28/08/2026

a minha eternidade






 

às vezes penso que deveríamos ter mais que uma vida. quer dizer. mais anos para viver – talvez até atingir a imortalidade – mas depois penso melhor e percebo que a imortalidade seria a pior coisa que poderia acontecer ao ser humano – deixaríamos de sonhar. teríamos tempo para tudo. e quando há tempo para tudo. nada é urgente – seria um aborrecimento – claro que o aborrecimento seria menor para quem pudesse pagar a eternidade – eu já me imagino a viajar durante mil anos – viveria vinte anos na amazónia. até conhecer as árvores pelo nome – depois partia para machu picchu. e aprendia a viver como os incas – seguiria para as pirâmides de gizé. tornar-me-ia faraó de mim mesmo. e navegaria pelo nilo até o deus do sol me inundar de luz – na indía escrevia a cinzel o nome da minha amada no taj mahal – de lá dava um saltinho a petra e escrevia um poema de amor. afinal o que seria da eternidade sem amor – descia os rápidos do grande canyon a remar contra o tempo – dormia uma noite junto às cataratas de niágara. pediria novamente a mão à minha companheira e jurava-lhe vida eterna também para ela – caminharia pela muralha da china. e já completamente baralhado por tantos séculos. fazia-me samurai no exército de terracota – ninguém chegaria aos quinhentos anos com a geografia e a história intactas – navegaria todos os oceanos. e a cada gaivota daria o meu nome. que mais não é do que liberdade – tomaria banho em bora bora. e agarrado à barbatana de um tubarão visitaria a grande barreira de coral – teria tempo. todo o tempo do mundo. e talvez fosse esse o problema – por último faria o caminho de s. tiago – partiria de frança. caminharia devagar. rezava se entretanto tivesse aprendido. contemplava a natureza. falava com os animais. comia pão e bebia água – atravessaria os pirenéus e. quando chegasse à catedral de s. tiago de compostela. voltaria a casar com a mulher da minha eternidade – repetiria os votos de amor. talvez com palavras diferentes. mil anos dão tempo suficiente para melhorar uma declaração de amor – depois regressaria a casa – os meus filhos. as minhas noras. os meus netos. toda a família estaria à minha espera – e seria nesse momento que perceberia a estupidez de ter desejado viver para sempre – há apenas uma maneira de um homem se tornar imortal. continuar naqueles que vieram depois dele – eu já sou imortal

 


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