às vezes penso que deveríamos ter mais
que uma vida. quer dizer. mais anos para viver – talvez até atingir a
imortalidade – mas depois penso melhor e percebo que a imortalidade seria a
pior coisa que poderia acontecer ao ser humano – deixaríamos de sonhar.
teríamos tempo para tudo. e quando há tempo para tudo. nada é urgente – seria
um aborrecimento – claro que o aborrecimento seria menor para quem pudesse
pagar a eternidade – eu já me imagino a viajar durante mil anos – viveria vinte
anos na amazónia. até conhecer as árvores pelo nome – depois partia para machu picchu.
e aprendia a viver como os incas – seguiria para as pirâmides de gizé. tornar-me-ia
faraó de mim mesmo. e navegaria pelo nilo até o deus do sol me inundar de luz –
na indía escrevia a cinzel o nome da minha amada no taj mahal – de lá dava um saltinho a petra e escrevia um
poema de amor. afinal o que seria da eternidade sem amor – descia os rápidos do
grande canyon a remar contra o tempo – dormia uma noite junto às cataratas de
niágara. pediria novamente a mão à minha companheira e jurava-lhe vida eterna
também para ela – caminharia pela muralha da china. e já completamente baralhado
por tantos séculos. fazia-me samurai no exército de terracota – ninguém
chegaria aos quinhentos anos com a geografia e a história intactas – navegaria
todos os oceanos. e a cada gaivota daria o meu nome. que mais não é do que
liberdade – tomaria banho em bora bora. e agarrado à barbatana de um tubarão
visitaria a grande barreira de coral – teria tempo. todo o tempo do mundo. e
talvez fosse esse o problema – por último faria o caminho de s. tiago –
partiria de frança. caminharia devagar. rezava se entretanto tivesse aprendido.
contemplava a natureza. falava com os animais. comia pão e bebia água –
atravessaria os pirenéus e. quando chegasse à catedral de s. tiago de
compostela. voltaria a casar com a mulher da minha eternidade – repetiria os
votos de amor. talvez com palavras diferentes. mil anos dão tempo suficiente
para melhorar uma declaração de amor – depois regressaria a casa – os meus
filhos. as minhas noras. os meus netos. toda a família estaria à minha espera –
e seria nesse momento que perceberia a estupidez de ter desejado viver para
sempre – há apenas uma maneira de um homem se tornar imortal. continuar
naqueles que vieram depois dele – eu já sou imortal
28/08/2026
a minha eternidade
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