14/12/2011

cadáver procura-se





jackie k. seo



as mãos. outrora fortes. crentes na imortalidade atrofiaram. enroscaram-se nos pulsos – são agora escadas em caracol para o inferno – subiram. degrau a degrau. até que um dia. envelhecidas pelo tempo. suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas mãos assim. maldito belzebu. maldita língua – se ao menos soubesses dizer o meu nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça noutro corpo – aproveitava os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maçãs à porta da loja. da espiga vermelha. do casaco aos retalhos. dos sapatos de verniz com aquela fivela dourada. do pente que arrastava o cabelo para trás do nada. do old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo. menos o coração – era então outro – sempre disse que este coração me levaria à morte



13/12/2011

o meu corpo é um lugar de silêncio





lucian freud



é no mar que submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que. por viver tão fundo. nunca soube o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco sem fundo. onde outros corpos entram porque têm de entrar e depois saem porque têm de sair – acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como caixeiros viajantes – um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para repor energias e. ao amanhecer. com as primeiras nesgas de luz. arrumam a mala e partem – muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às vezes imagino coisas que não lembram ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a sair – estranho. entram e saem sem uma palavra – nunca percebi porque atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam como os patos selvagens que cruzam o céu à procura de terras-refúgio. terras quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem uma seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos. mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o meu  corpo  nunca foi grande. sempre me senti acanhado dentro dele – imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em cada velharia havia vida. o conhecimento. assente em pequenos lingotes de tempo. partia de boca em boca. de terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico. ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que a sua robustez de nação secular advém do acreditar – a força vem das dificuldades. quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões. marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas trariam corpos com vozes para dentro de mim – mentira – ninguém ouve o silêncio – o silêncio traz sempre mais silêncio – silêncio dor. faca. mutilação. até que um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos. todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que. na hora da morte. não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho. como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e no entanto. quero ainda saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa lugar é a maior mentira que inventaram até hoje – uma mentira de um aldrabão. de um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas: dos calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da geada que cobria os campos – das memórias – com os pés encostados a uma botija de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão. respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. não faltaria à catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite. que partisse sem pecado e. no paraíso. me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a idade não para de avançar. e o coração já não encontra espaço para bater com precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio – já arrastam os pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar passar pelo meu corpo. sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e. entre mim e eles. há apenas tempo – tempo feito a relógio – passam uns dias mais devagar. outros mais depressa – e eu sem nunca saber o que  fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo – a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas d’os lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler: adamastor – talvez estes corpos sejam adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida



12/12/2011

de nihilo nihil





                                                  peter paul rubens – ressurreição



compreender estas sombras não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor. saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão. bondade. resignação – tudo se devora da carne da minha carne – e os olhos calam-se

 

*de nihilo nihil – nada vem do nada – nada foi tirado de nada. isto é. nada foi criado. pois tudo o que existe sempre existiu; este aforismo resume a filosofia de lucrécio e de epicuro



11/12/2011

Sabes, Pai - jorge reis-sá





                                                                        jorge reis-sá



sabes, pai

o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol


ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada


nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava




08/12/2011

notícia de última hora




maluda



a notícia presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha. acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem. com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico imperfeito. perfeito só o seu  crânio circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo. tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular. contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo. transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali: editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia. sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta – revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes – talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo. aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor. sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano

– bom dia. o jornal notícias e a bola

– são dois euros por favor

 perdoem-me. mas… “eu não escrevo em português. escrevo eu mesmo”*



* citação de fernando pessoa



07/12/2011

o concerto - tchaikovsky










                  o corpo descansa na mesma almofada da alma 



retalhos – número de série 07122011s(r)ego01





rené magritte


um dia destes. quando o sol nascer do outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que vejo  –  há um descompasso de meio dia dentro do meu meio corpo: meio coração. meio batimento cardíaco. meio litro de sangue e meia lata de lágrimas guardadas para um aperto afetivo. um pé-de-meia de quem sabe que a vida se faz de meias verdades – talvez seja um problema giratório – meio. meio-dia. e uma multidão horrorizada abala do meio-dia que albergo para outro meio que ainda não sei onde fica – ouço bach – só a música traz a vida por inteiro até ao meu meio corpo –  e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma por inteiro – escreverei até descobrir



06/12/2011

cinema paraíso







hoje estou assim. há em mim um abraço ainda por dar a todos aqueles de quem gosto – gosto como o filme da minha vida me ensinou a gostar: cinema paraíso – gosto como gosto das flores. do sol. dos carros que passam guiados por desconhecidos. da mãe que empurra o carrinho do bebé. da avó que corre atrás do neto. do esfarrapado que teima em vestir a roupa limpa. gosto das bolas de sabão que se perdem das mãos de uma criança. das nuvens. do mar. das minhas gaivotas livres. enfeitadas pelo sal da vida – gosto. sem saber muito do quê. num dia como o de hoje – gosto da amizade – é desta varanda que escolho o que quero ver. e hoje. quero ver todos aqueles que me fazem acreditar que a vida tem momentos que são um paraíso



05/12/2011

esotérico



onik sahakian



dentro de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não existo. já não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito – epilepsia emocional. espasmos. contração involuntária dos músculos. dos olhos. da boca. da mente. resta o ADN – o ADN tem uma particularidade única. reproduz com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente –  predominam os tiques. a boca a pender para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois aquela maneira de inclinar o corpo. como quem vacila. talvez até morrer – e os outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria que os olhos fechassem. ou a língua sossegar – gosto dos músculos da face exaltados e do corpo firme. tão firme como as árvores que se perpetuam no chão com raízes de séculos – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio. pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância. entremeio com  duas dúzias de palavrões. e digo: prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que já não é. das crianças com fome de um pão com marmelada. com sapatos desfeitos de subirem sempre a mesma rua esfomeados. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos infelizes. de todos os infelizes deste mundo cruel – tudo isto é uma sala de espelhos onde o corpo gira com o retorno das imagens. umas vezes sou alto. outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lado esquerdo a cabeça. e do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os espelhos possuem-me. não há forma de descobrir a verdade do corpo sem os estilhaçar. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou o mais certo era partir o espelho onde o corpo guarda a memória – estilhaçado. perco tudo. os nomes de que gosto e os de que não gosto. as vozes que me adormecem e as que amarram à noite aos fantasmas. ao vento que corre pelas brechas mais exíguas do que sou. e até a minha gaivota cinzenta perderia o voo. não haveria dentro de mim espaço para asas abertas – talvez um dia possa fazer dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos 



02/12/2011

poema numa esquina de paris - antónio gedeão





louis hayet




Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.

Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.




27/11/2011

o outono e as sombras





                                                                          van gogh

uma porta aberta e o outono a soprar vento – não estou aqui. nem eu. nem aquele outro que mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento – tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é um tapete de trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro. idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras continuam a dançar nas paredes da caverna







24/11/2011

Saramago - Definição de filho




                                                                         saramago


"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".



19/11/2011

ruy belo - os pássaros nascem na ponta das árvores




ruy belo




As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração



08/11/2011

perfume




lucian freud



gastas o tempo a não ser. dizes: são palavras senhores – nem atena foi feliz e tu. perdida no saber do que nunca foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever? foste barriga prenha – és cruz para quem caiu do meio das tuas pernas – parir é dor. criar é amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo – aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na tua face. os primeiros sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas que se perderam. búzio com o primeiro choro  – és mulher. ainda – e mãe?

[e tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabaste de perder a tua única vida]

 



01/11/2011

teresa teixeira – sterea




teresa teixeira


“Às vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”

sterea – 02.06.2011

 

comentário feito ao meu texto -“nunca acaba amiga”

 


como dizer-te que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó de comoção aperta. e eu sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça formam-se atalhos que me levam para perto do que dizes –  há palavras que nunca se apagam. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao peito e sei que ele bate ao ritmo das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos afetos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel. feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem ela? sem nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado. obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória – o que seria dos homens sem ela – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço. mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te: doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor. todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro as vinhas do douro. o rio a correr. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se palavras. frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel. palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas. loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as entender – e eu ali. a contar pedras no chão. juntava-as arrastando as pernas de um lado para o outro. uma a uma. até erguer que me cegou para o outro lado. um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa. um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão. porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim. mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever. linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer-me isto. teresa. estou sem ar. e as palavras sufocam. não sei como te dizer obrigado. sem ter de que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado. mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado. teresa. até sempre



15/10/2011

instantes à sombra da luz





j. rafael pintos lopez




olho

submeto-me ao dia de sol

a esplanada toma a cidade

óculos ray-ban

perna cruzada

costas no chão

onde vivem todas as dores

pela frente

o sol e o “garçon”

reclamo atenção aos dois

pssssssssss

um café curto como o raio

de luz

o dia já vai longo

olho

os que não me olham

estamos todos ao mesmo

sol

finalmente o pedido

atiro-me ao café

preciso de um excitante

cafeína

com adoçante

tenho medo da diabetes

de seguida um raio de sol

este é meu. escolhi-o  

pelo sorriso

pela luz

é vida

olho

nestes dias só sei olhar

estou fora do corpo

da roupa

da intelectualidade

dos óculos graduados

há quem pense por aqui

livros abertos

jornais enormes

revistas cor-de-rosa

todos menos eu

a diferença

mais uma vez marginalizo-me

não sei ler com o sol

os raios queimam palavras

olho

não faço nada

sinto umas dores

vivem por detrás

às costas do que vejo

é a vida

olho

para a frente

vento ameno

olhos frágeis

ao tempo

à idade

à cidade

para onde caem os sonhos  

há sol em qualquer canto

nos hospitais. nos asilos. nos olhares

há sol onde há medo e morte

é a vida

olho

cimento negro desbotado

irritado

o cão matou o marido por ciúme

crime passional 

dizem os jornais diários

gente que cuida do que vê

correm carros

correm pessoas

correm cafés

só mendigos permanecem fieis a si mesmo

olho

é a vida

olho

é verão

corre o “garçon”

corre o copo

com água pelas bordas

mais uma  

e é o fim da gota

mas é de equilíbrios o “garçon”

equilibra o copo

o sorriso

no ouvido

o francês com sotaque

da porta da casa:

“un café très rapide”

de seguida o lisboeta:

“uma bica curta se faz favor”

está com pressa

diz a boca

no olhar

no gesto

o suor

é a vida

e os olhos

dos clientes extasiados

seguram o copo como se fosse o mundo

talvez seja

afinal somos feitos de água

e da água não há medos

só quando os sorrisos se afogam

no tempo

no próximo mês

depois das férias

perdem-se de todos os raios de sol

e há tantos pelas ruas

perdidos no calor

abandonam-nos

partem para “vacances”

é a vida

olho

e os candeeiros estáticos

agarrados às placas de trânsito

sentidos obrigatórios

obrigações impostas

rotundas que não os deixam circular

e o polícia vestido de pistola

acena com a mão para dizer:

“mais rápido”

mas estamos de férias

o país está de férias

as matrículas amarelas estão de férias

temos que andar ligeiros

é a vida

olho

o sol cai

a água do copo não

cai a cidade

não cai o “garçon”

caem os óculos ray-ban

não caem os olhos leitores

cai o descanso

não cai a vida

ergo as costas

desdobro as pernas

levanto o corpo

olho a cidade

morta. escura

escura

vivos só eu e o "garçon"

tudo o resto fugiu

do escuro ou de medo

aproxima-se uma nuvem

talvez chova

e eu sem guarda-chuva

talvez fique aqui para amanhã

a cidade voltará com o sol

e o “garçon” também

 


11/10/2011

vou começar um grito com: era uma vez




                                                             gottfried helnwein

 


sem saber o que trazia dentro da pele. nasci – com a primeira palmada. o primeiro grito. de vida. arreliei-me – o peito encheu. o corpo inchou e. em protesto. gritei – gritei alto – foi aí que aprendi a gritar. não a chorar. a gritar – grito por tudo e por nada. de tanto gritar. já ninguém distingue os meus gritos de revolta – noite. sempre noite – vou criar um novo grito para matar os silêncios que nunca acabam – vou começar um grito com: era uma vez – ter um grito com história. um príncipe encantado. montado num cavalo branco. com asas de gaivota. apaixonado encontra a princesa mais bela de todo o universo. mais bela que a branca de neve. e os gritos altos nascerão ainda mais dentro da pele. quebrando todos os sapatos de vidro. todas as abóboras-carruagens encantadas. e as ratazanas. agora homens mentirosos. que inventam finais felizes num mundo intolerante - gritos sem som – malditos ruídos silenciosos – quero um grito apocalíptico. um grito que faça estalar todos os tímpanos da terra. quero um grito que envenene todas as maçãs podres – grito. tudo o que ninguém ouve. grito até que a boca. os lábios. a língua. e as cordas vocais se disformem. rebolo. entrelaço os pés pelas mãos. arranho. arranco os cabelos. os ouvidos. o cérebro. o coração. e por fim os pulmões. para tirar a respiração ao próprio ar – grito pelo castigo que deus me deu: saber-me – sempre soube – um dia. quando cortar os pulsos. os gritos serão sangue aos pés de todos os surdos  



10/10/2011

nada. nadas. ninguém



                                                      mário cesariny


alguém me dá uma ajuda a encontrar o meu nada - isto que me está a acontecer não é nada bom - há nadas por tudo quanto é nada e não consigo reconhecer o meu – talvez esteja por aí misturado com os vossos nadas 



04/10/2011

nos ouvidos a faca




lucian freud


foto: em cima de um banco de pedra a faca sangra. ao seu lado a língua jaz - reconheci a faca. usava-a sempre que não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons fónicos. caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia  o tempo até que o sangue estancasse a morte – ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos felizes. refletidos na lâmina. polida e brilhante. projetava imagens de gente que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo. enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida. dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as mãos amarradas à cabeça – os olhos quase mortos anunciam outras mortes à gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre o braço e o antebraço. a vergonha de ver o que nunca devia ter visto – apontei o dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos. vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia. sem valor. nas veias deixava de circular tudo o que era revolta. suspendia a respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a existência dos pequenos nadas – ali ficava. dia após dia – e a primavera chegou com palavras