o
que acontece depois da
morte? não sei – o que sei é que a nossa morte é como a apresentação de um
livro medíocre. no dia enche-se de gente a sala. mas mal acaba o livro vai para
a prateleira e nunca mais ninguém o abre – não importa o que fazemos. o tempo
apaga-nos. tira-nos o nome e tudo aquilo que fomos – a vida tem um tempo que
não coincide com o nosso – por isso. depois dos sessenta anos optei por deixar
de contar o tempo pelo calendário. cada dia é tudo o que tenho para existir – agora
digo que gosto de mim sempre que me apetece. perdi o medo. abraço quando desejo.
e sem saberem fico com o melhor de quem abraço. sinto o coração a bater. e as
mãos a pedirem sempre mais um pouco desse tempo – já não tenho medida para as
pessoas. as diferenças aproximam-me – percebo agora a ingratidão de ter julgado
aquilo que era apenas diferente – já não deixo por fazer aquilo que me apetece
apenas porque alguém pode não compreender. troquei a camisa branca engomada por
uma t-shirt selvagem – tatuei nos braços o melhor que a vida me deu. a minha
companheira. e uma gaivota – uma para nunca esquecer onde é a minha casa. a
outra para nunca esquecer que preciso de vento. e na última os meus filhos.
unidos ao que sempre quis deixar-lhes: família. verdade. trabalho. belo. honra.
e uma mão para quem tem menos – sou o que o dia me oferece. em tempos podia até
parecer pouco. mas agora não posso deixar que o segundo me leve sem um sorriso –
quero que saibam que entre os meus braços já nada escondo – perguntei-me: o que
te falta fazer? nada que possa fazer amanhã. porque amanhã ainda não é meu – passei
muito tempo a preocupar-me com o que os outros poderiam pensar de mim. agora.
sei que já não me inquieto. a maior parte das pessoas que me rodeiam ainda fala
do amanhã como eu falava. acreditam ainda nas impossibilidades. amanhã é que vai
ser. para o ano vou subir o evereste – já não tenho montanhas para subir. a
única coisa que subo é para cima de mim. do que os olhos alcançam. e às vezes
descubro lá dentro muito mais do que me lembro de ter vivido – teseu tinha
dúvidas se o barco continuava a ser o mesmo depois de lhe trocarem todas as
tábuas. eu já não – deste corpo com que comecei quase nada resta. nem os olhos
veem o mesmo. nem as mãos procuram as mesmas coisas. nem a cabeça acredita no
que acreditava – eu sou apenas a sombra do que fui capaz de guardar – estou em
paz. sei que a morte é apenas o fim da minha memória – depois ficarei na
memória dos outros. cada vez menos. até ser apenas um nome. uma fotografia.
talvez um livro fechado numa prateleira – mas enganei-me no princípio. um livro
fechado não é um livro morto. basta alguém voltar a abri-lo
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