19/08/2026

um dia para existir

 





o que acontece depois da morte? não sei – o que sei é que a nossa morte é como a apresentação de um livro medíocre. no dia enche-se de gente a sala. mas mal acaba o livro vai para a prateleira e nunca mais ninguém o abre – não importa o que fazemos. o tempo apaga-nos. tira-nos o nome e tudo aquilo que fomos – a vida tem um tempo que não coincide com o nosso – por isso. depois dos sessenta anos optei por deixar de contar o tempo pelo calendário. cada dia é tudo o que tenho para existir – agora digo que gosto de mim sempre que me apetece. perdi o medo. abraço quando desejo. e sem saberem fico com o melhor de quem abraço. sinto o coração a bater. e as mãos a pedirem sempre mais um pouco desse tempo – já não tenho medida para as pessoas. as diferenças aproximam-me – percebo agora a ingratidão de ter julgado aquilo que era apenas diferente – já não deixo por fazer aquilo que me apetece apenas porque alguém pode não compreender. troquei a camisa branca engomada por uma t-shirt selvagem – tatuei nos braços o melhor que a vida me deu. a minha companheira. e uma gaivota – uma para nunca esquecer onde é a minha casa. a outra para nunca esquecer que preciso de vento. e na última os meus filhos. unidos ao que sempre quis deixar-lhes: família. verdade. trabalho. belo. honra. e uma mão para quem tem menos – sou o que o dia me oferece. em tempos podia até parecer pouco. mas agora não posso deixar que o segundo me leve sem um sorriso – quero que saibam que entre os meus braços já nada escondo – perguntei-me: o que te falta fazer? nada que possa fazer amanhã. porque amanhã ainda não é meu – passei muito tempo a preocupar-me com o que os outros poderiam pensar de mim. agora. sei que já não me inquieto. a maior parte das pessoas que me rodeiam ainda fala do amanhã como eu falava. acreditam ainda nas impossibilidades. amanhã é que vai ser. para o ano vou subir o evereste – já não tenho montanhas para subir. a única coisa que subo é para cima de mim. do que os olhos alcançam. e às vezes descubro lá dentro muito mais do que me lembro de ter vivido – teseu tinha dúvidas se o barco continuava a ser o mesmo depois de lhe trocarem todas as tábuas. eu já não – deste corpo com que comecei quase nada resta. nem os olhos veem o mesmo. nem as mãos procuram as mesmas coisas. nem a cabeça acredita no que acreditava – eu sou apenas a sombra do que fui capaz de guardar – estou em paz. sei que a morte é apenas o fim da minha memória – depois ficarei na memória dos outros. cada vez menos. até ser apenas um nome. uma fotografia. talvez um livro fechado numa prateleira – mas enganei-me no princípio. um livro fechado não é um livro morto. basta alguém voltar a abri-lo

 


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