já percebi
que o problema dos negacionistas e exibicionista é a falta de atenção. é gente
carente. que em algum momento da sua frugal existência [ou todos] foram
excluídos. rejeitados. pouco amados. com poucos valores de família. ou mesmo
sem ela – é por isso que continuamos a testemunhar. dia. após dia. as maiores
crueldades nas redes sociais – raio de redes sociais que dão palco a tudo o que
é roto e desmiolado – mas. é para mim de fácil perceção. que o problema dessa
malta porreira não é a covid19. o problema é a fome de likes que alimenta o seu
ego maltratado – necessitam de visibilidade. de se fazerem existir
incansavelmente todos os dias. sentem-se sós. perdidos na carapaça de modernos
e destemidos – quase sempre incompreendidos na sua pujança económica.
portadores de um DNA certificado. de linhagem pura. rara e cara: o / a
self-made man / woman - tuga – são assim um género
de sem-abrigo de luxo. excêntricos da internet. vagueiam pela rede desde a
alvorada à procura de almas virtuais. e adormecem esgotados debaixo de um
alpendre agarrados a um papelão – são os vampiros do mundo moderno que. ao
contrário dos antigos vampiros. intolerantes à luz solar e à exposição
mediática. encontravam as suas presas a coberto da noite – esta nova linhagem
de vampiros vagueia pela internet noite e dia. de cara destapada e
exclusivamente à procura de atenção e admiração – diria mais: se fossem gatos
passavam o dia a miar. numa espécie de cio desesperado. ou dança sexual.
exibindo colarinhos e rendas em selfies instantâneas. e com ejaculações apoteóticas
de hormonas no ecrã do computador – estamos com quase trezentos mortos dia. as
ambulâncias fazem fila nos hospitais. os médicos estão desesperados. o SNS
colapsou. os apelos para ficar em casa são dramáticos. e essa malta continua a
falar de si. a correr risco. a ir aqui e ali. a visitar o tio e a tia. como se
fossem o centro do universo. como se tivessem um livre-trânsito para serem
parvos à frente de quem sofre – deveríamos estar todos a fazer luto. a fazer um
ato de contrição. a perceber onde cada um de nós errou para isto chegar onde
chegou – foi essa geração de velhos que nos pariu. passou pandemias. guerras.
fome. entregou-nos o mundo livre. entregou-nos paz. segurança. educação. leis.
entregou-nos um lar para termos a vida que temos hoje – o mundo como o conhecíamos
está nos cuidados intensivos – veremos mais tarde como serão as sequelas.
veremos sim. infelizmente. o justo e o pecador a pagar da mesma forma –
resta-nos a honra e o respeito pelos nossos profissionais de saúde
27/01/2021
negacionistas e exibicionistas
24/01/2021
a última viagem da zeza
dezasseis de
setembro de 2019. segunda-feira. oito da manhã – liguei a dizer-lhe que estava
à porta de sua casa – era a primeira vez que acompanhava a minha cunhada maria
josé ao instituto de oncologia francisco gentil. a sua irmã. que esteve
presente em todas os estágios da doença. desta vez. não pôde acompanhá-la –
ajudei-a a entrar no carro. tudo com muito vagar e cuidados. ajudei-lhe as
pernas para o seu interior. coloquei-lhe o cinto de segurança. e num esboço
ténue de sorriso recebi um obrigado cansado e sofrido – esta não era a minha
cunhada que conhecia desde os seus onze anos. uma criança – rapidamente percebi
que a sua situação era crítica. a sua debilidade dava mostras claras de que a
doença estava a avançar descontroladamente. e a ganhar a batalha da
sobrevivência – toda a família sabia que a sua doença era terminal. toda menos
a zeza – a zeza continuava a acreditar na ciência. na fé. e na sua incrível
vontade de viver – no entanto todos aqueles que a conheciam. recusavam aceitar
que ela não fosse capaz de vencer o cancro. acreditavam que com a ajuda dos
novos fármacos. das novas tecnologias hospitalares. da quimio. e dos excelentes
profissionais a que estava entregue. ou pelo menos. ganhasse mais uns anos. e
se tudo falhasse. ainda queríamos acreditar que deus tivesse guardado para si
um dos seus raros milagres – iniciamos a viagem. e entre ais e algumas poucas
palavras. lá fomos fazendo o caminho ao encontro da salvação. o instituto de
oncologia – eram apenas cinquenta quilómetros. mas o raio da viagem parecia que
não tinha fim – as palavras não me saíam. e a cabeça em roda livre-magoada
interrogava-se: o que dizer? para agravar todo este mal-estar o meu maior
handicap. não sou nada bom a disfarçar emoções – precisava de pelo menos
fingir-me forte. fiz o que me era possível – limitei-me a pedir-lhe que não
desistisse. que iria conseguir terminar os tratamentos. que tinha que manter a
fé e. principalmente. que se alimentasse. mesmo que lhe custasse imenso.
precisava de energia e forças para aguentar a quimio – ao chegar ao hospital
deixei-a na porta de entrada. fui estacionar o carro. e em passo acelerado
tentei chegar o mais rapidamente ao seu cuidado – já não tinha forças para se
deslocar sozinha. estava mesmo muito debilitada – encontrei rapidamente uma
cadeira de rodas. e fomos a alta velocidade ter com a sua médica – ainda
esperamos cerca de vinte minutos pela doutora. o que me parecia uma eternidade
para quem estava a ser corroída pelas dores – finalmente a doutora apareceu.
aquela casa está a abarrotar de zezas
- bom dia maria josé
- bom dia doutora
senta-se em frente à zeza. à
distância de um braço. faz-lhe uma festa na face. a zeza esboça um sorriso. os
olhos enchem-se de esperança. enquanto eu me mantinha de pé. logo a seu lado. à
distância também de um abraço – a zeza começa a descrever os sintomas dos
últimos dias. queixa-se de muitas dores. e de um desconforto generalizado que
não a deixa sossegar
[uma interrupção-silêncio
emerge naquela sala de luz branca. há um prenúncio iminente de tragédia]
por fim a zeza pergunta-lhe:
- o que pode fazer para me
aliviar as dores
- as dores. maria josé.
vamos tirá-las rapidamente… vamos dar-lhe medicação para a sossegar um pouco
- quero retomar. o mais
rapidamente. o tratamento da quimio [tinha sido interrompido]
- maria josé… não vai fazer
mais quimioterapia. não está a ter os resultados que esperávamos
- não vou fazer mais quimio
doutora?
- não. maria josé. como lhe
disse os tratamentos não estão a resultar. faz-lhe mais mal do que bem… não há
sinais de melhoras
- e agora… o que faço então?
- nada maria josé. lamento.
mas não há mais nada a fazer
nunca mais esquecerei aquela
expressão facial da zeza. acredito que tenha pensado muitas vezes no seu fim.
ela mesmo confessava que cada vez que regressava ao hospital se sentia pior.
mas esta era a primeira vez que uma médica lhe dizia que a ciência não tinha
solução para o seu mal – as lágrimas saltaram-lhe com a violência de um oceano
enfurecido. o corpo revoltou-se em espasmos de inquietude. os olhos abriram-se
num terror desesperado. projetando-os para a frente banhados de piedade. como
se quisessem calar a médica. matar aquela verdade – não queria acreditar.
talvez fosse um daqueles sonhos em que se acorda no preciso momento em que o
gigante nos vai pisar – mas não. infelizmente aquela era a verdade que eu já
sabia e tudo fiz para esquecer – e o pé do gigante esmagou-a – foi um dos
momentos mais difíceis da minha vida. perdi o meu pai e a minha mãe em
situações difíceis. mas nenhum deles ouviu da boca de um médico a sua sentença
de morte – foi tudo muito difícil. o pé do gigante também me esmagou –
confesso. ainda continua a esmagar – por último. dobrou o corpo para a frente.
e enfrentou a médica com o que lhe restava de forças
- senhora doutora. não pode
fazer mais nada por mim? eu não quero morrer
- não. maria josé – nós
médicos também perdemos pessoas de que gostamos muito. pais. filhos. amigos. e
não podemos fazer nada – a sua doença é muito grave e infelizmente os
tratamentos não surtiram efeito – momentaneamente. um silêncio de morte tomou
conta daquela sala pintada de luz branca. foi como se lhe tivessem tirado todo
o ar de dentro do consultório e ficássemos todos à deriva no espaço sideral –
não sei quanto tempo durou esse silêncio. mas pareceu-me mais do que uma vida –
foi o suficiente para que o futuro desaparecesse de uma só vez. com uma única
frase: não há mais nada a fazer – uma estaca entrou-lhe no peito e disse-lhe
com a maior crueldade do mundo: acabou. não vais mais viver com o amor da tua
vida. não vais levar a tua filha ao altar. não serás avó. não verás mais os
teus pais. a tua família. os teus amigos. e os teus cães – que brutalidade. a
zeza não merecia. estava numa nova vida. estava a aprender a ser feliz
- senhora doutora!
- acalme-se maria josé
e a caixa de lenços de papel
à mão. afinal era apenas mais uma zeza entre tantas – aquela caixa de lenços
estava ali para todas as zezas que se despedem da vida por causa do cancro [só
que desta vez era a nossa zeza]
- tem que compreender que os
médicos fazem o que é possível. não temos superpoderes
aos cinquenta e um anos
ninguém deveria ter uma doença incurável. tão nova. tão bonita. com tanta
bondade. levou toda a sua vida à procura da felicidade. e quando a tinha
encontrado. zás. cai a guilhotina – sempre soube dessa sua procura. dessa
vontade de emancipação. de ser amada. desejada. de ser mais bela do que a
branca de neve. de ser reconhecida pela generosidade. pela criatividade
artística que herdara do seu pai. queria um poema de amor para sua vida. o seu
mundo era um paraíso – eu conhecia-a como ninguém mais a conhecia – sabedor
desde o primeiro momento da gravidade do seu mal. fui também apanhado de
surpresa. ainda era demasiado cedo. tinham-lhe dado um ano. mais mês. menos
mês. e ainda só tinham passado cinco meses – perdi-me de mim. fugi da mente e
escondi-me na escuridão que me acompanha para todo o lado – não sabia o que
fazer. o que dizer. não podia chorar. não me podia amarrar à minha zeza. nada.
fiquei sem valer nada. era o homem mais insignificante do mundo. miseravelmente
insignificante. um homem despido de tudo. como no momento em que cheguei ao
mundo – não podia valer à minha cunhada. da mesma forma que não pude valer à
minha mãe. e ao meu pai que sofreu os horrores do inferno – creio que fui o
primeiro a perdê-la
- vamos tirar-lhe as dores e
verá que se sentirá muito melhor – irei providenciar um quarto. instalá-la o
melhor possível. e aliviar-lhe rapidamente esse sofrimento – a enfermeira virá
tratar de si e. logo logo. vou ter consigo
já na sala de espera
sentei-me ao seu lado e demos as mãos. olhou para mim com os olhos mergulhados
em medo e chorámos os dois. Em silêncio absoluto – estávamos os dois a morrer
de medo. só que o seu medo era demasiado grande para aquele corpo tão
debilitado. valia-lhe a roupa e o brio. que mesmo minada pelo sofrimento.
sempre fez questão de se arranjar com elegância. com orgulho de ser mulher – a
zeza sempre gostou de ser mulher
- não chores zé luís
como é que não se chora. que
mais podia fazer eu do que chorar e segurar-lhe as mãos – a enfermeira chega
com a notícia de que ainda não havia quarto disponível. mas instalá-la-ia numa
cama de enfermagem. e começaria logo ali com o tratamento – com muito custo a
enfermeira deita-a. cobre-a. aconchega-a à roupa da cama. e enquanto preparava
a medicação. a minha zeza pega-me nas mãos e acaricia-mas num sorriso tranquilo.
doce. num sorriso de quem tinha acabado de perder uma guerra e finalmente
poderia descansar – e ali ficámos. parados no tempo. a olhar um para o outro.
sem que a boca tivesse necessidade de dizer o que quer que fosse. afinal eramos
amigos há muito tempo – a enfermeira está de volta com a medicação. e enquanto
lhe procura uma veia pergunta-lhe:
- quem é este senhor
- é o meu cunhado. é o meu
sol. é o meu maior amigo
e não ouvi mais nada porque
me deitei no seu peito a chorar. perdido na sua bondade. enquanto me passava a
mão pela cabeça – choramos os dois pela última vez – saí do seu pé para a
enfermeira continuar os preparativos mais íntimos. a todo o momento era
transferida para a sua última morada em vida – quando voltei pediu-me o
telefone e ligou para o amor da sua vida – depois de desligar disse-me num tom
de voz sereno: mais uns minutos e o eduardo já estará aqui comigo – ficamos
mais uma vez os dois em silêncio. não há nada que se possa dizer nestas
situações – não aguentei. despedi-me da zeza com dois beijos e a promessa de
voltar com a irmã – só queria fugir daquele hospital. queria esconder-me.
queria esconder o mundo e apagar aquela manhã para sempre – mal entrei no carro
chorei e pedi ajuda a deus [nem sou muito crente]. tinha que desenganar a irmã
– no dia seguinte voltei com a maria joão. mas a zeza estava tão sedada que já
não abria os olhos. apenas mantinha alguns estímulos às vozes – voltei a sair e
dei comigo a pensar o que já tinha ouvido um milhão de vezes: a vida é tão
volátil – nunca me passou pela cabeça que no espaço de vinte e quatro horas a
zeza ficasse em estado terminal. acreditava que estaria no hospital mais uma
temporada em tratamentos paliativos. e quando estivesse um pouco melhor. viria
mais uma vez para sua casa. um pequeno milagre da medicina. uma última oportunidade
para se despedir do seu companheiro. da filha. dos familiares. dos amigos. e
dos seus cães que tanto amava – a zeza amava os animais – mas não. tudo
terminou no dia seguinte. como tudo termina para quem tem a ousadia de nascer
2. depois de
precisava
imenso de escrever este texto. desde o dia do seu falecimento que me mutilo.
arrependo-me amargamente de um único momento nessa manhã perversa: saí cinco
minutos antes de ter chegado o seu companheiro – sei que foram uns míseros
cinco minutos. mas também sei que nunca a deveria ter deixado sozinha. nunca –
agora não paro de imaginar o medo que sentiu durante aqueles cinco minutos. sem
uma mão. sem um rosto. perdida numa casa de dor. onde o silêncio magoa mais do
que a doença – perdoa-me zeza. não fui tão forte como tu. fugi. fugi como fogem
os covardes. deixei-te sozinha no momento em que mais precisavas de alguém – em
minha defesa a minha ingenuidade: não imaginava que partisses em pouco mais de
vinte e quatro horas – tínhamos prometido um ao outro um gelado. uma conversa.
sei lá. falarmos das coisas que sempre soubemos falar. eu era o teu confidente.
sabia de ti o que mais ninguém sabia. e tu também sabias de mim coisas que mais
ninguém sabia – tenho tantas saudades tuas. das tuas gargalhadas. do teu
sorriso. da tua ingenuidade. da pureza da tua alma. de ti. assim como eras –
tenho raiva de tudo o que te aconteceu. e nem acreditando que te
encontres junto ao criador. numa outra vida plena de alegria e paz. não me
apazigua esta revolta. esta injustiça. esta cicatriz que carrego – devias ter
envelhecido. merecias ter envelhecido com alguém ao teu lado que te amasse e
respeitasse
3. epílogo
faz para
abril dois anos que a zeza tomou conhecimento da sua doença. parece que foi
ontem – o tempo da saudade é uma coisa estranha. tão depressa nos traz a zeza.
como se evapora para o que não alcançamos – entendi que esta era a melhor
altura para tornar este texto público. não por mim. eu já não posso mudar nada.
mas por todos aqueles que acompanham os seus doentes aos hospitais – sei que
aonde quer que a zeza se encontre. estará com toda a certeza. a sorrir. a
gargalhar. e a andar de um lado para o outro em cima dos seus tacões. a
resmungar com as mãos – quando se entra doente num hospital. com uma doença tão
grave como a que a zeza levava em si. nunca podemos dar o dia seguinte por
certo – aprendi naquela casa de cura e de morte. que a morfina depois de entrar
nas veias tira as dores. mas também tira a vontade de viver. esvazia o coração
dos afetos que nos ajuda a lutar pelo impossível. um género de uma antecâmara
da morte. uma corrida para esgotar o coração. enquanto os familiares se
preparam para a dor da despedida – a vida é mesmo isto. aprendizagem crua. e é
com este novo saber que vos posso garantir que se tudo se voltasse a repetir.
tudo seria diferente. teria aproveitado esses cinco minutos para a abraçar.
para lhe dar as mãos. para partilhar o silêncio. para estar ali. tão simples
como isso: estar ali. estar ao seu lado – pedia-lhe que fizesse daqueles cinco
minutos a nossa eternidade – a tua recordação é agora a presença eterna em mim.
viverás para sempre na nossa casa. na nossa família – ninguém te esquecerá –
neste texto não procuro perdão. nem compaixão – apenas paz
P.S. – tenho um orgulho
imenso nas suas irmãs: teresa e maria joão – o seu amor incondicional esteve
presente em todas as fases da doença – a zeza teve as melhores irmãs do mundo.
os seus pais estão orgulhosos. nós todos estamos orgulhosos. e os seus filhos
cantarão o seu amor por muitas. e muitas gerações
09/01/2021
túnel para dentro de mim
se me permitissem viajar ao passado por um túnel do tempo. e
regressasse. nem que fosse por um dia. à minha adolescência: à praça. à rua do
abade. ao liceu sá de miranda. ao 25 de abril. à emmanuelle. anti-virgem. à
renault 4L. às conversas lunares nas escadas da praça. às calças justas lois.
aos óculos ray ban. à camisa aberta. à mente livre. às correrias tontas. aos
bons companheiros. às amizades estúpidas. à fé inacabável. ao egocentrismo
equivocado. ao pseudo-iluminismo bacoco. ao anjo da guarda que me guardava a
alma de noite e dia. ao sol que pelas costas me empurrava rumo à imensidão do
nada – acreditem. esse reencontro não seria fácil – dir-lhe-ia umas quantas
coisas muito desagradáveis – tenho a firme convicção de que não sairíamos de
bem desse reencontro – provavelmente dar-lhe-ia um bom par de estalos… e sim.
punha-o de castigo contra a parede
04/01/2021
corro para fora de mim
às vezes
interrogo-me porque corro se nunca sei para onde vou. porque corro se não há
lugar que me espere. porque corro se ninguém me entende – e mesmo nos dias em
que me canso de correr. corro em sentido contrário. como se fugisse de mim. só
para poder ouvir. repetidamente. a voz da minha mãe – e cá estou eu neste mundo
que não é meu. nem de ninguém que corre sem rumo e sem fortuna – quando estou
bem. corro. quando estou assim-assim. corro. quando estou aborrecido. corro –
corro sem saber parar – corro como se o único caminho para ser o que não sou
fosse aquele que faço a correr – corro e chamo pelo meu nome. e pergunto-me:
sou filho de quem. se cada passo me afasta do lugar onde me perdi – sou filho
de quem. se corro e não chego a lado nenhum – esta corrida não nasce de uma
bênção. nem de um vento – é de um fado.
por certo. uma espécie de castigo onde o corpo implora para chegar onde nunca
chegará – só o afeto me salva destas corridas sem tino. sem destino. sem
sentido – bem sei que tudo isto é confuso. um pouco louco. um pouco
desconchavado. e tudo porque aprendi a correr em vez de caminhar – e mesmo
quando paro. o coração continua a correr. como se o passado já não me
reconhecesse. e o nome que chamei nunca tivesse sido o meu
31/12/2020
vai-te demo. viva a vacina - 2021
todos os
anos gosto de fazer o balanço do ano que está prestes a terminar: gosto de
falar de mim. do que sofri. do que sorri. daqueles que comigo partilham o nome
de família. dos amigos. que com a idade passaram a ser menos. mas com mais
conteúdo. e outras miudezas que reconheço de interesse duvidoso – entretanto. e
com a intromissão da covid19. entendi que falar de mim seria uma vergonha.
seria uma ignomínia. um ultraje. depois da tragédia que tem assolado o mundo: mortes.
desemprego. falências. fome. e muita incerteza quanto ao futuro próximo – mas a
história já nos mostrou que o homem. na sua infinita sabedoria. vai dar a volta
por cima e. brevemente. esta doença será apenas uma má recordação – por toda
esta imensidão de desgraça é que me nego a fechar o ano. 2020 foi tão mau que
vou fazer de conta. que por magia divina. à zero hora do dia 31 de dezembro.
voltaremos todos a iniciar novamente o 2020. e assim. como o ser humano aprende
mais depressa com os seus erros. emendar tudo o que correu menos bem – é
absolutamente urgente perder o medo e recuperar a nossa liberdade – estamos
então no final de 2019 e acabou de ser noticiado na TV que o vírus covid19 foi
detido e aprisionado ao tentar fugir da china – apressadamente. as autoridades
chinesas. já vieram garantir que tudo não passou de um boato americano e que.
nunca houve nenhum vírus à solta no seu território. principalmente em wuhan –
no entanto. a nossa ministra de saúde. marta temido. já veio afiançar e acalmar
todos os portugueses. dizendo que se. e apenas se. o vírus entrasse no nosso
país. o que é quase impossível tendo em conta a excelência do controlo de
fronteiras. o nosso serviço nacional de saúde estaria. como sempre esteve.
preparado para continuar a dar a resposta que sempre nos habituou a dar ao
longo dos seus quase cinquenta anos de serviço público – desaconselhou também
qualquer tipo de histeria por parte da população na corrida aos bens essenciais:
principalmente papel higiénico. latas de atum. bebidas alcoólicas. máscaras
cirúrgicas e álcool gel – por último. fez questão de reafirmar que não é
necessária uma nova lei de bases da saúde para proteger o interesse público do
SNS. a que temos é mais do que suficiente – quanto à reivindicação por parte
dos técnicos de saúde para atualização da sua tabela salarial. confirmou. que
os vencimentos em vigor são aqueles que o país pode pagar. e não é com
vencimentos mais elevados que teremos um melhor SNS. dando o exemplo dos
deputados da república – também a ministra ana mendes godinho fez questão de
garantir que os lares das misericórdias e as IPSS vão finalmente ser dotados de
mais auxiliares de saúde. mais técnicos. enfermeiros e médicos. dando garantias
de que os nossos idosos serão finalmente uma prioridade do governo da república
nacional. garantindo que o passado não se repetirá. eles são a memória viva do
nosso passado – por isto tudo. quero acreditar que os nossos idosos podem
finalmente sossegar e viver os seus últimos dias em tranquilidade – neste
recomeço do ano vamos todos ver os aviões no ar a pedido dos azeitonas [grupo
musical]– a TAP vai continuar a contratar pessoal. tanto para terra como para o
ar. e os seus administradores vão renunciar aos aumentos. bem sei que merecidos.
afinal. esforçaram-se imenso. manter a empresa com balanços negativos há mais
de uma década é obra – os pobres vão finalmente ter razões para sorrir. o
salário mínimo terá um aumento de trinta euros. o que vai permitir que as
famílias possam finalmente comprar o seu automóvel. ter uma casa na praia.
fazer férias de verão e inverno. almoçar e jantar fora. e assim permitir a
abertura de mais bares e restaurantes. mais hotéis. mais habitação para turismo
e mais emprego – finalmente os filhos dos trabalhadores com menos rendimentos
poderão escolher o seu estabelecimento de ensino. com as propinas pagas pelo
orçamento de estado. e o comprometimento do ministro da tutela de que.
brevemente. todo o aluno deslocado terá obrigatoriamente alojamento gratuito
garantido pela universidade – é isto que eu gosto quando se repete um ano.
podemos emendar tudo o que correu menos bem. é assim tal e qual como quando
repetimos um ano escolar para melhorar a média – neste ano reformador todas as
empresas como a EDP. GALP. telefones. banca. cadeias de distribuição. seguros.
e outras que por não pagarem impostos desconhecemos. vão distribuir uma parte
dos lucros pelos seus trabalhadores – vamos ter mais teatro. mais música. mais
arte. mais livros e mais sol – esta boa gente. é tantas vezes menosprezada e
ignorada por nos tratar da alma e nos fazer sonhar. não é justo – vamos ter
professores mais motivados. a lecionar com turmas mais pequenas e com a
garantia de que se forem deslocados. o ministério da educação garante que o
subsídio de deslocação não se ficará pelo pagamento das portagens – espero que
a justiça não volte a dar aos portugueses razões para duvidar dos seus
representantes – quando a justiça falha uma nação fica à deriva. e não é fácil
repor a credibilidade de um órgão de soberania com a importância dos tribunais
– em que podemos acreditar? assim que quero viver o novo ano. com a esperança ingénua
de um miúdo adolescente. e de que vai tudo correr bem – é isto que quero para
todos os meus familiares e amigos. quero que sejam felizes. que se cansem de tanta
felicidade. e que um dia precisem mesmo de tomar uma vacina para eliminar a
possibilidade de uma sobredose de felicidade – só há uma coisa que não vou
poder mudar. o desaparecimento do meu sogro. é coisa do senhor e esse é
intransigente na sua ordem de chamada. nos tempos difíceis quer os melhores ao
seu lado – e eu. como tento pecar o menos possível. o que nem sempre é fácil
com tanta tentação. também vou ter mais uma festa de arromba. entra de forma
oficiosa uma nova nora na família. e desejo muito que aprendam rapidamente a
serem felizes na sua mais importante caminhada. agora a dois – bom ano. muita
paz. muita liberdade. e estou certo que saúde não nos faltará enquanto os
nossos heróis se mantiverem firmes nos seus postos de combate – estes
guerreiros dos hospitais merecem para sempre o meu eterno agradecimento – feliz
ano novo
29/12/2020
epitáfio – despedida ao meu sogro
descansa em paz – lentamente o dia encolhe-se. mirra. enquanto
o corpo. passo a passo. escapa silenciosamente por mãos indiferentes
ao que carregam – os passos marcam o que resta de luz. enquanto as
cordas estrugem aceitação e recolhem em si toda a esperança de um
milagre – por fim… um silêncio absoluto numa calmaria de angústia – o
mundo engoliu todo o barulho – as lágrimas encolhem-se atrás da dor numa
resignação que nunca nos foi ensinada. e os ais refugiam-se dentro de um
luto profundamente negro. num até sempre que não morre – só o aroma das
flores anuncia a ressurreição: o céu é o seu destino – o fecho da
sepultura proclama em definitivo o fim da carne e o começo da saudade – gostava
deste bom homem: bom pai. bom marido e meu sogro – ninguém
merece ser privado da memória do que é seu. mas foi assim
que partiu. sem reconhecer aqueles que nunca o irão esquecer – que raiva
tenho deste mal. acredito que é coisa do demónio ou de outro planeta – também
o meu pai partiu sozinho. esquecido de todos. até de mim que
fiquei sem saber o que fazer ao que tinha ainda por lhe dizer – tenho raiva.
e nem o tempo. nem essa curva que os fez desaparecer. me alivia esta
raiva que sinto ao ver o mundo deserto. é como se o tempo inventasse um
novo fim a cada instante do relógio – aqui estou. entretido nos rosários
da vida. a fugir de um dezembro maldito: agora sei que existes
para me mostrares que o escape da carne se faz até quando o milagre do natal se
reboliça dentro de mim – porque não me ensinaram que amamos sempre mais hoje do
que ontem – o tempo-saudade magoa. envelhece-nos com a tristeza – o meu
sogro era um homem de família. bom e honrado – que mais se pode querer
de um homem? nada. por mais coisas que queiram inventar para a grandeza humana.
à sua despedida terrena só a honra o leva à glória. à eternidade na
memória dos que por aqui ficam a lamentar não haver céu na terra – vou ter
saudades dele. da sua forma tranquila de caminhar. da voz doce.
amena. como se quisesse passar despercebido dos humanos barulhentos –
vou ter saudades de dizer: bom dia sr. joão. trago-lhe a
sua maria joão e os seus netos – paz à sua alma
26/12/2020
tenho saudade
tenho saudade
– tenho saudade do tempo em que os problemas dos nossos filhos se resolviam com
benuron. com agasalho. com abracinhos – tenho saudade de perguntar à mãe se lhes
mediu a febre. se tinha a testa quente. ou a garganta inflamada – tenho saudade
de me sentir invencível. o homem mais poderoso do universo. de dizer: isso são
dois dias e logo verás que estás bom – tenho saudade da candura que fazia de
mim o melhor pai do mundo – tenho saudade dos seus olhos. das mãos pequeninas e
do chão coberto de brinquedos – tenho saudade da casa castelo. protegida de
todos os males do mundo. porque éramos nós o mundo – tenho saudade do seu
sorriso. do seu aroma de aleluia. dos abraços e beijos com sabor a primavera –
tenho saudade da verdade absoluta por não haver mais nada do que ela num lar que
existia por e para eles – tenho saudade de passar pelo quarto e ouvir o seu
respirar. aconchegá-los no calo da lã. ter a certeza de que estavam a crescer
com um amor que nunca imaginei que pudesse existir – tenho saudade de sair com
eles pela mão e saber que nada nem ninguém os poderia magoar – tenho saudade de
me entrarem pela alma com boas notas de mérito. e tenho saudade de lhes dizer: vai
tudo correr bem. porque quem faz as coisas por bem. nenhum mal lhe chegará –
tenho saudade de os ouvir barafustar. de os ouvir gritar. zangar. protestar. porque
bastaria eu dizer acabou. e tudo parava – tenho saudade de todos sermos novos e
ninguém envelhecer mais do que um dia de cada vez – tenho saudade que me façam
queixa do amigo que lhes riscou o caderno. da professora bruxa. de estudar com
eles noite e dia. de lacrimar com o seu sucesso. e desesperar com a minha falta
de jeito. para os ajudar a tornarem-se os melhores que o mundo alguma vez viu –
tenho saudade do vidro que partiram. de gritarmos golo do benfica e da
playstation jogada às escondidas – tenho saudade do dragon ball z. dos joelhos arranhados
e os sapatos esfolados – tenho saudade de me sentir em todo o lado. de me
zangar com um bom se o excelente era o que esperava – tenho saudade de partir
de férias com o carro cheio daquilo que era realmente meu. de ver olhos a
brilhar e dar fúrias em ondas menores do que todos os sonhos que sonhei para
eles – tenho saudade de saber tudo sobre as suas vidas para acalmar a minha –
tenho saudade de saber que o medo me respeitava por saber que eu era pai –
tenho saudades de os ouvir dizer: está tudo bem
25/09/2020
a tragédia bela de criar
pintura: robert t barrett
o mundo é uma galeria de arte. milhares de livros.
sinfonias. esculturas. pinturas. cada um irrepetível. de várias épocas. várias
tendências. várias escolas. uns mestres. outros bafejados pela sorte de uma única
pincelada. de um traço preciso e fino. e a obra com o nome afixado numa rua sem
fim – aos olhos do mundo. para além do espanto. nada mais existe na arte senão
o produto final: o artista é apenas a ferramenta da criação do belo – na
obscuridade vivem as mil razões para cada palavra parida. a cor trabalhada. o tipo
de traço. a luz e as sombras. a meditação. a organização. a apuração e seleção
final de todos os ingredientes – a imortalidade da obra nunca é fruto do acaso –
finalmente as naturezas mortas tornam-se menos mortas do que o génio – o
artista é do mundo. digna ou desprezível a sua obra. é mesclada com os ácidos
do trato da digestão. degustada na penumbra do palato. ora com delicadeza. ora trinchado.
é compreendida ao gosto de cada dente: boa. má. de génio. indiferente ou medíocre
– nunca se será mais nada. nem cheiro ao suor. às lágrimas. à indisposição. ao
punhal suspenso a rosnar à criação. entre o cair e não cair. à vontade cega de
trocar toda a sua existência pela ressurreição de uma única palavra. de uma
única cor. de uma única nota – depois da obra não se é nada. nada para além das
folhas com a sua súplica em glosas quase indecifráveis: salvem-me. aceitem-me –
liberdade ou morte – é no meio da edificação do talento que se aquietam os
génios. estáticos e indiferentes aos íncubos das palavras maldizentes. sofrem ainda
os horrores da revolução cultural chinesa: um dia queimam-me – esta gente precisa
de saber que nos imortalizamos pela palavra. e não pelo esquecimento – o corpo descansa
sempre a sul numa tranquilidade solene. vestido de pedra. imortalizado pelas
mãos. recusa virar os olhos à mortalidade – a tela. a mármore. o papel. a
madeira. será sempre um grito desesperado do que vive no íntimo dos fazedores
de arte. um desejo de imortalidade sem desejo pelo corpo. uma esquizofrenia
incurável. uma luta sempre perdida. um interior de um homem despido face ao
egoísmo do belo absoluto. um coração na obra a bater para sempre – todos os
homens fazem arte. nem todos os homens serão artistas – todo aquele que gosta
de escrever sabe que um dia morrerá esquecido numa folha de papel sem arte
10/07/2020
garimpeiro
28/06/2020
dilúculo
acontecia
suavemente
o
dilúculo.
o
cedro encobria
um
sol: límpido
a
gota. ínfima
da
noite que se lavou
lembrava
todos
os mares
deitada
sobre o caule
a
flor
espreguiça.
colhe
a primeira vida
à
janela: o melro
encanta-se.
o
sorriso demora
mas
chega
[ame
as coisas pequenas e cuide bem das suas analepses]
22/06/2020
sáfara
atrás dos olhos
pendem leitos
outrora:
aletófilos e mui verdes
dissimulam-se agora:
a sáfara
calmamente
cerra as pálpebras
para a existência
cai a última lágrima:
morta
15/06/2020
eu e o medo
nem uma
palavra para enfrentar o medo. resmas de papel e nem um mísero vocábulo para me
alentar. encorajar. para acreditar que sim: que tudo vai ficar bem – o corpo à
roda por esse mundo fora. de imagem em imagem. de grito em grito. de família em
agonia. e as camas dos hospitais em afligimentos. às vezes paradas. outras.
ligadas a sirenes aflitas. a romper ruas num desespero desenfreado – e a cabeça
a estardalhar-se de pânico. de tanto pânico que nem a porta da casa sustém este
medo medonho que me encolhe pela TV – exilam-se os olhos medrosos pelo raso do
corpo. tão raso como soalhos gastos de quem vai para lá e para cá. polido ao
osso. num arrastar de pernas que não conta os dias. só medo. medo-covarde. tão
grande que as paredes procriam urgentemente recordações. e o passado
dependurado em candeeiros que acendem a distância dolorosa entre o certo e o
errado. entre o que já devia ter sido dito. e o que a boca calou – tanta coisa
errada em tantos anos de claridade – o homem bom é preguiçoso – nasci para
isto? para morrer calado? sufocado por palavras que engoli – que fiz eu para
que a espera se aparelhasse em medo? bem sei que a morte é uma curva certa
na estrada* – tanta gente sem falar. sem gritar. sem gritar pelo nome de
quem os abriga na história. presas ao branco. à máquina que respira só porque sim.
sem coração por perto. e os estetoscópios mortos de cansaço. estupidamente silenciosos
sentem a morte a perpassar pelas covas das mãos. trémulas. numa terra escura
como breu. coberta de uma fatalidade estranhamente selvagem. insuportavelmente
selvagem. e infinitamente traidora – tanto silêncio. tanto branco silêncio.
tanto medo. tanta casa fria. silenciosa. como se cada parede caísse ao inferno
e o céu se esculpisse à mão do diabo – que te fizemos deus? este grito
ensurdecedor dentro da minha cabeça. as máquinas a respirar. a resistirem vida
estoicamente. e o sangue a correr por tubos transparentes clareiam humanos que desaparecem
num corrupio de extenuação que não chega sequer para dizer adeus – as camas não
andam. não marcham. não voam – morrer é só não ser visto e acompanhado*
– quero continuar a ser visto e acompanhado – preciso de uma nova oportunidade.
juro que falarei sem tento – nem a merda de uma palavra contra esta coisa
cobarde. uma injeção. um martelo. ou uma bomba presa a um dedo engatilhado –
estou com medo. em pânico. não há dignidade nisto. os mortos escondidos do
mundo. num mutismo asqueroso. triste. malparecido. sem beijo. sem adeus. sem
que as lágrimas possam ecoar salvas de canhão – o mundo não pode desaparecer
assim. renegado por todos. ajustado à sua terra sem um último abraço – há
coisas que não merecem existir: verdugo. tirano da morte silenciosamente
desacompanhada – o fim deveria ter dignidade: morreu de cancro de pulmão. mas
fumou até ao último dia; morreu de cirrose. mas bebeu até cair na cova; morreu
de sexo. mas fodeu até ao fim – só se morre de verdade uma vez – que raio faço
eu em casa. podia ser médico e estava na cura. na guerra. estava a auscultar o
medo em cada alma. a celebrar esperança. a forjar tempo para viagem escoltada
de afetos – que raio faço eu em casa? se nem palavras encontro para me
descansar do medo
[texto redigido enquanto o
pânico tomava de assalto tudo o que tinha como certeza absoluta – março e abril
– confesso aqui o meu medo]
* frase alterada de fernando
pessoa
27/05/2020
provérbios em tempos de pandemia
resolvi adaptar alguns
provérbios portugueses ao triste momento que estamos a viver
·
há covid19 a ir e há covid19 a voltar
·
enquanto o covid19 vai e vem. a pandemia
folga as costas
·
amigos. amigos. covid19 à parte
·
um olho no desconfinamento. outro na
covid19
·
deus tem mais para dar. do que a
covid19 para levar
·
a covid19 morreu de velha
·
quem não quer ser covid19. não lhe vista a
pele
·
em terra de covid19 quem tem olho é rei
·
um dia da covid19. outro do vacinado
·
não adianta chorar pela a covid19 derramada
·
covid19 passada não move moinho
·
o pior cego é aquele que não quer ver a
covid19
·
apressado come covid19
·
covid19 criada. trabalhos dobrados
·
à noite. todas as covid19 são pardas
·
depois da covid19. aparecem os valentes
·
em briga de marido e covid19. ninguém
meta a colher
·
de boa covid19 está o inferno cheio
·
em casa de covid19 a espeto é de pau
·
se a covid19 trouxesse sorte. burro
não puxava carroça
·
covid19 que nasce torta. tarde ou
nunca se endireita
·
não há má covid19. se a puserem no seu
lugar
18/05/2020
olga tokarczuk
no meu
aniversário os meus filhos ofereceram-me um livro da olga tokarczuk. prémio
nobel da literatura 2018 – alguma coisa vai mal no reino nobel quando se trata
de quem escreve. estou nas primeiras cento e vinte páginas do livro
“conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos” e não consigo perceber como é
que o nosso antónio lobo antunes ainda não mereceu essa distinção – não digo
que a senhora não escreve bem. seria o mínimo a esperar de quem recebeu o
prémio literário mais prestigiado do mundo. mas de quem recebe esta
distinção espera-se infinitamente mais – não posso negar que a trama narrativa teve
um começo auspicioso e levar-me-á. com toda a certeza. até à
última página – não quero ser injusto. não conheço a sua obra. nunca lhe
segui uma única linha. mas meu deus. o nosso antónio não se
limita a escrever. o nosso antónio cria. permite-nos extrair mundos
de dentro dos seus livros: tal
como o mágico tira coelhos da cartola – o nosso antónio em cem páginas já
me tinha arrepiado outras tantas vezes com descrições. denotativas ou
conotativas. metáforas. humor. personagens. sei lá.
o antónio é muito mais do que um escritor. é um mestre. um génio.
e destes espera-se tudo. sem exceções – nos livros do sr. antónio.
como gosta de ser tratado. cada leitor inventa e carrega consigo um
livro que guarda para sempre – este livro da olga é apenas um livro. nada que
fique – nasceu e morrerá no dia em que o fechar
e como não sou crítico
literário. não me senti confortável com o meu juízo crítico sobre a
escolha de olga tokarczuk para nobel da literatura. e fui à procura de
quem corroborasse a minha opinião – nem precisei de procurar muito:
15/05/2020
corre
corre. corre corpo. corre e resiste aos íncubos da noite. e
mesmo que o amanhecer não chegue a prometer. corre sem olhar. corre sem parar.
corre porque vais chegar
corre. corre corpo. corre com essa
besta sombria. e se o medo ruminar o instante. corre como um avião. corre como
um falcão. corre por afeição
corre. corre corpo. corre e reluta
o outono que ouves perecer. e mesmo que encontres campos com amargor. corre sem
gemer. corre sem estremecer. corre porque um dia o sol vai aparecer
corre. corre corpo. corre pelos
que saram sem temer. e mesmo que a terra murmure repouso. corre com amor. corre
com louvor. corre porque o nome o mundo vai compor
corre. corre corpo. corre como nos
dias absolutos. e mesmo que o sol não abrase. corre sem fraquejar. corre sem
desalentar. corre porque o frio vai acabar
corre. corre corpo. corre porque
do abril se faz maio. e mesmo que o inverno te prometa repouso. corre de
soslaio. corre como um raio. corre como um catraio
corre. corre corpo. corre e não
serás saudade. e mesmo que as ninfas vozeiem folguedo. corre sem alucinar.
corre sem desvariar. corre sempre sem vacilar
corre. corre corpo. corre. corre corpo
14/05/2020
a caminhada da resistência humana
não merecíamos
este vírus tresloucado. desprovido de escrúpulos e irracional. tão estúpido que.
com a sua maldade. acaba por extinguir a sua própria existência juntamente com
a do hospedeiro – revela. portanto. na minha opinião. um distúrbio mental perigoso e autodestrutivo – para além
destas anomalias perigosamente malfazentes. que o fazem descontrolar-se e nos
magoar – dizem os estudiosos desta maleita. que os vírus ruins padecem todos de
uma anomalia: conduta autolesiva e simultaneamente criminosa. leva à morte o
seu hospedeiro – essa é a sua condição psicológica megalómana – este vírus
ainda é mais cínico. acredita-se. de
acordo com as últimas pesquisas. que o seu aparecimento assenta numa fantasia
delirante de que. um dia. também lhe será
possível viver e caminhar de forma vertical – dito por outras palavras.
a covid19. enquanto dormia de dia e voava de noite. sugava um pouco de sangue aqui.
outra acolá. tudo corria na perfeição. para ela e para nós – tínhamos mundos
separados. ela nos morcegos. e nós no nosso modo pacato de viver – um dia. num
acesso de fúria excêntrica.
decidiu que era tempo de abandonar o anonimato: queria caminhar em quatro patas
– cansado de viver em cavernas e. sobretudo. de dormir de cabeça para baixo –
nada melhor do que um inofensivo pangolim para verticalizar a sua existência
vampírica – e assim desceu dos céus ao solo – não satisfeito. farto de terra e
de insetos. achou por bem dar mais um passo em frente. queria crescer para as
estrelas sem tirar os pés da terra. atirou-se sobre um pobre comerciante chinês
– estragou tudo. os humanos não têm a paciência dos morcegos e muito menos a
dos pangolins. a partir do instante que interferiu com a nossa forma de vida
percebemos rapidamente que teríamos de lhe dar um fim à sua existência – não
sei o que vai acontecer noutros países. mas nós. os lusos. temos uma longa
tradição de expulsar quem nos incomoda: d. afonso henriques expulsou os mouros à
espada; a padeira de aljubarrota. de pá na mão. enfrentou e derrotou os
castelhanos para o reino de castela; o marquês de pombal expulsou os jesuítas
sem cerimónias; e em mil novecentos e setenta e quatro os militares de abril acabaram
com os fascistas de cravo ao peito – saiba a senhora covid19 que. mais cedo ou
mais tarde. acabará também por ter que dar à soleta. bater com os joelhos um no
outro – dito isto. reafirmo. este vírus é um traste. fez-se de convidado e
hospedou-se nos nossos alvéolos pulmonares. colocando a raça humana numa
situação muito complicada e perigosa – ainda se a tratante. em vez de atacar
idosos. atacasse os mais jovens. gente capaz de a enfrentar corpo a corpo. mas
não. num ato de covardia. escolheu os mais vulneráveis – traz consigo uma outra
faceta sombria: a insensibilidade. talvez por ser nova. afinal nasceu em 2019 e
ainda não foi capaz de compreender todos os sacrifícios que a humanidade teve
de superar para conseguir chegar ao século XXI – pois bem. talvez seja esta a
melhor altura para lhe mostrar tudo o que fomos obrigados a ultrapassar. e
avisá-la que será. também ela. relegada aos compêndios da memória. mais cedo ou
mais tarde não passará de um resfriado – lembremos-lhe a nossa caminhada:
·
tivemos peste negra. gripe espanhola. tifo e
varíola
·
temos cólera. tuberculose. febre amarela.
sarampo. malária. diabetes. gripe A. sida. dengue. sars. gripe aviária. gripe
suína. mers. ébola e cancro
·
temos nevascas. furacões. sismos. dilúvios.
tsunamis. vulcões e incêndios
·
temos fome. desemprego. miséria. pobreza.
mendigos. analfabetismo e desigualdades
·
temos ditaduras. ditadores. políticos
desavergonhados. políticos incompetentes e políticos corruptos
·
temos partidos da direita. esquerda. do
centro. da extrema esquerda. da extrema direita e outros que não servem para
coisa alguma
·
temos pena de morte. tortura. assassinatos.
prostituição. exploração infantil. escravatura
·
temos máfia. quadrilhas. gangues. criminosos.
violadores. proxenetas e pedófilos
·
temos acidentes de viação. acidentes de
trabalho e acidentes nucleares
·
temos guerras. órfãos de guerra. terrorismo.
armas nucleares. perseguições étnicas. religiosas. racismo. xenofobia.
antissemitismo e intolerância de género
·
temos alterações climáticas. buraco do ozono.
emissões de carbono. degelo. subida do nível da água do mar. escassez de água
potável. escassez de alimentos e desflorestação
·
temos inveja. ódio. rancor. cobiça. ciúme.
ganância. rivalidade
.
tivemos. e ainda temos todos
estes males e todos combatemos. alguns já eliminamos. outros. serão a seu tempo
– e o que não for de eliminar. resolvemos com diálogo e consensos: o extremismo
nunca será solução – voltaremos todos a viver sem a covid19. o homem é
incrivelmente forte e resistente – é isso que fazemos há milénios: resistir












