hoje seria o dia
perfeito para me encontrar com a minha mãe. sinto a saudade amargurada – ouvi
dizer que está calor. e que os entendidos aconselham a beber muitos líquidos.
mas eu não sinto nada. nem calor. nem frio. talvez uma pequenina arritmia no
coração. ou a falta de uma fala. ou uma cadeira de encosto virada para o mar –
sempre precisei do mar por perto. o mar relaxa-me. sossega-me. desfadiga-me. e também
gosto da forma zangado como abala do areal. para logo de seguida voltar pé ante
pé – gosto das gaivotas. da sua ligação íntima com o oceano. e da forma como
cortam o vento. parecem toureiras com asas. corajosas como ulisses. aliadas de
bóreas. e livres de convenções. os dias pertencem-lhes por inteiro – gosto de
enterrar os pés na areia para não ir a lado nenhum. ficar sozinho comigo. a
escutar-me. e sempre que me escuto acrescento-me. encontro sempre alguma caixa
perdida de bugigangas. é quando as gaivotas se precipitam na imaginação. tão
doidas como eu. e começamos a contar grãos de areia. a separá-los. os
arredondados para sul. e os que tem arestas para norte – é nesta loucura de
contas duvidosas que me agarro à liberdade das gaivotas. e voo sem destino.
livre de interrogações e dúvidas. e sorrio ao me ver. desigual por ser apenas
eu na minha realidade – quando estou com a cabeça no ar é quando gosto de mim.
e me interrogo: porque não posso sentir na terra o que sinto a voar? mais uma
vez a resposta é não sei. talvez seja da gravidade. do peso do céu no cérebro.
ou cresci demais. e já não me esgueiro das pessoas como antigamente. não posso.
são reais. andam sempre com os pés acorrentados à terra. e sobrevivem sem
interrogações – o que sei mesmo é que quando estou junto ao mar. com os pés
enterrados no areal. para não poder fugir de mim. fico como se não existisse. e
são as gaivotas que me ajudam a voltar à realidade que. inevitável. faz de mim
menos humano. digo. sobrevivo a competir diariamente comigo e com as minhas
interrogações – gostava de voltar à puerícia. quando partilhava o areal cheio
de ilusões. e onde construí castelos e desejos maiores do que o empire state
building – hoje era o dia perfeito para me encontrar com a minha mãe. sinto a
saudade a segredar – se lhe encontrasse as mãos talvez o meu rosto pudesse
sorrir ao me ver. ou sossegar por apenas ser – para uma mãe somos sempre
superlativos. perfeitos. futuro. esperança – mas a esperança não existe quando
o mundo que construí está incompleto. mas que posso eu fazer? nada. é na
imperfeição que sou. é na imperfeição que deixo de ser. e entre me ver como
sou. e o que não consigo ser. há um caminho que é somente meu. é a minha vida.
e em cada lamento. em cada pedra pisada. a interrogação de muitos: porque raio
foste por aí? não sei. talvez pelos ais que me tornaram mais piedoso. talvez
para viver num corpo que não sorri ao se ver. talvez pelos sacrifícios. ou
pelos desencantos. ou para sossegar por apenas ser – hoje era o dia perfeito
para me encontrar com a minha mãe. sinto-a por perto – se lhe pudesse falar
dizia-lhe que foi muito bom nascer nos seus braços. e que gostava de ter a sua
capacidade de trabalho. do seu cuidado em unir a família. de a alimentar de
perseverança e coragem. e de me chamar até ao último dia meu filho. foi quando
cortamos o cordão umbilical – mas não posso minha mãe. não nasci com esses
desígnios. restam-me as memórias. e as fotos que a fazem visitar no meu cosmos
– nascer é muito complicado. crescer é um drama. e envelhecer um terror. mas é
assim para todos. eu estou nesta leva. apenas com mais interrogações – e mesmo
que fizesse um buraco até ao outro lado da terra. e me erguesse de mim para ser
maior. eu seria o que sou. falava a língua de camões. em verso ou em prosa. de
pé ou de rastos. a sorrir ou a lamentar-me. sou o que o destino fabricou – todo
o meu passado foi ontem. e tudo foi tão rápido – hoje sei que sou apenas uma
brisa que vai passar – agora. o meu futuro é falar com os fantasmas que me
ocupam o corpo e a mente. entendermo-nos. acertar contas antigas. aceitá-los. e
dar-lhes um quarto com uma janela para fora de mim – e quem sabe as gaivotas me
pousem nas pontas dos dedos. e me ajudem a escrever outra vida. sorrir por
apenas ser. aceitar-me por apenas ser. e viver como as gaivotas. livres. surfar
o vento. toureá-lo. e um dia. lá para depois de amanhã. poder morrer como
sempre desejei. em liberdade – como diz eduardo lourenço. mais importante que o
destino. é a viagem – eu vou dentro de mim. só não sei para onde. mas algum
lugar me há de albergar
17/09/2024
dia perfeito
30/06/2024
para ti
murmuro
ao
ouvido é
confidência
mistério
se
for dito a ciciar
mas
se encostar o lábio
e
o ouvido tiritar
então…
é amor
nosso
09/05/2024
neste exato momento
1. o susto de existir
“neste exato momento – é assustador – se eu existo é
porque estou horrorizado de existir. eu sou aquele que me puxo do nada a que
aspiro. você acha que eu conto os dias? resta apenas um dia. sempre
recomeçando: é-nos dado de madrugada e tirado de nós ao anoitecer” jean-paul
satre – lutamos por mais um dia. e no
escuro resistimos à decantação do cérebro. rodeamo-nos do que sobra.
injetámo-nos com um ponto de luz minúsculo. voltamos os olhos para dentro.
acionamos o modo de contenção de danos. e por ali ficamos a fingir que
dormimos. a suster a respiração. a cavar o que é nosso. a enterrar os dedos nos
ossos. até que uma descarga de saudade nos faça voltar ao que amamos. que é dor
também – tal como o solstício de inverno nos presenteia com a noite mais
extensa do ano. também o escuro traz à alma o medo e a tristeza mais profunda
em mim – é assim sempre que o dia se esvai. e eu… por ali ando. a escurecer aos
bocadinhos. até que a noite se funda em mim –
2. o peso da alma e a missão do corpo
pela manhã. quando a luz desperta os olhos para o
mundo das vontades. o corpo. essa coisa enorme que me carrega o medo. esperta
para mais um dia também. apenas mais um dia – e o corpo vai. e leva o cérebro
para recomeçar tudo o que foi interrompido. que é apenas ser. nada mais do que
ser. não importa o quê. ser unicamente – e vai pela pressa. o caminho das
vontades é que faz o destino – passo a passo vou sem querer ir a lado nenhum.
como direi? vou meio hirto. meio curvado. a olhar para o que vem de encontro.
mas fico sempre por saber se o que vejo é o que quero ver. ou se me é imposto
pelo caminho – talvez sejam as duas coisas. afinal. eu sou mais um deste mundo.
peregrino da minha própria crença. do meu próprio versículo: “não me peço para
sair deste mundo. mas que me livre do mal que há em mim – sou do mundo. como eu
do mundo sou – santifico-me com a minha verdade; a minha palavra é a minha
verdade” – perdoem-me por tomar as palavras de são joão batista. mas tal como
ele. eu também sou um peregrino deste mundo – vivo a minha própria crença. a
que me releva. e também releva o que os outros me entregaram. que recebi como
dádiva. então… eu só sou o que sou. porque os outros entraram em mim –
eventualmente. sem perceber que também eles tinham a sua própria crença. que o
senhor deles. e eu. revelamos por vontade própria – pertencemos todos a este
mundo – às vezes fizeram-se bons. às vezes maus. mas se somos todos de todos.
então os maus estão perdoados. por serem também um pouco de todos. e deste
modo. de mim também – e o que é mau em mim. é também dos outros. o que posso
fazer. se o mundo é assim. esta centrifugação louca que nos faz desunir. e nos
faz existir tal e qual como somos. como todos somos – bem sei que às vezes
demora a encontrarmo-nos. mas é o que é. o mundo tem o seu próprio tempo – e
eu. neste mundo. não sendo nada. sou também o que me calhou em sorte. ou por
vontade – é o mundo. o meu mundo. que começa em mim. e acaba para lá do que não
vejo – no escuro. ou no caminho das vontades. sou o que posso ser e o que os
outros me ofertaram do seu caminho – o que me alivia a pena. que é do tamanho de
uma cesta de roupa. é que à noite posso morrer novamente como sou. tal e qual
como sou. e com o que sonho ser – mas vou. levo comigo a invisibilidade.
ninguém pode desdenhar do meu corpo. o que me restaria se perdesse o invólucro
que sorri? como encararia o mundo? não é fácil viver. ou sobreviver. resistir.
ou aparecer sem pungimento. e os noturnos de chopin a chorarem por mim.
enquanto os olhos padecem de uma solidão cheia de gente – tomara que um dia me
preguem dois pregos nas pálpebras. e assim possa fingir que vejo o que mais
ninguém quer ver – esta espera é desespero. e o fio da navalha nos pulsos a
matar as vozes. a engolir os atalhos. a tocar as cordas da incerteza. só pela
noite sou o que sempre quis ser – para que preciso de mais um minuto se a hora
de sonhar não chegar? para que quero ver as gaivotas a voar se a sua prisão é
feita de mim? que raio de alma pede castigo e vento? que raio de alma pede para
ser o que não sabe ser? que raio de alma obriga o corpo a caminhar aonde nunca
vai chegar? não sei. lá terá as suas razões. talvez sejam as razões de todos.
dos que me entram no corpo. ou do mundo com o seu tempo. ou talvez eu seja
egoísta. egocêntrico. ególatra. sei lá que mais – alma malvada? às vezes. mas
que lhe posso eu dizer para a amansar – prepotente e tirana? também. mas que
posso eu fazer para a aliviar das pedras que carrega – sem perdão? não. senão
estava a condenar quem comigo caminha. já que sou de todos. e com todos caminho
– mas mesmo que haja outro destino. e esta vida que consumo seja apenas
purificação. ou aprendizagem. ou sei lá. qualquer coisa que ainda ninguém sabe.
eu vou até onde chegar. mesmo teimando e doendo – o que sei. e é tão pouco. é
que quero ser o que ainda não encontrei. sei que está algures por aí. sei…
porque sinto falta. e só se sente falta quando o sono é leve e a alma aparece –
mas se assim for. o que me espera? que vida viverei? apenas um dia nesse outro
mundo? mais do que uma hora? mais do que um mês? estou sempre em cotejo. como
se dentro do que sou houvesse dois lados: o lado morto
onde sou feliz mesmo não sendo o que quer ser. e o lado vivo onde sou vontades
sendo o que não quero ser – o lado morto resigna-se ao que tem e sonha. e o
lado vivo procura o que não sabe se vai encontrar. e suporta as vontades sem
quantificar o tamanho da dor – é o meu princípio de incerteza heisenberg –
quando se conhece a grandeza da dor. perde-se completamente o sentido da vida
3. peregrino entre mim e os outros
e vou por mim. como se não houvesse mais nada para
onde ir. e com prazer ou terror. vou à descoberta. às vezes com espanto. às
vezes apenas com a curiosidade de saber quem sou. e para cada descoberta. o
padrão dos descobrimentos marca a minha presença naquele bocado meu – e depois
de me descobrir. de colocar ordem na desordem. luz na ignorância. parto para o
que me resta do mundo. do meu mundo. que é enorme. digo eu. que o imagino do
tamanho de um continente. e levo a boa nova. que às vezes sou somente eu. diferente
apenas por saber mais de mim – e a minha invisibilidade sempre tão perfeita. é
agora. coisa perdida no achado – tenho medo dos homens. que são também um pouco
de mim. mas não tenho medo do que descubro em mim. compreender-me é a minha
última viagem pelo mundo das vontades – a palavra que me ocupa o corpo é: falta
– falta saber ainda mais de mim. mas confesso que não tem sido fácil. talvez
por ser enorme e cheio de cantos e recantos. por isso me procuro. às vezes em
mim. às vezes nos outros – mas se só sentimos falta do que já tivemos.
expliquem-me os outros. quase todos sábios. porque é que sinto falta do que
nunca tive? e porque quero ter o que não sei se existe? – talvez intuição.
talvez pressentimento. magia. um dia destes deito as cartas. ou búzios. a
resposta estará em algures – sou o que sou. nada mais. digo eu. por não ter
conhecimento para dizer mais nada – o meu lado vivo
resiste onde sou vontades e procura o que desconhece. mas no entanto não inveja
o lado morto. que não sente falta de nada. e é feliz com o que lhe oferece os
sonhos – é este vai e vem de tristeza de um lado para o outro que mantém o
morto a querer viver. e o vivo a querer morrer
4. o cérebro e o caminho das vontades
amarra-me à vida uma única lei: a luz das minhas noites
é a testemunha dos meus dias de escuridão – acreditamos que nascemos para ser
felizes. e não é verdade. não é possível ser feliz. apenas é possível ter
alguns momentos de felicidade. o nosso cérebro não foi trabalhado para nos
tornar felizes. foi antes para nos manter vivos – anders hansen. psiquiatra
sueco. diz que devíamos olhar para o mundo e para os problemas “através das
lentes do cérebro” – diz-nos também que temos um “cérebro da idade da pedra” e
que não está organizado para nos tornar felizes: “a principal função do cérebro
não é fazer-nos felizes. mas nos manter vivos. a coisa mais importante que você
pode aprender sobre o cérebro é que ele não mudou durante os últimos 10 mil
anos” – começo a compreender o meu cérebro. afinal apenas me quer manter vivo.
e está a conseguir – vou pelo caminho das vontades. às vezes de vagar. outras.
a fugir de mim. para encontrar o que quero ser. tal como o burro vai atrás da
cenoura – o ontem apenas existe porque somos capazes de usar o nosso cérebro.
tudo o que pensamos torna-se automaticamente em passado. e o presente. é a
caixa onde guardamos os raros momentos de felicidade. e que existe para tornar
o futuro mais agradável. menos sofrível – este. só existe se formos capazes de
nos libertar das pedras. mas se não formos suficientemente audaciosos. então o
cérebro deixará de nos manter vivos. escolhemos o nada – é o cérebro que nos
comanda. há uma alma dentro dele. que faz de nós o que somos. únicos e especiais.
se não o formos para mais ninguém. é ele que nos lidera. que nos ensina a não
desistir – e naqueles dias em que o escuro é o fim do destino. o cérebro não
desiste. mesmo que estejamos a respirar dor. ou sem amor próprio. ou sem… sei
lá um vazio. um buraco negro que nos suga para o nada. mas a nossa massa
cinzenta. como dizia hercule poirot. sempre a lutar. às vezes a provocar. como
se tivesse uma vara com um agulhão. e dissesse: toca a andar para o futuro. o
passado está na ponta da vara – e lá vai ele processando o que somos. porque o
que não conseguimos ser. resiste na esperança. na resiliência. na capacidade de
sonhar. de amar. e de nos perdoarmos por ser apenas o que somos – e o cérebro.
essa máquina maquiavélica e ao mesmo tempo fascinante. lá continua a fazer
futuro. de picareta na mão. a escavar cada neurónio. a fazer cada vez um buraco
mais fundo. mais dentro do que somos. para que quando não aguentarmos mais… possamos
esconder-nos dentro dele – e mesmo que os corvos poisem no ombro. a nossa luta
para procurar a felicidade será sempre o único caminho para chegar mais
adiante. e viver. apenas viver o presente porque só este controla o tempo do
cérebro – a felicidade não existe como um todo. existe a chuva. o vento. a
terra. o fogo. e outras coisas que não sei explicar. mas a felicidade é apenas
o truque que nos ilude para resistir ao caminho. e alcançado. logo a perdemos.
porque queremos mais. queremos mais caminho. e assim voltamos à infelicidade.
para voltar a procurar o que não sabemos se vamos encontrar – somos procura.
somos exagero. mas também somos feitos de uma benquerença que nos faz
acreditar. e muito. e que numa das extremidades do arco-íris. há um trilho que
nos leva a ver como realmente somos. e principalmente. que papel desempenhamos
nesta passagem terrena – e a chave mestra até então pendurada num erro trágico.
agora pendurada numa exatidão atómica. que no vagar interestelar. nos abrirá o
cérebro até à fusão dos átomos. que eu quero acreditar. que foi na barriga da
minha mãe – e assim. finalmente. nos mostrará definitivamente a razão de termos
nascido. crescido. de termos aprendido a sonhar. a amar. a compreender o valor
da simplicidade e do belo. de termos resistido. suportado as pedras. o medo e a
invisibilidade – e a resposta. creio eu. será a família. a que me fez nascer. e
a que fiz a partir de mim – eles são a razão por que resisti quando tudo dentro
de mim se desmoronava. quando o belo não passava de uma careta. e o corpo. o
meu único corpo. desfeito de sentido – a felicidade não se guarda. se a
tentarmos guardar implodimos. por isso a atiramos ao ar como fogo de artifício.
e adoramos vê-la explodir nos olhos de quem por nós passou. às vezes vaidade.
às vezes apenas vontade de dizer: hoje sou feliz. sou eu o feliz contemplado. e
tu. que és também um pouco de mim. resigna-te. já tiveste a tua poção mágica.
bebe a minha. junta-te a mim. pois não é alma de bem quem não se alegra com
este meu raro contentamento. e que também é teu – e por cada estoiro no ar a
certeza de que amanhã haverá mais um dia. e o que me faz feliz hoje. fará
amanhã a um outro – a felicidade é para entregar a quem precisa. não podemos
guardá-la. ou escondê-la. seria uma ironia iconoclasta se o tentássemos.
correríamos o risco de deixar de estar vivo. de perdermos o belo. o sorriso das
coisas simples
5. o medo da felicidade
eu tenho sempre muito medo de ser feliz. não é
culpa minha. é coisa do caminho das vontades. ou do destino. e quando ainda
vivo a felicidade. já me interrogo qual será o seu preço. que mal me chegará
para voltar a ser eu – sinto esta coisa medonha. maldosa e matreira. uma
ignomínia. como se perdesse a sombra. e um homem sem sombra não merece nada de
bom. mas sou o que sou. apenas isso – às vezes. naqueles dias especiais em que
estou a gostar mais de mim. ainda tenho a ousadia de pensar que a mereço. e
digo-me: o que já sofri não é recompensa para este laivo de luz e paz. e
aceito-a. afinal. a cavalo dado não se olha o dente – mas o importante mesmo é
que o cérebro teime com o corpo. que liberte as pedras. porque dentro do
cérebro não existe uma pessoa. existe uma alma que é uma multidão. uma alma que
é feita de todos aqueles que acordam para mais um dia. apenas mais um dia – e
sim. é assustador. temos apenas mais um dia para nos absolver de todas as
pedras. de todos aqueles que nos tomaram o corpo para pesar. de todos aqueles
que por serem de todos. se fizeram assim como são. nada mais do que o que são –
sei agora que para sobreviver precisamos de estar infelizes. se não
estivéssemos infelizes. não mais procuraríamos a felicidade. e sem essa
necessidade. absoluta. ficaríamos parados. e o mundo parava. todos os cérebros
paravam. não haveria mais poetas. os pássaros deixavam de voar. os peixes de
nadar. a lua caía no mar. e os cães deixariam de ladrar e de nos amar
incondicionalmente – o mundo ficava plantado de espantalhos
6. a arte de sobreviver
eu tenho amor pelo certo. pelo saber. mas
tragicamente. sou viciado na dúvida. desorganizo-me. remexo os meus papéis.
espanto-me. e depois. para não ficar louco. curo-me com o que sobra de mim. e
penso. porque pensar é conversar com a alma. e a minha resiste no cérebro – “acredito
que a teoria de tudo na vida de cada pessoa não envolve explicações científicas.
mas sim um sentimento chamado amor. e se você já amou vai entender o que digo,
apesar de que nem tudo precisa fazer sentido. você tem que compreender que onde
existe amor. sempre existe tudo — jane
hawking” - sem os outros todos seria apenas eu. a mesmidade seria insuportável
– “dalí valia-se daquilo que batizou de método paranoico-crítico. e que
consistia em tornar a subjetividade o principal aspeto da obra. deixando a
racionalidade de lado. uma tentativa de representar o fluxo do inconsciente e
dos sonhos” – eu também aderi a este método
gente que amo
adotem-me
assim como sou
jurem-me perdão
e bondade
no que não fui
mas o que fui
que as bocas não se calem
todas
e se o negro for a minha cor
não vos culparei
eu morrerei com o azul da terra
e imortalizar-me-ei na escuridão do
universo
04/05/2024
apenas um almoço de família
adorei o nosso almoço de família – adoro os meus filhos. adoro as minhas noras. os meus netos. a lurdes. e amo a casa que nos abriga – a família é a minha vaidade. e a maria joão é a fada que nos faz brilhar mesmo nos dias em que o sol se esconde para descansar – nestes dias em que nos alinhamos com a vida. sei que sou um homem feliz – se algum dia me perguntarem que obra esculpi com verdade nesta existência. não hesito: a minha família – a minha casa é um castelo mágico. onde fadas e duendes vivem a sorrir – os meus pais deram-me o caminho. eu escolhi outro. e agora que se faça luz e bondade no que é meu. e cumpramos todos a nossa missão: manter o farol aceso e o caminho que herdamos iluminado
19/03/2024
dia do pai
quando um filho nasce os pais descobrem de imediato o lugar
onde um dia vão morrer
16/03/2024
alzheimer
nunca
controlei
a
boca
nem
a alma
nem
a dor
nem
a ira do pensamento
mas
se um dia me perder
se
o nome destapar
se
a memória lascar
se
do amor esquecer
se
trocar o dia pela noite
o
bem pelo mal
abracem-me
segredem-me
o vosso nome
não
me deixem partir sozinho
[para os meus filhos]
mais um
dezassete. mais um março. mais um ano – já passaram vinte e seis anos que o
vosso avô partiu sozinho. envolto no branco silencioso do hospital. sem que
ninguém pudesse acompanhá-lo no adeus. sem que uma mão o guiasse – ano após
ano. e sem que a saudade se atenue. esse dia recomeça incessantemente em mim. é
uma chaga que nunca fecha – viverá enquanto eu viver. nenhuma absolvição
acalmará o meu pesar – faltou uma última palavra. em sua casa. nossa – um
último beijo. nosso – e um até sempre. nosso – teríamos ficado em paz. todos
nós
12/03/2024
por ser o que sou - II
o paradoxo de olbers
“*há sempre um grande arco ao fundo dos meus olhos... a cada passo a minha alma é outra cruz” – que posso então esperar de mim agora que o arco do tempo está a achatar e a cruz que carrego a pesar? construí-me em dúvidas. e com elas produzi medo. ausência e silêncio – será que a origem das dúvidas reside numa racionalidade que lhes é exclusiva e autônoma? será que com a idade as dúvidas tendem a tornar-se mais complexas? será que com a idade preferimos não ter dúvidas e encontramos respostas na religião. no ateísmo. ou no universo? não sei. como não sei uma imensidão de coisas. mas acredito que com o envelhecimento precisamos cada vez mais de nos conquistar definitivamente. de nos conhecermos com coerência. de nos amar incondicionalmente – envelhecemos. e começamos então a catar as dúvidas morfológicas e anatómicas. estas com prioridade. e uma a uma. com cuidados de cirurgião. dissecamo-nos. expomo-nos. libertamo-nos da vergonha. mostramos o que somos. nada mais do que o que somos – tal como antigamente as mães catavam piolhos nas cabeças dos seus filhos e os exterminavam unha contra unha. também eu cato as minhas dúvidas. mas não as extermino. aprisiono-as. acorrento-as ao que me sobra de lucidez. injeto-lhes aceitação. suportação. e também conformação. afinal são as minhas dúvidas. geradas e criadas em mim – nietzsche dizia que devemos ter o caos dentro de nós para dar à luz uma estrela dançante. eu já sou um caos. mas no lugar das estrelas tenho as dúvidas a dançar sobre mim – as dúvidas sufocam-me. desesperam-me. magoam-me. mas estou cada vez mais certo de que não seria o que sou sem elas. sem o seu caos. sem a sua energia interrogativa. e também sem a crueldade com que me levam à desesperação para me encontrar com o que sou hoje – só não tenho a convicção de que alguma vez levarei todas as minhas dúvidas à certeza. velejo águas sem fronteiras. aflitas. angustiadas. bem sei que sempre foi assim. e o que nasce em dúvida. tarde ou nunca será certeza – nesta forma maldosa de viver. inventada por mim para que a ausência se faça o mais tarde possível. vivo a verdade que sou a cada noite. e quando o sol range. e a mentira regressa. percebo pelo tino que me resta que nada em mim é certo. viver o que não sou é um castigo só compensado pelas dúvidas que alimentam a noite – sem dúvidas seria um monstro. um vegetal. um ser inanimado. uma pedra pendurada num penhasco à espera de uma rabanada de vento – tal como olbers. também eu quero acreditar que se a minha mente fosse estática e repetitiva. nunca teria conseguido construir-me assim como sou. talvez se me aplique o mesmo princípio do seu paradoxo – as minhas noites são escuras. frias. solitárias. imersas em dúvidas. em dor. e o corpo de um lado para o outro. da cama para o tártaro. e do tártaro para dentro do que não quero ser. e o corpo inchado de coisas inúteis. enorme. como se tivesse prenho de umas quantas vidas. quase todas dispensáveis. quase todas sem valor de mercado – o meu corpo é um género de placa prensada de vidas e dúvidas. e também pela minha parca sabedoria. cheio de incertezas e medos. sempre a procurar um fim. e elas a nascer sem ordem e saber. e eu a perguntar: porquê? são minhas por quê? talvez a resposta seja são minhas porque são. ou talvez porque me fazem expulsar o que não sou. para tentar ser o que quero ser – **“o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é” e este eu. quase invisível. e que habita dentro da ausência. medo e silêncio. não precisaria mais do que um caderno de linhas para se tornar parte das coisas reais – nestas noites embrulhadas em dúvidas e mistérios. a única companhia que suporto é o conhecimento que não tenho. o de mim também. e que me faz procurar nas incertezas o que sou. porque sou. ou o que poderia ter sido se… e mais se… e mais se… e mais se… mesmo sabendo que o se será sempre uma equação com resultado infinito e variável – mas mesmo este resultado imperfeito. está sujeito a vários tipos de contaminação: se crescermos em família ou com amigos. se estarmos sós ou acompanhados. se é noite ou dia. se temos fé ou descrença. se temos dúvidas ou certezas. se vivemos na terra ou na lua. a invisibilidade que sou. e que acredito ser genuína. é a minha impressão digital. o meu nome. a antimatéria reconhecida por todos que me rodeiam – sendo invisível não existo. resisto no meio de quem é visível – quero acreditar agora. com o meu calendário em quarto minguante. que sou o que posso ser. e nunca serei mais do que isto que escrevo. e também sei que serei muito menos para os que me leem – mas depois. obstinado. procuro soluções. e mergulho nas dúvidas. às vezes como se fossem um chá quente reconfortante. outras. fico em nada. desintegro-me molecularmente. e crio um novo paradoxo: e se a minha invisibilidade fosse de tal forma gigante. do tamanho do universo. não fosse finita. nem estática. e todo o conhecimento que sei existir em mim. sendo pouco. mais as dúvidas. sendo muitas. porque não há saber sem dúvidas. fosse uma fonte limpa de produção de energia. sendo a invisibilidade o seu combustível. reproduzida assexuadamente. sem necessidade direta da minha inteligência. sendo assim capaz de produzir os seus próprios interesses. os seus próprios desafios. os seus próprios medos. as suas dúvidas. isto é: eu. tal como sou – a minha invisibilidade é a minha força – o meu pensamento sou eu: é por isso que não consigo parar – construí o meu universo escuro. que mais não é do que o meu quarto de pânico. e que tal como uma ventoinha eólica apenas precisa de vento para produzir a sua energia: eu preciso de invisibilidade para resistir ao que sou – e eu. invisível. que nada produzo para além de energia interrogativa. a respirar contradição dolorosa. morro para adormecer. morro para que o vento não chegue à eólica. e quando o tártaro me regurgita. acordo para viver – é esta energia. esta força invisível. que aceito como minha por ser feita do meu pensamento. que me faz nascer renovado com a luz. e morrer com o escuro. e enquanto não faleço de vez. resisto a todas dúvidas com mais dúvidas – nenhum homem. mesmo feito de nada. pode descansar se não tiver um interruptor para as suas assombrações. uma mão que se despeça da mente e nos faça falecer em calmaria. porque enquanto está falecido não quer saber se o sol nasce ou não. se o pecado existe. ou não. se a estrada é certa. ou não. se o amor por mim é verdadeiro. ou apenas a ferramenta para me manter vivo – olbers fabricou um paradoxo para o universo. eu fabriquei um paradoxo para mim: porque quero viver se é a morte que me ilumina os dias? bem. não tenho certeza. talvez porque é no conhecimento da mortalidade que encontramos clareza sobre a vida – a morte é apenas o nada imortalizado. continuar vivo é sempre uma opção. a não ser que fosse tetraplégico. ninguém nos proíbe que nos atiremos de um himalaia. ou que sufoquemos com um nó de amor. ou nos enrodilhemos num oceano. é sempre menos custoso falecer do que viver – sempre que o sol desaparece unge-me saudade. e tal como um samurai se prepara para a batalha. também eu me dobro sobre a terra que me suporta e honro os pais da minha luminosidade. e mesmo que esta honra não lhes traga glória. e não sabendo eu se a alma é eterna depois de perder o corpo. enquanto resisto às dúvidas terrenas. acredito que o nome que me deram traz consigo um sentido – mas confesso. gostava de saber que dúvidas são estas que me levam ao nada. pois mesmo que o amor me sobre em cada pegada. e o desejo de caminhar se prenda às pernas. e o destino a soma de todos os passos. sei que sou o que vivo na terra das vontades. e que me faz ser o que sou às vezes não sendo. e mesmo que um dia me falte a estrada. mesmo que a curva seja eterna. é o meu nome que perdurará em cada pegada que inventei – descobri no escuro das minhas noites a luz que me ilumina a vida – procuro a minha verdade. o que presta e o que não presta em mim. tal como nos pede miguel torga no seu poema. quantos seremos
quantos seremos?
não sei quantos seremos, mas que importa?!
um só que fosse, e já valia a pena.
aqui, no mundo, alguém que se condena
a não ser conivente
na farsa do presente
posta em cena!
não podemos mudar a hora da chegada,
nem talvez a mais certa,
a da partida.
mas podemos fazer a descoberta
do que presta
e não presta
nesta vida.
e o que não presta é isto, esta mentira
quotidiana.
esta comédia desumana
e triste,
que cobre de soturna maldição
a própria indignação
que lhe resiste.
*mário de
sá-carneiro
** albert
camus
09/03/2024
por ser o que sou - I
insignificante
às vezes sinto
que já faleci. fecho os olhos e as dúvidas iluminam um corpo já quase sem vida.
e a mente infinita e elástica a explodir de medo – por cada fantasma uma razão
para não querer abrir os olhos. por cada dor a certeza de que ainda estou vivo
– a luz natural desaparece. as lâmpadas tomam o seu lugar. iluminam o que está
ao seu alcance. e resisto. nada mais posso fazer. estou demasiado fragmentado
para brigar com o escuro – conto as estrelas. uma a uma. e por fim. e por
desespero. deito-me… fecho os olhos… e faleço para tudo o que me faz viver. e a
cada amanhecer ressuscito para tudo o que me faz morrer – no escuro sinto-me
sempre tão insignificante. sem nenhum castelo para guardar. sem nenhuma cadeira
para me sentar. sem nenhuma certeza para as dúvidas que me subtraem a noite –
pé ante pé. adentro a caverna das impossibilidades. tudo é confusão. medo.
terror e morte desonrosa – mesmo assim. sobrevivo quando fecho os olhos… e
morro quando os abro – a vida é um desafio. às vezes indecente. às vezes
injusta. às vezes imoral. às vezes quase mortal. às vezes apenas com um
pequeníssimo estímulo para adiarmos para amanhã o que já não suportamos hoje –
é o destino que nos calhou em sorte. ou por mérito. ou por demérito. e um dia.
sem mais adiamentos. terminamos por obedecer a um mandamento interior que não
podemos desrespeitar. é como um impulso elétrico. um punhal que nos espeta de
certezas. uma oração que nos perdoa de todos os excessos e pecados. e tudo o
que era dúvida é agora uma oferta num embrulho irrecusável: paz para sempre – e
enquanto esperamos por esse mandamento. por aqui ficamos. a respirar
devagarinho para que ninguém nos ouça. a viver aos pouquinhos. a resistir
porque o seu contrário é covardia. a soletrar o nosso nome baixinho. a marcar
dias no calendário para assegurar que fazemos parte do mundo sensível – é
quando tomamos o silêncio como o último amigo. tudo o que for dito no desespero
da noite pode tornar-se letal com o nascer do dia – adiamos as dúvidas. as
promessas. as orações. o vento às gaivotas. adiamos tudo até que o corpo não
possa mais dizer: quero falecer – quando acordo. mesmo insignificante. mesmo a
valer nada. dou como certo a chegada de mais uma noite. mais uma ameaça ao
siso. e sofro. e a dúvida é se o meu padecimento é resultado da minha essência.
ou das escolhas que realizei por vontade – não sei. como poderia saber? mas
para cada desafio diurno terei o que sempre tive. audácia e esperança. talvez
por ser insignificante. e não caber em mim mais nada – e para cada himalaia
apenas um passo para a frente. e a certeza de que dor besta só me vencerá se o
cume não alcançar – se não fosse insignificante não haveria himalaias. as
montanhas existem para pessoas como eu: pensam. escrevem. desenham. pintam.
traçam bissetrizes até ao princípio do mundo. remexem o passado para nada
mudar. e no topo da minha capela sistina. uma cabeça tão miserável que confúcio
nunca me teria aceitado para seu aluno – resta-me resistir. pensar para
existir. pensar para não falecer – a minha noite está em oposição à infinitude
da mente. é como se o medo abstrato. filosófico. ou metafísico se tornasse
real. como se tomasse o corpo e o mergulhasse em ácido. e o medo do amanhã. que
é meu por direito próprio. me corroesse os ossos e me desfizesse em prantos –
insignificantes. bem sei – que mais poderia ser do que prantos insignificantes?
creio que nada – escondo-me na escuridão. preciso e amo as noites. à noite
ninguém me vê. ninguém sabe quem sou. ou o que faço. à noite sereno-me.
procuro-me. procuro também as dúvidas. e para cada uma. outras mil a
trabalharem em mim. todas impassáveis. todas a fazer dor. a fazer terror. e a
única certeza dentro desta devastação. são dúvidas a parirem mais dúvidas. e
por fim. descarnado. desesperado. depauperado de qualquer riqueza emocional.
apenas uma certeza: amanhã tudo será pior? e eu. falecido ou não. com dor ou
sem. com perdão ou sem. caio definitivamente no meu abismo. e faleço por uma
vontade que não pode ser contrariada. como se tomasse uma espécie de cicuta
invisível que me faz falecer no escuro. e depois. com o nascer do dia.
ressuscito para poder morrer novamente – mas no dia em que morrer de vez. e
viajar para outro espaço sem dor e medo. sei que o mundo acordará exatamente
igual. nenhuma estrela no céu confiscará o meu nome. nenhuma luz na terra
alumiará a minha falta – já não tenho mais prantos. nenhum dote que me permita
comprar uma vírgula para mudar a história. terei que viver com dúvidas. e com a
minha preciosa insignificância. assumir o que sou. mesmo não sendo nada – a
vida é um voo para morte. é como se me tivesse atirado de um arranha-céus há
mais de cinquenta anos e andasse estes anos todos à procura de um local para
cair – não se morre com o impacto. morre-se com a vontade de chegar ao solo.
porque a morte física é apenas ausência e silêncio – escrevo. escrevo
sentimentos confusos. incluindo amor. morte. felicidade. alegria. tristeza.
medo. raiva. incompreensão. e para cada um deles um palavrão: que se foda –
quando um homem falece. nada do que fez tem valor se não durar mais do que um
minuto. eu não deixarei nada que valha mais do que um minuto – quando um homem
falece nada do que fez tem valor se as bocas não falarem de dor. eu não
deixarei nenhuma obra em razão da dor – quando um homem falece. nada do que fez
tem valor se o sol não fizer sombra. eu cresci envolto em nuvens – mas o que
posso fazer se desistir não for solução? mesmo que o vento me cegue o caminho.
é na vontade de desistir que me nomearei cavaleiro. e darei comigo a dar o
primeiro passo para a frente. mesmo que o meu nada tema medrar. mesmo que o meu
nada peça para não sofrer. pois estou certo. que um dia. alguém me há de
explicar o que sou. e por que sou – “quem caminha sozinho vai mais rápido. mas
quem caminha acompanhado. vai com certeza mais longe”. provérbio africano – eu
vou com certeza chegar mais longe. caminho comigo. e com todos os eus que
carrego de nascença. e somos tantos. a falar. a dar opiniões. a dizer vai por
acolá. para logo outro dizer. é melhor por ali. mas que posso fazer se todos
são importantes. e de todos fiz caminho – confesso que não sei. já me habituei
a não os questionar. não quero compreendê-los. o que quero mesmo é chegar mais
longe. porque há coisas que não queremos saber. às vezes ser. e ter também.
mesmo que seja um dom divino. ou escolha do universo. o melhor mesmo é
continuar insignificante. vestir-me de louco. e viver pendurado numa janela.
quem sabe um dia ganho asas e passo a viver nas árvores. na natureza. na minha
natureza – quando um ser insignificante falece os sinos não dobram. nem choram.
nem gritam. acenam. e dizem sorrindo: já vais tarde. finalmente noites sem
dúvidas – estou certo que mais tarde. ou mais cedo. aprenderei a contar os meus
eus. a catalogá-los. e pedir-lhes que me nomeiem. eu. sampaio rego. fiel
depositário. e único herdeiro das suas vulnerabilidades. dores. desgraças e
insignificâncias – nós. queremos muito acreditar que é possível ir mais longe –
e termino esta primeira parte com um poema de agostinho da silva. em “poemas”
sonho
teria
passado a vida
atormentado
e sozinho
se
os sonhos me não viessem
mostrar
qual é o caminho
umas
vezes são de noite
outras
em pleno de sol
com
relâmpagos saltados
ou
vagar de caracol
quem
os manda não sei eu
se o
nada que é tudo à vida
ou
se eu os finjo a mim mesmo
para
ser sem que decida
06/02/2024
morte por instantes
encontro a
morte tantas vezes ao dia. às vezes é apenas a morte de um instante. outras. é a
anunciação de que ela vem a caminho – mas gosto de morrer por instantes. é um
descanso – outras. quero que todos os momentos morram dentro do meu corpo. fujo
– às vezes. desesperam os olhos. às vezes. desespera a alma – um dia. serão
ambos
21/01/2024
tuning II e III
II.
as palavras
deixaram de ser irreverentes. aceitam-me. e acomodam-se no lugar que lhes
disponho. como se eu e elas fizéssemos parte de um banquete. sentados à mesa.
em família – quem nos lê não quer fast-food. quer um banquete de gala.
requintado. luxuoso. elegante. sob holofotes. quer estar no centro de todas as
atenções. quer os homens de smoking preto. sapato verniz. camisa branca ornada
com laço papillon – as senhoras de vestido justo. preto. de lantejoulas. salto
alto de agulha. uma echarpe suave a tapar os ombros nus. e no colo do peito a
maior esmeralda verde jamais regurgitada por uma rocha – na mesa. o início da
degustação gourmet. carne maturada ao tempo da arte. acompanhada por letras
salteadas em perífrase retórica. com alto teor de metáforas e hipérboles. tudo
regado com um néctar de apolo – ao fim destes anos. vinte e cinco não é pouca
coisa. as palavras tornaram-se divertidas. já não se mostram enfezadas. falam
comigo. respeitam-me. insinuam-se. nenhuma quer ficar fora da história.
tornaram-se mais tolerantes. sabem que não foi fácil artilhar o carro para
chegar até aqui. mas agora. às portas de um novo génesis. querem mais. querem
mais papel. querem mais conhecimento. mais arte. mais definição – eu também
quero. mas o medo. essa coisa tantas vezes abstrata. essa dor que espreita por
detrás de cada palavra… e nos magoa sem piedade – como se escrever pudesse
merecer castigo – um escritor. por mais mau que seja. vive atormentado. o seu
mundo está coberto de nuvens e homens maus. e ao fim da jornada. quando
apagamos a luz. as palavras saem de nós para alimentar os demónios. e ali
ficamos. em alerta. de espada na mão protegendo a nossa honra. evitando que
alguma seja levada para o inferno – não há escritor que não tenha tido um motor
partido. uma bomba de água entupida. os fusíveis queimados. e palavras
atravancadas no nó da garganta – e o domar de letras petrificado. preso ao seu
tártaro. ajoelhado. a pedir a são judas tadeu. o santo das causas impossíveis.
que o proteja dos demónios críticos – a vida de quem escreve não é fácil. mas
não mudaria uma vírgula do caminho que percorri. mesmo sabendo que não estou
isento de imprecisões – mas se ficasse por aqui. se não escrevesse mais uma
única palavra. diria que já não foi mau. caminhei com o que sonhei. e a cada
nascer do sol encontrei-me para ser um pouco melhor – nem tudo foi mal-acabado.
eu e as palavras amparamo-nos. rimos juntos. choramos juntos. percorremos
dicionários juntos. perdemo-nos juntos. viajamos juntos para lá das nuvens. às
vezes até acampamos em estrelas e cometas. e as metáforas e hipérboles a nosso
lado. ajudando-nos a criar ilusões. para não falar no sujeito poético que. com
a mania de dizer tudo o que lhe apetece. escapa sempre às responsabilidades –
foi uma viagem e tanto. bem sei que sempre exagerei com as figuras de estilo.
mas que posso fazer contra isso. estavam mesmo à mão. e a mão daquele que
escreve é incontrolável – ser escritor é um sacrifício medonho. só quem
realmente gosta de contar histórias é capaz de sobreviver a uma vida inteira de
anonimato – escrevi. e ainda hoje escrevo para não ficar doente. para
sobreviver a este mundo terrível que sufoca a minha cabeça. e que todos os dias
me atormenta com a vida de verdade. e tudo faz para que desista de procurar a
cura pela estrada do papel – escrever é uma viagem alucinante. às vezes
acreditamos que estamos a trabalhar para uma obra de arte. e dentro da nossa
cabeça assim é. e no outro dia. depois de umas horas de sono. olhamos para o
papel e interrogamo-nos: quem foi o monstro que escreveu esta trampa? e ali
ficamos mortos. quase sem respirar. a perguntar se vale a pena continuar. e
vamos buscar aquele bocadinho de forças para o momento em que estamos no cimo
da ponte. entre o escreve. e não escreve. desiste. não desiste. e voltamos ao
princípio. renascemos no caos. e mais uma vez com a esperança de que quando
atingirmos o ponto final. nos sintamos geniais – e o medo instalado. a
interrogar-se. será que não consigo chegar a um escritor de verdade? as
palavras cada vez são mais exigentes. e às vezes não as sei entender. saber até
sei. mas não consigo domá-las como desejava. é como se estivesse num fórmula
1. com mais de mil cavalos selvagens a
puxar por mim. e eu sem mãos para tanto power. para tanto cavalo bonito
III.
mas o que sei.
e desta vez sei mesmo. será em 2026 que me tornarei. pela primeira vez. pai de
um livro. finalmente escritor – não um livro qualquer. não. será o meu livro. o
meu livro. com a minha impressão digital. a vida escrita em papel. sem adornos.
sem falsidades. sem imposturices. com honestidade emocional. intelectual
também. sendo apenas eu. em cada momento desse eu. às vezes no escuro. às vezes
no nada. a soletrar o nome para não me perder. para não me esquecer. a lascar
pedra – sem este outro eu. sei. agora. que não escreveria uma única palavra.
não curaria nenhuma dor. não perdoaria nenhuma falha. não encontraria nada em
mim que valesse a pena fazer existir. a mesmidade seria para mim uma doença
incurável – o tempo passou. rápido creio eu. precisaria de outro tanto para me
tornar mais nobre. mais respeitado – veremos do que serei capaz – as palavras
são sempre tão difíceis. tão desgastantes. tão rigorosas. sempre a imporem
acompanhamentos diferenciados. exigentes na escolha dos ingredientes. alguns exóticos.
outros raros. que desconheço. ou não sou capaz de trabalhar. – talvez as
palavras queiram batata brava. e uma saladinha com tudo. vinagre balsâmico e
duas pedrinhas de sal a gosto – o meu livro será a gosto. a meu gosto – ainda
acredito que uma palavra pode salvar um dia
15/01/2024
andam por aí
Não vou aos cemitérios porque não está lá
ninguém
e ao perguntar-lhe
– Então estão onde?
o Bento fez aquele sorriso que lhe enche a
cara toda, explicou
– Andam por aí.
e, de facto, andam por aí. A minha mãe anda
por aí, o meu pai anda por aí e fartamo-nos de nos cruzar com eles, só que às
vezes, distraídos, não damos por isso. Eu para o Bento
antónio lobo antunes
eu digo mais.
a minha cunhada zeza anda por aí
o meu sogro joão anda por aí
o meu tio joão anda por aí
10/01/2024
tuning
I.
será que atingi a maturidade na
escrita? será que a idade sénior me protegerá. enfim. de escrever tontarias?
não sei. gostava de ter uma bola de cristal. mas não tenho – a minha dúvida é
que seja uma espécie de automóvel tuning. que vai sofrendo alterações. às vezes
para parecer mais bonito. noutras. mais competitivo – comecei por aparelhar
umas jantes mais largas. para me amarrar melhor às palavras. depois. abri um
teto. queria ser ouvido quando peço perdão – não satisfeito. meti dois faróis
xénon para ver melhor o caminho – medroso. alterei a suspensão para aguentar os
solavancos gramaticais. e para me defender. comprei um rádio com colunas a
debitar 1000 decibéis. às vezes precisamos de calar o mundo – por último.
mandei apetrechar dois “bofantes” cromados para impressionar. tipo carro de
corrida. que não corre para lado nenhum. faz barulho por ter o escape roto –
lembro-me do dia em que comecei a acelerar. e fui pela vida da escrita.
ganhando coragem a cada passo. a cada quilómetro inventado. e um dia distraí-me.
e quando olhei para o conta-velocidade tinha ultrapassado os cem quilómetros
horários – que loucura. vidro aberto e aquela sensação incrível do vento a
misturar-me o léxico. as palavras a esvoaçar. e o cérebro em êxtase aos gritos
de aflição. anunciando a todo momento a fusão de um punhado de vocábulos. o
nascimento de um grande texto – o ponteiro do velocímetro a trepar incrédulo
pela potência. o cabelo a imitar os braços do boneco da michelin. sempre a
acenar. e os óculos de sol. a sorrirem para o retrovisor. e os lábios a
sublinhar suavemente o pensamento: para a frente é o caminho. nada do que
escrevi merecia ainda recordação – vivia um tempo feliz. excêntrico. acreditava
que um dia deixaria de ser carro tunado e passaria a avião de combate. um F16 –
depois. passei os cento e vinte. e comecei a olhar para trás à procura da
brigada. e a perguntar-me. será que algum crítico literário ou apenas leitor.
mandar-me-á parar? talvez um dia aconteça. é inevitável. é o risco de quem se
expõe – mas o que verdadeiramente me preocupa não é a chuva. é se um desses
entendidos me disser:
-- o cavalheiro fica sem carta. definitivamente. é
um perigo para a arte
e para todos os que gostam de ler – é confiscar-lhe o lápis.
obrigá-lo rapidamente a parar de escrever – continuei a acelerar. e a escrita
cada vez mais em pânico. sempre que passava por um radar sorria. ficar bem na
fotografia é o desejo secreto de todo escritor – sorrindo talvez apanhe apenas
uma contraordenação primária. uma advertência. ou trinta dias de suspensão –
quando escrevemos. tornamo-nos vaidosos. e acreditamos piamente que um dia
podemos ter uma pontinha de sorte. e quem sabe. tornarmo-nos no melhor escritor
da nossa rua – palerma. estou farto de saber que a sorte dá muito trabalho – no
entanto. a ingenuidade alimenta a criança que teima em viver no meu corpo
adulto – continuei a acelerar. quem não gosta de andar depressa com as
palavras? encosto aqui. para-choques a raspar por ali. arranhão acolá. mas
sempre a teimar. pensava para mim: enquanto não capotar o caminho é para a
frente – comecei de triciclo. virei de pernas para o ar centenas de vezes. e
nunca desisti – depois. passei para a bicicleta. e as marcas de lamber o
alcatrão cravaram-se no corpo. mais uma vez recusei resignar – agora. que tenho
quatro rodas. um travão ABS. cinto de segurança em diagonal. e airbags duplos
frontal. também não vou abandonar as palavras – passaram quase três décadas. as
palavras estão mais maduras. eu também. já não estou tão vaidoso. e na minha
simplicidade. quero acreditar que atingi a velocidade do som. claro que ainda
não sou F16. muito menos um foguete capaz de me levar ao espaço. mas labutei muito
por dentro. afinei-me para corridas trabalhosas. acredito que um dia chegarei a
um paris-dakar – não sei. mas que importa. chegarei onde tiver que chegar –
também aprendi a colocar o ouvido nas palavras. e agora ouço o seu trabalhar.
como quando o médico coloca o estetoscópio sobre o coração. e diz: -- respire
fundo – e máquina a trabalhar ao ralanti. num batimento certo. e as palavras a
trabalhar dentro dele. e eu com as mãos ansiosas por mais prazer. com as
palavras presas às pontas dos dedos. excitadas. os dedos também. e no cérebro.
hauser. a tatear um noturno em dó sustenido menor de frédéric chopin. e o papel
branco a desenvolver-se. a sonhar com uma história de amor correspondido. a
oferecer-se ao escritor. mesmo sabendo que pode ser abandonado
31/12/2023
ora aí está 2024!
chegou o
momento de me despedir de 2023 – fazendo o somatório deste ciclo de 365 dias. reconheço
que foi um bom ano. tive saúde. paz pessoal e profissional. e principalmente.
tive família e amigos por perto – que mais um homem pode desejar? quanto ao vil
metal… não recusaria um pouco de mais bondade. sei que sou um privilegiado
neste mundo de contrários: guerra e paz. fome e abastança. habitação e
desabrigados. saúde e doença. solidão ou família. mas creio que não pecarei ao
desejar mais uns trocos. seria como a última pincelada numa obra de arte.
assinatura de autor para alindar um pouco mais a minha ambição – em boa
verdade. não me posso enfadar com nada. este ano. já moribundo. foi uma boa
casta. tive sol na eira e chuva no nabal. e em nenhum momento se anularam um ao
outro – ficar-lhe-ei grato pelo que me deu. pelo que me ensinou. pelo que me
fez crescer e fortalecer – que o novo ano traga consigo o melhor de 2023. e o
que me sobrou em preocupações que fique esquecido para sempre – precisamos
honrar o que já vivemos e receber o ano novo com firmeza. alegria e esperança –
faço votos para que 2024 adote a minha família e amigos com muitos sorrisos.
paz. saúde e esperança – mas não podia celebrar esta viragem do ano sem lhe
implorar um cuidado especial para um amigo também especial: para o meu prezado
H. muita saúde. três vezes dita. muita esperança e resiliência. cá estaremos a
torcer por ti e por quem te acompanha todos os dias – bom ano 2024
24/12/2023
feliz natal para todos!
o natal
sempre me envolve em sentimentos doces. suaves e nostálgicos. há nele algo
adormecido em mim – contra este “cocktail” de sensações nada posso fazer. e
mesmo que pudesse. também não o faria. gosto desta overdose de bem-estar. deste
encanto hipnótico que o natal transporta em mim desde criança – é a minha
festa. a festa da minha família. e na noite da consoada partilhamos não apenas
o bacalhau. mas também amor. compaixão. e generosidade – celebramos a
existência de uma linhagem. o calor dos amigos. e todos aqueles que. por um
motivo. ou outro. cruzaram as nossas vidas – mais do que tudo. celebramos
principalmente o modo como gostamos uns dos outros. como lhes dizemos o quão
são importantes nesta nossa passagem terrena – é entre gorros vermelhos e bolas
coloridas que compreendemos. mais facilmente. que pertencemos uns aos outros.
independentemente dos laços sanguíneos que nos unem e nos trouxeram até aqui –
neste dia de união familiar. recuperamos um dos maiores milagres de jesus. a
ressurreição – reencontramos o meu pai. a minha mãe. a zeza. o meu sogro. o tio
joão. todos retomam os seus lugares à mesa. vieram consoar connosco. confortar
a saudade que nos deixaram – o natal sem eles não seria o natal das boas
tradições; eles são parte de nós. e nós somos parte deles também – e agora. que
soem as doze badaladas. e que o espírito generoso do pai natal toque os meus
netos. toque em todas as crianças deste nosso mundo maravilhoso – o verdadeiro
natal é aquele onde reside a inocência – feliz natal para todos!
22/12/2023
parabéns
um dia. como todos
aqueles que corajosamente se aprontam a nascer. vou desaparecer deste mundo.
espero que por velhice. por arrasto da bengala. pela incontinência urinária. ou
com o coração melado de tanto amar a minha companheira – neste dia especial. em
que nasceste com sentido para mim. quero-te a meu lado… hoje. e até que o último
suspiro me surpreenda – ver-te envelhecer é ver-te todos os dias mais bonita – e
assim. em atrição. e sem coragem para contestar a sentença que um dia tombará
no meu epitáfio. peço a deus. ao universo. ou à sorte. que me conceda uma
última vontade: quando chegar a minha hora. que o meu silêncio aconteça no
fundo dos seus olhos. e eu. finalmente. possa descansar na sua eternidade –
parabéns. maria joão
19/12/2023
abençoados
olho-te
em câmara lenta
e o amor à velocidade da tua luz
e aqui
quase no fim do mundo
entre o oito e o oitenta
entre o rio e a distância
entre o coração e a multidão
o belo
mas amor
permite-me este instante
teu… e meu
deixa-me proclamar
ao universo
que hoje é um bom dia
para morrer dentro de ti
que seja então agora
entre o teu sorriso e o meu destino
entre os teus olhos e os meus lábios
entre a tua luz e os meus anéis
que os teus braços me entrelacem
e me levem para o cimo das nuvens
ou de um arranha-céus
e quando o coração parar
que na saudade medrem asas
pairar sobre ti
é outra forma de te ter
foi em québec que tive o impulso de escrever este poema – o
castelo frontenac pendurado nas margens do rio saint laurent. a luz. as
sombras. a história. a amizade dos nossos amigos. nawel e michel. mas
principalmente. sentir os olhos da maria joão acesos de paz. como já há muito
tempo não sentia – foi uma viagem de sonho que guardamos e agradecemos para
sempre – em québec também fomos abençoados










