mesmo que tente ser outro. não sou capaz –
a porta que me serviu é feita de água. e antes que me falte a coragem. eu
mergulho no escuro. onde as mãos fazem a verdade. e os olhos guardam tudo o que
nunca toquei – mesmo que tente ser outro. não posso. não sei o que trouxe. nem
o que me coube por destino. mas sei que amanhã não posso esquecer o nome que
carrego. é nele que me torno real – nem sei porque escrevo o que não vivo. talvez
por precisar de encontrar o que nunca encontro. chegar ao que não existe – é
tudo o que tenho. uma liberdade que me deixa partir sem nunca sair – mesmo que
tente ser outro. a noite chega como chega o vento frio. e tudo começa sem
começar. as pedras fazem-se caminho. e eu vou. não importa para onde. vou. e
mesmo nunca chegando a lado nenhum. eu habito o tempo. porque entre a noite e o
dia só existo eu – mas que posso fazer eu. mesmo que tente ser outro. o que me
leva é o que trago na cabeça. às vezes injusto. às vezes selvagem – talvez
imaginação. talvez sobrevivência – mas que posso fazer. se o que me leva. é o
que sou – que guerra posso ganhar contra o que sou? depois… a noite cheira a
loucura. as cortinas fazem-se gaivotas. sem casa onde descansar. sem vento que
as leve de vez – mesmo que eu tente ser outro. não sou capaz. os dias são o que
são. e o que penso. um carrossel – e quando penso que cheguei ao fim de mim.
chega uma brisa com cheiro a terra. que me leva aonde moro – e afinal está lá
tudo o que tenho – é quando a maria joão me pergunta: onde foste? e eu digo.
nunca saí daqui –mesmo que tente ser outro. não sou capaz – se parto sem nunca
sair. se cada lugar é uma esquina onde joguei ao pião. se cada nome é saudade.
então para que cresci. se não posso ser outro – e pergunto-me: deveria ser
outro? fico sem saber. porque sempre que vou acabo por voltar de onde parti –
será apenas a vida? ou sou eu a querer encontrar o que já não existe – mas se
não existe porque volto eu sempre ao mesmo lugar? talvez para sobreviver.
talvez para voltar ao colo da minha mãe. talvez para fazer renascer o meu pai.
talvez para compreender o que sou hoje – tudo o que sou começa no dia anterior
– não sei o que perdi. só perde quem chega a algum lado. mas o tempo é um
pedaço de nada. às vezes um domingo – a vida é procura. é sair para a rua e
perder-me no interior do que penso – o tempo é tudo o que me resta. por isso
escrevo o que não vivi. o que sei é tudo o que sinto. mas que adianta. se as
mãos nunca lhe chegam – mesmo que tente ser outro. não sei. tudo em mim é
procura. existo à noite. talvez rei. numa casa feita à mão. escrita porque não
sei sair deste lugar sem nome – se um dia me compreender. talvez me perdoe.
afinal que posso fazer. mesmo que tente ser outro. eu sou o que sou
Sem comentários:
Enviar um comentário