as mãos. outrora fortes. crentes na
imortalidade atrofiaram. enroscaram-se nos pulsos – são agora escadas em
caracol para o inferno – subiram. degrau a degrau. até que um dia. envelhecidas
pelo tempo. suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas
mãos assim. maldito belzebu. maldita língua – se ao menos soubesses dizer o meu
nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça noutro corpo – aproveitava
os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maçãs à porta da
loja. da espiga vermelha. do casaco aos retalhos. dos sapatos de verniz com
aquela fivela dourada. do pente que arrastava o cabelo para trás do nada. do
old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo. menos o coração – era então
outro – sempre disse que este coração me levaria à morte
14/12/2011
cadáver procura-se
13/12/2011
o meu corpo é um lugar de silêncio
é no mar que
submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia
entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que. por viver tão fundo. nunca soube
o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou
cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia
dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco sem fundo.
onde outros corpos entram porque têm de entrar e depois saem porque têm de sair
– acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como
caixeiros viajantes – um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para repor
energias e. ao amanhecer. com as primeiras nesgas de luz. arrumam a mala e partem
– muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num
qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às
vezes imagino coisas que não lembram ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a
sair – estranho. entram e saem sem uma palavra – nunca percebi porque
atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam como
os patos selvagens que cruzam o céu à procura de terras-refúgio. terras
quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem uma
seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes
corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se
acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos.
mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o
meu corpo nunca foi grande. sempre me senti acanhado
dentro dele – imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias
que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em
cada velharia havia vida. o conhecimento. assente em pequenos lingotes de tempo.
partia de boca em boca. de terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico.
ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado
puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para
o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que
a sua robustez de nação secular advém do acreditar – a força vem das dificuldades.
quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões.
marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas
trariam corpos com vozes para dentro de mim – mentira – ninguém ouve o silêncio
– o silêncio traz sempre mais silêncio – silêncio dor. faca. mutilação. até que
um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos.
todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que. na hora da
morte. não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho.
como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e no entanto. quero ainda
saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa
lugar é a maior mentira que inventaram até hoje – uma mentira de um aldrabão. de
um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar
caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas: dos
calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e
dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da
geada que cobria os campos – das memórias – com os pés encostados a uma botija
de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas
que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão.
respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. não faltaria à
catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava
sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite. que partisse
sem pecado e. no paraíso. me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a
idade não para de avançar. e o coração já não encontra espaço para bater com
precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a
passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio – já arrastam os
pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar
passar pelo meu corpo. sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre
foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e. entre mim e eles. há apenas
tempo – tempo feito a relógio – passam uns dias mais devagar. outros mais
depressa – e eu sem nunca saber o que fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão
costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo –
a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas d’os
lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler: adamastor – talvez estes corpos sejam
adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida
12/12/2011
de nihilo nihil
compreender
estas sombras não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor.
saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão.
bondade. resignação – tudo se devora da carne da minha carne – e os olhos calam-se
*de nihilo nihil – nada vem do
nada – nada foi tirado de nada. isto é. nada foi criado. pois tudo o que existe
sempre existiu; este aforismo resume a filosofia de lucrécio e de epicuro
11/12/2011
Sabes, Pai - jorge reis-sá
jorge reis-sá
sabes, pai
o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol
ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada
nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava
10/12/2011
08/12/2011
notícia de última hora
a notícia
presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha.
acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem.
com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber
virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico
imperfeito. perfeito só o seu crânio
circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo.
tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas
elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram
pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular.
contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na
horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as
bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas
orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo.
transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem
geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o
vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali:
editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página
virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia.
sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem
princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda
assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos
violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta
– revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se
em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na
intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns
olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro
deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o
prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só
que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes –
talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são
verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os
que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca
tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo.
aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida
dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados
no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor.
sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados
do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano
– bom dia. o jornal notícias
e a bola
– são dois euros por favor
* citação de fernando pessoa
07/12/2011
retalhos – número de série 07122011s(r)ego01
um dia destes. quando o sol nascer do
outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que vejo – há um
descompasso de meio dia dentro do meu meio corpo: meio coração. meio batimento
cardíaco. meio litro de sangue e meia lata de lágrimas guardadas para um aperto
afetivo. um pé-de-meia de quem sabe que a vida se faz de meias verdades –
talvez seja um problema giratório – meio. meio-dia. e uma multidão horrorizada
abala do meio-dia que albergo para outro meio que ainda não sei onde fica –
ouço bach – só a música traz a vida por inteiro até ao meu meio corpo – e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma por
inteiro – escreverei até descobrir
06/12/2011
cinema paraíso
hoje estou assim. há em mim um abraço ainda por dar a todos
aqueles de quem gosto – gosto como o filme da minha vida me ensinou a gostar:
cinema paraíso – gosto como gosto das flores. do sol. dos carros que passam guiados
por desconhecidos. da mãe que empurra o carrinho do bebé. da avó que corre
atrás do neto. do esfarrapado que teima em vestir a roupa limpa. gosto das
bolas de sabão que se perdem das mãos de uma criança. das nuvens. do mar. das
minhas gaivotas livres. enfeitadas pelo sal da vida – gosto. sem saber muito do
quê. num dia como o de hoje – gosto da amizade – é desta varanda que escolho o
que quero ver. e hoje. quero ver todos aqueles que me fazem acreditar que a
vida tem momentos que são um paraíso
05/12/2011
esotérico
dentro
de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não
existo. já não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre
que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez
os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus
olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito –
epilepsia emocional. espasmos. contração involuntária dos músculos. dos olhos.
da boca. da mente. resta o ADN – o ADN tem uma particularidade única. reproduz
com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente
– predominam os tiques. a boca a pender
para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois
aquela maneira de inclinar o corpo. como quem vacila. talvez até morrer – e os
outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria que os
olhos fechassem. ou a língua sossegar – gosto dos músculos da face exaltados e do
corpo firme. tão firme como as árvores que se perpetuam no chão com raízes de
séculos – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio.
pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância. entremeio
com duas dúzias de palavrões. e digo:
prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque
ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas
de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que
já não é. das crianças com fome de um pão com marmelada. com sapatos desfeitos
de subirem sempre a mesma rua esfomeados. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos
infelizes. de todos os infelizes deste mundo cruel – tudo isto é uma sala de
espelhos onde o corpo gira com o retorno das imagens. umas vezes sou alto.
outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há
aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lado esquerdo a cabeça. e
do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os
espelhos possuem-me. não há forma de descobrir a verdade do corpo sem os
estilhaçar. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não
tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou
o mais certo era partir o espelho onde o corpo guarda a memória – estilhaçado.
perco tudo. os nomes de que gosto e os de que não gosto. as vozes que me
adormecem e as que amarram à noite aos fantasmas. ao vento que corre pelas
brechas mais exíguas do que sou. e até a minha gaivota cinzenta perderia o voo.
não haveria dentro de mim espaço para asas abertas – talvez um dia possa fazer
dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos
02/12/2011
poema numa esquina de paris - antónio gedeão
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.
27/11/2011
o outono e as sombras
van gogh
uma porta
aberta e o outono a soprar vento – não estou aqui. nem eu. nem aquele outro que
mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento –
tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é um tapete de
trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro.
idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras
continuam a dançar nas paredes da caverna
24/11/2011
Saramago - Definição de filho
"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".
19/11/2011
ruy belo - os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
08/11/2011
perfume
gastas o tempo a não ser. dizes: são
palavras senhores – nem atena foi feliz e tu. perdida no saber do que nunca
foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever? foste barriga
prenha – és cruz para quem caiu do meio das tuas pernas – parir é dor. criar é
amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz
tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo –
aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na tua face. os primeiros
sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade
perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas
que se perderam. búzio com o primeiro choro
– és mulher. ainda – e mãe?
[e
tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabaste de
perder a tua única vida]
01/11/2011
teresa teixeira – sterea
“Às
vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”
sterea
– 02.06.2011
comentário
feito ao meu texto -“nunca acaba amiga”
como dizer-te
que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó de comoção aperta. e eu
sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça formam-se atalhos que me levam para
perto do que dizes – há palavras que nunca
se apagam. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é
a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a
cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me
deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves
deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao
peito e sei que ele bate ao ritmo das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos
afetos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem
nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel.
feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua
alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem ela? sem
nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem
esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e
releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não
há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para
abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos
é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado.
obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado
por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória
– o que seria dos homens sem ela – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço.
mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz
de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a
ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó
aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te:
doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em
silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor.
todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro as vinhas
do douro. o rio a correr. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se palavras.
frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o
tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel.
palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e
só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta
ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas.
loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as
entender – e eu ali. a contar pedras no chão. juntava-as arrastando as pernas
de um lado para o outro. uma a uma. até erguer que me cegou para o outro lado.
um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a
partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa.
um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras
para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão.
porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é
desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos
outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim.
mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste
com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves
essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro
segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha
nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras
para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever.
linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer-me isto. teresa.
estou sem ar. e as palavras sufocam. não sei como te dizer obrigado. sem ter de
que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado.
mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a
memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado.
teresa. até sempre
15/10/2011
instantes à sombra da luz
olho
submeto-me ao dia de
sol
a esplanada toma a
cidade
óculos ray-ban
perna cruzada
costas no chão
onde vivem todas as
dores
pela frente
o sol e o “garçon”
reclamo atenção aos
dois
pssssssssss
um café curto como o
raio
de luz
o dia já vai longo
olho
os que não me olham
estamos todos ao mesmo
sol
finalmente o pedido
atiro-me ao café
preciso de um excitante
cafeína
com adoçante
tenho medo da diabetes
de seguida um raio de
sol
este é meu. escolhi-o
pelo sorriso
pela luz
é vida
olho
nestes dias só sei
olhar
estou fora do corpo
da roupa
da intelectualidade
dos óculos graduados
há quem pense por aqui
livros abertos
jornais enormes
revistas cor-de-rosa
todos menos eu
a diferença
mais uma vez
marginalizo-me
não sei ler com o sol
os raios queimam palavras
olho
não faço nada
sinto umas dores
vivem por detrás
às costas do que vejo
é a vida
olho
para a frente
vento ameno
olhos frágeis
ao tempo
à idade
à cidade
para onde caem os
sonhos
há sol em qualquer
canto
nos hospitais. nos asilos.
nos olhares
há sol onde há medo e
morte
é a vida
olho
cimento negro desbotado
irritado
o cão matou o marido
por ciúme
crime passional
dizem os jornais
diários
gente que cuida do que
vê
correm carros
correm pessoas
correm cafés
só mendigos permanecem
fieis a si mesmo
olho
é a vida
olho
é verão
corre o “garçon”
corre o copo
com água pelas bordas
mais uma
e é o fim da gota
mas é de equilíbrios o
“garçon”
equilibra o copo
o sorriso
no ouvido
o francês com sotaque
da porta da casa:
“un café très rapide”
de seguida o lisboeta:
“uma bica curta se faz
favor”
está com pressa
diz a boca
no olhar
no gesto
o suor
é a vida
e os olhos
dos clientes extasiados
seguram o copo como se
fosse o mundo
talvez seja
afinal somos feitos de
água
e da água não há medos
só quando os sorrisos se
afogam
no tempo
no próximo mês
depois das férias
perdem-se de todos os
raios de sol
e há tantos pelas ruas
perdidos no calor
abandonam-nos
partem para “vacances”
é a vida
olho
e os candeeiros
estáticos
agarrados às placas de trânsito
sentidos obrigatórios
obrigações impostas
rotundas que não os
deixam circular
e o polícia vestido de
pistola
acena com a mão para
dizer:
“mais rápido”
mas estamos de férias
o país está de férias
as matrículas amarelas
estão de férias
temos que andar ligeiros
é a vida
olho
o sol cai
a água do copo não
cai a cidade
não cai o “garçon”
caem os óculos ray-ban
não caem os olhos
leitores
cai o descanso
não cai a vida
ergo as costas
desdobro as pernas
levanto o corpo
olho a cidade
morta. escura
escura
vivos só eu e o "garçon"
tudo o resto fugiu
do escuro ou de medo
aproxima-se uma nuvem
talvez chova
e eu sem guarda-chuva
talvez fique aqui para
amanhã
a cidade voltará com o
sol
e o “garçon” também
11/10/2011
vou começar um grito com: era uma vez
sem saber o que trazia dentro da pele.
nasci – com a primeira palmada. o primeiro grito. de vida. arreliei-me – o
peito encheu. o corpo inchou e. em protesto. gritei – gritei alto – foi aí que
aprendi a gritar. não a chorar. a gritar – grito por tudo e por nada. de tanto
gritar. já ninguém distingue os meus gritos de revolta – noite. sempre noite –
vou criar um novo grito para matar os silêncios que nunca acabam – vou começar
um grito com: era uma vez – ter um grito com história. um príncipe encantado.
montado num cavalo branco. com asas de gaivota. apaixonado encontra a princesa
mais bela de todo o universo. mais bela que a branca de neve. e os gritos altos
nascerão ainda mais dentro da pele. quebrando todos os sapatos de vidro. todas
as abóboras-carruagens encantadas. e as ratazanas. agora homens mentirosos. que
inventam finais felizes num mundo intolerante - gritos sem som – malditos
ruídos silenciosos – quero um grito apocalíptico. um grito que faça estalar
todos os tímpanos da terra. quero um grito que envenene todas as maçãs podres –
grito. tudo o que ninguém ouve. grito até que a boca. os lábios. a língua. e as
cordas vocais se disformem. rebolo. entrelaço os pés pelas mãos. arranho.
arranco os cabelos. os ouvidos. o cérebro. o coração. e por fim os pulmões.
para tirar a respiração ao próprio ar – grito pelo castigo que deus me deu:
saber-me – sempre soube – um dia. quando cortar os pulsos. os gritos serão
sangue aos pés de todos os surdos
10/10/2011
nada. nadas. ninguém
mário cesariny
alguém me dá
uma ajuda a encontrar o meu nada - isto que me está a acontecer não é nada bom
- há nadas por tudo quanto é nada e não consigo reconhecer o meu – talvez esteja
por aí misturado com os vossos nadas
04/10/2011
nos ouvidos a faca
foto: em cima de um banco de pedra a faca
sangra. ao seu lado a língua jaz - reconheci a faca. usava-a sempre que
não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a
depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons
fónicos. caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia o tempo até que o sangue estancasse a morte –
ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos
felizes. refletidos na lâmina. polida e brilhante. projetava imagens de gente
que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo.
enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida.
dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram
perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não
estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes
amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou
apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo
o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as
mãos amarradas à cabeça – os olhos quase mortos anunciam outras mortes à
gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre
o braço e o antebraço. a vergonha de ver o que nunca devia ter visto – apontei o
dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos.
vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais
de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia.
sem valor. nas veias deixava de circular tudo o que era revolta. suspendia a
respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a
existência dos pequenos nadas – ali ficava. dia após dia – e a primavera chegou
com palavras















