12/07/2013

confissão



marc chagall


chegou o momento de devolver o silêncio ao corpo – branquear a memória. reconciliar-se e envelhecer – nada em mim tombou apodrecido



11/07/2013

nuno higino - talvez deus se tenha enganado



nuno higino



Queria centrar-me todo em certas palavras, ocupar o espaço
sem necessidade de coordenadas, errar o tempo
tomando-o por tempos que nunca existiram. Desejaria a sorte
dos que morreram em naufrágios e foram poupados
à habitação dos cemitérios. Nunca tive jeito para ser feliz
[nem para gritar] e pior que isso: condenado à efémera
duração dos sonhos [bastava a poesia para condenar-me]
Talvez Deus se tenha enganado: sobre o barro soprou a vida
em vez do sonho.



nuno higino. talvez deus se tenha enganado. letras & coisas (2004)



05/07/2013

beijo


van gogh

e do nada um beijo – tinha pedido um cigarro aceso. chegou-me um beijo em chama – os beijos não fazem mal. os incandescentes também – sempre gostei de beijos que nos abraçam – estou com os olhos fora da latrina – estou sem braços. sem pernas. sem olhos. sem pulmão. sem ar. sem paladar. estou sem o meu corpo – mas estou pronto para beijos. ainda tenho face – nunca perco a face. deve ser de família. vamos perdendo tudo menos a face – estou agasalhado para mais uma noite. estou com um beijo aceso. que me abraça de bem 


04/07/2013

o que é lucidez?


sam jinks

tenho ainda tanta coisa para escrever – tudo que tenho corre para as mãos como os rios correm para o mar – tudo é confusão. e os olhos dentro da latrina gritam para não mais voltar a ver – tudo é desordem. caos – e as mãos não sabem dar ordens – desapegado do corpo – arranco um braço e os jornais anunciam o fim da greve geral – arranco uma perna e a gasolina sobe dez cêntimos a partir da meia-noite – arranco a outra perna e o vizinho atira-se da varanda por não ter um empregador – estou de rastos. arrastado ao nível dos vermes – arranco um pulmão. e os médicos anunciam uma vacina contra o cancro do pulmão – arranco a língua. e ninguém quer saber do que escrevo – arranco os miolos. e a casa amarela não aceita doentes sem ADSE – arranco o outro braço e fico para sempre em silêncio – não escrevo. não ando. não penso. respiro mal. e já nada corre para lado nenhum – ouço. ouço o tempo. ouço as pernas. ouço as mãos. ouço o cérebro. ouço o que me ficou dentro – há coisas que não conseguimos arrancar – ouço o meu silêncio como nunca fui capaz de ouvir – alguém caridoso por perto me traz um cigarro aceso? preciso de escrever

//

significado de lucidez:

mente limpa, coerente, quando a pessoa tem discernimento, atento, alerta, acordado, enfim sóbrio.

exemplo do uso da palavra lucidez:

o casal apesar de ter saído tarde da festa estava lúcido, no entanto colidiram com o carro por inabilitação do outro motorista.

//

o outro motorista sou eu 


edith piaf






não lamento nada. nada de nada - estou a caminho do caminho que me escolheu - nem sempre temos o poder da escolha - não lamento nada. nada de nada



03/07/2013

em que estás a pensar?


sam jinks

sempre que abro o facebook dou de caras com esta coisa medonha –em que estás a pensar? será que alguém consegue pensar neste país? não acredito – talvez haja por aí algum iluminado que ainda pense – no que diz respeito à minha pessoa. e para vos falar verdade. já nem penso. já só tenho tempo para me desviar dos obstáculos que surgem em catadupa – cada vez mais rápido. e eu cada vez mais lento – creio que estou no famoso jogo playstation-sonic – o problema é que neste jogo as argolinhas douradas não trazem vidas extra. e eu já estou na última [parte da] vida – confesso que estou com medo. ainda não encontrei nenhum botão start 




02/07/2013

silêncio divino


lucian freud

se eu quisesse falar com deus. tenho a certeza que o todo-poderoso me mandava à merda – frio. desiludido. e com cara de quem já não procura amigos. também digo: não quero falar contigo – prefiro lembrar-te como te vi no livro da catequese – nesse tempo. fazias milagres



30/06/2013

kali


vladimir kush


nunca compreendi pessoa – como é possível ser tanto num corpo só - estou a meio de  um fim-de-semana num corpo desfeito por processos que não reconheço – sou um eu agora e logo não sou – um corpo meio morto de desgosto. respiro – outro meio corpo vive para ver a outra parte morrer. respiro – a festa vai ser de arromba num funeral de cortar a respiração

17/06/2013

embuste


caravaggio - o beijo de judas


imensamente tranquilo – o tempo é realmente a única cura contra a dor da desilusão – é o que faço neste momento. aguardo – aguardo com a verdade de um coração que nunca se deixou manipular – aguardo com tudo o que sempre tive. resiliência inquebrantável – nós aguardamos – aguardamos todos neste lugar com janelas a que chamo lar – lá fora. do outro lado deste lugar que nos cobre com dignidade. corre a mentira – não se engana o mundo sábio. alguns tolos talvez – corre descalço o embuste. carrega fardo pesado de vida de fraude – pobre e coitada. só como sempre. inverte o mundo para ficar de pé – estamos aqui todos. unidos como se fôssemos um só tempo – como sempre. e para sempre. aguardamos imensamente tranquilos – nós


13/06/2013

sofrimento implacável



federico castellon


estou finalmente numa paz feita de algodão doce – a última vez que senti esta paz aconchegadora foi no dia em que enterrei o meu pai – a doença foi cruel e o sofrimento implacável. para todos – estar em paz é voltar a viver em harmonia com as leis naturais da vida – doce. como sempre deveria ter sido – lar. doce lar 

 

10/06/2013

todos


fernando botero


nada melhor do que um dia de chuva para compreender que. aqui por casa. continuamos todos


08/06/2013

ingratidão


 edvard munch


"Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato."

johann goethe



18/05/2013

a definição do amor






dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor

nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a

gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.

que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei

o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi

muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi

que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo

do amor. e voltei a escrever o que nada havia a

dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.

 

jorge reis-sá – a definição do amor

 

-//-


também eu escrevia

escrevo

pai:

fazes-me tanta falta

 

tenho saudades

desse teu jeito

de dar cor

ao preto e branco 




05/05/2013

1ª de maio – o povo já não ordena



1º de maio de 1974


foram-se os chapéus e a nação assobiou – foi-se o ardina e a nação assobiou – foi-se o alfaiate e a nação assobiou – foi-se o leiteiro e a nação assobiou – foi-se o aduaneiro e a nação assobiou – fecharam-se os guarda-chuvas e a nação assobiou mais forte – há um novo iluminismo na europa e as nações gritam de braço no ar: o povo é quem mais ordena. a luz quando nasce é para todos – e o povo em manifestação a dizer: assim se vê a força da ingenuidade – quem não gosta de sol? quem não quer andorinhas nos beirais? e o povo sempre a assobiar em postura de orquestra e o ritmo a sair como marcha militar – os pés batem certos. comem caminho. e as mãos andam para trás e para a frente. fazem desenhos geométricos com ângulos de 180 graus – tudo é reto. tudo está de pernas para o ar na exploração do homem pelo homem – não tardou partiram os merceeiros e os assobios a chegar escoltados pelo ruído dos carrinhos de metal – agora tudo gira sem parar noite e dia – e a europa a uma só voz: somos mais fortes juntos. e a livre circulação a trazer o supérfluo. e o povo a gritar: somos euro e vamos para onde quisermos com o cartão de cidadão – a soberania a ruir. e as vozes do além a dizer: também sodoma e gomorra foram destruídas [gênesis 19] – foi-se o escudo e o dinheiro circula à velocidade de um tgv pela mão de gente que não sabe cantar o fado – tudo é embrulho. e o que é nosso é deles e o que é deles nunca será nosso – é a lei do mais forte a escrever torto por linhas tortas. e a nação lusitana saqueada das leis tomadas pelo nosso primeiro afonso – foram-se as fronteiras. as doutrinas. a nação e a iniciativa de quem com coragem dobrou o cabo da boa esperança – e os mastros com a cruz de cristo regateiam ao vento força para lutar contra os adamastores. e todos remam para o mesmo lado. e o contra–mestre a gritar: terra à vista – somos lusos. somos gente do sul. somos gente de sol e as gaivotas pasmam por verem gente a falar a língua de camões – e os mastros com quinas a dizer: somos nós sim. somos gente destemida. gente de fé. de abraço. é sempre bem-vindo quem vier por bem – e a dinastia de aviz. e o d. nuno. e a padeira de aljubarrota. e o d. joão. e o d. henrique. e o vasco da gama . e o cabral. e o colombo. e o fontes pereira de melo.  e o pombal. e a amália. e tu. e eu. e nós a pensar se tudo isto valeu a pena – e os abutres a chegar com trabalho precário. e o camponês passa a capataz. trabalha o alcatrão – e a varina passa a técnica de limpeza. limpa a bosta das multinacionais – e o pastor passa a comercial. vende lã da china – e a profissão de futuro é um balcão com gente a vender crédito até ao fim da vida – e os montes a arder de abandono. e as marés sem o levar e trazer de barcos. e os campos vazios de tudo e tudo a andar para trás. e os doutores a dizer: é para a frente que se faz caminho – e tudo é afinal precipício – e o tempo a sorrir para muitos e os assobios a romper barulho para o lado de poucos – e festa é festa. e o povo dividido por grupos canta ao desafio: eu estou bem com o mal de alguém – e os dias amenos disfarçam a tempestade nascida a oriente – e tu ris. e ele ri. nós rimos e o choro de alguns abafado pela gargalhada coletiva de tantos e os ditados populares esquecidos. “quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho” – e o povo-nação sempre a assobiar. e as primaveras sempre a nascer mais cedo. e o degelo aumentou 120 vezes e os rios galgaram as margens da sensatez e tudo está louco e fácil – e as mãos esfregam-se de ganância e o frio sem estação do ano certa e o povo-carnaval a dançar sobre o mal dos outros. e o parlamento-pinóquio diz que é esta a casa do povo de quem mais ordena – o abril murchou e o zeca volta a cantar a grândola na boca dos esfomeados de pão. de emprego. de habitação. de dignidade. de honra. de gente que é a minha gente. carne da minha carne. o meu povo – e o mal agora é de muitos e o bem de poucos. e paga a saúde. e paga a escola. e paga a justiça. e paga a estrada. e paga o imposto. e paga o que não tem e povo a ferver. e o passo já não é certo e o ouvido a escutar o rufar dos canhões e grita: o povo já não está contigo – e a confiança é choro. e as andorinhas são abutres. e o povo triste grita: contra os canhões marchar. marchar – estamos fartos de tanta mentira. estamos fartos de engenheiros. de doutores. de deputados. de políticos. de banqueiros. estamos fartos de gente que fala por falar – o sol a torrar e a pele a tostar. e o fator 6 passou a 66 e depois a 666 e o número da burra estampado na testa de cada zé enganado – e o mal de poucos passou a cem e a razão já não é de ninguém – e tudo o vento levou com  polícias a correr de um lado para o outro sem saber onde está o ladrão – e o povo ergue as mãos no ar e grita: “só há liberdade a sério quando houver paz. pão. habitação. saúde. educação”. e as mãos cada vez mais no ar. mãos que abanam como abanadores – e a revolta é agora uma palavra de ordem: “assim se vê a força de um povo” enganado – e a nação mais antiga da europa pronta a explodir com novecentos anos de unidade e nós enganados. roubados. e os filhos enganados. roubados. e os netos vão pagar. e os bisnetos vão pagar. e os trinetos vão pagar – o culpado sou eu

 


30/04/2013

ai de abril que chegou o maio



sam jinks



ai. ai de terror. de pânico. de medo. ai de cerrar os olhos e fingir que não vejo o que vejo

ai. ai de bandido. de leproso. de excluído. de rejeitado. ai de saber hoje o que não sabia ontem

ai. ai de desânimo. de desistência. de desemprego. de fome. ai de não compreender o que me sai da boca para fora

ai. ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador  

ai. ai de silêncio. de descanso. de paragem. de pausa. de intervalo. ai de quem era e não volta a ser  

ai. ai de esgotado. de cansado. de louco. de raiva. ai de um sinal que é cruz  

ai. ai de adeus. de saudade. de suicídio. de covarde. de perdão. ai de quem parte para nunca mais voltar  

ai. ai cada palavra uma orelha. uma opinião. uma sentença. uma prisão. um abutre. e nunca sei onde chego

ai. ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador

ai. ai de solidão. de aperto. de miséria. de desgraça. ai da culpa que morre solteira quando há uma aparadeira

ai. ai de todos os ais.  de grito. de corda. de veneno. de guilhotina. e corta. e corta. e toda a seara morta

ai. ai. de balança. de justiça. de causa. de equidade. ai da espada que mutila a razão do pensamento

ai. ai. de religião. de terço. de salvação. ai de um deus surdo que não escuta a oração

ai. ai. ai… que é feito da minha fé? ai. ai… era do tamanho do dedo indicador

ai. ai de ânsia. de agonia. de pandemia. ai de aflição. ai de quem já não  acredita na multiplicação do pão

ai. ai de morte. de morte sem salvação… ai. um corpo sem fé é um corpo sem medo da morte

 

 tributo a mário viegas – cantigas dos ais de armindo mendes de carvalho



26/04/2013

o grito - declamado pela voz da minha vida







dizem por aí
que se diz muito em poucas palavras
às vezes acredito
penso que sou poeta
iludo-me
e quero acreditar
que sou fenomenal
único
e mesmo sem falar
basta-me um gesto
para ser um génio do amor
translúcido
penso eu.
então digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém acreditará que és especial.

 
mas depois
já nu
de tanto meditar
escolho um mundo:
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
aqueles que são poetas só às vezes
esfrego os olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é escassa
e as sombras são vida
o choro
esse…
que nunca se ouve
é onde os poetas de verdade se tornam homens
onde nascem as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas perdidas
os tempos passados
ou mesmo um grande esforço
para se ser aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a falta das palavras.

 
revejo os sons
do que poderiam ser palavras faladas
mas afinal são vaidades
de apenas terem tempo
para o ego


descubro então
que afinal
os poetas nada dizem
eles
dizem que dizem
porque escrevem
mas não transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…

 
mas eu
homem deste mundo
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
esgotado para todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na cara
nos olhos
nesta alma que chora
nesta vida que também é vossa
digam-me
apenas mais que uma palavra
mesmo que seja
gosto de ti


mas não
não…
desculpem
não chega
eu quero mais
quero que falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso mundo
quero-vos sentados
quero-vos ao meu lado
quero esse vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não interessa
só quero que não escrevam
quero que falem
não se calem
falem
sejam poetas de verdade

ainda há tanto para te dizer. muito mais do que duas palavras. muito mais do que gosto de ti - gosto de estar no teu mundo


25/04/2013

abril. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo



frida kahlo

estamos a fechar o ventre da esperança – ouvem-se gritos inocentes e o céu embrulhado numa bola de fogo cega – há morte de gente boa. há jardins a secar. há medo. há mulheres com medo. há homens com medo. há povo com medo. o meu povo está com medo dos vampiros – o mundo já não fica grávido. não há primaveras. não há flores a nascer. não há cravos vermelhos – renasce. zeca. renasce com a tua voz. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo