiros vagueia pela internet noite e dia. de cara destapada e exclusivamente à procura de atenção e admiração – diria mais: se fossem gatos passavam o dia a miar. numa espécie de cio desesperado. ou dança sexual. exibindo colarinhos e rendas em selfies instantâneas. e com ejaculações apoteóticas de hormonas no ecrã do computador – estamos com quase trezentos mortos dia. as ambulâncias fazem fila nos hospitais. os médicos estão desesperados. o SNS colapsou. os apelos para ficar em casa são dramáticos. e essa malta continua a falar de si. a correr risco. a ir aqui e ali. a visitar o tio e a tia. como se fossem o centro do universo. como se tivessem um livre-trânsito para serem parvos à frente de quem sofre – deveríamos estar todos a fazer luto. a fazer um ato de contrição. a perceber onde cada um de nós errou para isto chegar onde chegou – foi essa geração de velhos que nos pariu. passou pandemias. guerras. fome. entregou-nos o mundo livre. entregou-nos paz. segurança. educação. leis. entregou-nos um lar para termos a vida que temos hoje – o mundo como o conhecíamos está nos cuidados intensivos – veremos mais tarde como serão as sequelas. veremos sim. infelizmente. o justo e o pecador a pagar da mesma forma – resta-nos a honra e o respeito pelos nossos profissionais de saúde


24/01/2021

a última viagem da zeza

 

arquivo de família


 1.   antes de:

dezasseis de setembro de 2019. segunda-feira. oito da manhã – liguei a dizer-lhe que estava à porta de sua casa – era a primeira vez que acompanhava a minha cunhada maria josé ao instituto de oncologia francisco gentil. a sua irmã. que esteve presente em todas os estágios da doença. desta vez. não pôde acompanhá-la – ajudei-a a entrar no carro. tudo com muito vagar e cuidados. ajudei-lhe as pernas para o seu interior. coloquei-lhe o cinto de segurança. e num esboço ténue de sorriso recebi um obrigado cansado e sofrido – esta não era a minha cunhada que conhecia desde os seus onze anos. uma criança – rapidamente percebi que a sua situação era crítica. a sua debilidade dava mostras claras de que a doença estava a avançar descontroladamente. e a ganhar a batalha da sobrevivência – toda a família sabia que a sua doença era terminal. toda menos a zeza – a zeza continuava a acreditar na ciência. na fé. e na sua incrível vontade de viver – no entanto todos aqueles que a conheciam. recusavam aceitar que ela não fosse capaz de vencer o cancro. acreditavam que com a ajuda dos novos fármacos. das novas tecnologias hospitalares. da quimio. e dos excelentes profissionais a que estava entregue. ou pelo menos. ganhasse mais uns anos. e se tudo falhasse. ainda queríamos acreditar que deus tivesse guardado para si um dos seus raros milagres – iniciamos a viagem. e entre ais e algumas poucas palavras. lá fomos fazendo o caminho ao encontro da salvação. o instituto de oncologia – eram apenas cinquenta quilómetros. mas o raio da viagem parecia que não tinha fim – as palavras não me saíam. e a cabeça em roda livre-magoada interrogava-se: o que dizer? para agravar todo este mal-estar o meu maior handicap. não sou nada bom a disfarçar emoções – precisava de pelo menos fingir-me forte. fiz o que me era possível – limitei-me a pedir-lhe que não desistisse. que iria conseguir terminar os tratamentos. que tinha que manter a fé e. principalmente. que se alimentasse. mesmo que lhe custasse imenso. precisava de energia e forças para aguentar a quimio – ao chegar ao hospital deixei-a na porta de entrada. fui estacionar o carro. e em passo acelerado tentei chegar o mais rapidamente ao seu cuidado – já não tinha forças para se deslocar sozinha. estava mesmo muito debilitada – encontrei rapidamente uma cadeira de rodas. e fomos a alta velocidade ter com a sua médica – ainda esperamos cerca de vinte minutos pela doutora. o que me parecia uma eternidade para quem estava a ser corroída pelas dores – finalmente a doutora apareceu. aquela casa está a abarrotar de zezas

- bom dia maria josé

- bom dia doutora

senta-se em frente à zeza. à distância de um braço. faz-lhe uma festa na face. a zeza esboça um sorriso. os olhos enchem-se de esperança. enquanto eu me mantinha de pé. logo a seu lado. à distância também de um abraço – a zeza começa a descrever os sintomas dos últimos dias. queixa-se de muitas dores. e de um desconforto generalizado que não a deixa sossegar

[uma interrupção-silêncio emerge naquela sala de luz branca. há um prenúncio iminente de tragédia]

por fim a zeza pergunta-lhe:

- o que pode fazer para me aliviar as dores

- as dores. maria josé. vamos tirá-las rapidamente… vamos dar-lhe medicação para a sossegar um pouco

- quero retomar. o mais rapidamente. o tratamento da quimio [tinha sido interrompido]

- maria josé… não vai fazer mais quimioterapia. não está a ter os resultados que esperávamos

- não vou fazer mais quimio doutora?

- não. maria josé. como lhe disse os tratamentos não estão a resultar. faz-lhe mais mal do que bem… não há sinais de melhoras

- e agora… o que faço então?

- nada maria josé. lamento. mas não há mais nada a fazer

nunca mais esquecerei aquela expressão facial da zeza. acredito que tenha pensado muitas vezes no seu fim. ela mesmo confessava que cada vez que regressava ao hospital se sentia pior. mas esta era a primeira vez que uma médica lhe dizia que a ciência não tinha solução para o seu mal – as lágrimas saltaram-lhe com a violência de um oceano enfurecido. o corpo revoltou-se em espasmos de inquietude. os olhos abriram-se num terror desesperado. projetando-os para a frente banhados de piedade. como se quisessem calar a médica. matar aquela verdade – não queria acreditar. talvez fosse um daqueles sonhos em que se acorda no preciso momento em que o gigante nos vai pisar – mas não. infelizmente aquela era a verdade que eu já sabia e tudo fiz para esquecer – e o pé do gigante esmagou-a – foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. perdi o meu pai e a minha mãe em situações difíceis. mas nenhum deles ouviu da boca de um médico a sua sentença de morte – foi tudo muito difícil. o pé do gigante também me esmagou – confesso. ainda continua a esmagar – por último. dobrou o corpo para a frente. e enfrentou a médica com o que lhe restava de forças

- senhora doutora. não pode fazer mais nada por mim? eu não quero morrer

- não. maria josé – nós médicos também perdemos pessoas de que gostamos muito. pais. filhos. amigos. e não podemos fazer nada – a sua doença é muito grave e infelizmente os tratamentos não surtiram efeito – momentaneamente. um silêncio de morte tomou conta daquela sala pintada de luz branca. foi como se lhe tivessem tirado todo o ar de dentro do consultório e ficássemos todos à deriva no espaço sideral – não sei quanto tempo durou esse silêncio. mas pareceu-me mais do que uma vida – foi o suficiente para que o futuro desaparecesse de uma só vez. com uma única frase: não há mais nada a fazer – uma estaca entrou-lhe no peito e disse-lhe com a maior crueldade do mundo: acabou. não vais mais viver com o amor da tua vida. não vais levar a tua filha ao altar. não serás avó. não verás mais os teus pais. a tua família. os teus amigos. e os teus cães – que brutalidade. a zeza não merecia. estava numa nova vida. estava a aprender a ser feliz

- senhora doutora!

- acalme-se maria josé

e a caixa de lenços de papel à mão. afinal era apenas mais uma zeza entre tantas – aquela caixa de lenços estava ali para todas as zezas que se despedem da vida por causa do cancro [só que desta vez era a nossa zeza]

- tem que compreender que os médicos fazem o que é possível. não temos superpoderes

aos cinquenta e um anos ninguém deveria ter uma doença incurável. tão nova. tão bonita. com tanta bondade. levou toda a sua vida à procura da felicidade. e quando a tinha encontrado. zás. cai a guilhotina – sempre soube dessa sua procura. dessa vontade de emancipação. de ser amada. desejada. de ser mais bela do que a branca de neve. de ser reconhecida pela generosidade. pela criatividade artística que herdara do seu pai. queria um poema de amor para sua vida. o seu mundo era um paraíso – eu conhecia-a como ninguém mais a conhecia – sabedor desde o primeiro momento da gravidade do seu mal. fui também apanhado de surpresa. ainda era demasiado cedo. tinham-lhe dado um ano. mais mês. menos mês. e ainda só tinham passado cinco meses – perdi-me de mim. fugi da mente e escondi-me na escuridão que me acompanha para todo o lado – não sabia o que fazer. o que dizer. não podia chorar. não me podia amarrar à minha zeza. nada. fiquei sem valer nada. era o homem mais insignificante do mundo. miseravelmente insignificante. um homem despido de tudo. como no momento em que cheguei ao mundo – não podia valer à minha cunhada. da mesma forma que não pude valer à minha mãe. e ao meu pai que sofreu os horrores do inferno – creio que fui o primeiro a perdê-la

- vamos tirar-lhe as dores e verá que se sentirá muito melhor – irei providenciar um quarto. instalá-la o melhor possível. e aliviar-lhe rapidamente esse sofrimento – a enfermeira virá tratar de si e. logo logo. vou ter consigo

já na sala de espera sentei-me ao seu lado e demos as mãos. olhou para mim com os olhos mergulhados em medo e chorámos os dois. Em silêncio absoluto – estávamos os dois a morrer de medo. só que o seu medo era demasiado grande para aquele corpo tão debilitado. valia-lhe a roupa e o brio. que mesmo minada pelo sofrimento. sempre fez questão de se arranjar com elegância. com orgulho de ser mulher – a zeza sempre gostou de ser mulher 

- não chores zé luís

como é que não se chora. que mais podia fazer eu do que chorar e segurar-lhe as mãos – a enfermeira chega com a notícia de que ainda não havia quarto disponível. mas instalá-la-ia numa cama de enfermagem. e começaria logo ali com o tratamento – com muito custo a enfermeira deita-a. cobre-a. aconchega-a à roupa da cama. e enquanto preparava a medicação. a minha zeza pega-me nas mãos e acaricia-mas num sorriso tranquilo. doce. num sorriso de quem tinha acabado de perder uma guerra e finalmente poderia descansar – e ali ficámos. parados no tempo. a olhar um para o outro. sem que a boca tivesse necessidade de dizer o que quer que fosse. afinal eramos amigos há muito tempo – a enfermeira está de volta com a medicação. e enquanto lhe procura uma veia pergunta-lhe:

- quem é este senhor

- é o meu cunhado. é o meu sol. é o meu maior amigo

e não ouvi mais nada porque me deitei no seu peito a chorar. perdido na sua bondade. enquanto me passava a mão pela cabeça – choramos os dois pela última vez – saí do seu pé para a enfermeira continuar os preparativos mais íntimos. a todo o momento era transferida para a sua última morada em vida – quando voltei pediu-me o telefone e ligou para o amor da sua vida – depois de desligar disse-me num tom de voz sereno: mais uns minutos e o eduardo já estará aqui comigo – ficamos mais uma vez os dois em silêncio. não há nada que se possa dizer nestas situações – não aguentei. despedi-me da zeza com dois beijos e a promessa de voltar com a irmã – só queria fugir daquele hospital. queria esconder-me. queria esconder o mundo e apagar aquela manhã para sempre – mal entrei no carro chorei e pedi ajuda a deus [nem sou muito crente]. tinha que desenganar a irmã – no dia seguinte voltei com a maria joão. mas a zeza estava tão sedada que já não abria os olhos. apenas mantinha alguns estímulos às vozes – voltei a sair e dei comigo a pensar o que já tinha ouvido um milhão de vezes: a vida é tão volátil – nunca me passou pela cabeça que no espaço de vinte e quatro horas a zeza ficasse em estado terminal. acreditava que estaria no hospital mais uma temporada em tratamentos paliativos. e quando estivesse um pouco melhor. viria mais uma vez para sua casa. um pequeno milagre da medicina. uma última oportunidade para se despedir do seu companheiro. da filha. dos familiares. dos amigos. e dos seus cães que tanto amava – a zeza amava os animais – mas não. tudo terminou no dia seguinte. como tudo termina para quem tem a ousadia de nascer

 

2.   depois de

precisava imenso de escrever este texto. desde o dia do seu falecimento que me mutilo. arrependo-me amargamente de um único momento nessa manhã perversa: saí cinco minutos antes de ter chegado o seu companheiro – sei que foram uns míseros cinco minutos. mas também sei que nunca a deveria ter deixado sozinha. nunca – agora não paro de imaginar o medo que sentiu durante aqueles cinco minutos. sem uma mão. sem um rosto. perdida numa casa de dor. onde o silêncio magoa mais do que a doença – perdoa-me zeza. não fui tão forte como tu. fugi. fugi como fogem os covardes. deixei-te sozinha no momento em que mais precisavas de alguém – em minha defesa a minha ingenuidade: não imaginava que partisses em pouco mais de vinte e quatro horas – tínhamos prometido um ao outro um gelado. uma conversa. sei lá. falarmos das coisas que sempre soubemos falar. eu era o teu confidente. sabia de ti o que mais ninguém sabia. e tu também sabias de mim coisas que mais ninguém sabia – tenho tantas saudades tuas. das tuas gargalhadas. do teu sorriso. da tua ingenuidade. da pureza da tua alma. de ti. assim como eras – tenho raiva de tudo o que te aconteceu. e nem acreditando que te encontres junto ao criador. numa outra vida plena de alegria e paz. não me apazigua esta revolta. esta injustiça. esta cicatriz que carrego – devias ter envelhecido. merecias ter envelhecido com alguém ao teu lado que te amasse e respeitasse

 

3.   epílogo

faz para abril dois anos que a zeza tomou conhecimento da sua doença. parece que foi ontem – o tempo da saudade é uma coisa estranha. tão depressa nos traz a zeza. como se evapora para o que não alcançamos – entendi que esta era a melhor altura para tornar este texto público. não por mim. eu já não posso mudar nada. mas por todos aqueles que acompanham os seus doentes aos hospitais – sei que aonde quer que a zeza se encontre. estará com toda a certeza. a sorrir. a gargalhar. e a andar de um lado para o outro em cima dos seus tacões. a resmungar com as mãos – quando se entra doente num hospital. com uma doença tão grave como a que a zeza levava em si. nunca podemos dar o dia seguinte por certo – aprendi naquela casa de cura e de morte. que a morfina depois de entrar nas veias tira as dores. mas também tira a vontade de viver. esvazia o coração dos afetos que nos ajuda a lutar pelo impossível. um género de uma antecâmara da morte. uma corrida para esgotar o coração. enquanto os familiares se preparam para a dor da despedida – a vida é mesmo isto. aprendizagem crua. e é com este novo saber que vos posso garantir que se tudo se voltasse a repetir. tudo seria diferente. teria aproveitado esses cinco minutos para a abraçar. para lhe dar as mãos. para partilhar o silêncio. para estar ali. tão simples como isso: estar ali. estar ao seu lado – pedia-lhe que fizesse daqueles cinco minutos a nossa eternidade – a tua recordação é agora a presença eterna em mim. viverás para sempre na nossa casa. na nossa família – ninguém te esquecerá – neste texto não procuro perdão. nem compaixão – apenas paz

 

P.S. – tenho um orgulho imenso nas suas irmãs: teresa e maria joão – o seu amor incondicional esteve presente em todas as fases da doença – a zeza teve as melhores irmãs do mundo. os seus pais estão orgulhosos. nós todos estamos orgulhosos. e os seus filhos cantarão o seu amor por muitas. e muitas gerações


09/01/2021

túnel para dentro de mim



pintura - salvado dali



se me permitissem viajar ao passado por um túnel do tempo. e regressasse. nem que fosse por um dia. à minha adolescência: à praça. à rua do abade. ao liceu sá de miranda. ao 25 de abril. à emmanuelle. anti-virgem. à renault 4L. às conversas lunares nas escadas da praça. às calças justas lois. aos óculos ray ban. à camisa aberta. à mente livre. às correrias tontas. aos bons companheiros. às amizades estúpidas. à fé inacabável. ao egocentrismo equivocado. ao pseudo-iluminismo bacoco. ao anjo da guarda que me guardava a alma de noite e dia. ao sol que pelas costas me empurrava rumo à imensidão do nada – acreditem. esse reencontro não seria fácil – dir-lhe-ia umas quantas coisas muito desagradáveis – tenho a firme convicção de que não sairíamos de bem desse reencontro – provavelmente dar-lhe-ia um bom par de estalos… e sim. punha-o de castigo contra a parede

  


04/01/2021

corro para fora de mim

 

pintura - remedios varo


às vezes interrogo-me porque corro se nunca sei para onde vou. porque corro se não há lugar que me espere. porque corro se ninguém me entende – e mesmo nos dias em que me canso de correr. corro em sentido contrário. como se fugisse de mim. só para poder ouvir. repetidamente. a voz da minha mãe – e cá estou eu neste mundo que não é meu. nem de ninguém que corre sem rumo e sem fortuna – quando estou bem. corro. quando estou assim-assim. corro. quando estou aborrecido. corro – corro sem saber parar – corro como se o único caminho para ser o que não sou fosse aquele que faço a correr – corro e chamo pelo meu nome. e pergunto-me: sou filho de quem. se cada passo me afasta do lugar onde me perdi – sou filho de quem. se corro e não chego a lado nenhum – esta corrida não nasce de uma bênção. nem de um vento – é  de um fado. por certo. uma espécie de castigo onde o corpo implora para chegar onde nunca chegará – só o afeto me salva destas corridas sem tino. sem destino. sem sentido – bem sei que tudo isto é confuso. um pouco louco. um pouco desconchavado. e tudo porque aprendi a correr em vez de caminhar – e mesmo quando paro. o coração continua a correr. como se o passado já não me reconhecesse. e o nome que chamei nunca tivesse sido o meu


31/12/2020

vai-te demo. viva a vacina - 2021



imagem - google



todos os anos gosto de fazer o balanço do ano que está prestes a terminar: gosto de falar de mim. do que sofri. do que sorri. daqueles que comigo partilham o nome de família. dos amigos. que com a idade passaram a ser menos. mas com mais conteúdo. e outras miudezas que reconheço de interesse duvidoso – entretanto. e com a intromissão da covid19. entendi que falar de mim seria uma vergonha. seria uma ignomínia. um ultraje. depois da tragédia que tem assolado o mundo: mortes. desemprego. falências. fome. e muita incerteza quanto ao futuro próximo – mas a história já nos mostrou que o homem. na sua infinita sabedoria. vai dar a volta por cima e. brevemente. esta doença será apenas uma má recordação – por toda esta imensidão de desgraça é que me nego a fechar o ano. 2020 foi tão mau que vou fazer de conta. que por magia divina. à zero hora do dia 31 de dezembro. voltaremos todos a iniciar novamente o 2020. e assim. como o ser humano aprende mais depressa com os seus erros. emendar tudo o que correu menos bem – é absolutamente urgente perder o medo e recuperar a nossa liberdade – estamos então no final de 2019 e acabou de ser noticiado na TV que o vírus covid19 foi detido e aprisionado ao tentar fugir da china – apressadamente. as autoridades chinesas. já vieram garantir que tudo não passou de um boato americano e que. nunca houve nenhum vírus à solta no seu território. principalmente em wuhan – no entanto. a nossa ministra de saúde. marta temido. já veio afiançar e acalmar todos os portugueses. dizendo que se. e apenas se. o vírus entrasse no nosso país. o que é quase impossível tendo em conta a excelência do controlo de fronteiras. o nosso serviço nacional de saúde estaria. como sempre esteve. preparado para continuar a dar a resposta que sempre nos habituou a dar ao longo dos seus quase cinquenta anos de serviço público – desaconselhou também qualquer tipo de histeria por parte da população na corrida aos bens essenciais: principalmente papel higiénico. latas de atum. bebidas alcoólicas. máscaras cirúrgicas e álcool gel – por último. fez questão de reafirmar que não é necessária uma nova lei de bases da saúde para proteger o interesse público do SNS. a que temos é mais do que suficiente – quanto à reivindicação por parte dos técnicos de saúde para atualização da sua tabela salarial. confirmou. que os vencimentos em vigor são aqueles que o país pode pagar. e não é com vencimentos mais elevados que teremos um melhor SNS. dando o exemplo dos deputados da república – também a ministra ana mendes godinho fez questão de garantir que os lares das misericórdias e as IPSS vão finalmente ser dotados de mais auxiliares de saúde. mais técnicos. enfermeiros e médicos. dando garantias de que os nossos idosos serão finalmente uma prioridade do governo da república nacional. garantindo que o passado não se repetirá. eles são a memória viva do nosso passado – por isto tudo. quero acreditar que os nossos idosos podem finalmente sossegar e viver os seus últimos dias em tranquilidade – neste recomeço do ano vamos todos ver os aviões no ar a pedido dos azeitonas [grupo musical]– a TAP vai continuar a contratar pessoal. tanto para terra como para o ar. e os seus administradores vão renunciar aos aumentos. bem sei que merecidos. afinal. esforçaram-se imenso. manter a empresa com balanços negativos há mais de uma década é obra – os pobres vão finalmente ter razões para sorrir. o salário mínimo terá um aumento de trinta euros. o que vai permitir que as famílias possam finalmente comprar o seu automóvel. ter uma casa na praia. fazer férias de verão e inverno. almoçar e jantar fora. e assim permitir a abertura de mais bares e restaurantes. mais hotéis. mais habitação para turismo e mais emprego – finalmente os filhos dos trabalhadores com menos rendimentos poderão escolher o seu estabelecimento de ensino. com as propinas pagas pelo orçamento de estado. e o comprometimento do ministro da tutela de que. brevemente. todo o aluno deslocado terá obrigatoriamente alojamento gratuito garantido pela universidade – é isto que eu gosto quando se repete um ano. podemos emendar tudo o que correu menos bem. é assim tal e qual como quando repetimos um ano escolar para melhorar a média – neste ano reformador todas as empresas como a EDP. GALP. telefones. banca. cadeias de distribuição. seguros. e outras que por não pagarem impostos desconhecemos. vão distribuir uma parte dos lucros pelos seus trabalhadores – vamos ter mais teatro. mais música. mais arte. mais livros e mais sol – esta boa gente. é tantas vezes menosprezada e ignorada por nos tratar da alma e nos fazer sonhar. não é justo – vamos ter professores mais motivados. a lecionar com turmas mais pequenas e com a garantia de que se forem deslocados. o ministério da educação garante que o subsídio de deslocação não se ficará pelo pagamento das portagens – espero que a justiça não volte a dar aos portugueses razões para duvidar dos seus representantes – quando a justiça falha uma nação fica à deriva. e não é fácil repor a credibilidade de um órgão de soberania com a importância dos tribunais – em que podemos acreditar? assim que quero viver o novo ano. com a esperança ingénua de um miúdo adolescente. e de que vai tudo correr bem – é isto que quero para todos os meus familiares e amigos. quero que sejam felizes. que se cansem de tanta felicidade. e que um dia precisem mesmo de tomar uma vacina para eliminar a possibilidade de uma sobredose de felicidade – só há uma coisa que não vou poder mudar. o desaparecimento do meu sogro. é coisa do senhor e esse é intransigente na sua ordem de chamada. nos tempos difíceis quer os melhores ao seu lado – e eu. como tento pecar o menos possível. o que nem sempre é fácil com tanta tentação. também vou ter mais uma festa de arromba. entra de forma oficiosa uma nova nora na família. e desejo muito que aprendam rapidamente a serem felizes na sua mais importante caminhada. agora a dois – bom ano. muita paz. muita liberdade. e estou certo que saúde não nos faltará enquanto os nossos heróis se mantiverem firmes nos seus postos de combate – estes guerreiros dos hospitais merecem para sempre o meu eterno agradecimento – feliz ano novo



29/12/2020

epitáfio – despedida ao meu sogro

 

foto - arquivo familiar 



descansa em pazlentamente o dia encolhe-se. mirra. enquanto o corpo. passo a passo. escapa silenciosamente por mãos indiferentes ao que carregam – os passos marcam o que resta de luz. enquanto as cordas estrugem aceitação e recolhem em si toda a esperança de um milagre – por fim um silêncio absoluto numa calmaria de angústia – o mundo engoliu todo o barulho – as lágrimas encolhem-se atrás da dor numa resignação que nunca nos foi ensinada. e os ais refugiam-se dentro de um luto profundamente negro. num até sempre que não morre – só o aroma das flores anuncia a ressurreição: o céu é o seu destino – o fecho da sepultura proclama em definitivo o fim da carne e o começo da saudade – gostava deste bom homem: bom pai. bom marido e meu sogroninguém merece ser privado da memória do que é seu. mas foi assim que partiu. sem reconhecer aqueles que nunca o irão esquecer – que raiva tenho deste mal. acredito que é coisa do demónio ou de outro planeta – também o meu pai partiu sozinho. esquecido de todos. até de mim que fiquei sem saber o que fazer ao que tinha ainda por lhe dizer – tenho raiva. e nem o tempo. nem essa curva que os fez desaparecer. me alivia esta raiva que sinto ao ver o mundo deserto. é como se o tempo inventasse um novo fim a cada instante do relógio – aqui estou. entretido nos rosários da vida. a fugir de um dezembro maldito: agora sei que existes para me mostrares que o escape da carne se faz até quando o milagre do natal se reboliça dentro de mim – porque não me ensinaram que amamos sempre mais hoje do que ontem – o tempo-saudade magoa. envelhece-nos com a tristeza – o meu sogro era um homem de família. bom e honrado – que mais se pode querer de um homem? nada. por mais coisas que queiram inventar para a grandeza humana. à sua despedida terrena só a honra o leva à glória. à eternidade na memória dos que por aqui ficam a lamentar não haver céu na terra – vou ter saudades dele. da sua forma tranquila de caminhar. da voz doce. amena. como se quisesse passar despercebido dos humanos barulhentos – vou ter saudades de dizer: bom dia sr. joão. trago-lhe a sua maria joão e os seus netos – paz à sua alma 


26/12/2020

tenho saudade



                                                               pintura - daniel gerhartz



tenho saudade – tenho saudade do tempo em que os problemas dos nossos filhos se resolviam com benuron. com agasalho. com abracinhos – tenho saudade de perguntar à mãe se lhes mediu a febre. se tinha a testa quente. ou a garganta inflamada – tenho saudade de me sentir invencível. o homem mais poderoso do universo. de dizer: isso são dois dias e logo verás que estás bom – tenho saudade da candura que fazia de mim o melhor pai do mundo – tenho saudade dos seus olhos. das mãos pequeninas e do chão coberto de brinquedos – tenho saudade da casa castelo. protegida de todos os males do mundo. porque éramos nós o mundo – tenho saudade do seu sorriso. do seu aroma de aleluia. dos abraços e beijos com sabor a primavera – tenho saudade da verdade absoluta por não haver mais nada do que ela num lar que existia por e para eles – tenho saudade de passar pelo quarto e ouvir o seu respirar. aconchegá-los no calo da lã. ter a certeza de que estavam a crescer com um amor que nunca imaginei que pudesse existir – tenho saudade de sair com eles pela mão e saber que nada nem ninguém os poderia magoar – tenho saudade de me entrarem pela alma com boas notas de mérito. e tenho saudade de lhes dizer: vai tudo correr bem. porque quem faz as coisas por bem. nenhum mal lhe chegará – tenho saudade de os ouvir barafustar. de os ouvir gritar. zangar. protestar. porque bastaria eu dizer acabou. e tudo parava – tenho saudade de todos sermos novos e ninguém envelhecer mais do que um dia de cada vez – tenho saudade que me façam queixa do amigo que lhes riscou o caderno. da professora bruxa. de estudar com eles noite e dia. de lacrimar com o seu sucesso. e desesperar com a minha falta de jeito. para os ajudar a tornarem-se os melhores que o mundo alguma vez viu – tenho saudade do vidro que partiram. de gritarmos golo do benfica e da playstation jogada às escondidas – tenho saudade do dragon ball z. dos joelhos arranhados e os sapatos esfolados – tenho saudade de me sentir em todo o lado. de me zangar com um bom se o excelente era o que esperava – tenho saudade de partir de férias com o carro cheio daquilo que era realmente meu. de ver olhos a brilhar e dar fúrias em ondas menores do que todos os sonhos que sonhei para eles – tenho saudade de saber tudo sobre as suas vidas para acalmar a minha – tenho saudade de saber que o medo me respeitava por saber que eu era pai – tenho saudades de os ouvir dizer: está tudo bem



25/09/2020

a tragédia bela de criar

 

                                                                pintura: robert t barrett



o mundo é uma galeria de arte. milhares de livros. sinfonias. esculturas. pinturas. cada um irrepetível. de várias épocas. várias tendências. várias escolas. uns mestres. outros bafejados pela sorte de uma única pincelada. de um traço preciso e fino. e a obra com o nome afixado numa rua sem fim – aos olhos do mundo. para além do espanto. nada mais existe na arte senão o produto final: o artista é apenas a ferramenta da criação do belo – na obscuridade vivem as mil razões para cada palavra parida. a cor trabalhada. o tipo de traço. a luz e as sombras. a meditação. a organização. a apuração e seleção final de todos os ingredientes – a imortalidade da obra nunca é fruto do acaso – finalmente as naturezas mortas tornam-se menos mortas do que o génio – o artista é do mundo. digna ou desprezível a sua obra. é mesclada com os ácidos do trato da digestão. degustada na penumbra do palato. ora com delicadeza. ora trinchado. é compreendida ao gosto de cada dente: boa. má. de génio. indiferente ou medíocre – nunca se será mais nada. nem cheiro ao suor. às lágrimas. à indisposição. ao punhal suspenso a rosnar à criação. entre o cair e não cair. à vontade cega de trocar toda a sua existência pela ressurreição de uma única palavra. de uma única cor. de uma única nota – depois da obra não se é nada. nada para além das folhas com a sua súplica em glosas quase indecifráveis: salvem-me. aceitem-me – liberdade ou morte – é no meio da edificação do talento que se aquietam os génios. estáticos e indiferentes aos íncubos das palavras maldizentes. sofrem ainda os horrores da revolução cultural chinesa: um dia queimam-me – esta gente precisa de saber que nos imortalizamos pela palavra. e não pelo esquecimento – o corpo descansa sempre a sul numa tranquilidade solene. vestido de pedra. imortalizado pelas mãos. recusa virar os olhos à mortalidade – a tela. a mármore. o papel. a madeira. será sempre um grito desesperado do que vive no íntimo dos fazedores de arte. um desejo de imortalidade sem desejo pelo corpo. uma esquizofrenia incurável. uma luta sempre perdida. um interior de um homem despido face ao egoísmo do belo absoluto. um coração na obra a bater para sempre – todos os homens fazem arte. nem todos os homens serão artistas – todo aquele que gosta de escrever sabe que um dia morrerá esquecido numa folha de papel sem arte

 


10/07/2020

garimpeiro



pintura - kleysson abreu



destreza na peneira
mestre do olhar

agita a cupidez
perlustra leiras

 na água
paira a vida

ora abutre
ora primavera



28/06/2020

dilúculo



pintura - tarsila do amaral



acontecia suavemente

o dilúculo.

o cedro encobria

um sol: límpido

 

a gota. ínfima

da noite que se lavou

lembrava

todos os mares

 

deitada sobre o caule

a flor

espreguiça.

colhe a primeira vida

 

à janela: o melro

encanta-se.

o sorriso demora

mas chega

 

[ame as coisas pequenas e cuide bem das suas analepses]





22/06/2020

sáfara


pintura thomas saliot



atrás dos olhos

pendem leitos

outrora:

aletófilos e mui verdes

 

dissimulam-se agora:

a sáfara

 

calmamente

cerra as pálpebras

para a existência

 

cai a última lágrima:

morta



15/06/2020

eu e o medo



imagem - google


nem uma palavra para enfrentar o medo. resmas de papel e nem um mísero vocábulo para me alentar. encorajar. para acreditar que sim: que tudo vai ficar bem – o corpo à roda por esse mundo fora. de imagem em imagem. de grito em grito. de família em agonia. e as camas dos hospitais em afligimentos. às vezes paradas. outras. ligadas a sirenes aflitas. a romper ruas num desespero desenfreado – e a cabeça a estardalhar-se de pânico. de tanto pânico que nem a porta da casa sustém este medo medonho que me encolhe pela TV – exilam-se os olhos medrosos pelo raso do corpo. tão raso como soalhos gastos de quem vai para lá e para cá. polido ao osso. num arrastar de pernas que não conta os dias. só medo. medo-covarde. tão grande que as paredes procriam urgentemente recordações. e o passado dependurado em candeeiros que acendem a distância dolorosa entre o certo e o errado. entre o que já devia ter sido dito. e o que a boca calou – tanta coisa errada em tantos anos de claridade – o homem bom é preguiçoso – nasci para isto? para morrer calado? sufocado por palavras que engoli – que fiz eu para que a espera se aparelhasse em medo? bem sei que a morte é uma curva certa na estrada* – tanta gente sem falar. sem gritar. sem gritar pelo nome de quem os abriga na história. presas ao branco. à máquina que respira só porque sim. sem coração por perto. e os estetoscópios mortos de cansaço. estupidamente silenciosos sentem a morte a perpassar pelas covas das mãos. trémulas. numa terra escura como breu. coberta de uma fatalidade estranhamente selvagem. insuportavelmente selvagem. e infinitamente traidora – tanto silêncio. tanto branco silêncio. tanto medo. tanta casa fria. silenciosa. como se cada parede caísse ao inferno e o céu se esculpisse à mão do diabo – que te fizemos deus? este grito ensurdecedor dentro da minha cabeça. as máquinas a respirar. a resistirem vida estoicamente. e o sangue a correr por tubos transparentes clareiam humanos que desaparecem num corrupio de extenuação que não chega sequer para dizer adeus – as camas não andam. não marcham. não voam – morrer é só não ser visto e acompanhado* – quero continuar a ser visto e acompanhado – preciso de uma nova oportunidade. juro que falarei sem tento – nem a merda de uma palavra contra esta coisa cobarde. uma injeção. um martelo. ou uma bomba presa a um dedo engatilhado – estou com medo. em pânico. não há dignidade nisto. os mortos escondidos do mundo. num mutismo asqueroso. triste. malparecido. sem beijo. sem adeus. sem que as lágrimas possam ecoar salvas de canhão – o mundo não pode desaparecer assim. renegado por todos. ajustado à sua terra sem um último abraço – há coisas que não merecem existir: verdugo. tirano da morte silenciosamente desacompanhada – o fim deveria ter dignidade: morreu de cancro de pulmão. mas fumou até ao último dia; morreu de cirrose. mas bebeu até cair na cova; morreu de sexo. mas fodeu até ao fim – só se morre de verdade uma vez – que raio faço eu em casa. podia ser médico e estava na cura. na guerra. estava a auscultar o medo em cada alma. a celebrar esperança. a forjar tempo para viagem escoltada de afetos – que raio faço eu em casa? se nem palavras encontro para me descansar do medo

 

[texto redigido enquanto o pânico tomava de assalto tudo o que tinha como certeza absoluta – março e abril – confesso aqui o meu medo]

 

* frase alterada de fernando pessoa