“esta dor cresce com o pensamento e alimenta-se do sofrimento”
21/10/2023
13/10/2023
in: vulnerabilidades
“mais do que descobrir o que deixei para trás por conta das minhas
vulnerabilidades. importa-me saber o que posso mudar para a frente – o futuro é
sempre mais importante. é lá que um dia morreremos. e é bom manter a gaveta
interior arrumada. nunca sabemos o dia em que apanharemos a barca para outra
dimensão” – in vulnerabilidade
06/10/2023
pergunto-me
às vezes pergunto-me
está tudo a correr bem?
e não sei responder
às vezes pergunto-me
o que tens para fazer?
e os dias correm
como se o mundo estivesse
coberto de trovões
depois…
chega a noite
e pergunto-me
o que deixei por fazer
e não sei responder
sei que o sol alvorou
escondeu-se
talvez atrás do que não sou
e a noite… traquina
escorre para dentro do que sou
é quando sonho com girassóis
e me faço terra
e sou o que brota de mim
um dia girassol
um dia sol
um dia só
e pela manhã
quando acordo sem saber quem sou
leio o que escrevi
com a mão girassol
e encontro o que sou
e esqueço o que não sou
e vou
vestido de terra-amarelo
às vezes para a frente
às vezes para trás
e se de dia vejo montanhas
à noite
vejo palavras
e entre o que não enxergo
e as palavras
recrio-me
e sou o que sou
por bem
ou por erro
e por nada poder fazer
porque o que não sou
não sou mesmo
e sendo apenas eu
sem nada feito
sem nada por fazer
sou girassol-luz
a fazer de mim
o que sou
a sobreviver
a envelhecer aos bocadinhos
para um dia morrer
como nasci
20/09/2023
eu e as mil e uma vulnerabilidades - 1
1. a
anatomia da vulnerabilidade: um ensaio sobre liberdade e identidade
stutz. psiquiatra americano. famoso pelo
documentário produzido pelo realizador jonah hill. e que pode ser visto na
netflix. disse: não existe progresso sem vulnerabilidade – ainda não me tinha
apercebido da imiscuição desta palavra no nosso processo de crescimento:
vul-ne-ra-bi-li-da-de – resolvi perguntar-me: quando foi a primeira vez que me
senti realmente vulnerável? que impacto teve essa vulnerabilidade na construção
da minha personalidade? como estou aceitando [agora] essas
vulnerabilidades? qual a relação entre as minhas vulnerabilidades e as regras
que a sociedade impiedosamente impõe? não será fácil responder a todas estas
incertezas depois de tantos anos sem me questionar. não porque não passasse
toda a minha vida a questionar-me. mas na verdade. nunca tinha introduzido a
palavra vulnerabilidade na equação do meu crescimento – mas aqui estou em viagem
por mim. descobrindo-me. procurando-me. desbravando-me. levando luz à
escuridão. tratamento à dúvida. paz ao destino final – todo o homem nasce
livre. mas rapidamente é arrastado para cativeiro. as sociedades são as grades
do corpo e. principalmente. da mente – somos todos. sem exceção. aprisionados a
dogmas. a leis. a hábitos e costumes. e estas. impiedosamente. impedem-nos de viver uma liberdade absoluta –
malditas sejam. digo eu. benditas sejam. digo eu – estas leis. absolutamente
necessárias. não digo todas. mas a maior parte. têm como objetivo regular
comportamentos. criar padrões de aceitação coletivos. e deste modo. acertar
procedimentos. catalogá-los entre o bom aceitável. e o mau inaceitável.
reordená-las por ordem de gravidade e importância. penalizando com multas ou
censura pública os casos menos graves. castigos corporais e privação da
liberdade. para os casos mais graves – é
deste modo que o mundo gira certo todos os dias. repetindo-se. castrando a
criação. inventando mandamentos. criando doutrinas. limitando horizontes.
parindo diariamente novos zombies – as regras podem ser morais. sociais.
religiosas. políticas. impostas de forma violenta ou democrática. muitas vezes
castradoras. mas quase sempre refletindo padrões e valores da sociedade em que
estamos inseridos – todas as regras tem uma finalidade: possibilitar a comunhão
comunitária. evitar a anarquia coletiva. fortalecer o controle de quem tem o
poder – nascemos. e automaticamente somos injetados de
um vírus. que nos torna adaptáveis ao sistema de valores e regras do mundo que
nos recebe. e aos poucos. tornámo-nos répteis. começamos a rastejar entre o que
os outros são. e o que não queremos ser – aceitámo-lo porque isso é o antídoto
para que sejamos também aceites. e de tempos em tempos. mudamos a pele. tal
como os répteis. e expomos as nossas vulnerabilidades. ou inadaptabilidades. ou
mais grave. um cérebro que se recusa imperiosamente a pertencer a esta ordem
imposta – então. enquanto a nova pele não adquire defesas. cobrimo-nos com um
cobertor que nos torna invisíveis. e caminhamos pelo mundo em silêncio. pedindo
apenas pão e água para sobreviver. fazendo rolar as pedras dentro de nós. moldando
o cérebro ao desconhecido. amedrontando-o. mutilando-o. dizendo-lhe: cuidado
com o que queres ser. podes muito bem cair pela tua escada de caracol – somos. em
cada instante. uma história a ser escrita. onde os outros. de forma direta ou
indireta. colaboram na criação das nossas vulnerabilidades – cabe-nos encontrar
as ferramentas certas para que possamos ter uma leitura correta dessas mesmas
vulnerabilidades. depois. controlá-las. domesticá-las. ou simplesmente aceitá-las
– para encontrarmos certezas é preciso compreender cada momento da vida. não
podemos caminhar pelos anos e. tresloucadamente. arrastar violentamente a
cabeça para a adolescência. já não encontraremos o mesmo miúdo – mas podemos
trazer e tratar as vulnerabilidades criadas no passado longínquo. ou mais
recente. na cabeça de hoje – e nesta nova conjetura. com mais liberdade. mais
coragem. e porque um homem envelhecido é sempre mais sábio. identificar cada
vulnerabilidade. tratar o que for de tratar. e o que já não tiver remédio.
resignarmo-nos. aceitarmo-nos com perdão. untarmo-nos de mel – em boa verdade.
nunca saberemos em que pilar assentou o nosso crescimento. ninguém nos pode
garantir que não foram essas vulnerabilidades a principal razão de termos
sobrevivido às interrogações com que fomos obrigados a crescer. a viver –
respirar será sempre uma interrogação. questionarmo-nos é a solução para
sobreviver – nenhum homem saudável cresce sem se interpelar diariamente –
sobrevivemos numa comunidade selvagem com regras que nos tornam inertes. mansos
e adaptáveis. onde os outros raramente são neutros. são antes. outra história vulnerável
dentro da nossa
2. no espelho do tempo: a construção de um eu vulnerável
passada a introdução. aqui estou para falar de mim.
do presente para o passado. e do passado. para a verdade de hoje. pois não
estou certo se foi a verdade do passado – era demasiado novo para me entender a
pensar. nesse tempo veloz. preferia viver embalado pelas minhas certezas
absolutas – nunca podemos esquecer que por essa altura eu era imortal. e mesmo
admitindo que não sabia tudo. acreditava que já sabia o suficiente para ter
mais ouvidos para mim do que para os outros – agora. e depois de viajar por
mim. num vai e vem alucinante. e em total liberdade intelectual. fruto da
ancianidade. e desta minha enraizada convicção de que nasci selvagem e assim
morrerei – compreendo que de alguma forma. sendo mais cruel comigo ou menos.
sempre me senti vulnerável – no entanto. ainda hoje não sinto que as minhas
vulnerabilidades se tenham tornado estruturais no meu crescimento. talvez me
tenham obrigado a colocar mais cobertores. mais armaduras. mais ferro sobre as
costas. mais bandeirinhas na ponta da lança. e por via deste ferro pesado.
tenha caminhado mais curvado. mais lento. e mais trôpego – creio até que foram
essas vulnerabilidades que me tornaram mais capaz de enfrentar a vida e o
crescimento. de enfrentar a verdade. de recusar a mentira. fazer da justiça o
meu estandarte de armas – a pergunta sem resposta é se chegaria ao mesmo
destino sem a armadura – a minha primeira memória de vulnerabilidade chega-me
da adolescência. com os amigos de porta – naquele tempo brincávamos na rua.
crescíamos na rua. e esta. tal como se fossemos plasticina. moldava-nos. às
vezes fortes. às vezes com vulnerabilidades para o resto da vida – a rua habita
em mim. cravou-se-me no corpo. atravessou-me a alma. e tal como um delta de um
rio é formado por vários canais. também eu me dividi em interesses. em
vulnerabilidades. em traumas. em dor. em abraços também. em amizades para toda
a vida. em inimigos. em arrependimentos. etc. – no meu cérebro desaguaram todos
os sedimentos da vida em que naveguei. nada deixei ao abandono. nada ficou sem
travesseiro – é isso que agora procuro. nas borras. vasculhando o imprevisível.
olhando as cicatrizes. as dores que sofri. as que escondi. enterrando as mãos no
fundo de mim. apertando-as uma contra a outra. entrelaçando-as. espremendo-as
com cólera. saber e justiça. decantando-as ao tempo. e na lentidão do mundo que
hoje me sobra. esperar. e acreditar que a qualquer momento. algo inesperado surja
das mãos. do coração mais profundo de mim.
e instantaneamente. como as luzes de um fogo de artifício. a história
verdadeira das vulnerabilidades me jorre em luz. e como estas. vigas-mestras.
ou apoios. que me suportaram. moldaram. adaptaram. ou influenciaram o meu
caminho. para o bem ou para o mal. até aos dias de hoje – no entanto. mais do que descobrir o que deixei para trás
por conta das minhas vulnerabilidades. importa-me saber o que posso mudar para
a frente – o futuro é sempre mais importante. é lá que um dia morreremos. e é
bom manter a gaveta interior arrumada. nunca sabemos o dia em que apanharemos a
barca para outra dimensão
3. crescer à sombra: o fardo da liberdade e o peso do olhar dos outros
sempre achei os meus amigos mais interessantes. mais
bonitos. mais inteligentes. e mais capazes de serem felizes – nunca me tive em
boa conta. mas também nunca foi coisa que me tirasse o sono. sempre acreditei
que haveria um caminho para mim e que o iria fazer com mais ou menos
brilhantismo – o que sempre soube. porque há coisas que sabemos e não sabemos
explicar o porquê de as sabermos. é que construir-me daria muito trabalho –
assim foi. confirmo. foi uma trabalheira gigantesca
chegar até aqui – mas cá estou hoje. a falar livremente e sem medo. porque
quando alguém ler estas parvoíces que escrevo. será passado. e o passado nunca
mudará o futuro. só o presente tem essa dinâmica. e é por isso que escrevo.
hoje. este meu presente. que fará o meu futuro mais compreendido – saí de
casa para chegar aos amigos em total liberdade. diria. dono de mim. tudo o que
os meus pais exigiam é que regressasse a casa para as refeições. que mantivesse
a roupa asseada e composta. não estragasse os sapatos a jogar à bola. o que
nunca respeitei. e por isso. recebi várias reprimendas da minha mãe.
ameaçando-me com a compra de chancas – assim viajava todos os dias para a minha
rua. que na altura era do tamanho do mundo. dono e senhor de mim – maior do que
a liberdade em que vivia só mesmo o pudor que carregava. escondido debaixo da
roupa. com a cabeça abatida. medroso. inadaptado. com a subserviência estampada
na cara. afinal não passava de uma criança a dar os primeiros passos na selva –
as crianças e os adolescentes podem ser cruéis. todos sabemos. e foram comigo.
rapidamente perceberam as minhas vulnerabilidades e atacaram como leões.
esfarrapavam-me diariamente – a grande maioria dos meus amigos tinham os seus
progenitores a trabalhar para o estado. e como era habitual naquela época as mães
eram donas de casa. com tempo para tudo ou quase tudo. uma das principais
preocupações era manter os filhos debaixo de olho o dia todo – os meus pais
eram industriais. tinham o seu negócio. uma pequeníssima fábrica de artigos de
pele. que sobrevivia com muitos momentos de agonia e sofrimento. como quase
todos aqueles que tinham os seus negócios próprios na época do estado novo – a
minha liberdade não foi conquistada. chegou naturalmente. o meu pai viajava e a
minha mãe era a mulher guerreira. era quem geria toda a fabricação e. por isso
mesmo. e também porque a vida era dificílima. e o dinheiro escasso. eu era
deixado um pouco à minha sorte – não estou a queixar-me. muito menos a acusar.
nunca me faltou nada. nem amor. nem preocupação. os meus pais são os meus
heróis. a minha família é uma cruz que carrego com honra – aos olhos das mães
dos meus amigos esta minha liberdade nunca foi acolhida com agrado. eu era um
filho da rua. um potencial marginal. quem sabe em adulto um serial killer –
havia um preconceito racista contra os filhos de industriais. que na maior
parte das vezes se traduzia num assédio persistente. procurava-se o erro e o
defeito. e quando não se encontrava. sempre restava a indiferença ou a
marginalização – o respeito pela individualidade era reduzido ao sorriso
preconceituoso. maldoso. na maior parte das vezes tortuoso – todo o industrial
é burro. e filho de burro. burro é – na época havia dois tipos de industriais.
os imensamente ricos. com empresas enormes. centenas de empregados. e que pela
sua importância local eram idolatrados e respeitados – no final do século XIX e
princípio do século XX. muitos desses industriais. geralmente ligados ao setor
têxtil. foram agraciados com títulos honoríficos – ser conde ou visconde era
apenas uma questão de dinheiro – claro que nem todos se tornaram nobres. mas os
industriais de empresas de grandes dimensões tinham um tratamento diferente. a
sociedade pela frente respeitava-os. nas costas. eram como os outros – a outra
linhagem. a pobre e desgraçada. emergiu na sociedade fruto do trabalho duro.
alguns sem nenhum tipo de instrução. mas com uma vontade enorme de triunfar na
vida – eram homens de família. rompiam as alvoradas com uma única ideia presente.
uma vida melhor para os filhos – geralmente. estas pessoas vestiam-se mal. eram
broncos. e tudo se resumia a força. pouco asseados e pouco dados a boa
vizinhança – felizmente os meus pais eram o oposto desta elite negativa. mas
mesmo assim o preconceito resistia e sobrevivia. principalmente em vizinhos
dependentes do soldo estatal: trabalhadores da função pública. câmaras
municipais. governo civil. militares. legião portuguesa. professores. etc. – por
incrível que possa parecer nos dias de hoje. naquele tempo. estes funcionários
do estado. tinham um estatuto diferenciado. uma espécie de uma segunda elite.
que se alicerçava no fato de saberem ler e escrever. e por isso. serem melhor
remunerados – como ganhavam mais do que a maioria da população. tinham uma vida
bastante mais melhorada. podiam alugar casas de construção mais recente e mais
centrais. alguns já tinham o seu automóvel. andavam mais bem vestidos. os seus
filhos apresentavam-se na escola asseados e calçados. e depois da primária
seguiam os estudos no liceu – a elite das elites. naquela época. eram as
profissões com canudo. médicos. advogados. engenheiros. que por serem escassos.
gozavam de um estatuto muito superior. eram endeusados – vivíamos todos a época
da vénia. o mais pobre fazia a vénia dobrando o corpo até fazer um ângulo de 90
graus. as elites mexiam o pescoço uns centímetros para a frente. talvez num
ângulo de 9 graus – a briga do pobre era o reconhecimento do seu papel na
sociedade. o fim do servilismo. da bajulação. da indiferença – eu não fazia
parte desta rede servil. sempre me senti um revolucionário. um contestatário.
nos primeiros anos da minha adolescência. em silêncio. a tenra idade não me
permitia grandes aventuras. apenas em casa. contrariando os meus pais. era a
preparação para mais tarde enfrentar o mundo. pelo menos o mundo que me era
próximo. ao pé de casa. junto dos amigos. na escola. e depois no mundo do trabalho.
aqui sim. sempre fiz o que me ia chegando à cabeça – a partir dos meus
dezasseis anos. carreguei o corpo de catanas e comecei a abrir caminho – não
foi fácil crescer no colete de arrogância. sentia diariamente na pele o
racismo. e na maior parte das vezes eras marginalizado e ignorado. ou pior.
tornavas-te invisível. desprezado – quando tinha os meus doze anos. talvez
treze. já não sei. qualquer coisa por aí. jogávamos aos centros. isto é. um
amigo na baliza. um outro a centrar a bola. e quem conseguisse ultrapassar o
guarda-redes. metesse a bola entre as duas pedras que faziam de postes. tinha
direito a mandar sair um jogador. o último a ficar em campo era o vencedor –
pois bem. eu era sempre o primeiro a sair do jogo – lembro-me que um desses
amigos. que por sinal era o mais velho de todos. teria mais uns quatro ou cinco
anos do que eu. o que na altura era imenso. um já homem à procura de
acasalamento. encontrou em mim o seu inimigo de estimação. e sempre que marcava
golo. o braço estendia-se na minha direção numa velocidade estonteante. e da
sua boca saía com jubilação a palavra mestra: r-u-a – bem me custou. mas
depressa aprendi a aguentar firme a guerrilha. e quando por artes mágicas. ou
divinas. porque na época era crente. eu marcava golo. não imaginam o prazer que
me dava em retribuir. era preciso coragem. acreditem. e da minha boca saía à
velocidade do som a palavra mestra: r-u-a – os outros putos quando marcavam
golo nunca mandavam sair um dos grandes. ficavam aterrorizados. e mandavam
também eles sair um dos mais pequenos – ainda hoje consigo visionar os
olhos-bala do meu amigo. nunca morri alvejado. porque o meu sorriso
protegia-me. carregava toda a alegria do mundo. a justiça reparadora – o meu
amigo mandava-me para a rua vinte vezes. eu mandava-o apenas uma. mas essa valia
por duzentas. fazia-me david. e ele… apenas um golias a cair. morto por um golo
de um puto – foram precisos mais uns quantos anos para que pudesse reverter
este bullying permanente e persecutório – com os meus quinze anos comecei a
conduzir. o meu pai tinha uma carrinha da empresa e tornou-se fácil ficar com a
chave – sem que ele soubesse comecei a deslocar-me a combustão – era uma época
diferente desta em que vivemos. havia pouca polícia. e a que havia era
conhecida – naquele tempo conduzir sem carta não era socialmente reprovável.
era tolerado. principalmente em cidades pequenas como braga. todos se conheciam
– era muito raro um jovem ter carro. ainda por cima. com quinze anos – entre os
onze e catorze anos devorei praticamente todos os clássicos da literatura
portuguesa. ao contrário da maior parte dos meus amigos. os únicos livros que
lhes passavam pelas mãos eram os almanaques da disney – confesso que não me
sentia capaz de lhes dizer que o meu hobby preferido era a leitura. isso ficou
para mais tarde com o meu amigo tiago. preferia o silêncio. era um gosto pouco bem-visto
para rapazes. e ainda menos. para um filho de industrial – esta minha paixão
ainda me tornou mais diferente. e possivelmente mais um bom motivo para chacota
dos mais velhos – não foi fácil crescer. principalmente para um miúdo protegido
como eu. cheguei onze anos depois do meu irmão. e treze da minha irmã. mas
confesso que nunca me dei bem com essa ideia do benjamim da família –
carreguei-me em liberdade. e fui pelo mundo sem lamúrias. habituei-me. e
aprendi a não me lamentar. preferi acreditar que tudo acontece por uma razão. e
ainda bem que assim aconteceu
13/09/2023
estrada
há
estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – in no meu peito já não cabem
gaivotas – in 3 morte terapêutica
09/09/2023
04/09/2023
deambulações noturnas XLVII
a esperança [em mim] é um sapato gasto
que calço e arrasto até que a morte lhe ponha um ponto
final
31/08/2023
o meu paradoxo
será que ainda sou eu? ou será
que se me aplica o paradoxo do navio de teseu? acho que já nada resta do que me
trouxe a este pôr-do-sol. não tenho a mesma forma. nem os mesmos sonhos. as
mãos transformaram-se em letras e os pensamentos fragmentaram-se pela inutilidade – estou
amarrado num corpo que se metamorfoseou para chegar a adulto - in paradoxo de teseu
24/08/2023
botão-sol
a nossa
casa
é do
tamanho de um botão
onde vive o amor
e a louvação
e no
prometido
que
jurámos cumprir
o tempo corre-nos
e o sol…
essa bola
de luz…
ilumina-nos…
pela casa
do botão
19/08/2023
mel
abrace todos os seus amigos
unte-os com mel
hoje
amanhã
poderá ser tarde
mas se
chover
abrigue-os
amanhã
poderá fazer sol
mas se
desabafarem
ouça-os
amanhã
poderá haver ruído
mas se
estiverem desanimados
anime-os
amanhã é
outro dia
e por cada
dia
que tiver
um amigo a sorrir
o céu
azulece
e amanhã…
outro
amigo chegará
11/08/2023
vulnerabilidades 3
“mas aqui estou em viajem por mim. descobrindo-me. procurando-me.
desbravando-me. levando luz à escuridão. tratamento à dúvida. paz ao destino
final” – in eu. e as mil e uma vulnerabilidades
19/07/2023
maria
bodas de mármore – 39 anos de companheirismo - 21
de julho de 1984 dissemos “sim” para sempre – e tudo começou com os teus 15
anos. eras uma menina. ainda és uma menina. agora com prata nos dedos - o ouro
está a caminho – parabéns a nós
maria
vivo agora
nas nuvens
pertinho
das estrelas
e de outros
astros
tão tontos
como eu
com quem
falo
de ti…
de nós…
de amor…
que mais
haveria eu de falar
e por aqui
ficarei
a falar…
ainda mais
de ti
ainda mais
de nós
ainda mais
de amor
até que nenhuma
estrela
se enfade
por louvar
o teu nome
que é…
maria
e que
outro nome poderias ter tu
se sempre
te amei como maria
18/07/2023
vulnerabilidades - 2
“nascemos. e
automaticamente somos injetados de um vírus. que nos torna adaptáveis ao
sistema de valores e regras do mundo que nos recebe. e aos poucos. tornámo-nos
repteis. começamos a rastejar entre o que os outros são. e o que não queremos
ser” – in eu. e as mil e uma vulnerabilidades
11/07/2023
o nosso rei sol: memória viva do max
o nosso max partiu – talvez tenha partido para o céu dos seus.
talvez para outra vida. talvez para um outro universo. outra reencarnação.
talvez para fazer feliz outra família num outro planeta – em boa verdade nada
sei do pós-morte dos caninos ou humanos – o que sei. é que o max partiu sem
mais cuidados – obedece agora à lei do universo. a outra dimensão. mas também
sei que onde quer que esteja. levou-nos consigo. nós todos. amamos o max. fez
parte da nossa família – se me perguntarem a origem do max eu não sei dizer. o
meu filho encontrou-o a deambular pela cidade. ou talvez tenha sido o
contrário. o max encontrou o meu filho a deambular pela cidade – encontraram-se
os dois. e como todas as histórias de encantar. foram amigos para sempre – mas
de uma coisa estou certo. o max tinha uma alma verdadeiramente nobre. coisa de
realeza. talvez britânica. ou coisa superior. todo ele era feito de etiqueta –
era o nosso rei sol. especial por caber dentro de nós inteiro – de porte médio.
cor de ouro. e nos olhos. carregava duas lanternas acesas de paz. sempre que o
olhávamos aumentávamos o hormónio do amor. a oxitocina. e a conexão emocional
ampliava-se. despertava em nós um sentimento de proteção e serenidade – a seu
lado todas as guerras no mundo faziam uma pausa – o max era o gandhi do mundo
animal. não corria. movia-se com elegância. um gentleman. como se o mundo
girasse em camara lenta. e ele. naquele vagar. sabia que chegava sempre a tempo
de nos honrar – não ladrava. o que era perfeitamente compressível. para quê
ladrar se tudo à sua volta é paz e harmonia – pela noitinha. enquanto eu me
escondia no sofá e na TV. o max ali estava. a meu lado. a fingir que dormia.
aguardando ansiosamente pela hora do seu biscoito. não usava relógio de bolso.
mas sabia que a noite trazia sempre a sua merecida guloseima – recebia-a com
gratidão. degustava-a com elegância. e adormecia enroscado em si mesmo.
amaldiçoando todos os fantasmas caninos – viveu doze anos connosco. envelheceu
connosco. adoeceu connosco. e partiu nos braços do meu filho e da maria joão.
em paz por saber que deixou em nós uma saudade imensa – não há forma de evitar
sentir a sua ausência – o max trouxe-nos paz. tranquilidade. harmonia.
silêncio. o max fez-nos bem. tratou de nós. adocicou-nos – a nossa família ficou
mais unida com a sua chegada – o max foi um dos melhores acontecimentos da
nossa linhagem. continua a ser. pois continua a deambular em nós – estamos com
saudades… do nosso max
05/07/2023
voo de mim até ao chão
"com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até ao
chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da
torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa
mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me
como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos
pendurados numa janela... sou eu a voar" in: eu. o max. e o avião
21/06/2023
vulnerabilidades - 1
então.
enquanto a nova pele não adquire defesas. cobrimo-nos com um cobertor que nos
torna invisíveis. e caminhamos pelo mundo em silêncio. pedindo apenas pão e
água para sobreviver. fazendo rolar as pedras dentro de nós. moldando o cérebro
ao desconhecido. amedrontando-o. mutilando-o. dizendo-lhe: cuidado com o que
queres ser. podes muito bem cair pela tua escada de caracol – in eu. e a
vulnerabilidade
16/06/2023
10/06/2023
flor
estou no céu…
agora. ficarei por aqui
a exaltar-te de um lado para o outro
acreditando ouvir
o rebuliço dos teus saltos altos
sentindo-te em mim
numa solidão absoluta
e é nesta aflição
que este corpo fantasma
te espera…
e também
desespera
mas quando subires ao céu
colho-te
como flor da minha vida
e guardo-te
para sempre neste paraíso
de luz e estrelas
e quando o inverno teimar em voltar
agasalhámo-nos um no outro
e desta vez
ardemos juntos
fazemo-nos luz
e seremos para sempre
a
supernova do universo
07/06/2023
caminho
“aqui ando. sem eira nem beira. a avaliar as incertezas. às vezes
a olhar o universo. às vezes a contar os dedos dos pés. com as mãos
atravessadas no que julgo certo em mim. a suicidar-me pelo que não sei. sem que
nenhum rio me queira levar. sem que nenhum pássaro me queira para descansar.
sem que nenhum mágico me queira fazer desaparecer” – pedras 2 – saudade
01/06/2023
xeque-mate
“escrevo num quase definido. um quase texto – percebi que o tempo
apesar de malévolo levou-me ao refinamento do supérfluo – escrevo – avalio o
tempo ao segundo de um quase – tenho quase a certeza de que vou acabar este
texto um dia – este quase não tem definição. talvez previsão. talvez
adivinhação. talvez ilusão. talvez desilusão. talvez alucinação. talvez um jogo
de xadrez onde o xeque à vida é diário e o mate é uma certeza absoluta –
xeque-mate. e o que há para fazer fica para sempre parado no quase – quase
realizei aquele sonho. quase – não sei explicar o quase – passei a vida
encavalitado em muitos quase[s] e agora resta-me quase nada”

