27/01/2021

negacionistas e exibicionistas



ilustração - bruno carbinat



percebi que o problema dos negacionistas e exibicionista é a falta de atenção. é gente carente. que em algum momento da sua frugal existência [ou todos] foram excluídos. rejeitados. pouco amados. com poucos valores de família. ou mesmo sem ela – é por isso que continuamos a testemunhar. dia. após dia. as maiores crueldades nas redes sociais – raio de redes sociais que dão palco a tudo o que é roto e desmiolado – mas. é para mim de fácil perceção. que o problema dessa malta porreira não é a covid19. o problema é a fome de likes que alimenta o seu ego maltratado – necessitam de visibilidade. de se fazerem existir incansavelmente todos os dias. sentem-se sós. perdidos na carapaça de modernos e destemidos – quase sempre incompreendidos na sua pujança económica. portadores de um DNA certificado. de linhagem pura. rara e cara: o / a self-made man / woman - tuga – são assim um género de sem-abrigo de luxo. excêntricos da internet. vagueiam pela rede desde a alvorada à procura de almas virtuais. e adormecem esgotados debaixo de um alpendre agarrados a um papelão – são os vampiros do mundo moderno que. ao contrário dos antigos vampiros. intolerantes à luz solar e à exposição mediática. encontravam as suas presas a coberto da noite – esta nova linhagem de vampiros vagueia pela internet noite e dia. de cara destapada e exclusivamente à procura de atenção e admiração – diria mais: se fossem gatos passavam o dia a miar. numa espécie de cio desesperado. ou dança sexual. exibindo colarinhos e rendas em selfies instantâneas. e com ejaculações apoteóticas de hormonas no ecrã do computador – estamos com quase trezentos mortos dia. as ambulâncias fazem fila nos hospitais. os médicos estão desesperados. o SNS colapsou. os apelos para ficar em casa são dramáticos. e essa malta continua a falar de si. a correr risco. a ir aqui e ali. a visitar o tio e a tia. como se fossem o centro do universo. como se tivessem um livre-trânsito para serem parvos à frente de quem sofre – deveríamos estar todos a fazer luto. a fazer um ato de contrição. a perceber onde cada um de nós errou para isto chegar onde chegou – foi essa geração de velhos que nos pariu. passou pandemias. guerras. fome. entregou-nos o mundo livre. entregou-nos paz. segurança. educação. leis. entregou-nos um lar para termos a vida que temos hoje – o mundo como o conhecíamos está nos cuidados intensivos – veremos mais tarde como serão as sequelas. veremos sim. infelizmente. o justo e o pecador a pagar da mesma forma – resta-nos a honra e o respeito pelos nossos profissionais de saúde


24/01/2021

a última viagem da zeza

 

arquivo de família


 1.   antes de:

dezasseis de setembro de 2019. segunda-feira. oito da manhã – liguei a dizer-lhe que estava à porta de sua casa – era a primeira vez que acompanhava a minha cunhada maria josé ao instituto de oncologia francisco gentil. a sua irmã. que esteve presente em todas os estágios da doença. desta vez. não pôde acompanhá-la – ajudei-a a entrar no carro. tudo com muito vagar e cuidados. ajudei-lhe as pernas para o seu interior. coloquei-lhe o cinto de segurança. e num esboço ténue de sorriso recebi um obrigado cansado e sofrido – esta não era a minha cunhada que conhecia desde os seus onze anos. uma criança – rapidamente percebi que a sua situação era crítica. a sua debilidade dava mostras claras de que a doença estava a avançar descontroladamente. e a ganhar a batalha da sobrevivência – toda a família sabia que a sua doença era terminal. toda menos a zeza – a zeza continuava a acreditar na ciência. na fé. e na sua incrível vontade de viver – no entanto todos aqueles que a conheciam. recusavam aceitar que ela não fosse capaz de vencer o cancro. acreditavam que com a ajuda dos novos fármacos. das novas tecnologias hospitalares. da quimio. e dos excelentes profissionais a que estava entregue. ou pelo menos. ganhasse mais uns anos. e se tudo falhasse. ainda queríamos acreditar que deus tivesse guardado para si um dos seus raros milagres – iniciamos a viagem. e entre ais e algumas poucas palavras. lá fomos fazendo o caminho ao encontro da salvação. o instituto de oncologia – eram apenas cinquenta quilómetros. mas o raio da viagem parecia que não tinha fim – as palavras não me saíam. e a cabeça em roda livre-magoada interrogava-se: o que dizer? para agravar todo este mal-estar o meu maior handicap. não sou nada bom a disfarçar emoções – precisava de pelo menos fingir-me forte. fiz o que me era possível – limitei-me a pedir-lhe que não desistisse. que iria conseguir terminar os tratamentos. que tinha que manter a fé e. principalmente. que se alimentasse. mesmo que lhe custasse imenso. precisava de energia e forças para aguentar a quimio – ao chegar ao hospital deixei-a na porta de entrada. fui estacionar o carro. e em passo acelerado tentei chegar o mais rapidamente ao seu cuidado – já não tinha forças para se deslocar sozinha. estava mesmo muito debilitada – encontrei rapidamente uma cadeira de rodas. e fomos a alta velocidade ter com a sua médica – ainda esperamos cerca de vinte minutos pela doutora. o que me parecia uma eternidade para quem estava a ser corroída pelas dores – finalmente a doutora apareceu. aquela casa está a abarrotar de zezas

- bom dia maria josé

- bom dia doutora

senta-se em frente à zeza. à distância de um braço. faz-lhe uma festa na face. a zeza esboça um sorriso. os olhos enchem-se de esperança. enquanto eu me mantinha de pé. logo a seu lado. à distância também de um abraço – a zeza começa a descrever os sintomas dos últimos dias. queixa-se de muitas dores. e de um desconforto generalizado que não a deixa sossegar

[uma interrupção-silêncio emerge naquela sala de luz branca. há um prenúncio iminente de tragédia]

por fim a zeza pergunta-lhe:

- o que pode fazer para me aliviar as dores

- as dores. maria josé. vamos tirá-las rapidamente… vamos dar-lhe medicação para a sossegar um pouco

- quero retomar. o mais rapidamente. o tratamento da quimio [tinha sido interrompido]

- maria josé… não vai fazer mais quimioterapia. não está a ter os resultados que esperávamos

- não vou fazer mais quimio doutora?

- não. maria josé. como lhe disse os tratamentos não estão a resultar. faz-lhe mais mal do que bem… não há sinais de melhoras

- e agora… o que faço então?

- nada maria josé. lamento. mas não há mais nada a fazer

nunca mais esquecerei aquela expressão facial da zeza. acredito que tenha pensado muitas vezes no seu fim. ela mesmo confessava que cada vez que regressava ao hospital se sentia pior. mas esta era a primeira vez que uma médica lhe dizia que a ciência não tinha solução para o seu mal – as lágrimas saltaram-lhe com a violência de um oceano enfurecido. o corpo revoltou-se em espasmos de inquietude. os olhos abriram-se num terror desesperado. projetando-os para a frente banhados de piedade. como se quisessem calar a médica. matar aquela verdade – não queria acreditar. talvez fosse um daqueles sonhos em que se acorda no preciso momento em que o gigante nos vai pisar – mas não. infelizmente aquela era a verdade que eu já sabia e tudo fiz para esquecer – e o pé do gigante esmagou-a – foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. perdi o meu pai e a minha mãe em situações difíceis. mas nenhum deles ouviu da boca de um médico a sua sentença de morte – foi tudo muito difícil. o pé do gigante também me esmagou – confesso. ainda continua a esmagar – por último. dobrou o corpo para a frente. e enfrentou a médica com o que lhe restava de forças

- senhora doutora. não pode fazer mais nada por mim? eu não quero morrer

- não. maria josé – nós médicos também perdemos pessoas de que gostamos muito. pais. filhos. amigos. e não podemos fazer nada – a sua doença é muito grave e infelizmente os tratamentos não surtiram efeito – momentaneamente. um silêncio de morte tomou conta daquela sala pintada de luz branca. foi como se lhe tivessem tirado todo o ar de dentro do consultório e ficássemos todos à deriva no espaço sideral – não sei quanto tempo durou esse silêncio. mas pareceu-me mais do que uma vida – foi o suficiente para que o futuro desaparecesse de uma só vez. com uma única frase: não há mais nada a fazer – uma estaca entrou-lhe no peito e disse-lhe com a maior crueldade do mundo: acabou. não vais mais viver com o amor da tua vida. não vais levar a tua filha ao altar. não serás avó. não verás mais os teus pais. a tua família. os teus amigos. e os teus cães – que brutalidade. a zeza não merecia. estava numa nova vida. estava a aprender a ser feliz

- senhora doutora!

- acalme-se maria josé

e a caixa de lenços de papel à mão. afinal era apenas mais uma zeza entre tantas – aquela caixa de lenços estava ali para todas as zezas que se despedem da vida por causa do cancro [só que desta vez era a nossa zeza]

- tem que compreender que os médicos fazem o que é possível. não temos superpoderes

aos cinquenta e um anos ninguém deveria ter uma doença incurável. tão nova. tão bonita. com tanta bondade. levou toda a sua vida à procura da felicidade. e quando a tinha encontrado. zás. cai a guilhotina – sempre soube dessa sua procura. dessa vontade de emancipação. de ser amada. desejada. de ser mais bela do que a branca de neve. de ser reconhecida pela generosidade. pela criatividade artística que herdara do seu pai. queria um poema de amor para sua vida. o seu mundo era um paraíso – eu conhecia-a como ninguém mais a conhecia – sabedor desde o primeiro momento da gravidade do seu mal. fui também apanhado de surpresa. ainda era demasiado cedo. tinham-lhe dado um ano. mais mês. menos mês. e ainda só tinham passado cinco meses – perdi-me de mim. fugi da mente e escondi-me na escuridão que me acompanha para todo o lado – não sabia o que fazer. o que dizer. não podia chorar. não me podia amarrar à minha zeza. nada. fiquei sem valer nada. era o homem mais insignificante do mundo. miseravelmente insignificante. um homem despido de tudo. como no momento em que cheguei ao mundo – não podia valer à minha cunhada. da mesma forma que não pude valer à minha mãe. e ao meu pai que sofreu os horrores do inferno – creio que fui o primeiro a perdê-la

- vamos tirar-lhe as dores e verá que se sentirá muito melhor – irei providenciar um quarto. instalá-la o melhor possível. e aliviar-lhe rapidamente esse sofrimento – a enfermeira virá tratar de si e. logo logo. vou ter consigo

já na sala de espera sentei-me ao seu lado e demos as mãos. olhou para mim com os olhos mergulhados em medo e chorámos os dois. Em silêncio absoluto – estávamos os dois a morrer de medo. só que o seu medo era demasiado grande para aquele corpo tão debilitado. valia-lhe a roupa e o brio. que mesmo minada pelo sofrimento. sempre fez questão de se arranjar com elegância. com orgulho de ser mulher – a zeza sempre gostou de ser mulher 

- não chores zé luís

como é que não se chora. que mais podia fazer eu do que chorar e segurar-lhe as mãos – a enfermeira chega com a notícia de que ainda não havia quarto disponível. mas instalá-la-ia numa cama de enfermagem. e começaria logo ali com o tratamento – com muito custo a enfermeira deita-a. cobre-a. aconchega-a à roupa da cama. e enquanto preparava a medicação. a minha zeza pega-me nas mãos e acaricia-mas num sorriso tranquilo. doce. num sorriso de quem tinha acabado de perder uma guerra e finalmente poderia descansar – e ali ficámos. parados no tempo. a olhar um para o outro. sem que a boca tivesse necessidade de dizer o que quer que fosse. afinal eramos amigos há muito tempo – a enfermeira está de volta com a medicação. e enquanto lhe procura uma veia pergunta-lhe:

- quem é este senhor

- é o meu cunhado. é o meu sol. é o meu maior amigo

e não ouvi mais nada porque me deitei no seu peito a chorar. perdido na sua bondade. enquanto me passava a mão pela cabeça – choramos os dois pela última vez – saí do seu pé para a enfermeira continuar os preparativos mais íntimos. a todo o momento era transferida para a sua última morada em vida – quando voltei pediu-me o telefone e ligou para o amor da sua vida – depois de desligar disse-me num tom de voz sereno: mais uns minutos e o eduardo já estará aqui comigo – ficamos mais uma vez os dois em silêncio. não há nada que se possa dizer nestas situações – não aguentei. despedi-me da zeza com dois beijos e a promessa de voltar com a irmã – só queria fugir daquele hospital. queria esconder-me. queria esconder o mundo e apagar aquela manhã para sempre – mal entrei no carro chorei e pedi ajuda a deus [nem sou muito crente]. tinha que desenganar a irmã – no dia seguinte voltei com a maria joão. mas a zeza estava tão sedada que já não abria os olhos. apenas mantinha alguns estímulos às vozes – voltei a sair e dei comigo a pensar o que já tinha ouvido um milhão de vezes: a vida é tão volátil – nunca me passou pela cabeça que no espaço de vinte e quatro horas a zeza ficasse em estado terminal. acreditava que estaria no hospital mais uma temporada em tratamentos paliativos. e quando estivesse um pouco melhor. viria mais uma vez para sua casa. um pequeno milagre da medicina. uma última oportunidade para se despedir do seu companheiro. da filha. dos familiares. dos amigos. e dos seus cães que tanto amava – a zeza amava os animais – mas não. tudo terminou no dia seguinte. como tudo termina para quem tem a ousadia de nascer

 

2.   depois de

precisava imenso de escrever este texto. desde o dia do seu falecimento que me mutilo. arrependo-me amargamente de um único momento nessa manhã perversa: saí cinco minutos antes de ter chegado o seu companheiro – sei que foram uns míseros cinco minutos. mas também sei que nunca a deveria ter deixado sozinha. nunca – agora não paro de imaginar o medo que sentiu durante aqueles cinco minutos. sem uma mão. sem um rosto. perdida numa casa de dor. onde o silêncio magoa mais do que a doença – perdoa-me zeza. não fui tão forte como tu. fugi. fugi como fogem os covardes. deixei-te sozinha no momento em que mais precisavas de alguém – em minha defesa a minha ingenuidade: não imaginava que partisses em pouco mais de vinte e quatro horas – tínhamos prometido um ao outro um gelado. uma conversa. sei lá. falarmos das coisas que sempre soubemos falar. eu era o teu confidente. sabia de ti o que mais ninguém sabia. e tu também sabias de mim coisas que mais ninguém sabia – tenho tantas saudades tuas. das tuas gargalhadas. do teu sorriso. da tua ingenuidade. da pureza da tua alma. de ti. assim como eras – tenho raiva de tudo o que te aconteceu. e nem acreditando que te encontres junto ao criador. numa outra vida plena de alegria e paz. não me apazigua esta revolta. esta injustiça. esta cicatriz que carrego – devias ter envelhecido. merecias ter envelhecido com alguém ao teu lado que te amasse e respeitasse

 

3.   epílogo

faz para abril dois anos que a zeza tomou conhecimento da sua doença. parece que foi ontem – o tempo da saudade é uma coisa estranha. tão depressa nos traz a zeza. como se evapora para o que não alcançamos – entendi que esta era a melhor altura para tornar este texto público. não por mim. eu já não posso mudar nada. mas por todos aqueles que acompanham os seus doentes aos hospitais – sei que aonde quer que a zeza se encontre. estará com toda a certeza. a sorrir. a gargalhar. e a andar de um lado para o outro em cima dos seus tacões. a resmungar com as mãos – quando se entra doente num hospital. com uma doença tão grave como a que a zeza levava em si. nunca podemos dar o dia seguinte por certo – aprendi naquela casa de cura e de morte. que a morfina depois de entrar nas veias tira as dores. mas também tira a vontade de viver. esvazia o coração dos afetos que nos ajuda a lutar pelo impossível. um género de uma antecâmara da morte. uma corrida para esgotar o coração. enquanto os familiares se preparam para a dor da despedida – a vida é mesmo isto. aprendizagem crua. e é com este novo saber que vos posso garantir que se tudo se voltasse a repetir. tudo seria diferente. teria aproveitado esses cinco minutos para a abraçar. para lhe dar as mãos. para partilhar o silêncio. para estar ali. tão simples como isso: estar ali. estar ao seu lado – pedia-lhe que fizesse daqueles cinco minutos a nossa eternidade – a tua recordação é agora a presença eterna em mim. viverás para sempre na nossa casa. na nossa família – ninguém te esquecerá – neste texto não procuro perdão. nem compaixão – apenas paz

 

P.S. – tenho um orgulho imenso nas suas irmãs: teresa e maria joão – o seu amor incondicional esteve presente em todas as fases da doença – a zeza teve as melhores irmãs do mundo. os seus pais estão orgulhosos. nós todos estamos orgulhosos. e os seus filhos cantarão o seu amor por muitas. e muitas gerações


09/01/2021

túnel para dentro de mim



pintura - salvado dali



se me permitissem viajar ao passado por um túnel do tempo. e regressasse. nem que fosse por um dia. à minha adolescência: à praça. à rua do abade. ao liceu sá de miranda. ao 25 de abril. à emmanuelle. anti-virgem. à renault 4L. às conversas lunares nas escadas da praça. às calças justas lois. aos óculos ray ban. à camisa aberta. à mente livre. às correrias tontas. aos bons companheiros. às amizades estúpidas. à fé inacabável. ao egocentrismo equivocado. ao pseudo-iluminismo bacoco. ao anjo da guarda que me guardava a alma de noite e dia. ao sol que pelas costas me empurrava rumo à imensidão do nada – acreditem. esse reencontro não seria fácil – dir-lhe-ia umas quantas coisas muito desagradáveis – tenho a firme convicção de que não sairíamos de bem desse reencontro – provavelmente dar-lhe-ia um bom par de estalos… e sim. punha-o de castigo contra a parede

  


04/01/2021

corro para fora de mim

 

pintura - remedios varo


às vezes interrogo-me porque corro se nunca sei para onde vou. porque corro se não há lugar que me espere. porque corro se ninguém me entende – e mesmo nos dias em que me canso de correr. corro em sentido contrário. como se fugisse de mim. só para poder ouvir. repetidamente. a voz da minha mãe – e cá estou eu neste mundo que não é meu. nem de ninguém que corre sem rumo e sem fortuna – quando estou bem. corro. quando estou assim-assim. corro. quando estou aborrecido. corro – corro sem saber parar – corro como se o único caminho para ser o que não sou fosse aquele que faço a correr – corro e chamo pelo meu nome. e pergunto-me: sou filho de quem. se cada passo me afasta do lugar onde me perdi – sou filho de quem. se corro e não chego a lado nenhum – esta corrida não nasce de uma bênção. nem de um vento – é  de um fado. por certo. uma espécie de castigo onde o corpo implora para chegar onde nunca chegará – só o afeto me salva destas corridas sem tino. sem destino. sem sentido – bem sei que tudo isto é confuso. um pouco louco. um pouco desconchavado. e tudo porque aprendi a correr em vez de caminhar – e mesmo quando paro. o coração continua a correr. como se o passado já não me reconhecesse. e o nome que chamei nunca tivesse sido o meu


31/12/2020

vai-te demo. viva a vacina - 2021



imagem - google



todos os anos gosto de fazer o balanço do ano que está prestes a terminar: gosto de falar de mim. do que sofri. do que sorri. daqueles que comigo partilham o nome de família. dos amigos. que com a idade passaram a ser menos. mas com mais conteúdo. e outras miudezas que reconheço de interesse duvidoso – entretanto. e com a intromissão da covid19. entendi que falar de mim seria uma vergonha. seria uma ignomínia. um ultraje. depois da tragédia que tem assolado o mundo: mortes. desemprego. falências. fome. e muita incerteza quanto ao futuro próximo – mas a história já nos mostrou que o homem. na sua infinita sabedoria. vai dar a volta por cima e. brevemente. esta doença será apenas uma má recordação – por toda esta imensidão de desgraça é que me nego a fechar o ano. 2020 foi tão mau que vou fazer de conta. que por magia divina. à zero hora do dia 31 de dezembro. voltaremos todos a iniciar novamente o 2020. e assim. como o ser humano aprende mais depressa com os seus erros. emendar tudo o que correu menos bem – é absolutamente urgente perder o medo e recuperar a nossa liberdade – estamos então no final de 2019 e acabou de ser noticiado na TV que o vírus covid19 foi detido e aprisionado ao tentar fugir da china – apressadamente. as autoridades chinesas. já vieram garantir que tudo não passou de um boato americano e que. nunca houve nenhum vírus à solta no seu território. principalmente em wuhan – no entanto. a nossa ministra de saúde. marta temido. já veio afiançar e acalmar todos os portugueses. dizendo que se. e apenas se. o vírus entrasse no nosso país. o que é quase impossível tendo em conta a excelência do controlo de fronteiras. o nosso serviço nacional de saúde estaria. como sempre esteve. preparado para continuar a dar a resposta que sempre nos habituou a dar ao longo dos seus quase cinquenta anos de serviço público – desaconselhou também qualquer tipo de histeria por parte da população na corrida aos bens essenciais: principalmente papel higiénico. latas de atum. bebidas alcoólicas. máscaras cirúrgicas e álcool gel – por último. fez questão de reafirmar que não é necessária uma nova lei de bases da saúde para proteger o interesse público do SNS. a que temos é mais do que suficiente – quanto à reivindicação por parte dos técnicos de saúde para atualização da sua tabela salarial. confirmou. que os vencimentos em vigor são aqueles que o país pode pagar. e não é com vencimentos mais elevados que teremos um melhor SNS. dando o exemplo dos deputados da república – também a ministra ana mendes godinho fez questão de garantir que os lares das misericórdias e as IPSS vão finalmente ser dotados de mais auxiliares de saúde. mais técnicos. enfermeiros e médicos. dando garantias de que os nossos idosos serão finalmente uma prioridade do governo da república nacional. garantindo que o passado não se repetirá. eles são a memória viva do nosso passado – por isto tudo. quero acreditar que os nossos idosos podem finalmente sossegar e viver os seus últimos dias em tranquilidade – neste recomeço do ano vamos todos ver os aviões no ar a pedido dos azeitonas [grupo musical]– a TAP vai continuar a contratar pessoal. tanto para terra como para o ar. e os seus administradores vão renunciar aos aumentos. bem sei que merecidos. afinal. esforçaram-se imenso. manter a empresa com balanços negativos há mais de uma década é obra – os pobres vão finalmente ter razões para sorrir. o salário mínimo terá um aumento de trinta euros. o que vai permitir que as famílias possam finalmente comprar o seu automóvel. ter uma casa na praia. fazer férias de verão e inverno. almoçar e jantar fora. e assim permitir a abertura de mais bares e restaurantes. mais hotéis. mais habitação para turismo e mais emprego – finalmente os filhos dos trabalhadores com menos rendimentos poderão escolher o seu estabelecimento de ensino. com as propinas pagas pelo orçamento de estado. e o comprometimento do ministro da tutela de que. brevemente. todo o aluno deslocado terá obrigatoriamente alojamento gratuito garantido pela universidade – é isto que eu gosto quando se repete um ano. podemos emendar tudo o que correu menos bem. é assim tal e qual como quando repetimos um ano escolar para melhorar a média – neste ano reformador todas as empresas como a EDP. GALP. telefones. banca. cadeias de distribuição. seguros. e outras que por não pagarem impostos desconhecemos. vão distribuir uma parte dos lucros pelos seus trabalhadores – vamos ter mais teatro. mais música. mais arte. mais livros e mais sol – esta boa gente. é tantas vezes menosprezada e ignorada por nos tratar da alma e nos fazer sonhar. não é justo – vamos ter professores mais motivados. a lecionar com turmas mais pequenas e com a garantia de que se forem deslocados. o ministério da educação garante que o subsídio de deslocação não se ficará pelo pagamento das portagens – espero que a justiça não volte a dar aos portugueses razões para duvidar dos seus representantes – quando a justiça falha uma nação fica à deriva. e não é fácil repor a credibilidade de um órgão de soberania com a importância dos tribunais – em que podemos acreditar? assim que quero viver o novo ano. com a esperança ingénua de um miúdo adolescente. e de que vai tudo correr bem – é isto que quero para todos os meus familiares e amigos. quero que sejam felizes. que se cansem de tanta felicidade. e que um dia precisem mesmo de tomar uma vacina para eliminar a possibilidade de uma sobredose de felicidade – só há uma coisa que não vou poder mudar. o desaparecimento do meu sogro. é coisa do senhor e esse é intransigente na sua ordem de chamada. nos tempos difíceis quer os melhores ao seu lado – e eu. como tento pecar o menos possível. o que nem sempre é fácil com tanta tentação. também vou ter mais uma festa de arromba. entra de forma oficiosa uma nova nora na família. e desejo muito que aprendam rapidamente a serem felizes na sua mais importante caminhada. agora a dois – bom ano. muita paz. muita liberdade. e estou certo que saúde não nos faltará enquanto os nossos heróis se mantiverem firmes nos seus postos de combate – estes guerreiros dos hospitais merecem para sempre o meu eterno agradecimento – feliz ano novo



29/12/2020

epitáfio – despedida ao meu sogro

 

foto - arquivo familiar 



descansa em pazlentamente o dia encolhe-se. mirra. enquanto o corpo. passo a passo. escapa silenciosamente por mãos indiferentes ao que carregam – os passos marcam o que resta de luz. enquanto as cordas estrugem aceitação e recolhem em si toda a esperança de um milagre – por fim um silêncio absoluto numa calmaria de angústia – o mundo engoliu todo o barulho – as lágrimas encolhem-se atrás da dor numa resignação que nunca nos foi ensinada. e os ais refugiam-se dentro de um luto profundamente negro. num até sempre que não morre – só o aroma das flores anuncia a ressurreição: o céu é o seu destino – o fecho da sepultura proclama em definitivo o fim da carne e o começo da saudade – gostava deste bom homem: bom pai. bom marido e meu sogroninguém merece ser privado da memória do que é seu. mas foi assim que partiu. sem reconhecer aqueles que nunca o irão esquecer – que raiva tenho deste mal. acredito que é coisa do demónio ou de outro planeta – também o meu pai partiu sozinho. esquecido de todos. até de mim que fiquei sem saber o que fazer ao que tinha ainda por lhe dizer – tenho raiva. e nem o tempo. nem essa curva que os fez desaparecer. me alivia esta raiva que sinto ao ver o mundo deserto. é como se o tempo inventasse um novo fim a cada instante do relógio – aqui estou. entretido nos rosários da vida. a fugir de um dezembro maldito: agora sei que existes para me mostrares que o escape da carne se faz até quando o milagre do natal se reboliça dentro de mim – porque não me ensinaram que amamos sempre mais hoje do que ontem – o tempo-saudade magoa. envelhece-nos com a tristeza – o meu sogro era um homem de família. bom e honrado – que mais se pode querer de um homem? nada. por mais coisas que queiram inventar para a grandeza humana. à sua despedida terrena só a honra o leva à glória. à eternidade na memória dos que por aqui ficam a lamentar não haver céu na terra – vou ter saudades dele. da sua forma tranquila de caminhar. da voz doce. amena. como se quisesse passar despercebido dos humanos barulhentos – vou ter saudades de dizer: bom dia sr. joão. trago-lhe a sua maria joão e os seus netos – paz à sua alma 


26/12/2020

tenho saudade



                                                               pintura - daniel gerhartz



tenho saudade – tenho saudade do tempo em que os problemas dos nossos filhos se resolviam com benuron. com agasalho. com abracinhos – tenho saudade de perguntar à mãe se lhes mediu a febre. se tinha a testa quente. ou a garganta inflamada – tenho saudade de me sentir invencível. o homem mais poderoso do universo. de dizer: isso são dois dias e logo verás que estás bom – tenho saudade da candura que fazia de mim o melhor pai do mundo – tenho saudade dos seus olhos. das mãos pequeninas e do chão coberto de brinquedos – tenho saudade da casa castelo. protegida de todos os males do mundo. porque éramos nós o mundo – tenho saudade do seu sorriso. do seu aroma de aleluia. dos abraços e beijos com sabor a primavera – tenho saudade da verdade absoluta por não haver mais nada do que ela num lar que existia por e para eles – tenho saudade de passar pelo quarto e ouvir o seu respirar. aconchegá-los no calo da lã. ter a certeza de que estavam a crescer com um amor que nunca imaginei que pudesse existir – tenho saudade de sair com eles pela mão e saber que nada nem ninguém os poderia magoar – tenho saudade de me entrarem pela alma com boas notas de mérito. e tenho saudade de lhes dizer: vai tudo correr bem. porque quem faz as coisas por bem. nenhum mal lhe chegará – tenho saudade de os ouvir barafustar. de os ouvir gritar. zangar. protestar. porque bastaria eu dizer acabou. e tudo parava – tenho saudade de todos sermos novos e ninguém envelhecer mais do que um dia de cada vez – tenho saudade que me façam queixa do amigo que lhes riscou o caderno. da professora bruxa. de estudar com eles noite e dia. de lacrimar com o seu sucesso. e desesperar com a minha falta de jeito. para os ajudar a tornarem-se os melhores que o mundo alguma vez viu – tenho saudade do vidro que partiram. de gritarmos golo do benfica e da playstation jogada às escondidas – tenho saudade do dragon ball z. dos joelhos arranhados e os sapatos esfolados – tenho saudade de me sentir em todo o lado. de me zangar com um bom se o excelente era o que esperava – tenho saudade de partir de férias com o carro cheio daquilo que era realmente meu. de ver olhos a brilhar e dar fúrias em ondas menores do que todos os sonhos que sonhei para eles – tenho saudade de saber tudo sobre as suas vidas para acalmar a minha – tenho saudade de saber que o medo me respeitava por saber que eu era pai – tenho saudades de os ouvir dizer: está tudo bem



25/09/2020

a tragédia bela de criar

 

                                                                pintura: robert t barrett



o mundo é uma galeria de arte. milhares de livros. sinfonias. esculturas. pinturas. cada um irrepetível. de várias épocas. várias tendências. várias escolas. uns mestres. outros bafejados pela sorte de uma única pincelada. de um traço preciso e fino. e a obra com o nome afixado numa rua sem fim – aos olhos do mundo. para além do espanto. nada mais existe na arte senão o produto final: o artista é apenas a ferramenta da criação do belo – na obscuridade vivem as mil razões para cada palavra parida. a cor trabalhada. o tipo de traço. a luz e as sombras. a meditação. a organização. a apuração e seleção final de todos os ingredientes – a imortalidade da obra nunca é fruto do acaso – finalmente as naturezas mortas tornam-se menos mortas do que o génio – o artista é do mundo. digna ou desprezível a sua obra. é mesclada com os ácidos do trato da digestão. degustada na penumbra do palato. ora com delicadeza. ora trinchado. é compreendida ao gosto de cada dente: boa. má. de génio. indiferente ou medíocre – nunca se será mais nada. nem cheiro ao suor. às lágrimas. à indisposição. ao punhal suspenso a rosnar à criação. entre o cair e não cair. à vontade cega de trocar toda a sua existência pela ressurreição de uma única palavra. de uma única cor. de uma única nota – depois da obra não se é nada. nada para além das folhas com a sua súplica em glosas quase indecifráveis: salvem-me. aceitem-me – liberdade ou morte – é no meio da edificação do talento que se aquietam os génios. estáticos e indiferentes aos íncubos das palavras maldizentes. sofrem ainda os horrores da revolução cultural chinesa: um dia queimam-me – esta gente precisa de saber que nos imortalizamos pela palavra. e não pelo esquecimento – o corpo descansa sempre a sul numa tranquilidade solene. vestido de pedra. imortalizado pelas mãos. recusa virar os olhos à mortalidade – a tela. a mármore. o papel. a madeira. será sempre um grito desesperado do que vive no íntimo dos fazedores de arte. um desejo de imortalidade sem desejo pelo corpo. uma esquizofrenia incurável. uma luta sempre perdida. um interior de um homem despido face ao egoísmo do belo absoluto. um coração na obra a bater para sempre – todos os homens fazem arte. nem todos os homens serão artistas – todo aquele que gosta de escrever sabe que um dia morrerá esquecido numa folha de papel sem arte

 


10/07/2020

garimpeiro



pintura - kleysson abreu



destreza na peneira
mestre do olhar

agita a cupidez
perlustra leiras

 na água
paira a vida

ora abutre
ora primavera



28/06/2020

dilúculo



pintura - tarsila do amaral



acontecia suavemente

o dilúculo.

o cedro encobria

um sol: límpido

 

a gota. ínfima

da noite que se lavou

lembrava

todos os mares

 

deitada sobre o caule

a flor

espreguiça.

colhe a primeira vida

 

à janela: o melro

encanta-se.

o sorriso demora

mas chega

 

[ame as coisas pequenas e cuide bem das suas analepses]





22/06/2020

sáfara


pintura thomas saliot



atrás dos olhos

pendem leitos

outrora:

aletófilos e mui verdes

 

dissimulam-se agora:

a sáfara

 

calmamente

cerra as pálpebras

para a existência

 

cai a última lágrima:

morta



15/06/2020

eu e o medo



imagem - google


nem uma palavra para enfrentar o medo. resmas de papel e nem um mísero vocábulo para me alentar. encorajar. para acreditar que sim: que tudo vai ficar bem – o corpo à roda por esse mundo fora. de imagem em imagem. de grito em grito. de família em agonia. e as camas dos hospitais em afligimentos. às vezes paradas. outras. ligadas a sirenes aflitas. a romper ruas num desespero desenfreado – e a cabeça a estardalhar-se de pânico. de tanto pânico que nem a porta da casa sustém este medo medonho que me encolhe pela TV – exilam-se os olhos medrosos pelo raso do corpo. tão raso como soalhos gastos de quem vai para lá e para cá. polido ao osso. num arrastar de pernas que não conta os dias. só medo. medo-covarde. tão grande que as paredes procriam urgentemente recordações. e o passado dependurado em candeeiros que acendem a distância dolorosa entre o certo e o errado. entre o que já devia ter sido dito. e o que a boca calou – tanta coisa errada em tantos anos de claridade – o homem bom é preguiçoso – nasci para isto? para morrer calado? sufocado por palavras que engoli – que fiz eu para que a espera se aparelhasse em medo? bem sei que a morte é uma curva certa na estrada* – tanta gente sem falar. sem gritar. sem gritar pelo nome de quem os abriga na história. presas ao branco. à máquina que respira só porque sim. sem coração por perto. e os estetoscópios mortos de cansaço. estupidamente silenciosos sentem a morte a perpassar pelas covas das mãos. trémulas. numa terra escura como breu. coberta de uma fatalidade estranhamente selvagem. insuportavelmente selvagem. e infinitamente traidora – tanto silêncio. tanto branco silêncio. tanto medo. tanta casa fria. silenciosa. como se cada parede caísse ao inferno e o céu se esculpisse à mão do diabo – que te fizemos deus? este grito ensurdecedor dentro da minha cabeça. as máquinas a respirar. a resistirem vida estoicamente. e o sangue a correr por tubos transparentes clareiam humanos que desaparecem num corrupio de extenuação que não chega sequer para dizer adeus – as camas não andam. não marcham. não voam – morrer é só não ser visto e acompanhado* – quero continuar a ser visto e acompanhado – preciso de uma nova oportunidade. juro que falarei sem tento – nem a merda de uma palavra contra esta coisa cobarde. uma injeção. um martelo. ou uma bomba presa a um dedo engatilhado – estou com medo. em pânico. não há dignidade nisto. os mortos escondidos do mundo. num mutismo asqueroso. triste. malparecido. sem beijo. sem adeus. sem que as lágrimas possam ecoar salvas de canhão – o mundo não pode desaparecer assim. renegado por todos. ajustado à sua terra sem um último abraço – há coisas que não merecem existir: verdugo. tirano da morte silenciosamente desacompanhada – o fim deveria ter dignidade: morreu de cancro de pulmão. mas fumou até ao último dia; morreu de cirrose. mas bebeu até cair na cova; morreu de sexo. mas fodeu até ao fim – só se morre de verdade uma vez – que raio faço eu em casa. podia ser médico e estava na cura. na guerra. estava a auscultar o medo em cada alma. a celebrar esperança. a forjar tempo para viagem escoltada de afetos – que raio faço eu em casa? se nem palavras encontro para me descansar do medo

 

[texto redigido enquanto o pânico tomava de assalto tudo o que tinha como certeza absoluta – março e abril – confesso aqui o meu medo]

 

* frase alterada de fernando pessoa 


27/05/2020

provérbios em tempos de pandemia



imagem google




resolvi adaptar alguns provérbios portugueses ao triste momento que estamos a viver

 

·         há covid19 a ir e há covid19 a voltar

·         enquanto o covid19 vai e vem. a pandemia folga as costas

·         amigos. amigos. covid19 à parte

·         um olho no desconfinamento. outro na covid19

·         deus tem mais para dar. do que a covid19 para levar

·         a covid19 morreu de velha

·         quem não quer ser covid19. não lhe vista a pele

·         em terra de covid19 quem tem olho é rei

·         um dia da covid19. outro do vacinado

·         não adianta chorar pela a covid19 derramada

·         covid19 passada não move moinho

·         o pior cego é aquele que não quer ver a covid19

·         apressado come covid19

·         covid19 criada. trabalhos dobrados

·         à noite. todas as covid19 são pardas

·         depois da covid19. aparecem os valentes

·         em briga de marido e covid19. ninguém meta a colher

·         de boa covid19 está o inferno cheio

·         em casa de covid19 a espeto é de pau

·         se a covid19 trouxesse sorte. burro não puxava carroça

·         covid19 que nasce torta. tarde ou nunca se endireita

·         não há má covid19. se a puserem no seu lugar


18/05/2020

olga tokarczuk



foto - google



no meu aniversário os meus filhos ofereceram-me um livro da olga tokarczuk. prémio nobel da literatura 2018 – alguma coisa vai mal no reino nobel quando se trata de quem escreve. estou nas primeiras cento e vinte páginas do livro “conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos” e não consigo perceber como é que o nosso antónio lobo antunes ainda não mereceu essa distinção – não digo que a senhora não escreve bem. seria o mínimo a esperar de quem recebeu o prémio literário mais prestigiado do mundo. mas de quem recebe esta distinção espera-se infinitamente mais – não posso negar que a trama narrativa teve um começo auspicioso e levar-me-á. com toda a certeza. até à última página – não quero ser injusto. não conheço a sua obra. nunca lhe segui uma única linha. mas meu deus. o nosso antónio não se limita a escrever. o nosso antónio cria. permite-nos extrair mundos de dentro dos seus livros:  tal como o mágico tira coelhos da cartola – o nosso antónio em cem páginas já me tinha arrepiado outras tantas vezes com descrições. denotativas ou conotativas. metáforas. humor. personagens. sei lá. o antónio é muito mais do que um escritor. é um mestre. um génio. e destes espera-se tudo. sem exceções – nos livros do sr. antónio. como gosta de ser tratado. cada leitor inventa e carrega consigo um livro que guarda para sempre – este livro da olga é apenas um livro. nada que fique – nasceu e morrerá no dia em que o fechar

 

e como não sou crítico literário. não me senti confortável com o meu juízo crítico sobre a escolha de olga tokarczuk para nobel da literatura. e fui à procura de quem corroborasse a minha opinião – nem precisei de procurar muito:

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/a-sua-escolha-prova-que-o-nobel-da-literatura-nao-e-para-levar-a-serio


15/05/2020

corre




corre. corre corpo. corre e resiste aos íncubos da noite. e mesmo que o amanhecer não chegue a prometer. corre sem olhar. corre sem parar. corre porque vais chegar

 

corre. corre corpo. corre com essa besta sombria. e se o medo ruminar o instante. corre como um avião. corre como um falcão. corre por afeição

 

corre. corre corpo. corre e reluta o outono que ouves perecer. e mesmo que encontres campos com amargor. corre sem gemer. corre sem estremecer. corre porque um dia o sol vai aparecer

 

corre. corre corpo. corre pelos que saram sem temer. e mesmo que a terra murmure repouso. corre com amor. corre com louvor. corre porque o nome o mundo vai compor

 

corre. corre corpo. corre como nos dias absolutos. e mesmo que o sol não abrase. corre sem fraquejar. corre sem desalentar. corre porque o frio vai acabar

 

corre. corre corpo. corre porque do abril se faz maio. e mesmo que o inverno te prometa repouso. corre de soslaio. corre como um raio. corre como um catraio

 

corre. corre corpo. corre e não serás saudade. e mesmo que as ninfas vozeiem folguedo. corre sem alucinar. corre sem desvariar. corre sempre sem vacilar

 

corre. corre corpo. corre. corre corpo


14/05/2020

a caminhada da resistência humana



foto - sampaio rego



não merecíamos este vírus tresloucado. desprovido de escrúpulos e irracional. tão estúpido que. com a sua maldade. acaba por extinguir a sua própria existência juntamente com a do hospedeiro – revela. portanto. na minha opinião. um distúrbio mental perigoso e autodestrutivo – para além destas anomalias perigosamente malfazentes. que o fazem descontrolar-se e nos magoar – dizem os estudiosos desta maleita. que os vírus ruins padecem todos de uma anomalia: conduta autolesiva e simultaneamente criminosa. leva à morte o seu hospedeiro – essa é a sua condição psicológica megalómana – este vírus ainda é mais cínico.  acredita-se. de acordo com as últimas pesquisas. que o seu aparecimento assenta numa fantasia delirante de que. um dia.  também lhe será possível viver e caminhar de forma vertical – dito por outras palavras. a covid19. enquanto dormia de dia e voava de noite. sugava um pouco de sangue aqui. outra acolá. tudo corria na perfeição. para ela e para nós – tínhamos mundos separados. ela nos morcegos. e nós no nosso modo pacato de viver – um dia. num acesso de fúria excêntrica. decidiu que era tempo de abandonar o anonimato: queria caminhar em quatro patas – cansado de viver em cavernas e. sobretudo. de dormir de cabeça para baixo – nada melhor do que um inofensivo pangolim para verticalizar a sua existência vampírica – e assim desceu dos céus ao solo – não satisfeito. farto de terra e de insetos. achou por bem dar mais um passo em frente. queria crescer para as estrelas sem tirar os pés da terra. atirou-se sobre um pobre comerciante chinês – estragou tudo. os humanos não têm a paciência dos morcegos e muito menos a dos pangolins. a partir do instante que interferiu com a nossa forma de vida percebemos rapidamente que teríamos de lhe dar um fim à sua existência – não sei o que vai acontecer noutros países. mas nós. os lusos. temos uma longa tradição de expulsar quem nos incomoda: d. afonso henriques expulsou os mouros à espada; a padeira de aljubarrota. de pá na mão. enfrentou e derrotou os castelhanos para o reino de castela; o marquês de pombal expulsou os jesuítas sem cerimónias; e em mil novecentos e setenta e quatro os militares de abril acabaram com os fascistas de cravo ao peito – saiba a senhora covid19 que. mais cedo ou mais tarde. acabará também por ter que dar à soleta. bater com os joelhos um no outro – dito isto. reafirmo. este vírus é um traste. fez-se de convidado e hospedou-se nos nossos alvéolos pulmonares. colocando a raça humana numa situação muito complicada e perigosa – ainda se a tratante. em vez de atacar idosos. atacasse os mais jovens. gente capaz de a enfrentar corpo a corpo. mas não. num ato de covardia. escolheu os mais vulneráveis – traz consigo uma outra faceta sombria: a insensibilidade. talvez por ser nova. afinal nasceu em 2019 e ainda não foi capaz de compreender todos os sacrifícios que a humanidade teve de superar para conseguir chegar ao século XXI – pois bem. talvez seja esta a melhor altura para lhe mostrar tudo o que fomos obrigados a ultrapassar. e avisá-la que será. também ela. relegada aos compêndios da memória. mais cedo ou mais tarde não passará de um resfriado – lembremos-lhe a nossa caminhada:

 

·           tivemos peste negra. gripe espanhola. tifo e varíola

·           temos cólera. tuberculose. febre amarela. sarampo. malária. diabetes. gripe A. sida. dengue. sars. gripe aviária. gripe suína. mers. ébola e cancro

·           temos nevascas. furacões. sismos. dilúvios. tsunamis. vulcões e incêndios

·           temos fome. desemprego. miséria. pobreza. mendigos. analfabetismo e desigualdades

·           temos ditaduras. ditadores. políticos desavergonhados. políticos incompetentes e políticos corruptos

·           temos partidos da direita. esquerda. do centro. da extrema esquerda. da extrema direita e outros que não servem para coisa alguma

·           temos pena de morte. tortura. assassinatos. prostituição. exploração infantil. escravatura

·           temos máfia. quadrilhas. gangues. criminosos. violadores. proxenetas e pedófilos

·           temos acidentes de viação. acidentes de trabalho e acidentes nucleares

·           temos guerras. órfãos de guerra. terrorismo. armas nucleares. perseguições étnicas. religiosas. racismo. xenofobia. antissemitismo e intolerância de género

·           temos alterações climáticas. buraco do ozono. emissões de carbono. degelo. subida do nível da água do mar. escassez de água potável. escassez de alimentos e desflorestação

·           temos inveja. ódio. rancor. cobiça. ciúme. ganância. rivalidade

·           temos religiões africanas. indígenas. judaísmo. espiritismo. juche. sikhismo. budismo. chinesa. hinduísmo. ateísmo. agnóstico. islamismo. cristianismo

.

tivemos. e ainda temos todos estes males e todos combatemos. alguns já eliminamos. outros. serão a seu tempo – e o que não for de eliminar. resolvemos com diálogo e consensos: o extremismo nunca será solução – voltaremos todos a viver sem a covid19. o homem é incrivelmente forte e resistente – é isso que fazemos há milénios: resistir